Lost: O Primeiro Herdeiro
7 LIVRO 1 — CAPÍTULO 07: VARIÁVEIS E CONSTANTES
Albuquerque, Novo México — 2025
O calor seco do deserto parecia sufocar a cidade, mesmo com o sol já baixo no horizonte. Dentro de um bar de beira de estrada, com o ar-condicionado zumbindo em um esforço hercúleo, Penelope Widmore girava o gelo em seu copo de uísque. Ela parecia deslocada ali — suas roupas eram simples, mas a postura e o olhar denunciavam alguém acostumada a dar ordens, não a esperar em sombras.
Ao seu lado, Richard Alpert observava a rua através das persianas empoeiradas. Ele não envelhecia da maneira tradicional, mas o peso em seus olhos sugeria séculos de cansaço.
— Ainda acho que isso é um erro, Penny — murmurou Richard, sem desviar o olhar da janela. — Estarmos aqui, pessoalmente... é exposição demais.
Penelope suspirou, largando o copo. — Eu não confio em mensageiros para isso, Richard. Não quando se trata de convencer uma mãe a entregar sua filha para a Ilha.
— Você fala como se fôssemos vilões. — Richard virou-se para ela, a expressão séria. — Você sabe o que está em jogo. A Ilha precisa ser protegida. Já passei tempo suficiente lá para saber que, se o equilíbrio quebrar, o que acontece lá não fica lá. É pela paz mundial, por mais clichê que isso soe.
Penelope soltou uma risada curta e sem humor. — Não tente me vender a ideologia do meu pai, Richard. Eu não estou aqui pela "paz mundial".
— Então por que está aqui? — Richard indagou, embora já soubesse a resposta.
— Porque Hugo disse que essa é a única maneira. — A voz de Penelope falhou por um segundo, revelando a vulnerabilidade por trás da armadura. — Se essa missão for a chave para libertar Desmond daquele lugar... para que ele possa finalmente ver o nosso filho crescer... eu farei o que for preciso. Eu queimaria o mundo para trazê-lo de volta.
Richard assentiu, respeitando a determinação dela. — Mesmo sabendo que Wilbert DeGroot está se movendo nas sombras? Ele é perigoso, Penny. Ele quer o controle tanto quanto nós queremos a proteção.
— Não me importo com Wilbert. Se ele entrar no meu caminho, eu passo por cima dele. — A determinação nos olhos de Penelope era assustadora.
Richard voltou a olhar para a rua. Seu corpo ficou tenso. — Aí está ela.
Penelope seguiu o olhar dele. Do outro lado da rua, caminhando apressada pela calçada quente, estava uma mulher de meia-idade. Usava óculos escuros grandes e um lenço na cabeça, tentando passar despercebida, mas falhando miseravelmente aos olhos treinados de quem a caçava.
— Cassidy Phillips — sussurrou Penelope.
— A mãe da garota. — Richard levantou-se, deixando uma nota de dinheiro sobre a mesa. — Tem certeza de que quer fazer isso? Ainda dá tempo de recuar e mandar um agente.
Penelope levantou-se, ajeitando a jaqueta. — Eu não fui feita para ficar sentada em escritórios, Richard. Vamos terminar isso.
Os dois saíram do bar, o calor do deserto batendo em seus rostos. Eles mantiveram uma distância segura, seguindo Cassidy pelas ruas residenciais de Albuquerque. A mulher olhava para trás ocasionalmente, a paranoia de quem viveu anos fugindo de um passado com um golpista.
— Ela está indo para casa — observou Richard, mantendo-se nas sombras de um muro. — Pelo menos sabemos onde encontrá-la.
— Vamos esperar ela entrar — disse Penelope. — E Richard? Fique atento. Tenho a sensação de que não somos os únicos observando essa família.
Aeroporto internacional do Novo México, Alburquerque – Presente
O terminal internacional zumbia com a cacofonia habitual de despedidas e chamadas de embarque. Aaron ajustou a alça da mochila, observando o painel de voos. Seul era a próxima parada. A última antes do fim do mundo — ou do começo dele.
— Parece que estamos invisíveis. Tudo indo conforme o planejado. — comentou Aaron, permitindo-se um breve momento de otimismo.
Ao seu lado, Richard Alpert não relaxou. Seus olhos escuros varriam o mezanino e as colunas de concreto com a paranoia de quem sobreviveu a mais guerras do que a história registrou.
— Não se iluda, Aaron. A calmaria é sempre o prelúdio da tempestade. Ji Yeon Kwon não vai facilitar. Ela é o nosso maior desafio, e chegar até ela sem ser notado... — Richard parou, seus olhos fixando-se em um ponto cego atrás de uma pilastra.
Clementine estava ao lado de Yan, discutindo baixinho sobre as implicações físicas de uma anomalia magnética, quando o mundo se partiu.
Não houve aviso. Apenas o som seco e brutal de um disparo que rasgou o ar condicionado do aeroporto.
Richard arquejou, o corpo sendo jogado para frente violentamente. O sangue espirrou no chão de mármore polido antes mesmo que o som do tiro registrasse nos ouvidos de Clementine.
