Lost: O Primeiro Herdeiro

4 LIVRO 1 — CAPÍTULO 04: “QUANTO TEMPO, GAROTO”



O embarque para Albuquerque foi um borrão de filas apressadas e tensão contida. Quando finalmente se acomodaram nos assentos apertados da classe econômica, o sol já se punha, tingindo as asas do avião de um laranja queimado.

Roger Miles sentou-se na fileira de trás, os olhos fechados, fingindo dormir, mas Aaron sabia que ele estava escutando cada respiração. Ao seu lado, Yan Tedros parecia inquieto, folheando a revista de bordo sem realmente vê-la.

— Foi a menção do nome de Jack Shephard que me trouxe até aqui, Aaron — disse Yan de repente, sem preâmbulos, a voz baixa para não atrair atenção. Ele fechou a revista e olhou para o companheiro. — Minha mãe fala dele como se ele fosse um santo. Eu só quero saber se ele era real. E você? O que te motiva a entrar nesse avião?

Aaron olhou pela janela, observando as nuvens escuras que se formavam abaixo deles. Um sorriso sincero, raro nos últimos dias, tocou seus lábios. — A verdade. Acho que passei os últimos dias esperando alguém me dizer que eu não sou louco.

Antes que Yan pudesse responder, o avião deu um solavanco violento. O sinal de "apertar cintos" acendeu com um ding agudo. O que começou como uma vibração leve rapidamente se transformou em uma queda livre. Gritos ecoaram pela cabine enquanto as máscaras de oxigênio oscilavam nos compartimentos, ameaçando cair.

Aaron agarrou os braços da poltrona, o coração disparando contra as costelas. Ele olhou para o painel digital no encosto da poltrona à frente, esperando ver o mapa de voo.

Mas o mapa havia sumido.

No lugar da rota, números verdes neon piscavam em um fundo preto, substituindo a altitude e a velocidade:

4... 8... 15... 16... 23... 42...

— Você está vendo isso? — Aaron tentou gritar para Yan, mas sua voz não saiu.

O zumbido das turbinas mudou de tom. O rugido grave e mecânico se distorceu, tornando-se uma melodia alegre e incongruente. Piano e bateria. Uma voz feminina antiga começou a cantarolar: “Make your own kind of music... sing your own special song...”

O avião desapareceu.

De repente, Aaron não estava mais em uma poltrona de couro sintético. Ele estava deitado em um beliche militar estreito. O ar cheirava a mofo e eletricidade estática. As paredes não eram de plástico de avião, mas de concreto armado e metal.

Ele estava na Escotilha. A mesma que sempre o assombra, mas agora havia algo diferente.

A música tocava alto, vinda de uma vitrola que girava sozinha. Aaron tentou se levantar, mas seu corpo estava pesado, como se a gravidade tivesse triplicado.

Ele olhou para o lado. Yan estava lá, mas não vestia suas roupas civis. Ele usava um macacão bege com o logo da Dharma Initiative. Roger também estava e usava o mesmo traje, mas estava de costas trabalhando em algo que parecia crucial. O rosto de Yan estava pálido, os olhos vidrados e fixos em um contador digital na parede que decrescia furiosamente.

O contador não marcava minutos. Marcava apenas um número, vermelho e pulsante: 108.

Um alarme começou a soar, abafando a música. Bip. Bip. Bip.

— Aaron... — A voz de Yan não era dele. Era uma mistura de vozes, um eco de muitas pessoas gritando ao mesmo tempo. — Você tem que apertar.

— Apertar o quê? — Aaron gritou, o pânico o sufocando.

— O botão. Se você não apertar, tudo acaba. — Yan se aproximou, o rosto se desfazendo em sombras. Ele segurou os ombros de Aaron com uma força desumana. — Encontre-me.

O contador chegou ao zero. O mundo ficou branco. Hieróglifos vermelhos e pretos explodiram em sua visão, e o som de metal sendo esmagado preencheu sua cabeça.

— AARON!

Ele acordou com um grito preso na garganta, puxando o ar como se estivesse se afogando.

A cabine do avião estava calma. As luzes estavam baixas. Não havia música, nem alarme, apenas o ronco constante e monótono dos motores em cruzeiro.

