Lost: O Primeiro Herdeiro
5 LIVRO 1 — CAPÍTULO 05: O REGISTRO ZOOLÓGICO
Parque Universitário, Las Cruces, Novo México – Presente
O sol de Las Cruces se punha em um espetáculo de laranjas e roxos, mas para Aaron, parecia apenas o fim de um dia miserável. Ele estava sentado em um banco de concreto na praça central, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça baixa. Ao seu lado, a pasta da Widmore parecia pesar uma tonelada.
Yan Tedros observava o movimento ralo da praça, chutando pedrinhas com a ponta do tênis. O silêncio entre eles era espesso, carregado de fracasso.
— E então? — A voz de Yan quebrou a quietude, soando cansada. — Não existe um Plano B? Não podemos simplesmente... seguir sem a garota?
Aaron passou a mão pelo rosto, sentindo a poeira do rancho ainda em sua pele. Ele abriu a pasta, encarando as fotos e os dados que Desmond lhe entregara. A lógica de Desmond ecoava em sua mente: assinatura genética, compatibilidade, precisão.
— Não, Yan. — Aaron fechou a pasta com um baque surdo. — Desmond foi específico. "Todos ou ninguém". É como uma fórmula química. Se faltar um reagente, a reação não acontece. Ou explode na nossa cara.
— Mas nós tentamos. O pai dela é um lunático armado. O que o Desmond esperava?
— Ele esperava resultados. — Aaron encostou as costas no banco, olhando para o céu que escurecia. — E nós falhamos.
Yan sentou-se ao lado dele, a frustração evidente. — E o tal prazo?
— Curto. Muito curto. — Aaron verificou o relógio, sentindo a pressão invisível que Desmond lhe passara. — Se não estivermos no ponto de extração com todos os membros da equipe em 72 horas, a janela se fecha. A tal "anomalia" se estabiliza ou desaparece. De qualquer forma, a missão é abortada para daqui mais algumas décadas.
— Então é isso? — Yan riu, um som sem humor. — Eu larguei meu emprego, menti para minha mãe, voei para o meio do deserto... para desistir por que um caipira nos expulsou?
Aaron sentiu a culpa corroê-lo. Ele havia arrastado Yan para aquilo usando a memória de Jack Shephard como isca. — Eu sinto muito, Yan. Eu fui ingênuo. Achei que seria apenas uma questão de logística. Não sabia que estaríamos lidando com... isso.
— O que você sugere?
Aaron não conseguia olhar nos olhos do amigo. — Volte para Los Angeles. Se pegar um voo agora, ainda consegue chegar a tempo do seu próximo plantão. Finja que isso foi um delírio coletivo.
Yan levantou-se, ajeitando a mochila no ombro. Ele olhou para Aaron, esperando uma contraproposta, um sinal de luta. Mas Aaron estava derrotado.
— Você vai ficar? — perguntou Yan.
— Vou. Preciso ligar para o Desmond. Dar a má notícia. — Aaron mentiu. Ele só não queria que Yan o visse desmoronar.
Yan assentiu, resignado. — Boa sorte, Aaron. Se descobrir algo sobre o Jack... me avise.
Aaron observou Yan caminhar até o ponto de táxi, sua silhueta desaparecendo na luz do crepúsculo. Agora ele estava verdadeiramente sozinho. A missão tinha acabado antes de começar.
— Que desperdício — murmurou Aaron para si mesmo, fechando os olhos.
— Falando sozinho, dude?
Aaron abriu os olhos num sobressalto.
Ao seu lado, no espaço que Yan acabara de deixar vago, estava Hugo Reyes. O mesmo homem do aeroporto, do avião, dos sonhos. Ele estava relaxado, comendo uma barra de chocolate que parecia ter saído dos anos 2000.
Aaron nem teve forças para se assustar. Apenas suspirou, aceitando a loucura. — Você de novo.
— Eu costumo aparecer quando a vibe tá ruim. — Hugo mastigou o chocolate. — E, caramba, você está com uma cara de enterro. O Sawyer pegou pesado, né?
— "Sawyer"? — Aaron franziu a testa. — O nome dele é James.
— É, eu sei. Velhos hábitos. — Hugo limpou as mãos na calça. — Mas me diz, por que você mandou o enfermeiro embora? Ele é importante.
— Porque acabou, Hugo. Ou seja lá o que você for. — Aaron jogou a pasta no colo. — James nos expulsou. Não temos a garota. O tempo está acabando. Eu falhei.
Hugo olhou para a pasta, depois para Aaron, com uma seriedade que não combinava com seu rosto bonachão. — Você não pode desistir agora, cara. A ilha precisa de vocês. De todos vocês.
— Por que você continua dizendo isso? — Aaron explodiu, a voz atraindo olhares de alguns passantes. — "A ilha precisa", "A ilha chama". Eu sou um funcionário de escritório! Eu não sou um soldado, não sou um cientista. Eu só queria saber por que minha mãe tem tanto medo daquele lugar! E pelo visto, não é somente ela...
Hugo levantou-se, e apesar de sua aparência inofensiva, sua presença projetou uma sombra longa sobre Aaron. Ele colocou a mão no ombro do rapaz. O toque não era frio como o de um fantasma; era quente, real, reconfortante.
— Você quer saber por quê? — Hugo disse, a voz baixa. — Porque você nasceu lá, Aaron. Você é filho daquela terra tanto quanto é filho da Claire. Ela não tem medo do lugar... ela tem medo de que o lugar te reconheça. E ele reconheceu.
Aaron riu, um riso nervoso e beirando a histeria. — Isso é ridículo. A Widmore está financiando uma expedição científica. Não tem nada de místico nisso.