— Merda! Abaixem-se! — rugiu Roger.
O instinto militar assumiu o controle. Roger sacou sua arma com uma fluidez assustadora e abriu fogo contra dois homens de terno que avançavam pela multidão, indiferentes aos gritos dos civis.
O aeroporto virou um caos. Malas foram abandonadas, crianças choravam, e a multidão se tornou uma onda de pânico, correndo em todas as direções. Clementine ficou paralisada. Seus livros, suas teorias sobre tempo e espaço... nada a preparara para o cheiro metálico de sangue e pólvora.
— Clementine, move-se! — Yan a agarrou pelo braço, arrastando-a para trás de uma coluna de concreto.
Aaron se jogou ao lado de Richard. O homem que parecia imortal estava no chão, pálido, a mão pressionando um ferimento no ombro que sangrava profusamente.
— Eles estão flanqueando! — gritou Roger, trocando tiros com uma precisão letal, mas eram muitos. — A saída de serviço! Agora!
Aaron tentou levantar Richard. — Vamos, Richard! Apoie-se em mim!
Richard tentou se erguer, mas suas pernas falharam. Antes que Aaron pudesse firmá-lo, um segundo disparo atingiu Richard no peito. O impacto foi devastador. Ele caiu de costas, o ar saindo de seus pulmões em um suspiro gorgolejante.
— Richard! — gritou Aaron, o horror tomando conta de sua voz.
— Vão... — Richard tossiu sangue, manchando sua camisa branca impecável. — Vocês precisam sair daqui. Agora.
— Não! Não vamos deixar você! — Aaron insistiu, as lágrimas de frustração e medo embaçando sua visão.
Yan apareceu ao lado de Aaron, puxando-o com força bruta. — Ele foi atingido no pulmão, Aaron! Não podemos salvá-lo aqui! Temos que ir ou vamos morrer todos!
Aaron olhou para Richard. O homem que vivera séculos, que aconselhara Jacob, que vira impérios nascerem e caírem, agora era apenas um corpo frágil no chão frio de um aeroporto.
Richard encontrou os olhos de Aaron. Havia uma paz estranha neles. — Vá, Aaron. Deixem-me. — Ele sorriu, os dentes manchados de vermelho. — Eu já vivi o suficiente.
Aquela frase pesou como uma âncora. Aaron sentiu o coração se partir. Ele soltou a mão de Richard, engoliu o grito que queria dar e se virou.
— Corre! — gritou Roger, dando cobertura.
Eles correram. Passaram por cima de malas, desviaram de civis agachados, atravessaram as portas de serviço em direção à área de carga.
Quando finalmente pararam em um galpão de manutenção, o silêncio retornou, mas o eco dos tiros ainda zumbia. Clementine encostou-se em uma parede suja de graxa e deslizou até o chão. Ela tremia incontrolavelmente.
— Isso não... isso não pode estar acontecendo... — ela balbuciava, os olhos fixos no nada, as mãos agarrando os próprios cabelos.
Aaron, ofegante e coberto com o sangue de Richard, ajoelhou-se na frente dela. — Clementine...
— Eles o mataram... — A voz dela quebrou, o choque dando lugar à histeria. — Era só uma pesquisa... era só uma expedição... eles o mataram como se não fosse nada!
— Clementine, olhe para mim! — Aaron segurou os ombros dela, sacudindo-a levemente. — Fique calma! Respire!
Mas ela não o via. Ela só via o sangue no chão do aeroporto. A realidade acadêmica de Oxford havia sido estilhaçada, substituída pela brutalidade da guerra. E não havia caminho de volta.
Albuquerque, Novo México — 2025
A campainha tocou, insistente, cortando o silêncio da tarde quente. Cassidy Phillips espiou pela cortina antes de abrir. Do lado de fora, um homem e uma mulher, vestidos com roupas que custavam mais do que a casa inteira de Cassidy, aguardavam. Não pareciam cobradores, nem policiais. Pareciam oportunidade.
Ela abriu a porta, mas manteve a corrente de segurança engatada. — Pois não? — indagou, com a desconfiança habitual.
— Olá, Cassidy. — Penelope sorriu, um sorriso treinado, mas com uma ponta de urgência nos olhos.
— Quem são vocês? Como sabem meu nome? — Cassidy estreitou os olhos.
— Meu nome é Penelope Widmore. Este é meu associado, Richard Alpert. — Penelope foi direta, sabendo que com alguém como Cassidy, rodeios eram perda de tempo. — Estamos aqui por causa de Clementine. Temos uma proposta para ela. E para você.
Cassidy avaliou a dupla. O sobrenome "Widmore" soou um sino distante em sua mente — dinheiro, poder, indústrias. A palavra "proposta" ativou o instinto de sobrevivência que a mantivera à tona todos esses anos. Ela destrancou a corrente e abriu a porta completamente.
— Entrem — disse ela, o tom mudando de defensivo para negociável. — Mas sejam breves.
A sala de estar era modesta, mas limpa. Cassidy indicou o sofá puído, sentando-se na poltrona à frente deles como se fosse um trono.
