Lost: O Primeiro Herdeiro

6 LIVRO 1 — CAPÍTULO 06: O HOMEM QUE OUVIA OS MORTOS



O pequeno apartamento de Clementine parecia ter encolhido. A tensão no ar era tão espessa que dificultava a respiração. James Ford andava de um lado para o outro, uma fera enjaulada, enquanto Clementine permanecia sentada no braço do sofá, os braços cruzados e o olhar desafiador fixo no pai.

Aaron, Yan e Richard observavam em silêncio, testemunhas de uma guerra familiar prestes a eclodir.

— Você não tem a menor ideia do que está assinando, garota. — James parou, apontando o dedo para ela. Sua voz não era alta, mas vibrava com uma intensidade perigosa. — Isso não é um intercâmbio de verão. Não é uma aventura. É um matadouro.

— Eu sou adulta, pai. — Clementine sustentou o olhar, a voz fria e cortante. — E, caso você tenha esquecido, eu sou vacinada. Eu tomo minhas próprias decisões.

— Decisões idiotas! — James explodiu, chutando a mesa de centro. O barulho fez Yan pular. — Você acha que a Widmore é a fada madrinha? Eles mastigam pessoas e cospem os ossos. E aquele lugar... aquela ilha... ela não devolve o que pega.

— Você voltou. — Clementine retrucou.

James soltou uma risada amarga, sem humor. Ele se aproximou dela, o rosto contorcido por dores antigas. — Você acha que eu voltei? Olha para mim, Clementine. Olha para a minha vida. Eu morri naquele lugar. O que está na sua frente é só o que sobrou.

A frase pesou no ambiente. Aaron, sentindo que a situação estava saindo do controle, levantou-se. — James, por favor. Nós entendemos sua preocupação. Mas a Clementine tem o direito de escolher. Nós não vamos levá-la à força.

James girou nos calcanhares, fulminando Aaron com o olhar. — Cale a boca, garoto. Não pedi a opinião do escoteiro. Você não sabe onde está se metendo, e está tentando arrastar a minha filha junto.

Clementine levantou-se num salto, colocando-se entre Aaron e o pai. — Chega! Eu vou, pai. E você não pode me impedir.

James agarrou o braço da filha. O toque foi firme, desesperado. — Você não vai a lugar nenhum. Eu não vou deixar você cometer esse erro.

Clementine puxou o braço violentamente, livrando-se do aperto. Seus olhos marejaram de raiva e frustração. — Me solta! Eu larguei minha vida, vim para esse fim de mundo, para essa "roça" no Novo México, só para tentar te ajudar! Para tentar te salvar de você mesmo! E você me trata como se eu fosse uma criança incapaz?

— Eu estou tentando te salvar! — James gritou, a voz falhando.

— Eu não preciso ser salva por você! — Clementine gritou de volta. — Eu preciso de respostas. E se essa viagem é a única coisa que pode me dar isso, eu vou. Com ou sem a sua bênção.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. James olhou para a filha, vendo nela a mesma determinação teimosa que ele via no espelho todas as manhãs. Ele percebeu, com um gosto amargo na boca, que tinha perdido.

Ele recuou, erguendo as mãos em rendição, mas seus olhos estavam frios. — Ótimo. — A palavra saiu como um cuspe. — Você quer ir com eles? Vá. Jogue sua vida fora. Eu não vou mais impedir.

Ele deu as costas e caminhou para a janela, recusando-se a olhar para ela.

O clima na sala era insuportável. Richard, sempre pragmático, fez um sinal sutil para a porta. Yan, percebendo que Clementine estava tremendo, tocou levemente o ombro dela e apontou para o corredor.

Clementine pegou sua bolsa e saiu do apartamento sem dizer mais nada, as lágrimas de raiva escorrendo pelo rosto. Yan a seguiu imediatamente.

No corredor externo, o ar parecia mais leve, mas Clementine encostou-se na parede, tentando controlar a respiração.

— Ei... — Yan chamou, suavemente.

Clementine limpou o rosto com as costas da mão, fungando. — O que você quer? Eu já disse que vou. Só preciso... de um minuto.

— Eu sei. — Yan manteve uma distância respeitosa. — Seu pai... ele é intenso.

— "Intenso" é apelido. Ele é um furacão. — Clementine riu, um som triste. — Minha mãe sempre me disse para ficar longe dele. Disse que ele era um problema. Acho que ela tinha razão.

— Ele está com medo — observou Yan. — Medo real. Eu vejo isso nos olhos dos pacientes terminais. Ele acha que nunca mais vai te ver.

— Ele não precisa de mim. Ele precisa do passado dele. — Clementine ajeitou a bolsa no ombro, a postura endurecendo novamente. — Eu vou seguir meu rumo. Seja lá o que a Widmore quer, deve ser melhor do que ficar aqui assistindo ele se autodestruir.

Yan deu um passo à frente, capturando o olhar dela. — Não é só por isso que você vai, Clementine.

Ela franziu a testa. — Do que você está falando?

— Eu vi no seu rosto quando o Aaron falou da ilha. — Yan baixou a voz, como se compartilhasse um segredo. — É uma sensação, não é? Como se tivesse um ímã puxando a gente. Uma coceira no cérebro que diz que a gente não pertence a lugar nenhum.

