Lost: O Primeiro Herdeiro

11 LIVRO 2 — CAPÍTULO 11: HENRY, O BALÃO E O ALGOZ



Minnesota, EUA — 14 de Julho de 2003

A noite de verão em Minnesota estava abafada, carregada com a promessa de tempestades. Henry Gale estacionou sua caminhonete em frente ao portão de carga da fábrica, o motor a diesel engasgando antes de silenciar.

Ele desceu, limpando as mãos na calça jeans. Diante dele, o letreiro iluminado zumbia: WIDMORE INDUSTRIES — DIVISÃO AEROESPACIAL.

Apesar dos cabelos grisalhos e das dores nas costas que a idade trazia, Henry sentia o coração bater com o ritmo de um garoto. Aquela carga não era apenas trabalho; era o passaporte para a imortalidade. Ou para a loucura, como sua esposa Jennifer costumava dizer.

O portão se abriu e um homem de prancheta saiu, parecendo cansado. Era Patrick, o supervisor do turno da noite.

— Você está atrasado, Henry — resmungou Patrick, sem olhar o relógio.

— Atrasado para o trabalho, talvez. Mas adiantado para a história, meu amigo. — Henry sorriu, aquele sorriso de quem guarda um segredo maravilhoso.

Patrick bufou, contornando a caminhonete para inspecionar a carga. — Como estão a Jennifer e as crianças?

— Estão bem. Preocupadas, mas bem. Você sabe como a Jenny é. Ela acha que balões são brinquedos de parque, não veículos de exploração.

— E ela não está errada, está? — Patrick bateu na lona que cobria a grande cesta de vime e o tecido dobrado do balão na caçamba. — Você vai mesmo fazer isso? Atravessar o Pacífico nisso aí?

Henry passou a mão pela lona com reverência. — Não é apenas "nisso aí", Patrick. É um balão de hélio e ar quente de alta altitude, fabricado com polímeros da Widmore. É o que há de mais moderno.

— É um suicídio chique, Henry. — Patrick assinou a nota de entrega e a estendeu. — Dizem que o Pacífico é um cemitério. Tempestades, correntes de ar imprevisíveis... Se você cair lá, ninguém vai te achar.

Henry pegou o papel. Seus olhos brilharam com uma determinação que beirava a obsessão. — Eu não vou cair. Eu vou ver coisas que ninguém nunca viu. Vou cruzar a linha do horizonte.

Patrick olhou para o amigo, vendo o brilho febril em seu olhar. Ele apertou a mão de Henry com força, um aperto de despedida. — Tá bom, Henry. Boa sorte. Espero que você encontre o que está procurando.

Henry entrou na caminhonete, ligou o motor e olhou uma última vez para a fábrica da Widmore. Ele não sabia, mas o material que carregava na caçamba o levaria diretamente para o coração do mistério que Charles Widmore passara a vida tentando reencontrar.

— Eu vou encontrar — sussurrou Henry para si mesmo, acelerando para a estrada escura.

A ilha – Presente

O zumbido do rotor do helicóptero diminuía lentamente, misturando-se aos sons da selva. Ben Linus permanecia parado na orla de uma clareira, já apagada, as mãos nos bolsos da calça cargo surrada, observando o grupo com a tranquilidade de quem recebe visitas para o chá.

Ele ignorou a arma de Roger apontada e caminhou diretamente até Aaron, seus olhos esbugalhados brilhando com um reconhecimento antigo.

— É bom ver você crescido, Aaron — disse Ben, sua voz calma cortando a tensão.

Aaron franziu a testa. A familiaridade daquele estranho era desconcertante. — Nos conhecemos?

— Digamos que eu tenha te visto quando você era bem menor. — Ben sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. — Mas isso é uma longa história. E teremos tempo para ela.

Clementine, ainda tonta pela turbulência e pelo clarão, olhou para o céu. O sol estava alto, castigando a clareira com um calor úmido. — Espera... — Ela girou o corpo, olhando para o horizonte. — Isso não faz sentido. Era madrugada quando saímos do navio. Estava chovendo e escuro. Como pode ser meio-dia?

Bianca Torres consultou seu relógio de pulso, depois olhou para o sol. — O tempo passou mais rápido... ou nós saltamos. É como se tivéssemos atravessado uma barreira de fuso horário instantânea.

Bryan, que ainda estava na cabine do helicóptero mexendo no rádio, tirou o headset com frustração. — Estamos surdos. Sem comunicação com o navio. A frequência é só estática.

Roger bufou. — Não é só pelo que aconteceu, Bryan. Alguém sabotou as comunicações.

A tensão no grupo aumentou. Eles estavam isolados, no tempo e no espaço.

Roger, que até então mantinha o fuzil em posição de guarda, semicerrou os olhos para Ben. A memória de Sydney voltou: o escritório envidraçado, a Kombi velha, o homem baixo ao lado de Hugo Reyes discutindo com Desmond.

— Então é você... — Roger baixou a arma, soltando um suspiro de irritação cínica. — O "sócio" do escritório. O amigo do gordo.