— Então — começou Cassidy, cruzando as pernas. — O que a poderosa Widmore quer com a minha filha? Clementine é inteligente, mas duvido que vocês batam de porta em porta recrutando jovens prodígios.
Penelope suspirou, trocando um olhar rápido com Richard. — Digamos que Clementine possui um perfil muito específico que estamos procurando para um projeto... sensível.
— "Sensível"? — Cassidy riu, sem humor. — Isso geralmente significa "ilegal" ou "perigoso".
— Significa grandioso, Sra. Phillips. Algo que poderia mudar o mundo. — Richard interveio, sua voz calma preenchendo o ambiente. — E acreditamos que Clementine é a peça que falta.
Cassidy olhou para Richard. Havia algo naquele homem que a deixava desconfortável; ele parecia saber demais. — Olha, eu já fui golpista. Eu conheço o cheiro de um esquema a quilômetros de distância. Vocês não vêm até o Novo México pessoalmente se não estiverem desesperados ou escondendo algo. — Ela se levantou. — Não estou interessada em envolver minha filha nos jogos de ricos entediados. Podem ir.
Richard não se moveu. Ele apenas disse um nome. — E se falarmos de James Ford?
Cassidy congelou. O nome pairou no ar, pesado como chumbo. Ela se virou lentamente. — O que aquele desgraçado tem a ver com isso?
— Nós sabemos o que ele fez com você. O golpe. O dinheiro roubado. A filha deixada para trás. — Richard falou com suavidade, mas cada palavra era calculada. — A Widmore está disposta a reparar esse erro.
— "Reparar"? — Cassidy riu, incrédula. — Vocês são o quê? A fada madrinha dos vigaristas?
— Nós somos aqueles que limpam a bagunça. — Penelope tomou a palavra, inclinando-se para frente. — James Ford causou danos irreparáveis. Nós queremos oferecer uma compensação integral. Pagaremos a faculdade de Clementine em Oxford, daremos a ela uma carreira e, além disso... garantiremos que a senhora nunca mais precise se preocupar com dinheiro na vida.
Cassidy sentiu o coração acelerar. Era a saída. A saída do buraco, das contas atrasadas, da mediocridade. Mas ela precisava saber o preço. — Vocês estão pagando a dívida dele? Por quê? Vocês são os donos dele agora?
— Não somos donos, Sra. Phillips. Mas digamos que somos... responsáveis. — Richard respondeu, enigmático. — Ficamos encarregados daqueles que saíram da Ilha conosco. James, Kate, Miles... e os outros.
— Ilha? — Cassidy franziu a testa. — Que Ilha? James me disse que sofreu um acidente de avião, que caiu no mar...
— James mente. É o que ele faz. — Richard cortou, autoritário. — Já passamos informações demais. A oferta está na mesa. Uma vida nova para você e um futuro brilhante para Clementine. Em troca, ela vem trabalhar conosco.
Cassidy olhou para os dois. Ela viu o perigo nos olhos de Richard e a determinação nos de Penelope. Mas, acima de tudo, ela viu o cheque em branco. Ela pensou em Clementine, brilhante mas limitada pela falta de recursos. Pensou em James, e como seria doce usar o passado dele para garantir o futuro delas.
— Eu aceito — disse Cassidy, a voz firme. — Mas com uma condição.
— Qual? — perguntou Penelope.
— Quero saber tudo. Sobre essa "Ilha", sobre o James e sobre onde exatamente minha filha está se metendo. Sem segredos. Se vou vender a alma da minha filha para a Widmore, quero saber o preço exato.
Penelope sorriu, um sorriso de respeito. — Justo. Prepare o café, Cassidy. A história é longa.
Galpão abandonado, Alburquerque, Novo México – presente
A noite caiu pesada sobre o Novo México. Longe das luzes do aeroporto, o grupo se abrigou em um galpão industrial abandonado na periferia da cidade. O ar cheirava a óleo motor velho e poeira acumulada. O único som era a respiração irregular dos quatro sobreviventes e o lamento distante de sirenes policiais que pareciam estar em toda parte.
Clementine estava sentada sobre um caixote de madeira, os braços abraçando os joelhos. O sangue de Richard ainda manchava a manga de sua blusa. A realidade acadêmica de Oxford parecia pertencer a outra vida.
— Então é isso? — A voz dela cortou a escuridão, trêmula, mas carregada de uma raiva fria. — Eles nos arrancaram de nossas vidas, pagaram nossos estudos... apenas para nos usar de isca em um matadouro?
Aaron, que andava de um lado para o outro tentando conseguir sinal no celular, parou. Ele olhou para Roger, que estava limpando sua pistola com um pedaço de pano sujo, a expressão ilegível.
— Você sabia disso, Roger? — Aaron avançou, a frustração transbordando. — Desmond disse que era uma missão de exploração. Vocês não nos disseram que havia um alvo em nossas costas. E agora? Estamos sendo caçados?
Roger parou de limpar a arma. O clique do ferrolho ecoou no galpão. Ele respirou fundo, tentando controlar a adrenalina do tiroteio que ainda bombeava em suas veias. Quando levantou os olhos, não havia paciência neles.