Hugo balançou a cabeça, com a paciência de quem explica algo óbvio a uma criança. — Você ainda não entendeu, não é? Walt não entendeu. Desmond demorou dez anos para entender. Até o Jack... ele só entendeu no fim.
— Quem é Walt? — Aaron perguntou, o nome soando estranho e familiar ao mesmo tempo.
— Alguém especial que pensávamos que iria assumir o que ele estava destinado a ser, mas fugiu, como você está fazendo agora. — Hugo apontou para o horizonte, na direção do rancho de James. — Nada disso é coincidência, cara. A Widmore, o Desmond, o Yan, a garota... tudo faz parte do mesmo desenho. Se você for embora agora, a história acaba mal. Para todo mundo.
— Eu não sei o que fazer! — Aaron admitiu, a voz falhando.
— Você sabe. — Hugo sorriu. — Você só precisa parar de agir como funcionário e começar a agir como...
Hugo parou. Ele olhou para o lado, como se ouvisse alguém chamando. — Tenho que ir.
— Espera! — Aaron tentou agarrar o braço de Hugo. — Agir como o quê?
Seus dedos fecharam no ar vazio.
Aaron ficou assustado. O banco ao lado estava deserto. Não havia Hugo, nem embalagem de chocolate. Apenas a brisa noturna do deserto e os olhares curiosos de um casal que passava e via um homem gritando com o nada.
Aaron sentou-se novamente, o coração martelando. Walt. O nome ficou gravado em sua mente. Ele não sabia quem era, mas sabia que Hugo não tinha aparecido ali apenas para conversar.
Ele olhou para a direção onde Yan tinha ido. Depois para a direção do rancho de James.
A missão tinha falhado. Mas, pela primeira vez, Aaron sentiu que não tinha permissão para desistir.
Do outro lado da rua, no segundo andar de um prédio residencial discreto, a cena na praça era assistida através das frestas de uma persiana.
O apartamento estava escuro, cheirando a café forte e espera. Richard Alpert estava de pé junto à janela, observando Aaron sentado sozinho no banco lá embaixo. Atrás dele, Roger limpava o cano de sua pistola com um pano de microfibra, a tensão irradiando de seus ombros.
— Você sabia que isso ia acontecer — comentou Roger, sem levantar os olhos da arma. — Você sabia que o James ia chutá-los para fora e que o garoto ia mandar o enfermeiro embora.
Richard não se virou. Seus olhos, escuros e insondáveis, continuavam fixos em Aaron. — Aaron precisa entender que essa missão não se resolve com diplomacia, Roger. Ele precisava bater de cara na porta para perceber que vai precisar arrombar a fechadura.
— Vocês tratam isso como um jogo — Roger resmungou, encaixando o carregador na pistola com um clique metálico. — "O destino", "a ilha", "os candidatos"... Parece um conto de fadas macabro.
Richard finalmente se virou. Apesar da idade aparente, ele se movia com uma fluidez que incomodava Roger. — Não é um jogo e nem conto de fadas. E Aaron não foi escolhido à toa. Nenhum de vocês foi.
— É, eu sei o discurso — Roger levantou-se, caminhando até a janela e parando ao lado de Richard. Ele olhou para baixo, vendo o desespero na postura de Aaron. — Mas saindo um pouco da ficção, deixe-me te lembrar da realidade: os homens de Wilbert quase me mataram em Sydney. Aquilo não foi conto de fadas. Foi sangue e ossos quebrados.
— E você sobreviveu. — Richard disse aquilo como se fosse um fato científico, não um elogio. — É por isso que Desmond te escolheu.
— Ele me escolheu porque eu sou caro e de confiança — Roger retrucou, ríspido. — Mas envolver esses civis... Aaron, o enfermeiro, a garota... Isso é negligência. Não estamos num parque de diversões, Alpert. Se a Dharma nos encontrar aqui, vai ser um massacre.
Richard sorriu, um sorriso calmo que fez o sangue de Roger gelar. — Lembra do nosso combinado na Escócia, Roger? Você fornece a segurança. Nós fornecemos o conhecimento. Não questione o método.
— Só espero que o pagamento valha a pena — Roger murmurou, afastando-se da janela.
— Será bem pago. Mais do que imagina. — Richard pegou seu paletó sobre a cadeira. — Agora, continue fazendo o que você faz de melhor. O garoto já sofreu o suficiente por hoje. Vou garantir que ele não faça nenhuma estupidez maior.
Richard saiu do apartamento, desaparecendo nas sombras do corredor, deixando Roger sozinho com a sensação incômoda de que havia entrado em uma guerra que não compreendia totalmente.
Enquanto Roger observou a porta fechada. Havia informações que deixava sua mente fritando e que Richard não iria revelar.
Nairn, Escócia – Outubro de 2025
Nairn não era lugar para reencontros felizes. A neblina espessa do Mar do Norte cobria as ruas de paralelepípedos, abafando os sons e transformando cada esquina em uma potencial emboscada.
Desmond Hume caminhava com a gola do sobretudo levantada, seus olhos varrendo as vitrines escuras. Ao seu lado, Richard Alpert movia-se com a fluidez silenciosa de quem passou séculos evitando ser notado, mas hoje, até ele parecia nervoso.
— Não olhe agora — murmurou Richard, a voz quase inaudível. — Mas acho que perdemos a vantagem. Estamos sendo seguidos.
Desmond sentiu o estômago embrulhar. Os cabelos de sua nuca se eriçaram. A Nova Dharma. Eles estavam em toda parte. — Tem certeza?
— Tenho. Dois homens, padrão militar, cinquenta metros atrás. Precisamos sair da rua.