Clementine ficou em silêncio, surpresa. Ele tinha descrito exatamente o que ela sentia há anos. — Você também sente isso?

— Sinto. Há algum tempo. — Yan sorriu, um sorriso cúmplice. — Eu acho que aquela ilha... ela deixa marcas. Mesmo em quem nunca pisou lá. É como uma herança genética ruim.

Clementine soltou o ar, relaxando os ombros pela primeira vez. — É loucura. Tudo o que você diz parece loucura. Mas... — Ela olhou para a porta fechada do apartamento, onde seu pai estava. — Mas, no fundo, eu sinto que é verdade.

Yan estendeu a mão, não num aperto formal, mas num convite. — Eu não sei o que vamos encontrar lá. Mas sei que precisamos ir. É o único jeito de fazer essa sensação parar.

Clementine olhou para a mão dele, depois para os olhos sinceros do enfermeiro. — Então vamos descobrir. — Ela apertou a mão dele. — Mas se for um esquema de pirâmide, eu mato vocês.

Yan riu. — Justo.

Hospital St Sebastian, Los Angeles – Abril de 2028

O turno da noite tinha um ritmo próprio, marcado pelo bipe rítmico dos monitores cardíacos e pelo zumbido das lâmpadas fluorescentes. Para Yan Tedros, aquele hospital era mais do que um local de trabalho; era um templo dedicado a um fantasma.

Ele ajustou o gotejamento do soro no quarto 304. Na cama, uma senhora de idade avançada, com cabelos brancos ralos e olhos que pareciam ver através das paredes, o observava.

— Pronto, Senhora Straume — disse Yan, forçando um sorriso profissional. — Isso deve ajudar com a dor.

— Você é um bom rapaz — murmurou ela, a voz fraca como papel amassado.

Yan suspirou, checando a prancheta. — Aposto que a senhora está contando os minutos para sair daqui.

— Eu desejaria que esta fosse minha última noite, filho. — Ela virou o rosto para a janela escura. — Estou cansada. Não quero voltar para aquele asilo. Lá é apenas um lugar onde esperamos o fim.

Yan parou. Havia uma tristeza naquela frase que ressoava com o vazio que ele mesmo sentia. — Eu entendo que seja difícil, senhora. Mas desistir não é a solução.

Lara riu, um som seco. Ela voltou os olhos para Yan, analisando-o com uma intensidade súbita. — Sabe... você parece estar seguindo o legado dele.

— Ele quem? — Yan perguntou, curioso.

— Jack — disse ela. Fez uma pausa dramática, como se testasse a reação do enfermeiro. — Jack Shephard.

O nome atingiu Yan como um choque elétrico. Ele endireitou a postura, o profissionalismo dando lugar a uma vulnerabilidade pessoal. — Obrigado. Isso... isso significa muito. Jack é uma inspiração para mim. Minha mãe foi casada com ele por um tempo.

— Eu soube. Eu ouvi histórias sobre ele. — Lara assentiu lentamente. — Ele a salvou daquele acidente trágico. Consertou a coluna dela quando ninguém mais acreditava. Ele é quase um santo venerado aqui neste hospital.

— Eu tento honrar o legado dele — confessou Yan, olhando para o próprio jaleco. — Mas às vezes sinto que estou apenas andando nos sapatos de um gigante. Eu não pertenço a este lugar como ele pertencia. Às vezes parece que estou aqui tentando tapar um vazio que minha mãe sente. Me sinto um substituto às vezes.

Lara sorriu enigmaticamente. — Talvez você pertença a outro lugar.

Yan sentiu um arrepio, mas olhou para o relógio para disfarçar. — Eu preciso ir, senhora Straume. Está na hora do meu descanso.

— Eu entendo. Mas você deveria ouvir o chamado. Ele te aguarda, Yan.

— O que disse? — Yan perguntou, sentindo algo estranho no ar.

— Nada. Desculpe. Bom descanso, Yan. — Disse Lara, desconversando.

— Para a senhora também. — Disse Yan saindo, mas estranhando a fala de Lara.

Yan saiu já estava do lado de fora, mas as palavras da velha ecoavam em sua mente. Ele caminhou pelos corredores vazios até a sala de descanso, sentindo-se um estranho em sua própria vida.

Parou em frente à máquina de venda automática no corredor deserto. Precisava de açúcar. Digitou o código para uma barra de chocolate da marca Apollo e observou a mola girar. O doce avançou, balançou na borda e parou. Preso.

— Droga — sussurrou Yan, batendo no vidro. A barra não se moveu.

Era a metáfora perfeita para sua vida. Quase lá, mas travado.

— Eu costumava ter um jeito para isso. — A voz veio das sombras atrás dele, calma e autoritária.

Yan congelou. Ele conhecia aquela voz. Sua mãe tinha gravações antigas de casamentos e festas. Ele ouvira aquela voz a vida inteira.

— É só dar uma batidinha no lugar certo — continuou a voz.

Yan virou-se lentamente.