Num movimento rápido, Roger encurtou a distância. Ele agarrou Aaron pelo colarinho e o prensou violentamente contra a parede de metal corrugado. O impacto fez a estrutura vibrar.
— Não me encha de perguntas, moleque! — rosnou Roger, o rosto a centímetros do de Aaron. — Eu não sou babá de ninguém. Eu estou nessa missão pelo dinheiro, e o homem que assinava os cheques acabou de morrer no meu colo.
Yan deu um passo à frente, mas parou ao ver a mão de Roger livre perto da arma. Clementine levantou-se, assustada.
— Me solta! — gritou Aaron, tentando empurrar o ex-militar, mas Roger era uma rocha. — Você é maluco?
Roger o soltou com um empurrão desdenhoso, fazendo Aaron cambalear. Ele se afastou, virando as costas para o grupo como se eles não valessem o esforço.
— Eu salvei as suas vidas, seus vermes ingratos. — Roger cuspiu no chão. — Deveriam estar de joelhos me agradecendo por não terem ficado estirados naquele saguão junto com o Richard.
— Você é um velho escroto. — A voz de Clementine saiu baixa, mas firme.
Roger parou. Ele girou lentamente, caminhando até ela com passadas pesadas. Ele a olhou nos olhos, usando sua altura para intimidar.
— Escroto? — Ele riu, um som seco. — Quer saber? A porta está aberta. Voltem para suas vidinhas medíocres. Voltem para os livros e para os hospitais. Eu não ligo. Eu vou dar um jeito de sumir.
Clementine sustentou o olhar dele. O medo ainda estava lá, mas algo novo havia surgido: a teimosia herdada de um pai que ela mal conhecia. Ela olhou para as manchas de sangue em sua roupa. Voltar não era mais uma opção. Eles já faziam parte do jogo.
— Eu não vou voltar. — Ela ergueu o queixo. — Eu vou até o fim.
Aaron e Yan a olharam, surpresos. — Clementine, você viu o que aconteceu lá. — Aaron argumentou, a voz grave. — Eles querem nos matar. Você quer continuar mesmo sabendo que estamos sendo caçados?
Yan parecia dividido, o peso do legado de Jack pesando contra o instinto de sobrevivência. Mas Clementine não hesitou. Ela assentiu com a cabeça, confirmando sua decisão.
Roger observou a cena e soltou uma risada sarcástica, balançando a cabeça. — Corajosos... ou estúpidos. Vocês não fazem ideia de com o que estão lidando.
Ele se encostou em uma pilha de pneus velhos, cruzando os braços. — O nome dele é Wilbert DeGroot. É um filho da puta que está limpando o tabuleiro para tomar o controle da ilha. A Widmore estava no caminho dele. Agora, nós estamos.
O nome atingiu o ar como uma descarga elétrica. Clementine congelou. Sua mente viajou instantaneamente para uma sala em Oxford, para papéis antigos e teorias sobre o tempo.
— Wilbert DeGroot? — ela repetiu, a voz sumindo. — Eu... eu já ouvi falar dele.
O silêncio no galpão mudou de qualidade. Roger, Aaron e Yan se viraram para ela simultaneamente.
— O quê? — Roger franziu a testa, a desconfiança voltando. — Como uma estudante conhece um fantasma da Dharma?
Clementine olhou para eles, pálida. — Porque eu estudei os arquivos dele.
Universidade de Oxford, Reino Unido — 2026
Os corredores de pedra da Universidade de Oxford ecoavam séculos de história, mas Clementine Phillips estava interessada apenas no presente — e no bilhete enigmático que encontrara em seu armário. A caligrafia era elegante, indicando uma sala no subsolo do Departamento de Física Teórica que, segundo os mapas oficiais, não deveria existir.
Clementine desceu as escadas em espiral, o cheiro de mofo e produtos químicos antigos ficando mais forte. Ao final do corredor, diante de uma porta de carvalho maciço, um segurança de terno preto bloqueava a passagem. Ele não pediu identificação; apenas abriu a porta ao vê-la, como se sua chegada fosse cronometrada.
Ela entrou.
A sala era um cápsula do tempo. Quadros negros cobriam as paredes, repletos de equações complexas que pareciam ter sido escritas freneticamente décadas atrás. Equipamentos eletrônicos dos anos 90, osciloscópios e geradores de frequência, acumulavam poeira sobre as bancadas.
No centro da sala, observando um labirinto de madeira para ratos — agora vazio —, estava uma mulher alta, cuja elegância contrastava com a desordem do laboratório.
— A pontualidade é uma virtude rara em físicos, Srta. Phillips — disse a mulher, virando-se com um sorriso confiante. — Sou Olivia Widmore. É um prazer finalmente conhecê-la.
Clementine apertou a alça da mochila, desconfiada. O sobrenome Widmore carregava peso naquela universidade. — O que é tudo isso? — perguntou ela, gesticulando para a sala. — Esse equipamento... é museu?
— É um legado. — Olivia deslizou a mão por uma bancada empoeirada. — Esta sala pertencia a um primo meu. Ele lecionou aqui por um tempo, antes de... se aposentar precocemente.
