Lost: O Primeiro Herdeiro

12 LIVRO 2 — CAPÍTULO 12: DUPLO-CEGO



Vila da Dharma – Meio-dia

O sol castigava os telhados das casas antigas da Vila. O grupo de tripulantes, recém-chegado do navio, movia-se como sonâmbulos, arrastando mochilas e equipamentos para dentro das residências designadas. A desorientação temporal — sair de uma tempestade noturna para um dia claro e abafado em segundos — deixava todos com uma náusea persistente.

Bryan ajudou Jessy a carregar uma caixa de suprimentos médicos para a varanda, seus olhos escuros varrendo o perímetro, memorizando saídas e pontos cegos. Ele agia como um soldado prestativo, mas sua mente trabalhava em uma frequência diferente da dos outros.

No centro do gramado, Benjamin Linus bateu palmas duas vezes. O som foi seco, mas suficiente para silenciar as conversas.

— Reunião no saguão principal — anunciou Ben, apontando para o edifício comunitário que servia de refeitório e sala de conferências. — Agora.

Aaron, que estava sentado na varanda de sua casa limpando a lama das botas, trocou um olhar cansado com Roger. O mercenário apenas deu de ombros, indicando que, por enquanto, era melhor seguir o fluxo.

Dentro do saguão, o ar era viciado e quente. Cadeiras de plástico estavam dispostas em semicírculo. Ben ficou de pé diante do grupo, as mãos cruzadas nas costas, parecendo um professor prestes a dar uma aula para alunos problemáticos.

— Primeiramente, bom dia — disse Ben, com aquele sorriso cordial que fazia os pelos da nuca de Aaron se arrepiarem. — Sei que a viagem foi... atípica. Mas vocês estão seguros agora.

Ninguém respondeu. O cansaço e o choque eram palpáveis.

— Meu nome é Benjamin Linus — continuou ele. — Mas podem me chamar de Ben. Sou o líder deste acampamento e serei o responsável por guiá-los durante sua estadia. Vou estabelecer algumas regras básicas de convívio para garantir que todos sobrevivam à primeira semana. Perguntas ao final.

Aaron, que estava encostado no batente da porta, de braços cruzados, não esperou. — Eu tenho uma pergunta agora.

Ben virou-se lentamente para ele, mantendo o sorriso. — Pois não, Aaron.

— Por que não fomos informados sobre você? — Aaron desencostou da porta, caminhando para o centro da sala. — Desmond nos deu dossiês, mapas, listas... mas nunca mencionou um "gerente" local. Quem é você, afinal? Um funcionário fantasma da Widmore? Um eremita?

O silêncio na sala pesou. Roger, sentado no fundo, escondeu um sorriso de aprovação. O garoto tinha coragem.

Ben suspirou, como se explicasse algo óbvio para uma criança. — O que você achou que iria acontecer, Aaron? Que vocês pousariam numa ilha hostil e não cartografada e sairiam perambulando pela selva com facões e bússolas?

— Eu esperava transparência — retrucou Aaron.

— Você quer transparência ou quer sobreviver? — A voz de Ben endureceu, perdendo a cordialidade. — Eu vivo nesta ilha há mais tempo do que você tem de vida. Conheço cada pedra, cada som e cada ameaça que se esconde naquelas árvores. Sou a melhor, e única, chance que vocês têm.

— E se recusarmos a sua ajuda? — Aaron desafiou.

— Então eu desejo boa sorte. — Ben abriu os braços. — A selva é vasta. E ela tem muita fome. Sinta-se à vontade para testar a sorte.

Aaron sustentou o olhar de Ben por um longo momento, mas percebeu que não ganharia aquela discussão ali. Ele balançou a cabeça, frustrado, e saiu do saguão, empurrando a porta com força.

Clementine observou a saída dele, depois olhou para Ben. Ela deu um sorriso amarelo, tentando dissipar a tensão, e voltou a prestar atenção.

— Ótimo. — Ben retomou, como se nada tivesse acontecido. — Vamos às regras. Regra número um: ninguém sai do perímetro da Vila sem autorização e escolta armada.

Murmúrios de protesto surgiram.

— Isso não é uma prisão, é uma medida de segurança — Ben elevou a voz. — Existem coisas nesta ilha que vocês não compreendem. A cerca sônica está desativada, o que significa que não temos barreiras físicas. Se vocês se afastarem, não poderemos protegê-los.

Clementine levantou a mão, interrompendo o monólogo. — Com licença. Posso ir ao banheiro?

Ben franziu a testa, impaciente. — Tem que ser agora, Srta. Phillips?

— Necessidade feminina — mentiu ela com um sorriso doce e falso. — A viagem foi longa.

— Vá. — Ben dispensou-a com um gesto de mão. — Mas volte rápido. A regra do perímetro começa agora.

Clementine saiu do galpão, respirando o ar úmido lá fora. Ela não precisava ir ao banheiro. Ela precisava de ar e, mais importante, precisava falar com o único outro cético do grupo.

Ela encontrou Aaron sentado nos degraus da varanda do alojamento masculino, olhando para a mata densa que cercava a vila.

— Ei — disse ela, aproximando-se. — O que há com você, cara? Vai arrumar briga com o único guia que temos?