Ben virou-se para ele, inclinando a cabeça levemente. — Olá, Roger. Vejo que a viagem foi turbulenta.

— Desmond esqueceu de mencionar que o comitê de boas-vindas seria a gerência. — Roger caminhou até Ben, imponente. — Se você está aqui, imagino que isso faça parte do plano. Onde está o resto da equipe de solo?

— Sou apenas eu, receio — respondeu Ben.

Roger olhou ao redor, desconfiado. A coincidência era grande demais para o seu gosto militar. — Você está sozinho no meio do mato, exatamente onde nosso helicóptero caiu por acidente? Como sabia que chegaríamos aqui e agora? Você tem um radar nessa ilha?

Ben manteve a expressão indecifrável. Ele não podia revelar que a Ilha trazia as pessoas para onde elas precisavam estar. — Eu não sabia, Roger. Digamos que foi... um acaso feliz. Eu estava na vizinhança.

— "Acaso"... — Roger repetiu, não acreditando em uma palavra, mas aceitando que Ben era sua melhor chance de sobrevivência naquele momento.

— Não se preocupem com o navio agora. — Ben fez um gesto convidativo em direção a uma trilha na mata fechada. — Levarei vocês até um local seguro. Temos um acampamento preparado.

— Preparado? — Aaron perguntou, desconfiado.

— Sempre estivemos esperando por vocês, Aaron. — Ben virou as costas, começando a caminhar. — Venham. A selva não é lugar para ficar parado.

Roger trocou um olhar com Bryan e Aaron. — Vamos — ordenou Roger. — Ele é o contato. Melhor segui-lo do que ficar aqui assando no sol.

O grupo recolheu as mochilas e seguiu Benjamin Linus para dentro da escuridão verde, sem saber que estavam sendo guiados pelo homem que incorporava diversos mistérios.

Subúrbio de Minnesota — 2003

A casa dos Gale cheirava a assado de domingo e conforto, um contraste gritante com o frio industrial da fábrica da Widmore de onde Henry acabara de sair.

Henry entrou pela porta da cozinha, tentando esconder a tremedeira de excitação nas mãos. Ele trazia um buquê de flores — tulipas amarelas, as favoritas dela — como um escudo, ou talvez como um suborno.

— Chegou cedo — comentou Jennifer, secando as mãos no avental. Ela lhe lançou aquele olhar de esposa que sabe quando o marido está aprontando algo. — E trouxe flores. O que você fez, Henry?

As duas filhas do casal correram para abraçar as pernas do pai, rindo. Henry as beijou no topo da cabeça, mas seus olhos não saíram de Jennifer. Ele precisava vender aquele sonho para ela, ou ele morreria antes mesmo de decolar.

— Hoje foi um bom dia, Jenny. — Ele colocou as flores no balcão e tirou do bolso a carteira de couro marrom.

Ele abriu a carteira e tirou um recibo dobrado, alisando-o sobre a mesa. O logotipo da Widmore Industries estava estampado no topo.

— Eu fiz, amor. Eu fechei o negócio.

Jennifer olhou para o papel, e o sorriso dela desapareceu. — Henry... não me diga que você comprou aquela coisa.

— Não é uma "coisa". É um balão de alta altitude com cesto de polímero reforçado. É o topo de linha da Widmore. — Henry falava rápido, a paixão atropelando a prudência. — O supervisor da fábrica disse que é o modelo mais seguro já construído. Ele vai me levar através do Pacífico, Jenny. Eu vou entrar para a história.

— Você vai entrar para o obituário! — Jennifer largou o pano de prato, a voz subindo uma oitava. As crianças pararam de brincar, sentindo a tensão. — O Pacífico é um monstro, Henry. Tempestades, ventos cruzados... e se você cair? Ninguém vai te achar lá fora!

— Eu não vou cair! — Henry segurou os ombros dela, forçando-a a olhá-lo. — Eu sou um bom piloto. Eu estudei as correntes. Essa é a nossa chance. Não quero ser apenas o cara que entrega as peças para os ricos da Widmore. Quero ser o homem que eles leem nos livros. Quero dar a você e às meninas uma vida onde o nome "Gale" signifique coragem.

Jennifer olhou para o marido. Viu o brilho nos olhos dele, aquele mesmo brilho teimoso que a fizera se apaixonar anos atrás. Ela sabia que não podia parar aquele trem. Ele já tinha partido em sua mente.

Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Eu só não quero perder você, seu idiota teimoso.

— Você não vai me perder. — Henry puxou uma foto 3x4 de Jennifer e das meninas de dentro da carteira e a mostrou para ela antes de guardá-la de volta, junto ao documento. — Vocês vêm comigo. Bem aqui no meu bolso. Eu prometo que volto.

O silêncio pairou na cozinha, pesado com o medo e o amor. Jennifer suspirou, derrotada, mas com um sorriso triste nos lábios.

— Está bem, Henry. — Ela secou uma lágrima. — Você quer ir? Vá. Mas vamos fazer um trato.