Eles dobraram a esquina e entraram apressados em uma cafeteria antiga, o sino da porta anunciando sua chegada com um tilintar irritante. O local estava quase vazio, cheirando a café queimado e chuva. Desmond escolheu uma mesa no fundo, longe das janelas.
Antes que pudessem se acomodar, uma sombra caiu sobre a mesa.
— Estão à minha procura, ou só gostam de café ruim?
Desmond ergueu os olhos. Roger Miles estava ali, encostado em uma coluna, com um palito de dente no canto da boca e um sorriso que não chegava aos olhos. Ele não tinha entrado depois deles; ele estava esperando.
— Roger... meu velho amigo. — Desmond tentou um sorriso, mas a tensão em seu rosto era visível. — Que bom te ver.
Roger puxou uma cadeira, girou-a e sentou-se de frente para o encosto, invadindo o espaço pessoal de Desmond. O ex-militar exalava perigo e desdém.
— Corta essa, Hume. Nós tínhamos um acordo: só nos veríamos de novo se você tivesse algo para mim. — Roger olhou de Richard para Desmond, analisando a situação tática. — E julgar pela cara de pânico de vocês, o "algo" envolve problemas. Que tipo de serviço você tem para mim?
Desmond hesitou. Ele precisava de Roger, mas sabia que o amigo era volátil. — Vamos fazer uma expedição. Uma ilha no Pacífico. Preciso da sua ajuda para reunir... e proteger... um grupo de pessoas.
Roger soltou uma gargalhada seca, atraindo o olhar da garçonete. — Uma expedição? Com que dinheiro, brother? — Roger cuspiu a palavra com escárnio. — Pelo que eu conheço, você é um quebrado. Um medroso que passou a vida fugindo dos problemas e vivendo de favor. Quanto vocês estão dispostos a pagar? Promessas não enchem minha geladeira.
A ofensa atingiu Desmond, mas ele não recuou. Aquela era a hora da verdade. — Não se preocupe com o dinheiro, Roger. A conta é ilimitada. Eu sou o novo dono das Corporações Widmore. Está tudo pago.
O sorriso de Roger vacilou por um segundo, transformando-se em uma expressão de nojo calculado. — Ah, sim. A garota... — Ele balançou a cabeça, impressionado com a audácia. — Então você finalmente parou de correr e teve coragem de assumir o trono do papai dela? Casou pelo dinheiro, afinal?
Desmond sentiu o rosto queimar. Ele sabia que a morte de Charles Widmore fora o catalisador, mas ouvir aquilo da boca de Roger doía. — Pense o que quiser. O dinheiro é real. E a missão também.
Roger inclinou-se para frente, o interesse financeiro superando o desprezo pessoal. — O que exatamente vamos explorar?
Richard, que vigiava a porta da cafeteria, tocou o braço de Desmond. — Não temos tempo para detalhes aqui. Eles estão lá fora.
Desmond levantou-se, abotoando o casaco. — Eu te conto no caminho. Nosso voo para Sydney sai hoje à noite.
— Sydney? — Roger franziu a testa, intrigado. — O que diabos há em Sydney?
— O começo do fim, Roger. — Desmond jogou algumas notas na mesa, mais do que o suficiente para o café. — Está tudo pago. Faça o trabalho, não faça perguntas e você terá mais dinheiro do que consegue gastar. Não questione o que estamos fazendo. É melhor para sua saúde.
Roger olhou para o dinheiro, depois para os olhos endurecidos de Desmond. Ele viu algo novo ali: não o amigo covarde do passado, mas um homem que estava disposto a queimar o mundo para salvar o que amava.
Roger sorriu, um brilho ganancioso e predador nos olhos. — Estou dentro.
Os três saíram pela porta dos fundos da cafeteria, desaparecendo na neblina escocesa antes que seus perseguidores pudessem entrar, rumo a um destino que selaria a sorte de todos eles.
Parque Universitário, Las Cruces, Novo México – Presente
No presente, enquanto Aaron permanecia paralisado na praça, Richard Alpert entrou em ação. Ele sabia que Yan estava prestes a pegar o primeiro táxi para o aeroporto e desistir de tudo. Com passos rápidos e silenciosos, Richard interceptou o enfermeiro na esquina da rua principal.
Uma mão firme pousou no ombro de Yan.
— Ei. Você não vai querer ir embora agora.
Yan girou, assustado, pronto para se defender. — Quem é você? Um capanga do James?
— Não. — Richard sorriu, aquele sorriso antigo e tranquilizador que ele usara por décadas para recrutar pessoas. — Meu nome é Richard Alpert. Sou o Diretor de Operações da Widmore na Austrália. Tecnicamente, sou o chefe do Aaron. E, por extensão, o homem que está financiando sua busca por respostas sobre Jack Shephard.
Yan baixou a guarda, surpreso. — O chefe do Aaron? O que o senhor está fazendo aqui no meio do nada?
— Estou garantindo que o investimento valha a pena. — Richard ajeitou o paletó. — Cheguei um pouco antes de vocês. Precisava avaliar o terreno. James Ford é... complicado.
— "Complicado" é eufemismo. A missão fracassou. Ele nos expulsou com uma arma. — Yan suspirou, derrotado. — Acabou.
— Não exatamente. — Richard olhou para a casa no final da rua, onde as luzes estavam apagadas. — James reage mal à pressão, mas ele reage bem à verdade. Vamos resolver isso. Venha comigo.
Yan hesitou, mas a confiança na voz de Richard era magnética. Ele assentiu e seguiu o homem misterioso de volta para a linha de fogo.