Aaron olhou para ela, os olhos azuis escurecidos pela desconfiança. — Eu não confio nele, Clementine.

— Eu também não. Ninguém confia. — Ela sentou-se ao lado dele no degrau. — Mas vamos ser realistas. Não conhecemos essa ilha. Tudo aqui é... errado. O tempo, o clima, as pessoas.

— E daí? — Aaron gesticulou para a casa de Ben. — Por isso devemos obedecer a um homem que apareceu do nada no meio da mata? Desmond nunca mencionou o nome dele. Se ele fosse da Widmore, estaria no manifesto. Ele está escondendo algo.

— É estranho, eu concordo. — Clementine baixou a voz. — Mas o que devemos fazer? Um motim?

Aaron olhou para a linha das árvores, onde a cerca sônica inativa se erguia como sentinelas mortas. — O que você acha de explorarmos por conta própria? Uma volta rápida. Só para ver o que ele não quer que a gente veja.

Clementine riu, balançando a cabeça. — O quê? Eu e você? Sozinhos na mata proibida?

— Por que não? — Aaron sorriu de canto, um sorriso desafiador. — A menos que você esteja com medo.

— Se isso é um jeito criativo de me chamar para transar, Aaron, você precisa melhorar seu jogo.

— Está brincando, não é? — Aaron riu, a tensão se dissipando por um segundo.

— Brincadeira, Littleton. — Ela deu um soco leve no ombro dele. — É uma ideia extremamente estúpida e perigosa. Mas eu gostei. Vamos esperar anoitecer.

Os dois riram, cúmplices na desobediência.

Do outro lado da praça, encostado na lateral do alojamento feminino, Bryan observava a cena. Ele tragava um cigarro com movimentos lentos e calculados. Seus olhos não viam dois jovens flertando; viam duas variáveis instáveis. Dois problemas.

Ele soltou a fumaça, e o sorriso simpático que usava para enganar Yan desapareceu, dando lugar ao rosto frio de um homem com uma missão.

— Aproveitem enquanto podem... — sussurrou Bryan, esmagando a bituca do cigarro com a bota.

Monterrey, México — Julho de 2027

O sol da tarde batia impiedoso sobre o asfalto do hangar privado. O calor fazia o ar tremeluzir acima das pás do helicóptero, mas Miguel Cortez, o verdadeiro nome de Bryan, não suava. Ele permanecia imóvel ao lado da aeronave, vestindo seu terno preto e óculos escuros, a imagem perfeita da eficiência profissional.

Ele aproveitou o momento de solidão para verificar o painel de instrumentos uma última vez. Seus dedos roçaram em uma pequena foto colada no canto do painel: uma menina de seis anos sorrindo, com os mesmos olhos da mãe. Marta. O nome da filha e o nome da esposa que ele perdera no parto. Marta era a única razão pela qual ele suportava aquele emprego.

O som de pneus cantando no asfalto anunciou a chegada do "patrão".

Três SUVs blindadas entraram no hangar, levantando poeira. Homens armados desembarcaram primeiro, varrendo o perímetro com a paranoia habitual. Finalmente, a porta do veículo central se abriu e Thiago Fernandez desceu.

O Senador Thiago era um homem que exalava poder e corrupção em medidas iguais. Ele ajeitou o paletó de linho caro e caminhou em direção ao helicóptero com um sorriso que não alcançava os olhos.

— ¡Hola, buenos días! (Olá, bom dia!) — saudou Thiago, a voz projetada para ser ouvida acima do vento.

Miguel endireitou a postura, escondendo o desprezo que sentia. — Buen día, Señor Thiago. Estoy listo para la misión. (Bom dia, senhor Thiago. Estou pronto para a missão.)

Thiago parou à frente dele, invadindo seu espaço pessoal. Ele colocou a mão no ombro de Miguel, um gesto que deveria ser paternal, mas parecia uma ameaça velada.

— ¿Cómo está tu hija, Marta? (Como está tua filha, Marta?) — perguntou o Senador, com um interesse fingido que fez o estômago de Miguel revirar.

— Muy bien, gracias por preguntar. (Muito bem, obrigado por perguntar.) — Miguel respondeu, mantendo a voz neutra. Ele odiava quando Thiago mencionava sua filha. Parecia um lembrete: "Eu sei onde ela está. Eu sei o que você tem a perder."

Thiago apertou o ombro dele com mais força. — Eres uno de mis mejores hombres, hijo. Siempre es un placer trabajar contigo. (É um dos meus melhores homens, meu filho. Sempre é um prazer trabalhar contigo.)

Miguel forçou um sorriso de canto. Ele sabia quem Thiago realmente era: um político sujo, envolvido com cartéis e lavagem de dinheiro. Aquele elogio não valia nada, exceto pelo salário que pagava a escola de Marta e as contas médicas.

— El placer es mío, Señor. (O prazer é meu, Senhor.) — mentiu Miguel.

Thiago deu um tapinha no rosto de Miguel e se virou para os seguranças. — ¡Vamonos! A reunião não espera.

Miguel abriu a porta da cabine para ele. — Entre — disse Miguel, acenando para que o Senador e sua escolta subissem.