— Qualquer coisa.

— Se você não conseguir... se você cair naquele oceano e me deixar viúva... eu juro que te mato. — Ela tentou rir, mas saiu como um soluço. — Mas se você voltar com o resgate... você me deve uma cerveja. A mais cara que tiver.

Henry riu, o alívio inundando seu peito. Ele a abraçou forte, sentindo o calor de sua família, sem saber que aquela seria a última aposta que faria na vida.

— Fechado, Sra. Gale. Uma cerveja. E a história da minha vida.

A Ilha – Presente

A caminhada pela selva era abafada e silenciosa. O sol a pino filtrava-se pelas copas das árvores gigantes, criando padrões de luz que dançavam no chão de terra batida.

Aaron limpou o suor da testa, irritado. Ele olhava ao redor, esperando ver monstros, animais peçonhentos gigantes ou qualquer coisa que justificasse o terror nos olhos de sua mãe e de James Ford. Mas tudo o que via eram samambaias, insetos e árvores.

— É sério? — murmurou Aaron para si mesmo, chutando uma raiz. — É isso aqui?

Clementine, que caminhava logo atrás, ouviu.

— O que você esperava, Aaron? Um parque temático do mal?

— Eu esperava... algo. — Aaron gesticulou para a floresta comum. — Minha mãe fala desse lugar como se fosse o inferno na Terra. James age como se o chão fosse feito de lava. Mas isso... isso parece apenas uma ilha qualquer no Pacífico onde mosquitos vêm para morrer.

— Não se deixe enganar pela paisagem, garoto — sussurrou Bryan, que vinha na retaguarda, os olhos varrendo o perímetro como um radar. — Os lugares mais bonitos são os que escondem as covas mais fundas.

À frente do grupo, Ben Linus guiava o caminho com uma familiaridade perturbadora. Ele diminuiu o passo propositalmente até ficar lado a lado com Roger Miles.

Roger mantinha o dedo fora do gatilho, mas a arma estava pronta. Ele não gostava de Ben. Havia algo na postura daquele homem pequeno e franzino que gritava perigo.

— Você tem um passo firme para um homem da sua idade, Roger — comentou Ben, casualmente, sem olhar para ele.

— E você comenta demais para um guia turístico — retrucou Roger, secamente.

Ben sorriu, olhando para as copas das árvores.

— Roger... É um nome forte. Clássico.

— É só um nome.

— Era o nome do meu pai. — Ben disse aquilo com uma leveza que fez Roger parar por um segundo.

— Que coincidência tocante. — Roger revirou os olhos, continuando a andar. — Espero que ele tenha sido um homem melhor do que você parece ser.

Ben parou. O grupo parou atrás dele, sentindo a mudança na atmosfera. Ben virou-se lentamente para Roger, e o sorriso em seu rosto desapareceu, deixando apenas um vazio gélido em seus olhos.

— Ele não era. — Ben disse, a voz baixa e suave. — Ele era um bêbado. Um homem mesquinho que me culpava pela morte da minha mãe. Ele achava que esta ilha era a prisão dele.

Roger sustentou o olhar, recusando-se a ser intimidado.

— E daí? Todo mundo tem problemas com o papai, Ben. Qual é o seu ponto?

— O ponto, Roger... — Ben deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal do mercenário. — ...é que no dia do meu aniversário, eu o levei para um passeio na minha kombi. Abri uma cerveja com ele. E depois o matei com gás venenoso. Deixei o corpo dele apodrecer no banco do motorista.

O silêncio na trilha foi absoluto. Até os pássaros pareceram calar. Roger engoliu em seco, a mão apertando o cabo do fuzil. Aquilo não era uma confissão; era um aviso.

— Por que diabos você está me contando isso? — Roger perguntou, a voz tensa.

— Porque quero que entenda onde está pisando. — Ben voltou a sorrir, o rosto iluminando-se como se não tivesse acabado de confessar um parricídio. — Aqui, Roger, não existem lealdades antigas. Não existem laços de sangue. Existem apenas sobreviventes. E eu sobrevivi ao meu próprio pai.

Ben virou as costas e voltou a caminhar, cantarolando baixinho.

Roger ficou parado por um momento, processando a frieza daquele homem. Ele olhou para trás, para Aaron e os outros.

— Fiquem espertos — sussurrou Roger. — Esse cara é um psicopata.

O grupo retomou a marcha, mas o clima havia mudado. A selva não parecia mais "comum". Parecia estar observando.

Bianca consultou o GPS de mão mais uma vez, franzindo a testa.

— Ainda nada. — Ela mostrou a tela para Clementine. — Estamos andando em círculos, segundo o satélite. As coordenadas não batem com a topografia.

— O campo magnético deve estar fritando o sinal. — Clementine olhou para as árvores. — Ou talvez nós não estejamos onde o satélite acha que estamos.

— Vocês confiam naquele cara? — Bryan aproximou-se de Aaron, indicando Ben com a cabeça. — Ele acabou de ameaçar o Roger com uma história de ninar.