No final do corredor, onde a luz falhava, havia um homem. Ele usava um terno preto, não o jaleco branco de médico, mas a postura era inconfundível. Ombros tensos, mãos nos bolsos, o olhar de quem carrega o mundo nas costas.

Era ele. Jack Shephard. O homem que morrera há mais de vinte anos.

— Quem está aí? — perguntou Yan, a voz falhando, o coração disparando contra as costelas.

O homem deu um passo à frente, saindo da penumbra. O rosto estava sereno, livre das preocupações que Yan vira nas fotos antigas de jornais.

— Olá, Yan — disse Jack.

Yan recuou até bater as costas na máquina de venda automática. A lógica gritava que era uma alucinação, o cansaço pregando peças. Mas a presença de Jack era sólida, real.

— Você... — Yan gaguejou. — Você está morto.

Jack sorriu, um sorriso triste e sábio. — Estou? Ou talvez você é que ainda não acordou?

Parque Universitário, Las Cruces, Novo México – Presente

No corredor, o silêncio entre Yan e Clementine era carregado de significados não ditos. Yan decidiu arriscar, abandonando a lógica e apelando para o inexplicável.

— Não é apenas sobre ir a um lugar, Clementine — disse ele, a voz baixa. — É sobre o que acontece quando fechamos os olhos. Você teve alguma experiência incomum recentemente? Sonhos que parecem reais demais? Visões de pessoas que não deveriam estar lá?

Clementine franziu a testa, a postura defensiva vacilando por um instante. — Desculpe, mas não estou entendendo aonde você quer chegar com esse papo de vidente.

— O que estou tentando dizer é que a ilha para onde estamos indo... ela não é apenas um pedaço de terra no oceano. Ela é complexa. Ela chama. — Yan deu um passo à frente, buscando os olhos dela. — Eu vi coisas. Coisas que a ciência não explica. E algo me diz que você também viu.

Clementine ficou em silêncio, desviando o olhar para o chão de concreto. A imagem de Aaron, estranhamente familiar, e os sonhos fragmentados que a assombravam à noite vieram à tona. Parecia loucura admitir em voz alta, mas havia uma verdade na voz daquele estranho que ressoava em seus ossos.

— Talvez... — murmurou ela, a desconfiança lutando contra a curiosidade. — Mas isso não significa que eu confie em vocês.

Enquanto isso, dentro do apartamento, a atmosfera era sufocante. James Ford estava afundado no sofá, uma mão cobrindo os olhos, como se tentasse bloquear a realidade. Aaron havia saído discretamente, deixando os dois veteranos da Ilha sozinhos.

Richard Alpert permanecia de pé, imóvel e paciente como o tempo.

— James, eu sei que você carrega cicatrizes que nunca fecharam — começou Richard, a voz suave. — Sabemos que os anos pós-ilha foram difíceis. Queremos ajudá-lo a colocar um ponto final nessa história.

James retirou a mão do rosto, revelando olhos vermelhos de cansaço e fúria contida. — Ajudar? Como? Enviando minha filha para aquele lugar maldito? É assim que a Widmore ajuda as pessoas agora?

— Ouça-me, James. Clementine não é apenas uma jovem brilhante. Ela é filha de um ex-candidato. Você... — Richard fez uma pausa, deixando a gravidade da palavra assentar. — Assim como Aaron e Yan. A Ilha tem uma memória longa. Mesmo que vocês tentem fugir, ela nunca desistirá da linhagem.

James soltou uma risada amarga, levantando-se num ímpeto. — Isso é um absurdo! O Hurley está lá, não está? Aquele gordo balofo e o psicopata do Ben Linus estão no comando. Eles que protejam aquela rocha! Por que precisam da minha filha agora?

— As coisas mudaram, meu amigo. O equilíbrio quebrou.

— Eu não me importo com o equilíbrio! — James gritou, a dor transbordando. — Você não entende o que está me pedindo? Eu já perdi tudo por causa daquele lugar. Perdi a Juliet... eu a vi morrer nos meus braços. Perdi a Kate. A Cassidy se foi. E agora... agora vocês querem que eu entregue a única coisa boa que me restou?

Ele parou diante de Richard, o peito arfando. — Vocês querem que eu sacrifique minha filha.

— Nós prometemos que ela voltará sã e salva — disse Richard, mantendo o contato visual, inabalável. — Ela é a única que pode ajudar a entender a anomalia que ameaça a todos nós. Se não fizermos nada, James, o perigo virá até ela de qualquer maneira.

James olhou para a porta, por onde Clementine havia saído. Ele conhecia aquele olhar nos olhos dela. Era o mesmo olhar que ele via no espelho. Ela era teimosa, curiosa e destemida. Ela iria, com ou sem a permissão dele.

A derrota abateu-se sobre James, pesada e final.

— A decisão é dela — murmurou ele, a voz rouca. — Ela é adulta. Se ela quiser ir... eu não vou mais ficar no caminho.

Ele deu as costas para Richard, caminhando em direção à janela para esconder a emoção. — Agora, saia da casa da minha filha. Levem-na antes que eu mude de ideia.

— Obrigado, James — disse Richard, com genuíno respeito.

Richard caminhou até a porta, mas parou com a mão na maçaneta. Havia uma ponta solta que ele precisava verificar. — Só mais uma coisa... O que aconteceu entre você e a Kate?