Enquanto ligava os motores e sentia a vibração familiar do helicóptero, Miguel olhou mais uma vez para a foto de Marta no painel. Só mais um voo, pensou ele. Só mais um dia no inferno para garantir o paraíso dela.

Ele não sabia que aquele dia seria o último de sua vida normal.

Navio Elizabeth — Algumas horas antes da reunião com Ben

Enquanto Aaron e Roger exploravam a selva pela primeira vez, o helicóptero pilotado por Bryan (Miguel) rasgava o céu de volta ao mar aberto. Ele pousou no convés do Elizabeth com urgência, as hélices girando sem parar, sinalizando uma partida rápida.

Miguel saltou da cabine, ignorando Juan Smith, que corria em sua direção, e foi direto para a enfermaria improvisada no salão principal.

O cenário lá dentro era dantesco. Homens amarrados às macas gritavam em delírios temporais, enquanto outros jaziam em silêncio catatônico. Jessy Burke, com olheiras profundas e o jaleco manchado de sangue, tentava administrar sedativos em um paciente que revivia a Guerra do Golfo.

— Jessy! — chamou Miguel, parando na porta. — Largue isso. Precisamos ir. Agora.

Jessy não olhou para ele. — Não posso. A pressão arterial dele está subindo. Se eu parar, ele morre.

— Ele já está morto, Jessy. A mente dele está em 1991. — Miguel avançou, segurando o braço dela com firmeza. — Você não pode salvá-los aqui.

— Conseguimos recuperar o Aaron! — Ela se soltou, furiosa. — Recuperamos mais dois com a ajuda do telefone via satélite. Mas é lento. Precisamos de tempo para achar as Constantes...

— Não temos tempo. — Miguel olhou para os outros presentes na sala: Yan, que ajudava com os soros, e Marcel, que observava tudo com um fascínio mórbido. — A ilha... o lugar para onde fomos... é seguro. O tempo lá é estável. Mas precisamos sair desse navio antes que a anomalia piore.

Marcel ajeitou os óculos, interessado. — Estável? Vocês encontraram terra firme?

— Encontramos. E vocês serão mais necessários lá do que aqui. — Miguel apontou para Jessy e Marcel. — Jessy, com suas habilidades médicas. Marcel, com a arqueologia. Aquele lugar... tem coisas que precisam ser traduzidas.

— Espere. — A voz veio da porta. Ji Yeon Kwon estava parada ali, segurando uma bolsa de viagem cara, como se estivesse esperando o transporte o dia todo. — Se vocês vão, eu vou também.

Miguel franziu a testa. — Não há espaço para turistas, Princesa. O que espera encontrar lá?

— Respostas. — Ji Yeon sustentou o olhar dele, fria e irredutível. — E meu dinheiro pagou o combustível desse helicóptero. Eu vou.

Miguel avaliou a situação. Levar a herdeira poderia ser útil. Ele assentiu brevemente, depois voltou sua atenção para Jessy, que ainda segurava a mão do paciente moribundo.

— Eu não vou abandonar meus pacientes, Bryan. Isso viola meu juramento. — Jessy disse, os olhos cheios de lágrimas.

Miguel suspirou. Ele sabia que teria que usar a verdade — ou uma versão dela. Ele puxou Jessy para um canto isolado da enfermaria, baixando a voz para um sussurro conspiratório.

— Escute, Jessy. Você acha que isso é uma doença? Isso é um efeito colateral. A causa está na ilha. — Miguel mentiu com a convicção de um profissional. — Eu vi coisas lá. Estruturas. Tecnologia. Se existe uma cura para esses homens, ela não está neste navio. Está lá.

Jessy olhou para ele, a esperança lutando contra o dever. — Você está falando sério?

— Eu tenho algo para te mostrar sobre essa ilha, Jessy. Mas não aqui. — Miguel olhou nos olhos dela. — Venha comigo. Se você ficar, eles morrem. Se você vier, talvez possamos salvar todos eles depois.

Era uma manipulação cruel, mas funcionou. Jessy olhou para os pacientes, sentindo a impotência. Ela precisava da cura, não de paliativos.

Ela soltou a mão do paciente e virou-se para Yan. — Cuide de tudo por aqui, Yan. Mantenha-os sedados. Eu... eu vou buscar ajuda.

Yan, que ouvia a conversa à distância, assentiu devagar, entendendo que estava sendo deixado para trás para fazer o trabalho sujo. — Pode deixar, Doutora. — Yan olhou para Miguel com uma desconfiança renovada. — Boa sorte.

Miguel não perdeu tempo. — Vamos. O helicóptero está queimando combustível.

Marcel, Ji Yeon e uma Jessy trêmula seguiram Miguel para o convés.

Juan Smith interceptou Yan na porta da enfermaria, observando o grupo subir a escada. — O que ele disse para convencê-la? — perguntou o Capitão, os olhos estreitos. — Ela não abandonaria o posto assim.

— Ele prometeu uma cura, Capitão. — Yan respondeu, secamente, voltando para os pacientes que gemiam. — Ou talvez ele tenha prometido a verdade. De qualquer forma... estamos sozinhos agora.