— E por que me chamou aqui?
— Porque você é a melhor aluna do primeiro ano. E porque, assim como meu primo, você tem uma mente que enxerga além do óbvio. — Olivia caminhou até Clementine, a expressão séria. — Digamos que os estudos dele eram controversos. A comunidade científica da época não estava pronta para suas teorias. Mas nós acreditamos que você tem o potencial para terminar o que ele começou.
— "Nós"? — Clementine ergueu uma sobrancelha.
— A Fundação Widmore. — Olivia sorriu, um sorriso de quem compra almas. — Queremos financiar seus estudos. Integralmente. Acesso a laboratórios privados, recursos ilimitados. Mas com uma condição: você manterá este laboratório e o trabalho do meu primo em absoluto segredo.
Clementine caminhou até a mesa central. Havia algo magnético naquele caos organizado. Ela tocou em um caderno de anotações, a capa de couro desgastada pelo tempo. — O que seu primo estudava aqui, Sra. Widmore?
Olivia observou-a com atenção clínica. — Diga-me, Clementine: qual a sua posição sobre a linearidade do tempo?
Clementine riu, nervosa. — É uma pergunta filosófica ou física?
— Física.
— Bem... — Clementine olhou para as equações no quadro-negro. Eram sobre constantes variáveis e deslocamento eletromagnético. — Segundo a Relatividade Geral, tempo e espaço são entrelaçados. Se a gravidade pode dobrar o espaço, teoricamente, ela pode dobrar o tempo. Então... não, eu não acredito que o tempo seja uma linha reta imutável.
Olivia sorriu, satisfeita. — É exatamente por isso que vamos investir em você.
Ela pegou uma pilha de pastas que estava sobre a mesa e a entregou a Clementine. O topo da pilha trazia um título datilografado: "Variáveis e Constantes — Por Daniel Faraday".
Clementine folheou os documentos, fascinada. Eram teses sobre radiação exótica, bolsões de energia e consciência temporal. Mas, no meio das anotações científicas, uma ficha de perfil chamou sua atenção. Havia uma foto granulada de um homem com cabelos grisalhos, de óculos, com um olhar arrogante. O nome abaixo da foto dizia: Wilbert DeGroot.
— Quem é este? — perguntou Clementine, puxando a folha. — Ele não parece um físico.
Olivia olhou para a foto com desdém, o sorriso desaparecendo. — Não se preocupe com ele agora. Digamos apenas que ele é... a concorrência. Um fantasma de uma iniciativa falida que tentou roubar o trabalho do meu primo.
— Ele parece perigoso.
— Ele é irrelevante. O que importa está nessas equações. — Olivia abriu a porta da sala, indicando o corredor movimentado lá fora, onde a música de uma festa começava a ecoar. — Vamos, querida. A recepção dos calouros vai começar. Se você não aparecer, vão estranhar.
Clementine guardou os papéis na mochila, sentindo o peso daquelas informações. Ela olhou uma última vez para o laboratório silencioso, para o labirinto de rato vazio e para as equações de Daniel Faraday. Ela não sabia, mas ao aceitar aquela pasta, ela havia acabado de entrar na linha de tiro de uma guerra que começou muito antes de ela nascer.
Galpão abandonado, Alburquerque, Novo México – presente
No galpão escuro, os olhares de Roger, Aaron e Yan convergiram para Clementine. A poeira suspensa no ar parecia congelar com a revelação dela.
Roger deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal da garota. A desconfiança em seus olhos era palpável. — Então a estudante sabe mais do que os veteranos? — Roger estreitou os olhos. — Você sabia que Wilbert DeGroot estava atrás de nós?
— Eu não sabia que ele estava atrás de nós. — Clementine sustentou o olhar, embora sua voz tremesse levemente. — Mas eu sabia que a Widmore não era a única interessada nessa tal ilha. Olivia me fez estudar os arquivos dele em Oxford. Ela chamava isso de "concorrência".
Aaron aproximou-se, tentando mediar a tensão, mas sua própria curiosidade falava mais alto. — Se você sabia que existia uma guerra por trás disso, Clementine... por que aceitou vir? Por que entrar no fogo cruzado?
Clementine olhou para as próprias mãos, sujas de graxa e fuligem. — Porque o que eu estudei naquele laboratório... não era apenas física teórica, Aaron. Eram anomalias que fariam qualquer cientista renomado ser internado num hospício. Viagens no tempo, bolsões de energia, constantes e variáveis... — Ela levantou os olhos, brilhando com uma mistura de medo e fascínio. — Eu passei três anos olhando para equações num quadro negro. Eu precisava ver se era real.
— E agora você viu. — Yan comentou, sombrio. — Viu pessoas morrendo por causa disso.
— Então está explicado. — Aaron concluiu, olhando para Roger. — Ela não é uma espiã. Ela é uma peça-chave. Eles a recrutaram porque ela entende a ciência por trás do lugar para onde estamos indo.
Roger bufou, insatisfeito, mas aceitou a lógica. Ele precisava reportar o desastre. O mercenário se afastou do grupo, caminhando até um canto mais isolado do galpão onde o sinal de celular era um pouco melhor. Ele discou um número criptografado, os dedos apertando o aparelho com força suficiente para trincar a tela.