James tencionou. A menção ao nome dela foi como sal em uma ferida aberta. Ele não se virou. — Eu já disse para sair.

Richard assentiu, entendendo o recado, e saiu silenciosamente, deixando James sozinho com seus fantasmas e a certeza terrível de que o passado nunca fica para trás.

Hospital St. Sebastian, Los Angeles – Abril de 2028

A luz fluorescente do corredor do hospital piscava, criando sombras que dançavam nas paredes. Yan Tedros estava exausto, mas a figura parada diante da máquina de doces fez sua adrenalina disparar.

— Você não está aqui de verdade. — A voz de Yan tremia, ecoando no corredor vazio. — Você está morto. Minha mãe foi ao seu enterro simbólico.

Jack Shephard sorriu. Não era um sorriso ameaçador, mas carregado de uma tristeza profunda. — Eu realmente não estou aqui, Yan. Pelo menos, não do jeito que você pensa.

— O que? Então estou tendo um surto psicótico? Ou isso é um sonho? — Yan recuou, as costas batendo contra a parede fria.

— Não, Yan. Isso não é um sonho. É um chamado. — Jack deu um passo à frente, e o som de seus sapatos no linóleo foi abafado pelo ruído do vento. — Preciso que você me encontre.

— Te encontrar? Você está morto!

De repente, o cheiro de antisséptico do hospital foi substituído pelo odor de terra molhada e maresia. As paredes brancas se dissolveram em rocha escura. Yan não estava mais no St. Sebastian; estava em uma caverna úmida, iluminada apenas por feixes de luz que entravam por frestas no teto.

Diante dele, repousava um caixão de madeira, quebrado e vazio.

— O que é isso? — Yan gritou, girando o corpo, o pânico tomando conta.

Jack reapareceu atrás dele, a voz agora sussurrada diretamente em seu ouvido, urgente e real. — A ilha não acabou com a gente, Yan. Preciso que me encontre.

— Isso não está acontecendo! — Yan fechou os olhos com força, cobrindo os ouvidos com as mãos. — Um, dois, três... — Ele começou a contar, tentando se ancorar na realidade, enquanto a voz de Jack repetia o mantra: "Encontre-me".

— ...dez!

Yan abriu os olhos. O silêncio do hospital retornou. Ele estava sozinho no corredor, suando frio, o coração martelando contra as costelas como se quisesse fugir.

O dia seguinte foi um borrão. Yan não havia descansado. Estava agindo no piloto automático, atendendo pacientes, mas sua mente estava presa na caverna. Ele olhava para os cantos escuros, esperando ver Jack novamente.

— Tudo bem, Yan? — Uma enfermeira tocou seu braço no posto de enfermagem.

Ele estremeceu. — Estou bem. Obrigado. — Ele forçou um sorriso.

Precisava se distrair. Pegou uma bolsa de sangue e dirigiu-se ao quarto 304. Ao entrar, encontrou a Sra. Straume dormindo, mas ela não estava sozinha. Um homem de meia-idade, com cabelos grisalhos e uma jaqueta de couro surrada, estava sentado na poltrona, de costas para a porta.

— Desculpe, senhor — disse Yan, profissional. — Não é hora de visitas.

O homem com feições asiáticas assim como a senhora no leito levantou-se devagar e virou-se. Tinha olheiras profundas e um olhar cínico de quem já viu coisas demais.

— Oi. Foi mal. Sou filho dela — disse Miles, sem muita emoção.

— Perdão, não sabia que a Lara tinha família na cidade. Está de acompanhante?

— Cheguei ontem. Desculpe entrar sem avisar, mas... é minha mãe, né? — Miles deu de ombros. — Não consigo ficar longe dela quando as coisas apertam.

— Eu entendo. — Yan sorriu, aproximando-se para verificar o acesso venoso da paciente.

— Sou Miles. — Disse o homem.

No momento em que Yan invadiu o espaço pessoal de Miles, o visitante recuou bruscamente, como se tivesse levado um choque elétrico. Miles franziu o nariz, olhando para Yan com uma mistura de repulsa e fascínio.

— Está tudo bem? — perguntou Yan, parando o procedimento.

Miles o encarou por longos segundos, analisando-o. — Você... — Miles balançou a cabeça. — Esquece o papo furado. Eu não estou aqui só pela minha mãe. Estou aqui por causa da ilha.

Yan congelou. A palavra "ilha" ativou o mesmo medo da noite anterior. — Como assim? Que ilha?

— Não se faça de idiota. Você sabe exatamente do que estou falando. Eu vejo na sua cara que você já foi "visitado".

— Eu não sei do que o senhor está falando. — Yan tentou manter a postura, mas suas mãos tremiam.

— Sei. — Miles pegou um guardanapo de papel do criado-mudo e rabiscou um endereço. — Olha, garoto, se quiser entender por que você está vendo gente morta, me encontre neste endereço na hora do almoço. E vá sozinho.

Miles amassou o papel na mão de Yan e saiu do quarto sem olhar para trás.