Aaron olhou para as costas de Ben.

— Não confio. Mas ele é o único que sabe para onde estamos indo.

— Estamos chegando — anunciou Ben, alto o suficiente para todos ouvirem.

As árvores gigantes davam lugar a um caminho que parecia ter sido aberto artificialmente décadas atrás, agora quase reconquistado pela selva.

De repente, Ben parou. Ele olhou para os dois lados da trilha, verificando algo que só ele via, e continuou a andar.

— Alto! — gritou Roger, levantando o punho cerrado. O grupo parou imediatamente, os corações disparados.

Roger apontou para a mata, à esquerda e à direita da trilha. Erguendo-se do chão coberto de folhas mortas, havia grandes pilares de metal escuro, espaçados regularmente, formando uma linha que desaparecia na floresta. Eram estruturas industriais, cobertas de musgo e ferrugem, com sensores e alto-falantes no topo.

— O que é isso? — perguntou Aaron, aproximando-se de um dos pilares com cautela. — Parecem... postes?

— É um perímetro — corrigiu Roger, analisando a disposição tática. — Sensores de movimento? Cerca elétrica? — Ele olhou para Ben, desconfiado. — Você nos trouxe para uma zona militar?

Clementine tocou no metal frio de um dos pilares.

— Isso não faz sentido. O que uma infraestrutura dessa magnitude está fazendo no meio do nada? Quem construiria uma cerca de alta tecnologia numa ilha deserta?

— Não é uma ilha deserta, Clementine. Já estabelecemos isso. — Ben continuou caminhando, passando tranquilamente entre dois dos pilares, ignorando a linha invisível que eles formavam.

Roger tensionou, esperando uma explosão ou um alarme, mas nada aconteceu. A selva permaneceu em silêncio.

— Está desligada — constatou Bryan, chutando a base de um pilar. — Os cabos estão podres. Isso não funciona há anos.

— Era uma cerca sônica — explicou Ben, casualmente, como se falasse sobre a cerca de um jardim. — Emitia uma frequência capaz de liquefazer o cérebro de qualquer coisa que tentasse passar sem o código.

Aaron recuou um passo do pilar, horrorizado.

— Liquefazer o cérebro? Para manter quem do lado de fora?

Ben parou e olhou para trás, seus olhos percorrendo a mata densa onde a luz do sol não alcançava.

— Pessoas e coisas ruins, Aaron. Coisas muito ruins.

— E agora? Estamos seguros? — perguntou Bianca.

— A cerca está morta. — Ben deu de ombros. — O que significa que estamos tão seguros quanto qualquer um pode estar neste lugar. O que, sendo honesto, não é muito.

Ele afastou um grande ramo de folhas de palmeira logo após a linha da cerca. O grupo o acompanhou e andaram cerca de dez minutos, até que Ben parou.

— Bom... — Ben continuou, sua voz ganhando um tom teatral. — ...temos um teto.

Aaron parou ao lado de Ben, e o que viu fez seu queixo cair.

Diante deles, banhado pelo sol estranho daquele meio-dia impossível, estava um bairro de subúrbio americano. Casas amarelas e azuis com varandas, gramados que um dia foram aparados (agora altos e selvagens), balanços enferrujados e calçadas de concreto rachado. Parecia um cenário de filme pós-apocalíptico, uma fatia de civilização transplantada para o coração da selva e deixada para morrer.

— O que é isso? — Clementine perguntou, atordoada. A visão era mais perturbadora do que qualquer monstro. Era familiar e errada ao mesmo tempo.

— Nossa casa longe de casa. — Ben abriu os braços. — Bem-vindos à Vila da Dharma, tripulantes. A estadia vai ser longa.

Roger olhou para as casas vazias à frente.

— Quem morava aqui, Ben?

— Pessoas que achavam que podiam controlar este lugar — respondeu Ben, começando a descer a colina em direção às casas. — Estavam erradas.

Aaron olhou para as janelas escuras das casas. Ele sentiu um aperto no peito, uma sensação de déjà vu nauseante. Ele sabia que já tinha estado ali. Talvez tivesse brincado naqueles gramados.

— Vamos — disse Aaron, a voz baixa. — Não temos para onde voltar.

O grupo desceu até as casas, entrando no território dos fantasmas da Dharma, sem saber que a verdadeira ameaça não precisava de cercas para entrar.

Oceano Pacífico — Setembro de 2003

O céu não era mais céu; era um redemoinho de violência cinza e preta. O balão de alta altitude da Widmore, projetado para suportar a estratosfera, gemia sob a pressão de ventos que não constavam em nenhum mapa meteorológico.

Henry Gale agarrava-se às cordas da cesta de vime, os nós dos dedos brancos, o rosto banhado pela chuva gelada que cortava como vidro.

— Vamos lá, garota... aguenta firme... — ele gritava para o balão, ou talvez rezasse para Deus.