Lá fora, o helicóptero decolou, levando a segunda leva de "candidatos" para a ilha, deixando o Elizabeth à deriva em um mar de incertezas.

Palácio do Governo — Monterrey, México — Julho de 2027

Miguel encostou-se na lateral do helicóptero estacionado no pátio do governo, buscando qualquer sombra que o protegesse do sol escaldante. A reunião do senado se arrastava há horas. Ele verificou o relógio pela décima vez, pensando em Marta. Se o Senador demorasse mais trinta minutos, ele perderia o horário de visita no hospital.

Um dos seguranças da escolta de Thiago, um homem corpulento chamado Ramirez, aproximou-se, afrouxando a gravata.

— ¿No quieres entrar? (Não quer entrar?) — perguntou Ramirez, apontando para o prédio com ar condicionado. — Lá dentro tem café e ar fresco.

Miguel balançou a cabeça, sem tirar os óculos escuros. — Estoy bien aquí, gracias. (Estou bem aqui, obrigado.) — Ele preferia o calor do asfalto à presença sufocante dos políticos lá dentro.

Ramirez riu, encostando-se na fuselagem ao lado de Miguel. — A mí tampoco me gusta él. Es un cabrón, ese Thiago. (Eu também não gosto dele. É um bastardo, esse Thiago.)

Miguel permaneceu em silêncio por um momento, avaliando se era um teste de lealdade. Ele tirou um maço de cigarros do bolso, colocou um na boca e ofereceu o maço a Ramirez. O segurança recusou com um gesto de mão.

Miguel acendeu o cigarro, tragando profundamente. A fumaça azul subiu no ar parado. — ¿Por qué me estás diciendo esto? (Por que está me dizendo isso?) — perguntou Miguel, cauteloso.

— Veo la cara que pones cuando te felicita. (Vejo a cara que você faz quando ele te elogia.) — Ramirez olhou para a entrada do palácio.

Miguel soltou uma risada curta e amarga. Aquele homem via através dele. — Él es un hijo de puta. (Ele é um filho da puta.) — admitiu Miguel.

Ramirez riu alto, o som ecoando no pátio vazio. Ele tirou o celular do bolso e desbloqueou a tela, mostrando a foto de uma menina sorridente com uniforme escolar. — Yo también tengo una hija. María es el nombre de ella. (Eu também tenho uma filha. Maria é o nome dela.) — O tom de voz do segurança suavizou, perdendo a dureza profissional.

Miguel olhou para a foto. A menina lembrava sua Marta, antes da doença. — Muy bella. (Muito linda.) — disse Miguel, sentindo um aperto no peito.

— ¡Gracias! Se parece a mí. (Obrigado! Se parece comigo.) — brincou Ramirez, passando a mão na barriga.

— No, hombre. Por suerte, no se parece en nada. (Não, homem. Por sorte, não se parece em nada.) — Miguel riu, e por um segundo, a tensão do trabalho desapareceu. Eles eram apenas dois pais fazendo o que era preciso.

De repente, as portas duplas do palácio se abriram. O riso morreu na garganta de Miguel.

O Senador Thiago saiu, cercado por assessores e bajuladores, caminhando com passos largos e furiosos. Ele parecia ter saído de uma briga política que não venceu. Seu olhar varreu o pátio e pousou em Ramirez, que estava longe de sua posição original.

Ramirez endireitou-se imediatamente, guardando o celular, mas era tarde demais. Thiago marchou até ele, o rosto vermelho de raiva contida.

— ¿Dónde estabas? (Onde você estava?) — Thiago sibilou, ignorando a presença de Miguel. — Te dije que nunca te fueras de mi presencia. ¡Nunca! (Te disse para nunca sair da minha presença. Nunca!)

— Perdón, Señor. (Perdão, Senhor.) — Ramirez baixou a cabeça, constrangido diante dos outros senadores que assistiam à cena. — Solo fui a tomar aire... (Só fui tomar um ar...)

Thiago deu um tapa no peito de Ramirez com as costas da mão, um gesto de desprezo absoluto. — No tienes perdón. Estás despedido. (Não tem perdão. Está demitido.) — Thiago virou-se para o chefe de segurança. — (Tire a arma dele e mande-o embora. Agora.)

Miguel assistiu, paralisado, enquanto Ramirez era desarmado e humilhado publicamente. O homem olhou para Miguel uma última vez, o desespero de um pai que acabou de perder o sustento da filha estampado nos olhos, antes de ser escoltado para fora do pátio.

Thiago ajeitou o paletó, como se tivesse apenas espantado uma mosca, e virou-se para Miguel com um sorriso falso. — (Vamos, Miguel. O dia ainda não acabou.)

Miguel jogou o cigarro no chão e o esmagou com força, imaginando que era o pescoço do senador. A raiva, fria e perigosa, começou a se solidificar em seu estômago. Ele abriu a porta do helicóptero, sabendo que seu próprio limite estava perigosamente próximo .

Vila da Dharma – Presente

A reunião havia dispersado, mas o peso das palavras de Ben ainda pairava sobre a Vila da Dharma como uma nuvem de tempestade.