Na cama, Lara Straume abriu os olhos. Ela estava acordada o tempo todo. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto. Ela sabia para quem seu filho trabalhava, e sabia que, se ele estava ali falando sobre a ilha, o passado da Dharma nunca a deixaria em paz.

A lanchonete era um lugar barato e barulhento, perfeito para conversas que não deveriam ser ouvidas. Yan sentou-se de frente para Miles, que devorava um hambúrguer com uma voracidade suspeita.

— Então... Jack Shephard está morto — disse Yan, indo direto ao ponto.

— Morto é uma palavra complicada quando se trata daquele lugar — respondeu Miles, limpando a boca. — Mas sim. Ele ficou para trás quando saímos da ilha.

— Por que você me procurou? Como você sabe sobre ele?

Miles inclinou-se sobre a mesa, baixando o tom de voz. — Eu tenho um... dom. Ou uma maldição, depende do dia. Eu falo com os mortos. Ou melhor, eles falam comigo. Mas eu preciso de um condutor. Algo que pertencia a eles no momento final.

Yan olhou para Miles com ceticismo. — Você é um médium?

— Não sou vidente de parque de diversões. Eu sinto a "frequência" deles, cara. — Miles apontou com o queixo para o peito de Yan. — E você, meu amigo, está brilhando como uma antena de rádio. Eu senti a presença do Jack em você assim que você entrou no quarto.

— Mas Jack morreu. Como você sentiu a presença dele aqui?

— O jaleco — disse Miles, simplesmente.

Yan olhou para o próprio uniforme. Ele usava um jaleco branco antigo por baixo do uniforme do hospital, uma peça que sua mãe lhe dera quando ele se formou. — O quê?

— Esse jaleco por baixo. Era dele, não era? A sua mãe guardou.

Yan ficou pálido. — Sim... foi um presente dela. Ela disse que daria sorte.

— Deu sorte de atrair fantasmas, isso sim. — Miles recostou-se. — Escuta, garoto. Eu não estou aqui para te dar uma aula de espiritismo. Estou aqui para te dar um aviso.

— Que aviso?

— Aquela ilha... ela é uma armadilha. É perigosa. É um beco sem saída. — Miles fixou o olhar em Yan, sua expressão séria, mas com um brilho calculista. — Eles virão atrás de você. Eles estão montando uma nova expedição. Vão te dizer que é para salvar o mundo, ou descobrir a verdade sobre o Jack.

— Quem virá atrás de mim? Sou apenas um enfermeiro.

Miles soltou uma risada curta e cruel. — Você é muito ingênuo. Quem você acha que pagou sua faculdade na Columbia? Quem você acha que garantiu sua residência neste hospital? A fada madrinha?

— Foi uma bolsa... uma doação do instituto Shephard.

— Não seja idiota. — Miles bateu na mesa. — Foram eles. Eles estão te monitorando desde que você era adolescente. Eles "investiram" em você. E agora, vão querer o retorno do investimento.

Yan sentiu o mundo girar. Tudo o que ele conquistara parecia, de repente, fabricado. — Por que?

— Porque você é um dos prêmios, Yan. — Miles levantou-se, jogando dinheiro na mesa. — Mas escute meu conselho: não vá. Fique aqui, cuide dos seus pacientes, viva sua vida medíocre. Se você pisar naquele lugar, não tem volta.

Miles saiu da lanchonete, deixando Yan atordoado, com a sensação de que sua vida inteira fora uma mentira e que a única verdade estava em um lugar que ele fora avisado para evitar. E, como Miles sabia, não há melhor maneira de fazer alguém ir a um lugar do que dizer que é proibido.

Do lado de fora, encostado em um carro alugado, Frank Lapidus esperava, mastigando um palito de dente.

— Ele mordeu a isca? — perguntou Frank.

Miles entrou no carro, o cinismo voltando ao rosto. — Ele está confuso, assustado e questionando tudo. Exatamente como queríamos.

— Você disse para ele não ir? — Frank ligou o motor.

— Disse. Com todas as letras. — Miles sorriu de canto. — O que significa que ele vai estar no primeiro avião que a Widmore oferecer. A psicologia reversa funciona sempre com quem tem "problemas paternos".

— Você é um desgraçado, Miles — comentou Frank, balançando a cabeça.

— Eu só estou garantindo meu pagamento, Frank. Vamos embora.

Os dois partiram, enquanto Yan observava através da vitrine, tomando a decisão que selaria seu destino.

Parque Universitário, Las Cruces, Novo México – Presente

No pátio de concreto do prédio, o vento levantava poeira. Aaron caminhou até onde Yan e Clementine estavam, sentindo-se como um intruso em um funeral.

— Ele vai ceder — disse Aaron, tentando soar otimista, embora a lembrança da arma de James dissesse o contrário.

Clementine virou-se para ele. Seus olhos estavam secos agora, mas brilhavam com uma acusação fria. — O meu pai disse que a Widmore pagou a minha faculdade em Oxford. Inteira. Faz sentido, porque viviam me monitorando e ainda tem aquela coisa.

Aaron piscou, pego de surpresa. — O quê? Eu... eu não sabia disso.