Ele puxou o GPS do bolso do colete. A tela digital, que deveria ser sua salvação, piscava erraticamente. As coordenadas não mudavam, giravam. O Norte magnético parecia estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

— Não... não agora! — Henry bateu no aparelho, inútil.

Um estrondo ensurdecedor, como um trovão nascendo de dentro do mar, sacudiu a cesta. O balão inclinou violentamente. Henry viu a copa das árvores surgindo da escuridão abaixo dele rápido demais.

— Jennifer! — ele gritou, o último nome que lhe veio à mente.

O impacto foi brutal. O vime rasgou contra galhos grossos, o tecido do balão se enroscou na copa de uma árvore gigante, e a cesta girou, lançando Henry contra a madeira dura. O mundo girou, escureceu e silenciou.

A manhã seguinte trouxe um silêncio que doía nos ouvidos.

Henry abriu os olhos, sentindo o gosto de sangue e terra. Ele estava no chão da floresta, úmido e frio. Acima dele, pendurado como um cadáver gigante entre os galhos, estava o balão amarelo com o logotipo da Widmore, agora apenas um pano rasgado servindo de teto improvisado.

Ele tentou se levantar, gemendo com a dor nas costelas, e cambaleou para fora da mata. A poucos metros dali, a vegetação se abria para uma praia de areia branca e um oceano infinito e calmo.

Henry tateou os bolsos, desesperado. Encontrou o GPS. A tela estava trincada, mas ligada.

— Por favor... — sussurrou ele.

Sem Sinal. Erro de Satélite.

Ele sacudiu o aparelho. Nada. A bússola analógica girava loucamente. Ele estava em um ponto cego do mundo.

— Droga! — gritou ele, caindo de joelhos na areia. — Droga, droga, droga!

Ele enfiou a mão no bolso novamente, buscando algo, qualquer coisa que o conectasse à sua vida anterior. Seus dedos encontraram a carteira de couro. Dentro, sua carteira de motorista de Minnesota e uma única nota de vinte dólares.

Henry olhou para o dinheiro. Papel inútil ali. Mas talvez... talvez servisse como uma última mensagem.

Ele voltou para a sombra do balão, pegou uma caneta esferográfica em sua mochila de suprimentos e alisou a nota de dólar sobre a perna da calça. Com a mão trêmula, ele começou a escrever, cada palavra pesando como uma despedida.

“Jennifer, bem, você estava certa. Cruzar o Pacífico não é fácil. Eu te devo uma cerveja. Eu estou caminhando por uma das praias para acender uma fogueira, mas se você estiver lendo isso, acho que eu não sobrevivi. Me desculpe, eu amo você Jenny, sempre amei, sempre amarei. Seu, Henry.”

Ele releu a mensagem, uma lágrima solitária pingando sobre o rosto de George Washington na nota. Ele a dobrou com cuidado e guardou na carteira.

Respirando fundo, Henry juntou alguns galhos secos e folhas de palmeira. Ele precisava de fogo. Precisava de um sinal.

Ele estava ajoelhado na areia, tentando fazer uma faísca, quando uma sensação estranha o fez parar. A sensação de não estar sozinho.

— Olá.

A voz veio de trás dele, calma e civilizada demais para aquele lugar selvagem.

Henry pulou, girando o corpo, o coração disparando.

Parado na orla da floresta, observando-o com uma curiosidade clínica, estava um homem baixo, de olhos grandes e esbugalhados, vestindo roupas comuns, mas limpas.

— Que isso? — Henry recuou, tropeçando na areia. — Quem é você?

O homem sorriu. Não era um sorriso ameaçador, mas havia algo nos olhos dele que fez Henry sentir mais frio do que durante a tempestade.

— Meu nome é Benjamin Linus — disse o homem, suavemente. — E você, quem é?

Henry soltou o ar, o alívio momentâneo superando o instinto de perigo. Era uma pessoa. Um resgate.

— Sou Henry. Henry Gale. — Ele se levantou, limpando a areia das mãos, e estendeu a mão para o estranho. — Eu vim de Minnesota.

— Muito prazer, Henry. — Ben apertou a mão dele. O aperto era frio. — Vi seu balão preso nas árvores há alguns metros daqui. Uma aterrissagem difícil, imagino.

— Pode me dizer onde estou? — Henry olhou ao redor, esperançoso. — Que ilha é essa?

— Você está em uma ilha no Pacífico Sul — respondeu Ben, vago. — Um pouco longe das rotas comerciais, receio.

— Tem alguma forma de eu conseguir me comunicar com o continente? — Henry perguntou, a urgência voltando. — Eu tenho esposa... tenho filhas. Elas devem estar achando que eu morri. Queria poder avisar que estou vivo.

Ben manteve o sorriso, mas seus olhos pareciam analisar cada microexpressão de Henry.

— Lamento, Henry. Mas não temos telefones. Não há forma de se comunicar com o continente daqui.

O mundo de Henry desabou pela segunda vez. — Oh, meu Deus... — Ele levou as mãos à cabeça. — A Jenny... ela vai ficar devastada.