A linha chamou uma, duas vezes.
— Status? — A voz feminina do outro lado era cortante e impaciente.
Roger respirou fundo, sabendo que a notícia que traria poderia custar o resto do seu pagamento. — Não conseguimos embarcar. Fomos interceptados no terminal. — Roger fez uma pausa, olhando para o sangue seco em sua jaqueta. — Richard está morto.
Houve um silêncio sepulcral na linha. Um silêncio que atravessou o oceano.
Sede da Widmore Corporation, Londres – Naquele mesmo instante
O escritório de Penelope Widmore era um santuário de vidro e aço, com vista para o Tâmisa cinzento. Mas a tranquilidade do ambiente foi estilhaçada no momento em que ela ouviu a frase de Roger.
Penelope baixou o celular lentamente, como se ele pesasse uma tonelada. O choque drenou a cor de seu rosto. Richard Alpert — o conselheiro, o imortal, o elo com o passado de seu pai — se fora.
De repente, a fúria superou o luto. Com um grito de frustração pura, Penelope arremessou o celular contra a parede oposta. O aparelho explodiu em pedaços de plástico e metal, deixando uma marca no reboco caro.
Desmond, que analisava mapas náuticos sobre a mesa de centro, levantou-se num salto. — Penny? O que aconteceu?
Ela se virou para ele, os olhos marejados, a respiração irregular. — Eles pegaram o Richard. Wilbert ordenou um massacre no aeroporto do Novo México.
Desmond sentiu um frio na espinha. Ele conhecia a brutalidade daquela guerra melhor do que ninguém. — E os garotos? Aaron? O time?
— Roger disse que estão escondidos, mas estão encurralados. — Penelope passou as mãos pelo rosto, tentando se recompor. — Se Wilbert matou Richard... ele não vai parar até eliminar todos os candidatos. Como vamos tirá-los de lá, Dess? As rotas comerciais estão vigiadas.
Desmond caminhou até a janela, observando a chuva cair sobre Londres. Ele viu o reflexo de seu próprio rosto no vidro — mais velho, cansado, mas com a mesma determinação que o fizera dar a volta ao mundo num barco.
— Eles não precisam de uma rota comercial. Precisam de uma extração. — Desmond virou-se para a esposa, um sorriso triste, mas confiante, surgindo em seus lábios. — Eu vou buscá-los.
— Você? — Penelope arregalou os olhos. — Desmond, é perigoso demais. Você é o CEO agora.
— Eu sou a única pessoa que sabe o que está em jogo, Penny. E eu prometi à mãe do Aaron que cuidaria dele. — Ele caminhou até a mesa e pegou o telefone fixo. — Prepare o jato particular. Vou voar abaixo do radar.
— Mas e a escala em Seul? — Penelope lembrou, a mente logística tentando acompanhar o coração acelerado. — Ji Yeon Kwon ainda está esperando. Se não a pegarmos...
— Está tudo sob controle. — Desmond discou para o hangar, a voz assumindo o comando total. — Vamos buscar os sobreviventes no Novo México e voar direto para a Coreia. Se Wilbert quer uma guerra, ele vai ter uma. Mas ele não vai tocar nesses garotos.
Penelope assentiu, vendo no marido não o executivo de terno, mas o homem que sobrevivera aquela ilha por anos. A guerra havia começado, e a Widmore estava pronta para revidar.
Charlie Hume estava próximo a porta ouvindo a conversa dos pais. O sorriso em seu rosto era visível, então, ele adentrou o escritório.
— Se você vai a Seul, eu vou com você pai. — Disse ele, agora com um tom mais sério.
— É muito perigoso e você não sabe com quem estamos lidando, filho. Não posso te deixar isso.
— Eu sei mais do que você imagina. — Disse Charlie, fazendo Desmond o observar de cima em baixo. — Conte comigo em ajudar a recrutar a srta. Kwon.
— Ok, Charlie. Venha comigo então. — Disse Desmond, olhando para Penelope que parecia aprovar aquela decisão.
Albuquerque, Novo México — 2028
O sol do meio-dia castigava o gramado do cemitério, mas Clementine mal sentia o calor. Seus olhos estavam fixos no caixão de mogno descendo à terra, levando consigo a única pessoa que sempre esteve lá por ela. Cassidy Phillips se fora, e o mundo parecia subitamente vazio e silencioso.
Parentes distantes e amigos da mãe murmuravam condolências, mas eram apenas ruídos de fundo. Clementine queria gritar, queria quebrar algo, mas permanecia imóvel, uma estátua de luto.
Foi então que ela sentiu uma mudança na atmosfera. Os murmúrios cessaram, substituídos por olhares de reprovação voltados para a entrada do cemitério.
James Ford estava lá. Ele vestia um terno preto que parecia um pouco apertado nos ombros e segurava um lírio solitário. Ele não se aproximou da cova; manteve-se afastado, como um pária, respeitando a linha invisível desenhada pela família de Cassidy.