Yan o segurava pelo ombro, os olhos arregalados de preocupação. — Ei! Cara, respira! Você está bem?

Aaron olhou ao redor, frenético. O painel à sua frente mostrava apenas um mapa inofensivo da rota para o Novo México. Ele tocou o próprio peito, sentindo o coração bater tão forte que doía.

— O que... o que aconteceu? — Aaron sussurrou, trêmulo. — A turbulência... o alarme...

— Que turbulência? — Yan franziu a testa, confuso. — Nós passamos por uma zona de instabilidade leve há dez minutos, mas você apagou. Começou a se debater e a murmurar números.

Aaron passou a mão pelo rosto, enxugando o suor frio. Roger, na poltrona de trás, inclinou-se para a frente, apoiando o queixo no encosto da poltrona de Aaron.

— Pesadelo ruim, garoto? — A voz de Roger era seca, desprovida de simpatia.

— Foi só um sonho — Aaron mentiu, a voz falhando. — Não estou acostumado a voar.

Yan soltou o ombro dele, ainda desconfiado, mas forçou um sorriso tranquilizador. — Tente relaxar. O pior já passou.

Mas Aaron sabia que era mentira. Enquanto olhava para a escuridão fora da janela, a sensação de claustrofobia daquela escotilha imaginária persistia. A "Ilha" não estava apenas chamando por ele. Ela estava invadindo sua mente. E o número 108 ainda queimava em sua memória como um aviso.

Albuquerque, Novo México – Alguns minutos após o desembarque

O calor seco do deserto do Novo México atingiu Aaron como uma bofetada assim que as portas do aeroporto de Albuquerque se abriram. A luz do sol era implacável, muito diferente da umidade da cabine do avião, mas o frio do pesadelo ainda residia em seus ossos. O número 108 piscava em sua mente a cada batida do coração.

Eles pegaram um táxi até um hotel de beira de estrada, escolhido por Roger por ser discreto e longe das câmeras do centro. No quarto abafado, Aaron sentou-se na cama, passando a mão pelo rosto, tentando apagar a imagem de Yan e Roger vestidos como um funcionário da Dharma.

Roger jogou sua mochila tática sobre a mesa e virou-se para os dois rapazes. Ele arrancou uma folha de um bloquinho e anotou um endereço.

— Este é o último endereço conhecido de Clementine Phillips — disse Roger, estendendo o papel para Aaron. — Vocês vão até lá.

Aaron pegou o papel, franzindo a testa. — "Nós" vamos? Você não vem?

— Não. Tenho trabalho a fazer que não envolve bater papo com adolescentes.

— Você é meu guarda-costas, lembra? — Aaron retrucou, a irritação superando o cansaço. — Se a Widmore está pagando sua diária, você deveria estar colado em mim.

Roger soltou uma risada curta e sem humor. Ele se aproximou, invadindo o espaço pessoal de Aaron. — Escute, garoto. Se alguém estiver nos seguindo... e considerando quem é o seu chefe, é provável que estejam, eu preciso saber. Enquanto vocês vão fazer a visita social, eu vou varrer o perímetro, alugar um veículo que não seja rastreável e garantir que não tenhamos uma surpresa desagradável na saída.

— Ele tem um ponto — murmurou Yan, tentando apaziguar.

— Além disso — continuou Roger, recuando — uma garota vai se abrir muito mais fácil para dois rapazes com cara de bons moços do que se tiver um veterano de guerra carrancudo respirando no cangote dela. É tática básica. Vão. Peguem um Uber, não usem táxis locais. Encontro vocês aqui em três horas.

Sem esperar resposta, Roger pegou sua jaqueta e saiu, deixando o quarto com uma aura de perigo iminente.

Vinte minutos depois, um Uber deixava Aaron e Yan em um bairro residencial de classe média baixa. As casas eram modestas, com gramados queimados pelo sol. Aaron conferiu o endereço no papel e a casa à sua frente: o número batia.

— Você está bem? — perguntou Yan, enquanto caminhavam pela calçada. — No avião... parecia que você estava tendo uma convulsão.