— Não se faça de idiota, Aaron — cortou Yan, a voz dura. — Um cara no hospital, um tal do Miles... ele me disse a mesma coisa. A Widmore pagou minha residência. Eles compraram a nossa vida. Você é o "líder" da missão. Me diga que você sabia.

— Eu juro que não sabia. — Aaron ergueu as mãos, defensivo. — Eu sou apenas um assistente administrativo em Sydney. Eu caí de paraquedas nisso tanto quanto vocês.

— Então por que estamos aqui? — Clementine cruzou os braços. — Por que três estranhos, com vidas pagas pela mesma empresa, estão sendo arrastados para o meio do oceano?

Yan olhou para Clementine, depois para Aaron. A raiva em seu rosto suavizou, dando lugar a algo mais profundo e inquietante. — Eu disse a ela, Aaron. Sobre os sonhos. Sobre a sensação de que nada disso é real.

Aaron sentiu um arrepio. — Vocês... vocês também veem coisas?

— Eu tenho flashs — confessou Clementine, a voz baixando. — Lugares que eu nunca fui. Pessoas que eu nunca vi. E quando o Yan falou da Ilha... meu estômago embrulhou. Não de medo, mas de... reconhecimento.

— Eu também — admitiu Aaron. — Eu vejo números. Vejo uma escotilha.

— Eu vejo o Jack, Aaron... — sussurrou Yan. — E ele me pede para encontrá-lo.

Os três ficaram em silêncio, unidos por uma loucura compartilhada. Não eram apenas funcionários recrutados; eram assombrados pela mesma fantasmagoria.

— Eu não sei o que é isso — disse Yan, olhando para os dois. — Mas quando vocês apareceram... eu sabia que ia acontecer. Eu estava esperando.

— Eu também — concordou Clementine.

— Então para que o teatro? — Aaron perguntou, a frustração voltando. — Se todos nós sentimos o chamado, por que a Widmore não nos mandou passagens direto para Sydney? Por que nos fazer rastejar até aqui?

— Porque precisávamos saber se vocês eram fortes o suficiente para caminhar quando as coisas ficassem difíceis.

A voz veio de trás de uma coluna. Richard Alpert emergiu das sombras, impecável como sempre, como se a poeira do deserto não ousasse tocar seu terno.

Aaron girou, irritado. — Você estava ouvindo? Isso tudo foi um teste?

— Foi um teste de capacitação, Aaron — respondeu Richard, calmamente. — A missão para onde vamos não aceita turistas. Precisávamos saber quão fundo vocês iriam. Se desistiriam no primeiro obstáculo ou se a conexão com a Ilha falaria mais alto.

— Vocês nos manipularam — acusou Clementine. — Pagaram nossas vidas para nos cobrarem agora.

— Nós investimos em prodígios — corrigiu Richard, olhando para cada um deles com um brilho de aprovação. — E o investimento maturou. Vocês provaram que estão prontos.

— Prontos para quê? — Clementine deu um passo à frente, desafiadora. — Já sabemos que todos aqui têm alguma conexão bizarra com aquela ilha. O que mais vocês estão escondendo?

— Clementine, entenda uma coisa — Richard disse, a voz perdendo a suavidade corporativa e ganhando um tom ancestral. — Temos algo muito importante para fazer. Algo que vai além de "pagar por estudos". É tudo o que posso dizer por enquanto.

Clementine sustentou o olhar dele por um longo momento, tentando ler o homem que parecia não ter idade. Por fim, ela bufou e cruzou os braços. — E quanto ao meu pai? Ele finalmente topou?

— Não se preocupe — disse Richard, olhando para a janela do quarto andar. — James sabe da sua capacidade. E ele sabe que não pode parar a maré.

Richard verificou o relógio de pulso. — Descansem. Amanhã partimos para Seul. É nossa última parada.

— Seul? — Aaron estranhou. — Quem está na Coreia?

— A última peça do tabuleiro. Lá nos encontraremos com Desmond e seu filho. — respondeu Richard, enigmático.

Clementine e Aaron trocaram um olhar exausto e começaram a caminhar em direção ao uber que Richard havia pedido. Yan, porém, permaneceu estático sob a luz amarela e falha do poste. Richard fez menção de segui-los, mas parou quando percebeu que o rapaz não se moveria.

— Algum problema, Yan? — Richard perguntou, o tom de voz equilibrado entre a preocupação de um mentor e a eficiência de um recrutador.

Yan virou-se lentamente. Seus punhos estavam cerrados ao lado do corpo. — "Investimento maturou"... Foi o que você disse. — Yan soltou uma risada amarga, sem qualquer humor. — Minha mãe me disse a vida inteira que eu tinha um dom. Que eu tinha mãos de cirurgião, que eu era o reflexo de um grande homem. Ela me empurrou para cada aula, cada plantão, cada livro de anatomia como se a minha vida fosse um roteiro que ela já tinha lido.

Richard manteve-se imóvel, as mãos cruzadas atrás das costas. — Sarah apenas queria o melhor para o seu futuro, Yan. Ela sabia do seu potencial técnico.

— Não minta para mim! — Yan explodiu, a voz ecoando no pátio deserto. — Ela não queria um filho médico! Ela queria ressuscitar um fantasma! E agora eu descubro que cada dólar que me manteve na faculdade veio de um fundo da Widmore. Eu não sou um cirurgião, Richard. Sou um enfermeiro. Eu sou uma propriedade de vocês. Por isso, abandonei a faculdade de medicina a tempo.