Jessy Burke estava sentada nos degraus da varanda do alojamento feminino, os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto enterrado nas mãos. Bianca aproximou-se devagar, sentando-se ao lado dela, respeitando o espaço, mas oferecendo presença.

— O que houve com você, amiga? — perguntou Bianca, suavemente.

Jessy levantou o rosto, os olhos vermelhos e inchados. — Não está certo. Nada disso está certo. Eu fiz um juramento, Bianca. "Não causar mal". E eu deixei dezenas de homens gritando em agonia num navio fantasma para vir atrás de uma promessa vaga. — A voz dela quebrou. — Eu os abandonei para morrer.

— Não havia muito a se fazer, Jessy. O piloto disse que a cura estava aqui. Você veio buscá-la. — Bianca tentou confortá-la, passando o braço pelos ombros da médica.

— Eu vim porque tive medo — confessou Jessy, chorando no ombro da amiga. — E agora acho que trocamos o inferno por outro ainda pior.

Enquanto o drama se desenrolava na varanda, uma sombra movia-se silenciosamente dentro do alojamento masculino.

Benjamin Linus não andava; ele deslizava. Aproveitando que os homens estavam organizando suprimentos lá fora ou distraídos com a novidade do local, Ben entrou no quarto que Miguel havia reivindicado.

Ele foi direto à mochila tática jogada sobre o beliche. Ben não precisava vasculhar; ele sabia exatamente onde procurar. Seus dedos ágeis abriram o compartimento oculto no fundo da mala.

Lá estava. Uma pasta preta, discreta, mas pesada. Na capa, o logotipo octogonal da Dharma Initiative e, carimbado em vermelho, o título: "PROJETO GÊNESIS".

Ben sorriu, um sorriso frio e satisfeito. Ele enfiou a pasta sob a camisa, garantindo que estivesse invisível, e saiu do quarto tão silenciosamente quanto entrou.

Ao sair pela porta dos fundos da casa, ele achou que estava invisível. Mas, do outro lado da praça, Clementine Phillips estava na janela do segundo andar, observando. Ela viu Ben sair apressado do alojamento dos homens, segurando algo contra o peito com uma postura protetora que não condizia com o "anfitrião benevolente".

— O que você roubou, seu rato? — sussurrou Clementine, os olhos estreitos de suspeita.

Horas depois, o sol começava a baixar, lançando sombras longas sobre a Vila. O cheiro de comida enlatada aquecida preenchia o ar. Uma fila improvisada havia se formado diante do refeitório, onde os soldados de Roger serviam o almoço tardio.

Clementine entrou na fila logo atrás de Aaron. Ela olhou ao redor, garantindo que ninguém estava ouvindo, e inclinou-se para frente.

— Vamos sair hoje à tarde — sussurrou ela, urgente. — Logo após o almoço.

Aaron virou-se, servindo-se de um prato de feijão. — Por que a pressa repentina? Achei que íamos esperar escurecer.

— Aquele homem... o Ben. Ele é muito suspeito. — Clementine baixou ainda mais a voz. — Eu o vi saindo da casa de vocês escondendo alguma coisa. Ele está roubando da própria equipe que diz proteger. Não confio nele.

— Ele pode ser perigoso — concordou Aaron, olhando para a casa onde Ben desaparecera. — Temos que ter cautela. Se ele nos pegar fora do perímetro...

— Pensei que você fosse mais corajoso, Littleton. — Clementine provocou, tentando disfarçar o próprio nervosismo.

Aaron sorriu de canto. — Brincadeira, garota. Eu vou. Mas você vai ficar me perseguindo o tempo todo mesmo?

Clementine riu, aliviada por ter um aliado, e os dois se sentaram para comer, planejando a fuga silenciosa.

Enquanto isso, no alojamento masculino, Miguel entrou no quarto, secando o suor da testa. Ele precisava verificar. A paranoia de estar cercado por Ben Linus estava consumindo-o.

Ele foi até a mochila e abriu o zíper. Parecia normal. Roupas dobradas, munição extra.

Mas quando ele tateou o fundo falso, seu sangue gelou.

O compartimento estava vazio.

Miguel puxou a mochila, virando-a de cabeça para baixo sobre a cama. Camisetas, meias e pentes de bala caíram, mas a pasta preta não estava lá.

— Não... — O sussurro saiu como um chiado.

Ele começou a revirar o colchão, jogando os travesseiros longe, a respiração acelerando para um ritmo de pânico. Ele checou embaixo da cama, dentro das outras bolsas, sabendo que era inútil.

A pasta com as ordens de Wilbert. Os perfis dos candidatos. A verdade sobre a missão da Dharma. Tudo havia sumido.

Miguel encostou-se na parede, deslizando até o chão, as mãos tremendo incontrolavelmente. Ele sabia o que aquilo significava. Alguém sabia quem ele era. E nessa ilha, segredos descobertos eram sentenças de morte.

— Ele sabe... — Miguel murmurou, os olhos arregalados de terror. — Ele pegou.

Ele precisava sair dali. Precisava avisar Wilbert. Se Ben Linus tinha lido aqueles arquivos, Miguel já era um homem morto.