Rancho do James, Las Cruces
Aaron pegou um Uber de volta para o racho de James. Alguns minutos depois ele estava parado diante do portão do rancho. O medo de levar um tiro era real, mas a necessidade de entender o que havia naquele lugar era maior. Ele respirou fundo, engoliu o orgulho e chamou.
— James! — A voz saiu fraca, levada pelo vento do deserto. — James, por favor!
Nenhuma resposta. A casa parecia um túmulo.
Dentro da sala escura, James Ford estava sentado no chão, as costas apoiadas no sofá, uma garrafa de uísque vazia ao lado. Ele ouvia os gritos de Aaron, mas eles pareciam vir de outro mundo.
A mente de James não estava em Las Cruces. Estava de volta à Ilha, no ano de 1977. Ele estava pendurado nos destroços da estrutura da Cisne, segurando a mão de Juliet com toda a força que lhe restava.
O metal rangia. O buraco magnético rugia abaixo deles, prometendo o esquecimento.
"Não solte," ele sussurrou para a memória. "Eu peguei você."
Mas ele sentiu o peso. Viu os olhos azuis dela, cheios de amor e resignação. Viu quando ela percebeu que ambos cairiam se ela não soltasse.
"Eu te amo, James. Te amo muito."
E então, a mão dela escorregou. O grito dele foi abafado pela explosão branca. A dor da perda era física, uma faca girando em seu peito que nunca parava de cortar.
Lá fora, Aaron gritou novamente. — Eu não vou embora!
A voz do rapaz trouxe James de volta para o presente, mas o fantasma de Juliet permaneceu na sala. Ele olhou para as próprias mãos, as mesmas mãos que não conseguiram salvá-la. Como ele poderia deixar Clementine ir para aquele lugar? A Ilha comia as pessoas que ele amava.
Aaron, percebendo que gritar não adiantava, tomou uma decisão estúpida e corajosa. Ele pulou a cerca quebrada e caminhou até a varanda. A porta da frente estava entreaberta, rangendo suavemente.
— James? — Aaron empurrou a porta.
O silêncio era pesado, com cheiro de poeira e álcool. Aaron caminhou pelo corredor, o coração batendo na garganta. — Eu sei que você está aí. E sei que não vai atirar em mim.
Ele encontrou a porta do quarto entreaberta. Empurrou-a devagar.
James estava sentado na beira da cama, a cabeça entre as mãos, a arma jogada displicentemente no lençol. Ele parecia ter envelhecido dez anos em dez minutos.
— James? O que houve? — perguntou Aaron, a raiva dando lugar à preocupação.
James levantou o rosto. Seus olhos estavam vermelhos, úmidos. A máscara de durão havia caído completamente. — Eu não posso... — A voz dele era um sussurro quebrado. — Eu não posso deixar ela ir. Não para lá.
— James, nós precisamos terminar a missão. Não podemos desistir agora.
— Você não entende, garoto! — James levantou-se num rompante, mas não havia agressividade, apenas desespero. — Aquele lugar... ele tira tudo. Eu perdi a Juliet. Eu vi a mulher que eu amava cair num buraco e morrer sozinha para me salvar. Eu perdi a Kate. Perdi meus amigos. — Ele apontou um dedo trêmulo para Aaron. — Você quer levar a minha filha para o matadouro? Eu não posso sobreviver a isso de novo. Eu não posso enterrar minha filha.
Aaron ficou sem palavras. Pela primeira vez, ele viu o trauma real por trás das histórias. James não era um vilão; era um sobrevivente quebrado.
Aaron sentou-se na cadeira em frente a ele, baixando o tom de voz. — James, eu não sei o que aconteceu com a Juliet. Mas eu sei que se não fizermos isso... algo pior pode acontecer. Minha mãe também tem medo. Mas ela me disse que fugir nunca resolveu nada.
— Sua mãe teve sorte. — James limpou o rosto, tentando recuperar a compostura. — Olha para mim, Aaron. Eu sou um fantasma. Eu morri naquele dia em 2004. Só esqueceram de me enterrar.
O momento de vulnerabilidade foi interrompido pelo som de passos no corredor. James tencionou, a mão indo instintivamente para a arma na cama, mas parou ao ver as figuras que surgiram na porta.
Yan entrou primeiro, parecendo apreensivo. E logo atrás dele, entrou Richard Alpert.
James congelou. Seus olhos se estreitaram, focando no homem que não deveria estar ali. O homem que não envelhecia, mas estava mais velho.
— Olá, James. — Disse Richard, com a calma de quem já viu impérios nascerem e caírem.
James levantou-se devagar, a descrença estampada no rosto. — Richard?
Aaron olhou de Richard para James, confuso. — Chefe? O que você está fazendo aqui?
Richard ignorou Aaron e manteve o olhar fixo em James. — Eu vim terminar o que começamos, James. E vim garantir que Clementine não tenha o mesmo destino que a Juliet. Mas para isso... você precisa confiar em mim mais uma vez.
Antiga sede da Widmore Corporation em Sydney, Austrália – Outubro de 2025
O escritório improvisado de Desmond era pouco mais que escombros luxuosos, mas o que chamou a atenção de Roger Miles não foi a arquitetura abandonada, e sim a anomalia estacionada bem na frente, na vaga reservada para a diretoria.
Era uma Kombi Volkswagen Tipo 2, azul desbotada, com manchas de ferrugem e um logotipo octogonal perfeitamente preservado na porta. Parecia ter saído de um filme dos anos 70 e sido teletransportada para o meio da elite corporativa de Sydney.
Roger parou, acendendo um cigarro. — De quem é a lata velha? — perguntou ele, soprando a fumaça.