— Você está sendo emocional — Richard disse, sua voz mantendo um pragmatismo quase irritante. — A ciência não se importa com quem paga a conta, desde que o resultado seja a excelência. E você é excelente. Se quer respostas sobre por que sua mãe aceitou nosso patrocínio, ou sobre essas visões que o assombram... elas não estão em um hospital em Londres. Estão naquela ilha. É uma missão científica de reconhecimento magnético, mas para você, pode ser o fim das dúvidas.

Yan deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Richard. — Eu passei a vida ouvindo o que eu deveria ser. Ouvindo que meu caminho já estava traçado por um homem que morreu antes de eu nascer. — Yan apontou o dedo para o peito de Richard. — Escute bem o que vou te dizer, porque vale para você, para a Widmore e para o fantasma do Jack Shepard: Eu não vou herdar o destino de ninguém. Eu traço meu próprio caminho.

Richard sustentou o olhar azul e furioso de Yan. Por um segundo, houve um brilho de reconhecimento nos olhos do conselheiro — não um brilho místico, mas a constatação de que a vontade de Yan era tão inquebrável quanto a do homem que ele tentava negar.

— Uma frase forte — Richard comentou, com uma calma imperturbável. — Mas para provar que ela é verdadeira, você terá que caminhar até o fim desta estrada. A Ilha tem uma forma peculiar de mostrar às pessoas quem elas realmente são, para além das expectativas alheias. Se você quer ser dono da sua vontade, Yan, precisa primeiro entender o que te trouxe até aqui.

Yan respirou fundo, tentando controlar o tremor nas mãos. Ele não engoliu a conversa de Richard, mas o desafio estava lançado. Se aquela ilha era o lugar onde sua mãe e a Widmore acreditavam que ele cumpriria um papel, seria lá o lugar onde ele provaria que não era um fantoche.

— Eu vou — disse Yan, a voz agora fria e decidida. — Mas não vou para encontrar o Jack. Vou para enterrá-lo de vez.

Richard apenas assentiu apontando para o uber que o aguardava. — Esteja pronto às seis.

Enquanto Yan se afastava, Richard permaneceu no pátio por um momento. Ele não usou poderes, não olhou para o céu em busca de sinais. Apenas ajustou o punho da camisa, sentindo o peso das décadas. Ele já vira aquela rebeldia antes. Ele sabia que, na Ilha, as frases icônicas costumam ser testadas pelo sangue.

Lá em cima, no apartamento silencioso, James Ford estava sentado no sofá. A garrafa de cerveja estava quente em sua mão, intocada. Ele ouvia o som do motor do carro de Richard se afastando, levando sua filha para longe.

A sensação de impotência era um gosto metálico em sua boca. Ele havia lutado contra ursos polares, contra a fumaça negra, contra mercenários e viajantes do tempo. Mas não conseguira lutar contra o destino de sua filha. A Widmore venceu. A Ilha venceu.

Com um rugido de fúria pura, James levantou-se e arremessou a garrafa contra a parede. O vidro explodiu, espalhando cacos e espuma sobre retratos e móveis na sala. Ele agarrou a mesa de centro e a virou, chutou a cadeira, destruindo a sala que era seu refúgio.

— Desgraçados! — gritou ele para o teto vazio, caindo de joelhos no meio dos destroços. — Desgraçados...

Ele estava sozinho novamente. E, pela primeira vez em anos, James Ford sentiu medo. Não por ele, mas pelo que estava por vir.

Hospital St. Sebastian, Los Angeles – Abril de 2028

O quarto 304 estava mergulhado na penumbra da madrugada. Lara Straume estava deitada, os olhos fixos na porta, como se esperasse a morte chegar a qualquer momento. E ela chegou, mas não vestindo um manto negro.

A porta se abriu silenciosamente. Frank Lapidus entrou, fechando-a atrás de si com cuidado excessivo. Ele não parecia o piloto relaxado de sempre; seu rosto estava tenso, suando frio.

— Olá, Sra. Straume. — A voz de Frank saiu rouca, quase um pedido de desculpas.

Lara endireitou-se na cama, o medo apertando sua garganta. — Frank? O que você faz aqui? Onde está o Miles?

— Ele... ele está ocupado. — Frank não conseguia olhar nos olhos dela. — Sinto muito, Lara. Eu não queria que fosse assim. Mas eles me obrigaram.

— Eles quem?

— Nós.

A voz veio de trás de Frank, fria e polida como aço cirúrgico.

Wilbert DeGroot entrou no quarto. Ele vestia um sobretudo cinza impecável, e sua postura era de quem entrava em uma sala de reuniões, não em um quarto de hospital. Ele caminhou até a cama com passos lentos e medidos, o som de seus sapatos ecoando como marteladas no silêncio.

Lara recuou contra os travesseiros, o monitor cardíaco começando a bipar mais rápido. Ela reconhecia aquele rosto. Era o rosto dos fundadores.