Monterrey, Mexico — Julho de 2027

Miguel estava novamente em frente ao helicóptero esperando Thiago para que eles partissem novamente para o senado. Ele chegou com um segurança novo no local daquele que havia sido demitido. Miguel revirou os olhos, pois não aguentava mais o jeito que o Thiago tratava seus homens.

— ¡Vamos! — Exclamou Thiago. De repente, o celular de Miguel tocou e era sua mãe, rapidamente ele atendeu enquanto Thiago e os seguranças entravam o helicóptero.

— Miguel, es la Marta. Tuvo un accidente y ahora va al hospital. Tienes que ir allí ahora. (Miguel, é a Marta. Aconteceu um acidente e agora ela vai para o hospital. Precisa ir lá agora.) — Disse a mãe de Miguel. Ele ficou desesperado. Tentou sair dali e Thiago rapidamente andou até ele e o indagou:

— ¿Eh! A dónde vas? (Ei! Aonde vai?)

— Es mi hija, tuvo un accidente, me tengo que ir, por el amor de Dios. (É minha filha, aconteceu um acidente, eu tenho que ir, pelo amor de Deus.)

Thiago riu. Disse: — Tengo una reunión importante ahora. (Tenho uma reunião importante agora.)

— Pero señor, es mi hija. Por favor. (Mas senhor, é minha filha. Por favor.)

— Tu hija puede esperar, mi encuentro es más importante (Tua filha pode esperar, minha reunião é mais importante)

Ao Thiago dizer isso, o sangue subiu sua cabeça. Virou-se novamente para sair, e então os seguranças apontaram a arma para Miguel — no te atrevas a irte de aqui (Não ouse sair daqui) — exclamou Thiago. Miguel tinha uma arma também, virou-se rapidamente com ela em punho apontando para a cabeça de Thiago, que rapidamente levantou-se suas mãos.

— ¿Qué estás haciendo, Miguel? (O que está fazendo, Miguel?) — Indagou Thiago.

— Solo quiero ir con mi hija (Só quero ir até minha filha) — Disse Miguel.

— Si matas a un senador, serás un criminal nacional y hasta internacional. No quieres pasar el resto de tu vida en la carcel, correcto? (Se matar um senador, será um criminoso nacional e até internacional. Não quer passar o resto de tua vida na cadeia, certo?)

— No, no quiero. Perdón por eso. (Não, não quero. Perdão por isso.) — Disse Miguel, com lágrimas nos olhos. Então, abaixou a arma, e o senador disse ao seu segurança:

— Mátalo (Mate-o)

Neste instante, Miguel levantou o braço novamente e deu 2 tiros no senador, que caiu rapidamente no chão e morrendo logo em seguida. Os seguranças não reagiram, como se estivessem satisfeitos com o que o ocorrera. Percebendo a falta de reação dos seguranças, Miguel foi virando de fininho, com medo deles reagirem após isso. Desceu o prédio até o último andar e pegou o ônibus que se dirigia até o centro onde estava sua filha hospitalizada. Como estava transtornado e armado, as pessoas se assustaram, inclusive o motorista do ônibus, que deixou-o entrar sem hesitar muito.

Ao descer, correu para adentro do hospital e quando chegou lá a recepcionista se assustou ao vê-lo armado.

— ¿Donde estas mi hija? Marta su nombre. (Onde está minha filha? Marta o nome dela.)

— Oficina 6. (Consultório 6). — Disse a recepcionista assustada.

Miguel correu pelos corredores para evitar a segurança local e rapidamente chegou no consultório onde estava sua filha. Ela estava desacordada com os aparelhos sobre seu corpo. Bryan a abraçou ali mesmo e começou a chorar desesperadamente.

— Yo tengo que irme, mi hija, para siempre. (Eu tenho que ir, minha filha, para sempre.) — Disse ele, afastando-se. — Adíos. (Adeus.) — Ao dizer isso, saiu do consultório e os seguranças vinham logo em seguida correndo atrás dele. Miguel conseguiu sair do hospital e lá havia um carro logo na saída, parecendo que esperava por alguém.

Colocou a arma na cabeça do motorista e disse: — llévame a la frontera (me leve à fronteira)

O homem não pensou duas vezes e saiu dali rapidamente com Miguel no banco de trás.

A Ilha — O Presente (Porão da Casa de Ben)

O porão cheirava a terra úmida e mofo. Sob a luz fraca de uma lâmpada de filamento pendurada no teto, Ben Linus folheava a pasta preta que roubara da mochila de Miguel.

Hugo desceu as escadas com dificuldade, os degraus de madeira rangendo sob seu peso. Ele parou ao ver Ben sentado em um caixote, lendo os documentos com um sorriso de satisfação que Hugo conhecia bem demais — o sorriso de quem acabou de ganhar um jogo que ninguém mais sabia que estava jogando.

— O que é isso, dude? — perguntou Hugo, apontando para a pasta com o logo da Dharma.

— Isso? — Ben fechou a pasta, alisando a capa onde se lia PROJETO GÊNESIS. — Isso é o seguro de vida do nosso piloto, Bryan. Ou melhor, Miguel Cortez.

— Você roubou a mochila do cara? — Hugo balançou a cabeça. — Você não consegue ficar um dia sem cometer um crime, né?