Quando a cerimônia acabou e a multidão começou a dispersar, Clementine caminhou até ele. James abriu os braços, hesitante. Ela o abraçou, aspirando o cheiro de tabaco e loção barata que, estranhamente, trazia uma sensação de segurança. Mas a raiva estava lá, pulsando logo abaixo da tristeza.
Meia hora depois, a solenidade do funeral foi substituída pelo neon brilhante e o cheiro de gordura do Mr. Clucks. Era o único lugar aberto por perto. James e Clementine sentaram-se em uma mesa de canto, as bandejas de frango intocadas entre eles.
James tamborilava os dedos na mesa, inquieto com o silêncio da filha. Ele olhou para o logotipo da lanchonete — um desenho caricato de uma galinha.
— Sabe... o dono dessa franquia. Hugo Reyes. — James forçou um sorriso torto. — Ele é um velho amigo meu. O cara ganhou na loteria, comprou a empresa e transformou nisso aqui. Mundo pequeno, né?
Clementine ergueu os olhos, vermelhos e inchados. A tentativa dele de puxar conversa fiada foi a gota d'água.
— Pai... por favor. — A voz dela saiu áspera. — Diz logo o que você veio fazer aqui.
James recuou, o sorriso desaparecendo. — Ei, calma aí, Clem. Eu não posso vir ver minha filha no momento mais difícil da vida dela?
— Você não é um pai "presente", James. Você é um fantasma. — Clementine empurrou a bandeja para o lado. — Você aparece, bagunça tudo e some. Por que agora seria diferente?
James suspirou, a máscara de "Sawyer" caindo por um instante. — Eu sei que não fui o pai do ano. Mas eu tentei. Aquele dinheiro... a conta que deixei no seu nome... era para garantir que você tivesse escolhas.
— Eu nunca toquei naquele dinheiro. — Clementine rebateu, fria.
James franziu a testa. — Como não? Sua mãe me disse que você estava estudando na Europa. Isso custa uma fortuna. Se não usou meu dinheiro, como pagou?
— Eu consegui uma bolsa. Integral. — Clementine ergueu o queixo, orgulhosa, mas com um traço de desafio. — Uma fundação de pesquisa se interessou pelo meu desempenho acadêmico. Eles bancaram tudo.
James sentiu um frio na espinha. Seu instinto de golpista, adormecido, despertou violentamente. — Que fundação?
— O que importa? Eles valorizaram o que eu faço, ao contrário de você.
— Clementine, me responda. — A voz de James ficou grave, perdendo todo o humor. Ele se inclinou sobre a mesa. — Qual o nome da fundação?
Clementine estranhou a mudança brusca de tom. — Fundação Widmore. Eles têm um programa de talentos e...
— Widmore?! — James quase gritou, atraindo olhares das outras mesas. Ele passou a mão pelo rosto, pálido. — Ah, não. Não, não, não...
— Qual o seu problema? É uma empresa respeitada! — Clementine defendeu-se.
— Você não faz ideia de com quem está lidando! — James agarrou a mão dela sobre a mesa, o aperto forte demais. — Clementine, escute bem. Eles não dão dinheiro de graça. Aquela gente... eles cobram caro. Eles estão te usando para chegar a mim ou para algo pior.
— Você está paranoico! — Clementine puxou a mão. — Eles nem sabem quem você é. Eu consegui isso por mérito próprio! Por que você não consegue aceitar que eu venci sem a sua ajuda suja?
James olhou para a filha. Ele viu a inteligência, mas também a ingenuidade de quem não conhecia os monstros que habitavam o mundo dele. A Widmore não pagava Oxford para ninguém sem um motivo sombrio. Eles sabiam quem ela era. Eles a estavam preparando.
O medo substituiu a culpa no coração de James. Ele precisava tirá-la do radar deles. Agora.
— Venha morar comigo. Em Las Cruces. — Ele soltou as palavras com urgência desesperada. — Tenho um lugar lá. É tranquilo. No meio do nada. Ninguém vai te achar lá.
Clementine riu, um som seco e sem humor. — Você está falando sério? Eu acabei de enterrar minha mãe. Tenho uma carreira me esperando em Londres, financiada por gente que acredita em mim... e você quer que eu largue tudo para me esconder num rancho no deserto com um homem que eu mal conheço?
— Clem, é perigoso. Você precisa confiar em mim. — A voz dele falhou. — Eu estou sozinho lá. Mas lá eu posso te proteger.
Clementine o observou. Ela viu o medo nos olhos do pai, mas interpretou como fraqueza, não como aviso. A vulnerabilidade dele a fez conectar outros pontos.
— E a Kate?
James travou. O nome o atingiu como um soco. — O quê?
— A "sardenta". Vocês não estavam brincando de casinha feliz? — Clementine cruzou os braços, o ressentimento voltando com força total. — Ela te deixou, não foi?
— Como você sabe disso...
— Pai, não me subestime. Eu ainda tenho o número dela no meu celular. — Clementine balançou a cabeça, decepcionada. — É por isso que você veio. Não é para me proteger da Widmore ou de qualquer paranoica da sua cabeça. É porque você estragou tudo com ela e não tem mais ninguém.