Ben deu um passo à frente, interessado. — Jenny? É o nome da sua esposa?

— Jennifer. — Henry olhou para Ben, os olhos marejados. — Eu prometi que voltaria.

— É realmente um lindo nome — comentou Ben, fixando o olhar em Henry como se estivesse memorizando um roteiro. — Sinto muito por ela.

O estômago de Henry roncou, alto e doloroso, quebrando a tensão emocional.

— Estou com fome — admitiu Henry, envergonhado. — Perdi meus suprimentos na queda. Você teria... alguma coisa com você?

Ben olhou para a floresta, depois de volta para Henry. — Digamos que sim. Eu tenho um acampamento não muito longe.

— Graças a Deus.

— Olha, eu já volto. Vou buscar algo para você. — Ben começou a se afastar, caminhando de costas para a mata. — Enquanto isso, continue fazendo o que você está fazendo. Essa fogueira parece promissora.

— Você vai voltar, certo? — Henry perguntou, sentindo uma pontada de medo infantil de ser deixado sozinho novamente.

— É claro que vou, Henry — disse Ben, antes de ser engolido pelas sombras das árvores. — Nós temos muito o que conversar.

Ben desapareceu, deixando Henry Gale sozinho na praia com sua fogueira apagada e sua nota de vinte dólares.

A Ilha – Presente

O grupo emergiu da trilha e parou no centro do gramado alto que formava a praça da Vila. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo ranger de um balanço enferrujado movido pelo vento. As casas amarelas, com suas varandas teladas e arquitetura dos anos 70, pareciam observar os intrusos com janelas escuras e vazias.

Era um cenário fantasma. Xícaras de café quebradas nas varandas, bicicletas de crianças tombadas na grama, triciclos enferrujados. Parecia que os moradores tinham evaporado no meio do café da manhã.

— Não tenham medo. — A voz de Ben ecoou na praça, calma e proprietária. Ele abriu os braços, girando lentamente. — Podem explorar. Tudo o que restou aqui... agora é nosso.

Aaron olhou para uma casa com a porta entreaberta. — Quem vivia aqui, Ben? Eles foram embora?

— Alguns foram. Outros... ficaram para sempre. — Ben não elaborou. Ele caminhou rapidamente até duas casas maiores, uma de frente para a outra. — Vamos nos organizar. Não sabemos quanto tempo ficaremos, então precisamos de ordem.

Ele apontou para a casa da esquerda. — Esta será o alojamento feminino. Clementine, Bianca... a casa é de vocês. Escolham os quartos que preferirem.

Ele girou para a casa da direita. — E esta será para os cavalheiros. Eu, Aaron, Roger e seus homens ficaremos aqui. Cada casa terá um líder para manter a segurança. Eu assumo a responsabilidade pelo perímetro.

Roger bufou, insatisfeito com a liderança autoimposta de Ben, mas estava cansado demais para discutir logística imobiliária. Ele olhou para Bryan. — Precisamos de reforços. Não gosto de estar em desvantagem numérica num lugar que não conheço.

Bryan assentiu, ajeitando o fuzil no ombro. Ele olhou para a trilha por onde vieram. — Eu volto para o helicóptero. O rádio de bordo tem mais potência que os portáteis. Vou tentar triangular a posição do navio e guiar os botes com o resto da tropa até a praia.

— Feito. — Roger concordou. — Mas não demore. Se o sol cair e você não tiver voltado, eu não vou te procurar no escuro.

Bryan lançou um olhar rápido e indecifrável para Ben, depois para o resto do grupo. — Não se preocupe, Chefe. Eu sei me cuidar.

Ele se afastou, desaparecendo na mata, deixando o grupo com a sensação de que estavam um pouco mais vulneráveis.

O interior da casa cheirava a mofo e tempo parado. Havia poeira cobrindo móveis que, décadas atrás, deviam ser modernos. Aaron jogou sua mochila sobre um sofá puído, sentindo o peso da exaustão.

Roger encontrou um baralho de cartas antigo em uma gaveta e sentou-se à mesa da cozinha, limpando a superfície com a manga da camisa. Dois de seus mercenários se juntaram a ele, buscando qualquer distração para a tensão.

— Truco? Pôquer? — Roger embaralhou as cartas com destreza. — Algo para passar o tempo enquanto esperamos o fim do mundo?

Aaron caminhou até a janela, observando a casa das mulheres do outro lado da rua. Ele viu Clementine na varanda, sacudindo a poeira de um lençol.

Roger seguiu o olhar dele e soltou uma risada rouca. — Rapaz... você é transparente como vidro.

Aaron virou-se, franzindo a testa. — Do que você está falando?

— Todo mundo já percebeu a sua quedinha pela Clementine, Aaron. — Roger distribuiu as cartas na mesa, rindo. — O jeito que você olha para ela... parece um cachorro que caiu da mudança.

Os soldados riram, cotovelando-se. Aaron sentiu o rosto esquentar. — O quê? Tá maluco? — Ele cruzou os braços, defensivo. — Ela é parte da equipe. Só estou preocupado com a segurança dela.