Desmond parou ao lado dele, os olhos fixos no logotipo da Dharma. A cor fugiu de seu rosto. — Richard... — Desmond sussurrou. — Aquilo é o que eu estou pensando?
Richard Alpert suspirou, ajeitando a gravata com um cansaço milenar. — É uma das unidades originais da Iniciativa Dharma. Estava em um galpão de suprimentos em Guam. Ben e Hugo a encontraram quando foram fechar as operações externas da Dharma e, bem... você conhece o Hugo. Ele insistiu em trazê-la para cá.
— Guam? — Roger riu, sarcástico. — Vocês têm amigos que cruzam o oceano para buscar sucata?
— Acredite Roger, nossos amigos são bem mais que colecionadores. — Disse Richard.
— Vamos entrar. — Disse Desmond, irritado.
Ao entrarem na sala da presidência, a cena era surreal. Sentados nas cadeiras de couro italiano estavam dois homens que não poderiam ser mais opostos. Um era gordo, vestindo roupas largas e com um sorriso bonachão. O outro era baixo, com olhos de inseto que pareciam calcular a melhor forma de matar todos na sala.
— E aí, dudes. — Hugo Reyes levantou a mão, casual.
— Olá, Richard. — Benjamin Linus cumprimentou com um aceno de cabeça, ignorando os outros.
Roger encostou-se na parede, cruzando os braços. Ele observou Richard retribuir o cumprimento de Ben com uma cautela que ele nunca vira no "homem santo". Havia história ali. Sangue ruim.
— Aquela Kombi lá embaixo está vazando óleo na calçada de mármore — comentou Roger, testando o terreno.
— É um clássico, cara. — Hugo sorriu. — Tem valor sentimental.
Desmond, no entanto, não estava para brincadeiras. Ele bateu a mão na mesa. — O que vocês estão fazendo aqui?
— Viemos fazer o controle de qualidade. — Ben respondeu, a voz calma e irritante. — Precisamos saber se a missão está nos trilhos. Mas... — Ele olhou significativamente para Roger. — Assuntos da diretoria.
Desmond virou-se para Roger e Richard. — Nos deem um minuto.
Roger bufou, mas obedeceu. Ele e Richard saíram para o corredor, fechando a porta de vidro. Mas Roger não se afastou. Ele ficou observando a discussão muda através do vidro.
— Quem são os palhaços? — perguntou Roger a Richard.
Richard olhou para dentro da sala, onde Desmond gesticulava furiosamente. — Os donos da casa, por assim dizer. O gordo é Hugo Reyes. O atual... guardião daquilo que procuramos. E o outro é Benjamin Linus. Um mal necessário.
— Guardião? — Roger riu. — O gordo parece que não guarda nem um sanduíche. E o outro tem cara de contador pedófilo. Estamos recebendo ordens deles?
— Estamos todos jogando o jogo deles, Roger. — Richard encostou a testa no vidro. — Desmond está descobrindo isso da pior maneira agora.
Dentro da sala, a discussão explodiu. Desmond gritava, o rosto vermelho.
— Há quanto tempo você sai da ilha, Hugo?! — O grito de Desmond vazou pela porta.
— Bem, Desmond... — Hugo tentava acalmar, mas foi interrompido por Desmond.
— Vocês me disseram que a saída era perigosa! Vocês me fizeram atravessar aquele portal de luz no templo! E agora vocês aparecem aqui para tomar café?
Roger viu Hugo e Ben trocarem um olhar cúmplice. Aquilo cheirava a segredo de estado.
— Não usei o portal — disse Hugo.
— O quê? — Desmond recuou, chocado.
— Apenas eu, Ben e aqueles que a Ilha permite têm o passe livre. É uma das vantagens do cargo, dude. Podemos sair e voltar. Teletransporte, projeção astral... chame como quiser.
Desmond soltou uma risada que beirava a histeria. — Isso é ridículo. Eu fiquei dez anos apodrecendo naquele lugar, longe do meu filho, longe da minha esposa... e vocês podiam sair para comprar donuts quando quisessem?
— Eu usei o transporte convencional... — Disse Ben, sorrindo enquanto apreciava a situação caótica que se formara.
— Amigo, desculpa... — começou Hugo.
— Não me chame de amigo, brother. — Desmond rugiu.
Roger observou a cena, fascinado. Ele cutucou Richard. — O seu chefe está tendo um colapso.
— Ele está percebendo que foi usado — murmurou Richard, com uma pontada de simpatia. — Desmond achou que era o herói. Mas ele era apenas a única peça descartável o suficiente para fazer o trabalho sujo.
Dentro da sala, Hugo tentava se explicar. — Se deixássemos você sair antes, a energia se desestabilizaria. Você é a Constante, Desmond. Você precisava ficar. Só agora, com a ameaça de Osíris, a Ilha permitiu sua saída. E ainda permitiu que você escolhesse um candidato. Roger Miles o nome dele? Ele parece uma boa aposta.
— A Ilha permitiu? Ou vocês manipularam tudo? — Desmond estava tremendo. — Dez anos, Hugo. Vocês roubaram dez anos da minha vida.
— Não fizemos por mal. — Hugo levantou-se. — Vamos embora, Ben. Ele precisa esfriar a cabeça.
Hugo e Ben passaram pela porta. Roger desencostou da parede, bloqueando o caminho de Ben por um segundo, apenas para medir o homenzinho. Ben parou e olhou para cima, sustentando o olhar de Roger com uma frieza que fez o mercenário, pela primeira vez, sentir um arrepio. Aquele não era um contador. Era um assassino.
— Com licença — disse Ben, educado e mortal.