James abriu a boca para negar, para explicar que a Widmore era real, que a Ilha era real, mas não conseguiu. A verdade sobre sua solidão também era real.
— Clementine, eu não tenho mais nada. Só você. E eu não vou deixar eles te pegarem.
— Tarde demais, pai. Eu já fiz minhas escolhas. — Clementine levantou-se da mesa. — Eu vou pensar na sua proposta. Mas, por enquanto... me deixe pensar. E fique longe dos meus estudos.
James permaneceu sentado, observando a filha sair do restaurante. Ele queria correr atrás dela, arrastá-la para longe, mas sabia que só a afastaria mais.
Ele olhou para a bandeja de comida intocada. Widmore estava com Clementine. O pesadelo não tinha acabado; tinha apenas mudado de geração.
— Droga... — sussurrou James, cobrindo o rosto com as mãos. Ele sabia que teria que fazer algo drástico. Se a guerra estava vindo para sua filha, ele teria que voltar para a trincheira.
Galpão abandonado, Alburquerque, Novo México – presente
A madrugada avançava lentamente sobre o galpão no Novo México, trazendo consigo um frio úmido que penetrava os ossos. Clementine afastou-se do grupo, buscando um canto isolado onde a luz da lua entrava por uma claraboia suja. Ela se encolheu sobre um pedaço de lona, abraçando os joelhos.
Sua mente estava um turbilhão. Horas atrás, sua maior preocupação era uma tese sobre física quântica. Agora, ela tinha o sangue seco de um homem em sua roupa e a certeza de que sua vida acadêmica fora uma farsa financiada para transformá-la em uma peça de xadrez. Ela olhou para Aaron e Yan do outro lado do galpão. Eles eram estranhos, mas agora eram os únicos no mundo que compartilhavam seu pesadelo.
Aaron, sentado contra uma pilha de caixotes, não conseguia tirar os olhos dela. Ele via a fragilidade na postura de Clementine, mas também a força que a fizera recusar a fuga.
Yan, percebendo o olhar fixo do amigo, cutucou-o com o cotovelo, sussurrando para não alertar Roger. — Você não consegue parar de olhar para ela, não é? Sente algo, irmão?
Aaron desviou o olhar, o rosto endurecendo. — Claro que não. Estamos fugindo por nossas vidas, Yan. Romance é a última coisa que passa pela minha cabeça agora. Eu só... eu sinto que trouxe ela para isso. É culpa minha.
Yan assentiu, compreendendo o peso da responsabilidade. — Estamos todos no mesmo barco agora.
Roger, encostado na porta entreaberta vigiando o perímetro, escutou a conversa. Um sorriso sarcástico e cansado curvou seus lábios, mas ele não disse nada. Deixou que os garotos tivessem seu momento de humanidade antes que a guerra começasse de verdade.
A noite passou sem incidentes, mas ninguém dormiu de verdade. Quando os primeiros raios de sol cortaram a poeira do galpão, um som diferente rompeu o silêncio da manhã.
Não eram sirenes de polícia. Era o zumbido grave e crescente de turbinas.
— O que é isso? — Clementine levantou-se num salto, o coração disparando.
— Um jato. — Roger engatilhou a arma, tenso. — E está pousando perto. Muito perto.
O vento levantado pelas turbinas fez as janelas do galpão vibrarem. O grupo correu para fora, protegendo os olhos da poeira que se erguia no pátio abandonado. Um jato executivo preto, sem marcas de identificação, tocava o solo com precisão militar.
A porta da aeronave se abriu e a escada desceu.
Clementine prendeu a respiração. Seria Wilbert vindo terminar o serviço?
Mas a figura que desceu não era a de um assassino da Dharma. Era um homem de terno alinhado, cabelos grisalhos ao vento e uma expressão de urgência gravada no rosto.
— Desmond? — Aaron murmurou, a descrença colorindo sua voz.
Desmond Hume pisou no asfalto, seus olhos varrendo o grupo até encontrar Aaron e, em seguida, fixarem-se em Clementine. Ele parecia aliviado, mas também furioso com o que tivera que acontecer para chegarem ali.
Logo atrás dele, desceu outro rapaz. Jovem, de semblante fechado, cabelos escuros e uma aura de perigo que parecia deslocada para sua idade. Era Charlie Hume. Ele olhou para o grupo de sobreviventes não com pena, mas com uma avaliação fria.
Desmond caminhou até eles, ignorando a arma de Roger que ainda estava meio levantada.
— Olá, pessoal — disse Desmond, sua voz tentando transmitir calma, embora seus olhos denunciassem o medo que sentira de perdê-los. — Vim buscar vocês.
Clementine olhou para Desmond, depois para o filho dele, e finalmente para Aaron. Ela percebeu que a "pesquisa de campo" tinha acabado. A verdadeira missão — aquela sobre a qual seu pai tentara avisá-la — estava apenas começando.
— E agora? — Clementine perguntou, sua voz firme, desafiando Desmond.
Desmond olhou para o sol nascente, na direção do Oeste, na direção do oceano. — Agora, nós vamos para a Coreia. E depois... vamos para Sydney.
Fale com o autor