— Eu não roubei, Hugo. Eu apenas recolhi os dividendos de um investimento. — Ben levantou-se, caminhando até o amigo. — Eu já sabia que Wilbert mandaria um infiltrado no navio. Eu esperava por isso.

— Como você sabia? Você tem uma bola de cristal agora?

— Melhor. Eu tenho estratégia. — Ben baixou o tom de voz, confidencial. — Você acha que foi coincidência um assassino procurado no México encontrar refúgio justamente na empresa secreta que quer invadir a nossa ilha?

Hugo franziu a testa, processando a informação. — Espera... você está dizendo que...

— Fui eu, Hugo. — Ben disse com simplicidade. — Quando Miguel matou aquele senador, ele estava desesperado. Eu usei meus contatos. Usei Desmond. Nós garantimos que a única porta de saída para ele fosse a Nova Dharma. Nós o empacotamos, demos uma nova identidade e o entregamos de presente para Wilbert.

— E ele sabe? — perguntou Hugo, chocado com a frieza do plano. — Miguel sabe que está trabalhando para você?

Ben riu, um som seco e curto. — Claro que não. Ele acha que é um espião esperto enganando a Widmore. Mas a verdade é que ele é o meu espião dentro da Dharma, mesmo sem saber. Ele me trouxe exatamente o que eu precisava: os planos de Wilbert, a lista de alvos, tudo.

— Você é assustador, cara. — Hugo deu um passo para trás. — Você manipulou a vida do cara inteira.

— Eu dei a ele um propósito. — Ben colocou a pasta debaixo do braço. — E agora, graças a ele, sabemos exatamente o que Wilbert DeGroot está planejando. O cavalo de Troia funcionou, Hugo. Agora, só precisamos garantir que o cavalo não perceba quem está segurando as rédeas

Fronteira México-EUA — Julho de 2027 (Horas após o assassinato)

O sol poente tingia o deserto de vermelho-sangue, uma cor apropriada para o dia que Miguel Cortez acabara de ter. Ele desceu do carro roubado em uma estrada de terra poeirenta, a poucos quilômetros da cerca que separava sua vida antiga da promessa de liberdade.

Sua respiração era irregular. O peso da arma no cós da calça parecia uma âncora. Ele havia matado um senador. Não havia volta.

Ele começou a caminhar em direção à passagem clandestina, mas parou. Uma figura estava encostada em um poste de cerca caído, bloqueando o caminho.

Era o segurança. Aquele que não reagiu. O homem que viu Miguel atirar em Thiago e não moveu um músculo. Ele estava lá, fumando um cigarro, como se estivesse esperando um ônibus, e não um fugitivo.

— Fala meu idioma? — perguntou o homem, em inglês claro.

Miguel sacou a arma num movimento fluido, apontando para o peito do homem. — Sim, falo. Veio terminar o serviço? Veio me matar?

O homem não se assustou. Ele tragou o cigarro e soltou a fumaça devagar. — Eu não quero te matar, Miguel. Se quisesse, você não teria saído daquele prédio. Estou aqui para te oferecer uma alternativa.

— Alternativa? — Miguel riu, nervoso. — Eu vou cruzar essa fronteira.

— Você não vai dar dez passos. — O homem apontou para o horizonte. — A Patrulha da Fronteira está em alerta máximo. Os federais mexicanos estão varrendo a área. Você matou um senador, Miguel. Eles não vão te prender; vão te executar no deserto e deixar os coiotes limparem os ossos.

Miguel olhou para a cerca. Ele sabia que era verdade. — Como você me encontrou?

— Não é difícil prever os passos de um homem desesperado que só tem uma saída. — O segurança jogou o cigarro no chão e o pisou. — Eu trabalho para pessoas que veem o tabuleiro inteiro, não apenas a próxima jogada.

— O que você quer de mim?

— Existe um homem chamado Wilbert DeGroot. Ele está montando uma expedição privada. Precisa de pilotos que não façam perguntas e que saibam atirar. — O segurança deu um passo à frente, ignorando a arma apontada para ele. — É uma ilha no Pacífico. Fora dos mapas. O lugar perfeito para um homem que precisa desaparecer da face da Terra.

— Por que está me ajudando? — A mão de Miguel tremia. — Eu sou um assassino.

— Exatamente. Você é um homem capaz de fazer o que é necessário. Você é... especial, Miguel. Mais do que imagina.

O homem tirou um envelope pardo do bolso interno da jaqueta e o estendeu. — Abaixe a arma. Pegue isso. É a sua vida.

Miguel hesitou, mas a lógica da sobrevivência falou mais alto. Ele baixou a pistola e pegou o envelope. Dentro, havia um passaporte americano azul, novo e nítido, uma passagem aérea e dinheiro.

Ele abriu o passaporte. A foto era dele, tirada de algum arquivo de segurança. O nome impresso era outro.

— Bryan Davis? — Miguel leu, incrédulo.

— Bryan Davis é um cidadão americano, piloto contratado, sem antecedentes criminais. — O segurança sorriu. — A partir de hoje, Miguel Cortez morreu junto com o Senador Thiago.

— Eu não sei se posso...