— Namastê, Lara. — Wilbert juntou as mãos em uma saudação zombeteira. — Ou devo chamá-la de Dra. Chang? Faz muito tempo.

— Wilbert... — O nome saiu como um suspiro aterrorizado.

— Vejo que se lembra de mim. — Wilbert sorriu, mas seus olhos permaneceram mortos. — Seu filho tem sido muito útil para a causa. Miles é talentoso. Uma pena que ele tenha herdado a covardia do pai... e a traição da mãe.

— O que você quer? — Lara tentou ser forte, mas sua voz tremeu. — Onde está meu filho?

— Ele está seguro. Trabalhando para a Dharma, como deveria ter sido desde o início. — Wilbert aproximou-se, invadindo o espaço pessoal dela. — Pierre Chang arruinou tudo, Lara. Ele permitiu que aqueles selvagens destruíssem o trabalho de uma vida. E você... você fugiu da ilha. Você se escondeu.

— A Dharma acabou! — Lara gritou, o desespero tomando conta. — Ben desativou a última estação em Guam. E Alvar Hanso morreu há alguns anos. Duvido que sua filha herdaria seus fantasmas.

Wilbert riu, um som baixo e perturbador. — A morte é apenas um contratempo para homens como Alvar Hanso. Ele sabe que você está viva, Lara. E ele não gosta de pontas soltas.

— Você é louco. — Lara olhou para Frank, buscando ajuda. — Frank, por favor! Não deixe ele fazer nada comigo.

Frank desviou o olhar, a vergonha queimando seu rosto. — Sinto muito, Lara.

Wilbert tirou uma seringa do bolso interno do casaco. O líquido dentro era transparente, inócuo à primeira vista, mas Lara sabia o que significava.

— Mentes brilhantes como a sua são perigosas, Lara. — Wilbert injetou o conteúdo diretamente na bolsa de soro, com a precisão de um carrasco. — Elas lembram. E a Dharma precisa que o mundo esqueça.

O líquido desceu pelo tubo. Lara tentou arrancar o acesso venoso, mas Wilbert segurou seu pulso com uma força surpreendente.

— Shhh. — Ele a imobilizou, observando a vida se esvair. — Aceite o destino. É pelo bem maior.

Lara arquejou, o ar faltando, os olhos arregalados de terror fixos no rosto do filho dos seus antigos chefes. O monitor cardíaco disparou um alarme agudo, e então, silenciou em uma linha contínua.

O som do bipe constante preencheu o quarto.

— Deus... — A voz de Frank falhou. Ele olhou para o corpo sem vida da mulher que conhecia há anos. — Sinto muito, Miles...

Wilbert soltou o pulso de Lara, ajeitando o punho da camisa. Ele tocou o ombro de Frank, um gesto de camaradagem que fez o piloto estremecer.

— Não sinta. Você fez o que era necessário. — Wilbert virou-se para a porta. — Vamos. A lista é longa. Não vou descansar enquanto não expurgar cada traidor que ajudou na Queda.

Wilbert saiu, caminhando pelos corredores do hospital como um anjo da morte invisível, sussurrando promessas de vingança para as paredes brancas. Frank ficou para trás por um segundo, olhando uma última vez para Lara, antes de fechar a porta e selar o destino dela.

Horas depois, o sol da manhã iluminava o corredor quando Yan Tedros chegou para o seu turno. Ele caminhava apressado, a conversa com Miles na lanchonete ainda ecoando em sua mente. Você é um candidato. Não vá.

Ele precisava checar a Sra. Straume. Talvez ela soubesse mais.

Yan abriu a porta do quarto 304 com um sorriso ensaiado. — Bom dia, Sra. Strau...

O sorriso morreu.

A cama estava desarrumada. O corpo de Lara Straume jazia imóvel, frio, com os olhos abertos fixos no teto, congelados em uma expressão de pavor absoluto.

— Não... — Yan correu até ela, checando o pulso, o pescoço, qualquer sinal. Nada. Ela estava morta há horas.

Ele apertou o botão de emergência, gritando para o corredor. — Código Azul! Alguém me ajude aqui!

A equipe médica invadiu o quarto, mas Yan recuou para o canto, atordoado. Ele olhou para a bolsa de soro vazia. Olhou para o rosto da mulher que, na noite anterior, lhe dissera que ele pertencia a outro lugar.

Um médico residente se aproximou, checando os sinais vitais e balançando a cabeça. — Parada cardíaca massiva. Ela se foi, Yan.

— O que houve aqui? — Yan perguntou, a voz sumindo. — Ela estava estável. Ela estava conversando comigo!

Ninguém respondeu. Era apenas mais uma morte num hospital cheio delas. Mas Yan sabia. Ele sentia o peso no ar, a mesma sensação que teve ao ver Jack no corredor.

Aquilo não foi natural.

Ele saiu do quarto, trêmulo. A morte de Lara Straume não foi um acidente. Foi um aviso. E se ele ficasse ali, naquele hospital, cercado de fantasmas e segredos... ele seria o próximo.

Notas finais
Por favor, ao ler, comente, siga e favorite. Ajuda muito. Qualquer dúvida pode perguntar nos comentários. Próximo capítulo: 02/05/2023 às 09:30