— "Segurança". Sei. — Roger piscou para um dos soldados. — Admita, garoto. O jeito “malandra” dela te deixa todo “molhadinho”. É quase romântico, se não fosse patético.

— Eu vou para o quarto. — Aaron pegou sua mochila, irritado com a provocação, e saiu pisando duro para o corredor.

— Ei, rapaz, fique calmo! — gritou Roger, rindo enquanto jogava uma carta na mesa. — O amor é lindo, mesmo no apocalipse!

Na casa em frente, o clima era menos barulhento, mas igualmente tenso. Bianca e Clementine tentavam limpar um dos quartos, tirando lençóis velhos e abrindo janelas emperradas para deixar o ar entrar.

Bianca parou de varrer, apoiando-se na vassoura, e olhou para Clementine com um sorriso curioso. — Posso te fazer uma pergunta pessoal?

Clementine, que lutava com uma cortina empoeirada, não se virou. — Se for sobre a falta de água encanada, eu também estou preocupada.

— Não. É sobre o Aaron. — Bianca foi direta. — Vocês se gostam, não é?

Clementine parou. Ela soltou a cortina e virou-se, incrédula. — Que pergunta é essa? De onde você tirou isso?

— Ah, por favor. — Bianca riu. — O jeito que vocês se olham. O jeito que você ficou preocupada com ele no navio. Se vocês pretendem esconder alguma coisa, estão indo muito mal.

Clementine sentiu um rubor subir pelo pescoço, mas sua defesa automática entrou em ação. — Eu não gosto dele. — Ela bufou, voltando para a cortina com agressividade desnecessária. — Ele é um completo idiota. Teimoso, imprudente e... idiota.

— "Idiota" é código para "eu estou apaixonada", certo? — Bianca provocou.

— É código para "ele quase fritou o cérebro há horas atrás e eu tive que salvá-lo". — Clementine suspirou, desistindo da cortina. Ela sentou-se na beira da cama, a expressão ficando séria. — Esqueça o Aaron, Bianca. Temos problemas maiores.

Bianca encostou a vassoura na parede e sentou-se ao lado dela. — Você está falando da Ilha.

— Você também sente, não sente? — Clementine olhou para a geóloga. — Algo estranho.

— As leituras geológicas... o magnetismo... nada aqui faz sentido. — Bianca admitiu.

— Antes de vir, eu estudei os cadernos de Daniel Faraday em Oxford. — Clementine baixou a voz, como se as paredes pudessem ouvir. — Ele tinha teorias sobre bolsões de energia capazes de deslocar a matéria através do tempo. Eu achava que era loucura acadêmica. Mas agora...

— A mudança da luz. — Bianca completou. — Saímos do navio de madrugada, no meio de uma tempestade. O helicóptero piscou e... meio-dia. Sol a pino.

— Exatamente. — Clementine olhou pela janela, para o céu azul imóvel. — Passaram-se horas, ou talvez dias, em um segundo. Não é algo normal, Bianca. Fora aquilo que aconteceu no navio, com os homens enlouquecendo. Estamos navegando em águas onde a física não se aplica ou se aplica de forma diferente.

— E o Aaron? — Bianca perguntou. — Ele regrediu. Ele viajou mentalmente.

— Sim. — Clementine estremeceu. — O que significa que o tempo aqui é fluido. E se não tomarmos cuidado... podemos nos perder nele.

As duas ficaram em silêncio, encarando-se, a realidade da situação pesando sobre elas. Aquela não era uma ilha comum. E a Vila da Dharma, com sua aparência de normalidade, era apenas a fachada de algo muito mais antigo e perigoso.

A Ilha — 2003

A chuva não dava trégua. Debaixo da copa da árvore onde o balão amarelo da Widmore estava enroscado como uma carcaça gigante, Henry Gale tentava se manter seco, tremendo de frio e febre. Ele roía um pedaço de carne de lagarto que conseguira caçar, o gosto amargo combinando com o gosto do fracasso em sua boca.

— É... — sussurrou ele para a chuva. — Pelo visto, tudo acaba aqui, Jenny.

Passos esmagando folhas molhadas o fizeram erguer a cabeça. Benjamin Linus emergiu da mata, não com as mãos vazias, mas carregando uma caixa de papelão selada, com o logotipo octogonal da Dharma Initiative impresso na lateral.

— Olá, Henry — disse Ben, casualmente, colocando a caixa no chão seco.

Henry olhou para a caixa, depois para Ben. Seus olhos se arregalaram. Ele rasgou o papelão com mãos trêmulas e encontrou latas de comida, barras de cereal, garrafas de água. Comida processada. Comida civilizada.

— O que é tudo isso? — Henry levantou-se, a confusão dando lugar a uma suspeita sombria. — Como você conseguiu isso?

— Eu tenho meus métodos — respondeu Ben, evasivo.