— Você não tem escolha. — O homem cortou, autoritário. — O voo sai de Tijuana em três horas. Wilbert DeGroot estará esperando por "Bryan". Não o decepcione.

Miguel olhou para o documento, depois para o deserto. Ele guardou a arma e o envelope. — Obrigado.

— Não me agradeça. Apenas vá. Enquanto ainda há tempo.

Miguel correu de volta para o carro, a poeira subindo enquanto ele acelerava rumo à sua nova identidade, sem saber que estava trocando uma prisão por outra.

O segurança observou o carro sumir na estrada. Ele pegou um telefone via satélite do bolso e discou um número seguro.

— Pronto? — A voz do outro lado atendeu no primeiro toque.

— O pacote foi entregue — relatou o segurança. — Ele mordeu a isca. A identidade de Bryan Davis está ativa. Ele está a caminho de Wilbert.

Do outro lado do mundo, no escritório escuro em Sydney, Desmond Hume segurava o telefone, um sorriso de alívio e triunfo cruzando seu rosto cansado.

— Excelente — respondeu Desmond. — Tudo ocorreu como planejado. Ben estava certo.

Ele desligou. O cavalo de Troia estava a caminho. A guerra pela Ilha tinha acabado de ganhar um novo jogador.

A Ilha — O Presente (Porão da Casa de Ben)

Hugo balançou a cabeça, olhando para Ben como se estivesse diante de uma criatura de outro mundo. A lâmpada única do porão projetava sombras longas no rosto do ex-líder dos Outros.

— Cara, você é surreal... — murmurou Hugo, passando a mão pelo cabelo. — Deixa ver se eu entendi. Você e o Desmond salvaram um assassino na fronteira, deram a ele uma identidade falsa e o enviaram para ser recrutado pelos nossos inimigos... tudo isso sem ele saber que estava trabalhando para a gente?

Ben fechou a pasta preta com um estalo suave, alisando a capa onde se lia PROJETO GÊNESIS. — O melhor espião é aquele que acredita que é leal, Hugo. Miguel não precisava atuar. Ele realmente acreditava que estava nos enganando. E foi essa sinceridade que convenceu Wilbert a confiar nele e a lhe entregar estes documentos.

— E agora? — Hugo apontou para o teto, indicando o alojamento masculino acima deles. — O cara está lá em cima. Ele vai perceber que a pasta sumiu.

— Eu conto com isso. — Ben levantou-se, apagando a luz do porão. — O medo é um motivador excelente. Quando ele perceber que foi descoberto, fará exatamente o que eu espero que faça.

— O que é?

Ben sorriu no escuro. — Ele vai correr, mas vou alcançá-lo e iremos descobrir onde Wilbert se esconde aqui na ilha.

Enquanto isso, no alojamento masculino,no quarto de cima, o ar parecia ter acabado.

Miguel revirou a mochila pela terceira vez, jogando roupas no chão, rasgando o forro com uma faca, desesperado. Nada. A pasta não estava lá.

Ele caiu sentado na cama, o suor frio escorrendo pelas costas. Suas mãos tremiam tanto que ele mal conseguia segurar a faca.

Ele sabia quem era Benjamin Linus. Wilbert lhe contara as histórias. Ben não era apenas um líder; era um executor. Se Ben tinha a pasta, ele sabia de tudo. Sabia sobre o assassinato do senador, sabia sobre a missão de Wilbert, sabia que Miguel era o traidor.

— Ele sabe... — Miguel sussurrou, o pânico fechando sua garganta. — Ele vai me matar.

Miguel olhou pela janela. O sol estava se pondo, tingindo a Vila da Dharma de laranja e roxo. Ele viu Clementine e Aaron conversando na varanda da casa em frente, alheios ao perigo. Viu os soldados de Roger rindo perto do refeitório.

Mas ele não viu Ben.

Isso foi o que mais o aterrorizou. Ben podia estar em qualquer lugar. Atrás da porta. Debaixo da cama. Esperando.

Miguel levantou-se num salto. Ele não podia ficar. Se ficasse, não amanheceria vivo. Ele precisava encontrar Wilbert. Precisava de proteção.

Ele agarrou a mochila, enfiou a faca no cinto e correu para a porta dos fundos. Saiu para o quintal, movendo-se pelas sombras das casas abandonadas, evitando a rua principal.

Seu coração batia tão forte que abafava o som dos insetos na selva. Ele pulou a cerca baixa de um jardim e correu em direção à linha das árvores, onde a floresta densa prometia esconderijo.

Miguel não olhou para trás. Ele correu como se o próprio diabo estivesse em seus calcanhares. E, de certa forma, estava.

Da janela do porão, ao nível do solo, Ben observou os coturnos de Miguel passarem correndo pela grama em direção à mata.

— Lá vai ele — disse Ben, calmo.

Hugo suspirou ao lado dele. — Você vai atrás dele?

— Ainda não. — Ben checou o relógio. — Vamos dar a ele uma vantagem. A caçada é mais divertida quando a presa acha que tem chance.

Ben virou-se e começou a subir as escadas, a pasta de documentos segura sob o braço, pronto para ler os segredos que seus inimigos trouxeram direto para a sua porta.