Roger deu passagem.
— Desgraçados! — gritou Desmond de dentro da sala.
Hugo parou antes de entrar no elevador e olhou para Desmond. — Apenas conclua a missão, irmão. Traga os candidatos. Ou tudo o que você perdeu terá sido em vão.
A porta do elevador se fechou.
Roger entrou na sala. Desmond estava apoiado na mesa, a respiração irregular, olhando para o nada. Ele parecia um homem que acabara de descobrir que sua religião era uma mentira.
— Você está bem? — perguntou Roger, embora a resposta fosse óbvia.
Desmond levantou a cabeça. A mágoa em seus olhos havia endurecido, transformando-se em uma determinação de aço. — Eles acham que são os donos do tabuleiro, Roger. Mas eles acabaram de me dar o motivo que eu precisava para virar a mesa.
Ele olhou para Richard e depois para Roger. — Vamos voltar ao trabalho. Temos uma equipe para montar.
Rancho do James – Presente
James voltou da cozinha equilibrando quatro garrafas de cerveja suadas. Ele as distribuiu sem cerimônia, o vidro batendo na mesa de centro com um som seco.
Yan pegou a garrafa, agradecido. — A cerveja da paz. Era o que faltava.
— Bebam — disse James, jogando-se na poltrona. — Vamos aos negócios. Então a Widmore quer minha filha? A resposta é não. Obrigado pela visita.
Richard deu um sorriso de canto com a comentário de James que retribui com um olhar frio.
Aaron ignorou a bebida, os olhos fixos em Richard. — O que você está fazendo aqui, chefe? Você deveria estar em Sydney.
— Fui encarregado de supervisionar a operação, Aaron. — Richard tomou um gole elegante, destoando completamente do ambiente rústico. — Digamos que eu tinha um pressentimento de que a diplomacia não seria o ponto forte desta equipe. Cheguei antes para garantir o terreno.
— Então você sabia que Clementine não estava em Albuquerque? — Aaron perguntou, a irritação transparecendo. — Você nos deixou rodar em círculos?
— Eu deixei vocês ganharem experiência de campo. — Richard respondeu com calma irritante. — Mas agora o tempo urge.
James soltou uma risada curta, interrompendo o acerto de contas. — Olha só para vocês. Brigando como um casal de velhos. — Ele apontou a garrafa para Richard. — Então, o zumbi de terno quer falar com a minha filha.
— Ela é indispensável, James. Você sabe disso — disse Richard, o tom ficando grave.
— Sei? O que eu sei é que a Widmore pagou a faculdade dela em Oxford para comprar meu silêncio. — James olhou para Aaron e Yan com um sorriso de escárnio. — Vocês acham que vão chegar lá, balançar um contrato e ela vai pular no barco? Minha filha é esperta. Ela vai rir da cara de vocês e mandar todos para o inferno.
— Deixe que ela decida — rebateu Aaron.
James levantou-se, terminando a cerveja num gole só. — Sabe de uma coisa? Eu vou levar vocês. Só pelo prazer de ver a Clementine escorraçar a Widmore pessoalmente. Vai ser o ponto alto da minha década.
— Mas por que com o Richard é diferente? — questionou Yan, confuso com a mudança de atitude.
James pegou a chave da caminhonete sobre a mesa. — Porque o Richard sabe onde os corpos estão enterrados, garoto. E porque ele sabe que eu não estou brincando. Vamos. Não é longe daqui.
Ele caminhou para a porta, parando apenas para lançar um último aviso: — Mas já vou avisando: a cabine é para os adultos. Eu e o Alpert vamos na frente. Vocês dois vão na caçamba.
Aaron e Yan se entreolharam. — Ele está falando sério? — sussurrou Yan.
— Infelizmente, acho que sim — respondeu Aaron.
Centro, Las Cruces
A viagem até o centro de Las Cruces foi ventosa e desconfortável. Sentados na caçamba da picape velha de James, Aaron e Yan seguravam-se como podiam enquanto o veículo saltava nos buracos da estrada. Pelo vidro traseiro, Aaron podia ver James e Richard conversando, mas não conseguia ouvir nada. A expressão de James era tensa; a de Richard, impenetrável.
— Isso está ficando cada vez mais estranho — gritou Yan contra o vento. — O pai dela nos odeia, mas está nos levando até ela.
— Ele acha que ela vai dizer não — gritou Aaron de volta. — Ele está nos levando para sermos humilhados.
Vinte minutos depois, a picape parou em frente a um prédio de apartamentos de tijolos vermelhos, numa área universitária da cidade. James desceu, ajeitando a jaqueta, e fez um sinal de cabeça para os rapazes descerem.
— Quarto andar. Sem elevador. Tentem acompanhar.
Eles subiram as escadas, o cheiro de livros velhos e incenso permeando o corredor. James parou diante da porta 402 e virou-se para os rapazes, o dedo em riste.
— Escutem bem. Minha filha é solteira, inteligente e boa demais para qualquer um de vocês. Se eu pegar algum de vocês olhando torto para ela, eu arranco os olhos. Entendido?
Yan engoliu em seco. Aaron apenas assentiu.
James bateu na porta. Um som de passos leves se aproximou, e a porta se abriu.
Clementine Phillips apareceu.
Aaron sentiu o ar faltar por um segundo. Ela não se parecia em nada com as fotos de criança na parede do rancho. Tinha cabelos curtos e castanhos que emolduravam um rosto de traços fortes, herdados do pai, mas suavizados por sardas que lhe davam um ar jovial. Seus olhos verdes brilhavam com uma inteligência afiada e curiosa. Ela vestia jeans e uma camiseta larga de banda, despretensiosa, mas magnética.