A gratidão de Henry evaporou, substituída pela fúria de quem percebe que foi feito de tolo. — Você está escondendo algo de mim.

— Por que eu estaria? — Ben manteve a expressão inocente.

— Você me disse que não havia nada nesta ilha! — Henry gritou, avançando. — Disse que éramos só eu e você sobrevivendo no mato. Mas agora você aparece com suprimentos militares? Comida enlatada? Você tem um acampamento, não tem? Tem rádio! Você podia ter chamado ajuda!

Ben suspirou, como se a ingratidão de Henry fosse cansativa. — Você quer a comida ou não, Henry?

A arrogância na voz de Ben foi o estopim. Henry fechou a mão e, num surto de adrenalina, desferiu um soco no rosto de Ben. O golpe foi desajeitado, mas forte o suficiente para derrubar o homem menor na lama.

Ben caiu, limpando o sangue do lábio cortado. Ele não parecia com raiva; parecia apenas que tinha tomado uma decisão administrativa. Ele se levantou calmamente, tirando uma pistola 9mm do cós da calça.

Henry congelou. A chuva escorria pelo seu rosto, misturando-se ao suor frio. — Desgraçado! — exclamou Henry, abrindo os braços num gesto de desafio suicida. — Você é um mentiroso doente. Vamos! Me mate! É isso que você quer?

— Se você insiste. — Ben disse, friamente.

Não houve hesitação. Ben levantou a arma e disparou uma única vez. O tiro acertou Henry Gale no peito, jogando-o para trás contra o tronco da árvore. Ele escorregou até o chão, os olhos vidrados e sua carteira em seu bolso, contendo a sua carteira de motorista e a note de vinte dólares.

Ben observou o corpo por um momento, sem remorso. — Uma pena. Eu gostava do nome Henry.

Para evitar problemas com os outros habitantes da ilha ou com curiosos futuros, Ben pegou uma pá que havia escondido ali perto. Ele cavou uma cova rasa sob o balão.

Ele cobriu o corpo com terra e pedras, limpou as mãos e partiu, deixando Henry Gale ser consumido pela ilha que ele jurou conquistar.

A Ilha — O Presente (Amanhecer)

A luz do sol invadia as janelas sujas da Vila da Dharma. Enquanto os tripulantes acordavam, tentando entender sua nova realidade, Benjamin Linus estava ocupado.

Ele estava no porão da casa que reivindicara para si — a antiga casa de seu pai. O ar ali embaixo era viciado, cheirando a segredos guardados por décadas. Ben afastou um armário velho, revelando um painel falso na parede.

Ele digitou uma combinação mecânica e o painel se abriu.

Lá dentro, não havia ouro ou joias. Havia o arsenal de um homem paranoico: pistolas, munição, mapas antigos... e troféus.

Ben estendeu a mão e pegou uma pistola carregada. Ele sabia que Bryan, como sua intuição lhe dizia — era um problema. E Ben Linus resolvia problemas eliminando-os.

Enquanto checava o carregador da arma, o olhar de Ben pousou na prateleira ao lado. Ali, coberta por uma fina camada de poeira, repousava uma carteira de couro velha e apodrecida. Ao lado dela, um pedaço de tecido amarelo desbotado com o logotipo da Widmore — um fragmento do balão de um homem que tivera o azar de cruzar seu caminho.

Ben tocou na carteira por um segundo, um sorriso nostálgico e cruel curvando seus lábios. Ele havia matado Henry Gale e roubado seu nome. Usar nome falso é um truque que ele conhecia bem.

— Bom, temos um trabalho. — Disse, para ninguém em especial.

Ele guardou a arma nas costas, fechou o painel secreto e subiu as escadas, compondo sua máscara de líder benevolente.

Do lado de fora, o acampamento começava a ganhar vida.

Bryan emergiu da trilha da floresta, liderando o segundo grupo: Marcel, Jessy, Ji Yeon e os outros soldados do navio que haviam sobrevivido a “crise de Faraday”. Eles pareciam exaustos, sujos e assustados.

— Conseguimos! — gritou Bryan, acenando.

Ben saiu da varanda de sua casa, abrindo os braços com aquele sorriso de canto a canto que não transmitia nenhuma alegria, apenas cálculo.

— Sejam bem-vindos! — saudou Ben. — Fico feliz que tenham encontrado o caminho.

Roger, que estava sentado na varanda limpando seu fuzil, levantou os olhos. Ele viu o sorriso de Ben. Viu a forma como ele olhava para Bryan — não como um salvador, mas como um açougueiro olha para o gado.

Roger sentiu um arrepio na espinha. Ele já tinha visto aquele olhar em muitos oficiais antes de mandarem o pelotão para a morte.

— Esse cara... — Roger murmurou para si mesmo, destravando a segurança de sua arma discretamente. — Esse cara vai matar a todos se dermos as costas.

Ben desceu os degraus, indo cumprimentar os recém-chegados, enquanto a sombra da casa encobria o local onde ele guardava os restos mortais da inocência de Henry Gale. O jogo havia recomeçado.