— Oi, pai. — Clementine sorriu, um sorriso que iluminou o corredor sombrio. Ela abraçou James, mas seus olhos logo correram para os três estranhos atrás dele. — Quem é a comitiva?
— Olá, Srta. Phillips. Somos da Widmore... — começou Richard, usando seu tom mais profissional.
James cortou a formalidade com um gesto de mão. — Sem essa, Alpert. Vamos direto ao ponto. — James colocou a mão no ombro da filha, num gesto protetor e possessivo. — Clem, esses palhaços vieram aqui te oferecer uma "oportunidade incrível". Uma expedição para uma ilha no meio do nada. Eu só os trouxe para você poder dizer "não" na cara deles e a gente ir jantar.
Ele sorriu para a filha, esperando a recusa imediata.
Clementine olhou para Richard, depois para Yan, e finalmente seus olhos pararam em Aaron. Houve um momento de silêncio, uma troca de olhares onde algo não dito passou entre eles. Aaron viu nela não confusão, mas reconhecimento.
— Uma ilha? — perguntou ela, a voz calma.
— É. Uma loucura científica. Coisa da Widmore. — James riu, nervoso. — Diga a eles para sumirem, querida.
Clementine deu um passo à frente, saindo da proteção do braço do pai. Ela olhou fixamente para Aaron. — Quando partimos?
O sorriso de James morreu. O corredor ficou em silêncio absoluto.
— O quê? — James engasgou, como se tivesse levado um soco.
Yan soltou uma risadinha nervosa de surpresa, que ele rapidamente disfarçou com uma tosse.
— Eu aceito — repetiu Clementine, firme. — Eu vou.
— Espera aí! — James colocou-se na frente dela. — Você nem sabe o que é! Você não pode simplesmente aceitar ir para o meio do oceano com três estranhos! Clem, você tem a faculdade, você tem sua vida...
— Eu já terminei a faculdade, pai. — Clementine olhou para James com uma mistura de carinho e determinação férrea. — E você sabe que eu nunca fui de ficar parada.
Ela voltou-se para Aaron, estendendo a mão. — Sou Clementine. E minha mala já está pronta.
Aaron apertou a mão dela, atordoado. A mão dela era quente e firme. — Aaron. Aaron Littleton.
James olhou de um para o outro, o rosto vermelho de choque e traição. Ele tinha levado a Widmore até a porta, crente que seria uma vitória. Em vez disso, acabara de entregar sua filha para o destino que tanto temia.
— Isso não vai acontecer — rosnou James. — Eu não vou permitir.
Clementine soltou a mão de Aaron e olhou para o pai. — Pai... eu não estou pedindo permissão.
Hotel Savoy, Londres – Julho de 2027
O salão de baile do Hotel Savoy reluzia com cristais e hipocrisia. Para Desmond Hume, cada aperto de mão, cada sorriso polido e cada taça de champanhe eram uma tortura. Dois anos haviam se passado desde o acordo na Escócia, e a "missão" se arrastava nos bastidores, enquanto publicamente ele precisava interpretar o papel de magnata.
Saber que Hugo e Ben o manipularam por uma década ainda era uma ferida aberta, mas a ameaça de Osíris era maior que seu orgulho. Ele continuava, não pela Ilha, mas por Penny e Charlie.
Desmond ajustou a gravata, sentindo-se sufocado. Ao seu redor, a elite global circulava. Em um canto, conversando com investidores, estava Ji Yeon Kwon. A herdeira das Indústrias Paik tinha apenas vinte e poucos anos, mas possuía a postura de uma imperatriz. Seus cabelos negros caíam como seda sobre um vestido de corte preciso, e seus olhos escuros analisavam o ambiente com uma frieza calculadora que lembrava seu avô, mas com a beleza suave da mãe, Sun.
Do outro lado, encostado no bar, estava Charlie Hume. O filho de Desmond. Aos vinte anos, o rapaz tinha a beleza da mãe e a intensidade sombria do pai. Ele bebia uísque como se fosse água, os olhos varrendo o salão com um misto de tédio e arrogância. Havia uma aura de perigo nele, uma eletricidade estática de quem espera uma briga.
A música suave cessou. As luzes diminuíram. Um mestre de cerimônias subiu ao palco.
— Senhoras e senhores, por favor, recebam o homem que redefiniu o legado desta empresa. O CEO das Corporações Widmore, Sr. Desmond Hume!
Aplausos educados preencheram o ar. Desmond subiu ao palco, forçando o sorriso que havia treinado na frente do espelho.
— Obrigado — disse ele ao microfone, a voz projetada. — É um privilégio estar aqui. Nosso império cresce a cada dia, expandindo fronteiras que antes considerávamos impossíveis. Mas nada disso seria real sem a visão da minha esposa.
Ele estendeu a mão. Penelope subiu ao palco, deslumbrante e implacável. Ela assumiu o microfone, e o clima na sala mudou. Onde Desmond trazia carisma, Penny trazia poder.
— Boa noite — disse ela. — O crescimento exige estratégia. E a estratégia exige os generais certos nos lugares certos. Por isso, é com orgulho que anuncio uma reestruturação vital. A partir de hoje, a presidência da nossa sede na Austrália será ocupada por um homem de confiança inabalável: Richard Alpert.
O foco de luz se moveu para Richard, que acenou com uma humildade ensaiada. Os aplausos foram protocolares, mas no bar, o copo de uísque de Charlie Hume bateu com força no balcão.
Charlie não esperou o brinde. Ele virou as costas e saiu do salão, a expressão contorcida em fúria silenciosa.
Do lado de fora, a chuva londrina caía em lençóis gelados. Charlie estava sob o toldo da entrada, acendendo um cigarro com mãos trêmulas de raiva. A fumaça saiu de seus pulmões em um jato nervoso.
— Droga, eles não sabem com quem está lidando — murmurou ele para a chuva. — Aquele velho... ele nem sequer é da família.
— Ele tem seus truques, garoto.
A voz veio das sombras, rouca e arrastada. Charlie virou-se, defensivo.
Sentado no chão úmido, encostado na parede de pedra do hotel, estava Roger Miles. A gravata estava desfeita, e uma garrafa de bebida barata estava ao seu lado. Ele estava bêbado, mas seus olhos, fixos em Charlie, estavam lúcidos e afiados.
— Quem é você? — perguntou Charlie, recuando um passo.
Roger riu, um som seco. Ele se levantou com dificuldade, limpando a calça. — Eu sou o cara que seu pai chama quando precisa de alguém para fazer o trabalho sujo que o "precioso" Richard não quer fazer. Roger Miles.
Charlie franziu a testa. O nome era familiar. — Você serviu com meu pai.
— Servi. Fui amigo dele. E fui traído por ele, dependendo do ponto de vista. — Roger cambaleou um passo à frente, apontando para a porta do hotel. — Vi sua cara lá dentro. Você não gosta do Alpert.
— E daí? — Charlie tragou o cigarro, desafiador.
— E daí que você é esperto. — Roger baixou o tom de voz, conspiratório. — Aquele homem... Richard... ele não é normal. Ele anda pelos corredores da Widmore como se fosse dono do lugar há séculos. E seu pai? Seu pai obedece a ele como um cachorrinho.
— Meu pai confia nele.
— Confia demais. — Roger cuspiu no chão. — Eles têm segredos, garoto. Segredos sobre uma ilha. Segredos sobre o que estamos realmente procurando. Eu sou o músculo, eles me pagam para não perguntar. Mas você? Você é o herdeiro. E eles te trataram como um estagiário hoje.
Charlie jogou o cigarro na poça d'água, o chiado da brasa morrendo ecoando entre eles. As palavras do bêbado tocavam na ferida aberta de seu ego. — O que tem de tão especial nessa ilha? Por que Richard é tão importante?
— Essa é a pergunta de um milhão de dólares. — Roger encostou-se novamente na parede, deslizando até sentar-se no chão. — Eu sei que estamos lidando com algo perigoso. Algo que o "santo" Richard Alpert manipula. Se eu fosse você, Charlie... eu ficaria de olhos bem abertos. O inimigo pode não estar lá fora. Pode estar assinando meus contracheques.
Charlie olhou para Roger, aquele homem quebrado e cínico, e depois para as luzes douradas do hotel onde Richard recebia os cumprimentos.
— Desculpe, Roger. Não estou interessado em teorias da conspiração de bêbados. — Disse Charlie, frio.
Ele deu as costas e voltou para a festa, mas a semente da dúvida havia sido plantada. Roger observou o rapaz entrar, pegou sua garrafa e brindou à chuva.
— Você vai estar, garoto... — sussurrou Roger. — Você vai estar.
Centro de Las Cruces, Novo México – Presente
De volta ao duplex provisório no centro de Las Cruces, o silêncio era absoluto. Roger sabia que tinha pouco tempo antes que Richard ou os garotos retornassem, e ele não era homem de desperdiçar oportunidades.
Ele não estava ali para descansar. Com a precisão de quem já vasculhou quartéis inimigos, Roger começou a varredura.
O apartamento era impessoal, estéril, típico de alguém como Richard Alpert, que parecia não deixar rastros. Mas todo homem tem um segredo, e Roger sabia onde procurar. No quarto principal, ele ignorou o óbvio e foi direto para a mesa de cabeceira. A gaveta deslizou sem ruído. Vazia, exceto por uma Bíblia.
Roger sorriu. — Clássico.
Ele passou a ponta dos dedos pelo fundo da madeira. Sentiu o desnível milimétrico na junção. Com a lâmina do canivete, ele forçou a trava oculta e o fundo falso se soltou.
Lá dentro, repousava uma pasta de arquivo manila, sem identificação externa.
— O que vocês escondem tanto, seus bastardos? — murmurou Roger para o quarto vazio.
Ele abriu a pasta. O que viu não eram planos de viagem ou mapas da ilha. Eram relatórios de vigilância.
Havia fotos de James Ford comprando bebida. Fotos de Clementine saindo da escola. Cópias de extratos bancários da conta que James usava, todos com depósitos mensais da Widmore. Havia uma tabela detalhada: horários de saída, rotas frequentes, hábitos noturnos.
Não era um diário. Era o registro de um animal em cativeiro.
Roger folheou as páginas, o sorriso cínico se alargando. A Widmore não estava "procurando" James Ford; eles o possuíam. Cada passo daquele homem havia sido monitorado, pago e catalogado por anos.
— Vocês não são heróis — sussurrou Roger, fechando a pasta. — Vocês são donos de zoológico.
Ele recolocou os documentos no fundo falso com cuidado cirúrgico, garantindo que nada parecesse fora do lugar. Fechou a gaveta.
Quando Roger saiu do quarto, sua postura havia mudado. Ele não era mais apenas o mercenário contratado para proteger garotos em uma aventura. Ele era o homem que sabia onde os corpos estavam enterrados. E saber o segredo de Richard Alpert era a arma mais poderosa que ele poderia ter naquela missão.
Ele apagou a luz e sentou-se na poltrona da sala, no escuro. O jogo tinha acabado de ficar muito mais interessante.
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