— Eu já disse, foi só um sonho — mentiu Aaron, apertando a campainha.

A porta se abriu com a corrente de segurança ainda ativada. Um rosto enrugado e desconfiado apareceu na fresta. Era uma senhora idosa, com olhos que já tinham chorado tudo o que tinham para chorar.

— O que vocês querem? — A voz dela era áspera.

— Boa tarde, senhora. — Aaron tentou seu melhor sorriso inofensivo. — Estamos procurando por Clementine Phillips.

A menção do nome fez a senhora tentar fechar a porta, mas Aaron agiu rápido, colocando a mão no batente (sem forçar, apenas impedindo o fechamento total). — Por favor, é importante. Viemos de longe. Temos uma oportunidade de trabalho para ela.

A senhora bufou, destravando a corrente e abrindo a porta, mas bloqueando a entrada com o corpo. — Oportunidade? Se for cobrança, vocês podem dar meia volta.

— Não é cobrança. — Yan interveio. — Somos amigos. Ela mora aqui?

— Não. — A senhora cruzou os braços magros. — Ela não mora mais aqui desde o enterro da minha filha. Desde que a Cassidy se foi.

Aaron e Yan trocaram um olhar rápido. Aquela informação não estava no dossiê simplificado que Desmond entregara. — Sinto muito pela sua perda — disse Aaron, genuinamente. — A Cassidy era mãe dela, certo?

— Era minha única filha. Trabalhou até morrer para sustentar aquela menina, sem ajuda de ninguém. — A amargura na voz da mulher era palpável.

— A senhora sabe onde podemos encontrar a Clementine? — insistiu Aaron.

— Ela foi embora. Foi morar com o... pai. — A senhora cuspiu a palavra como se fosse veneno. — Se é que se pode chamar aquele traste de pai.

— Onde eles estão?

— Las Cruces. — Ela apontou vagamente para o sul. — Ele tem um rancho, ou um buraco qualquer onde se esconde do mundo.

— Qual o nome dele? — perguntou Yan, sacando o celular para anotar.

A senhora estreitou os olhos, o ódio contorcendo suas feições. — James Ford. O homem que arruinou a vida da minha filha. Ele apareceu no enterro como se se importasse, mas eu sei a verdade. Ele é um vigarista. Um golpista que tirou tudo o que a Cassidy tinha.

Aaron sentiu um peso no estômago. O homem que eles procuravam não parecia ser o tipo de pessoa que aceitaria que sua fosse a uma "expedição científica" de bom grado.

— Obrigado, senhora. — Aaron recuou. — Não vamos mais incomodar.

— Digam a Clementine... — a voz da avó falhou, perdendo a raiva e sobrando apenas a tristeza. — Digam a ela que a porta está aberta se ela quiser fugir dele. Porque uma hora ou outra, James Ford destrói tudo o que toca.

A porta bateu na cara deles.

Yan olhou para Aaron, preocupado. — Las Cruces fica a umas três horas daqui. E pelo visto, o pai dela não vai nos receber com chá e biscoitos.

Aaron olhou para a rua deserta, sentindo que o pesadelo do avião era apenas um prelúdio. — Vamos voltar para o hotel. Precisamos contar ao Roger que o endereço mudou. E que o pai dela é um problema.

Aos arredores do deserto da Tunísia – 2017

O deserto era um mar de calor e silêncio, quebrado apenas pelo som de motores se aproximando.

Desmond estava sentado na beira de uma cama improvisada na tenda médica, o soro ainda conectado ao braço. Ele olhava para a entrada, o coração batendo um ritmo frenético contra as costelas. Dez anos. Ele havia ensaiado esse momento mil vezes em sua mente, nas noites escuras da Ilha, mas agora que era real, o medo o paralisava. E se ela tivesse seguido em frente? E se ele fosse apenas um fantasma voltando para assombrar a felicidade dela?

A lona da tenda se abriu. A luz do sol invadiu o ambiente, recortando a silhueta de uma mulher.

— Desmond?

A voz. A constante.

Ele se levantou, ignorando a tontura, e cambaleou para frente. Penelope Hume correu para ele, e o impacto do abraço quase os derrubou. O cheiro dela — perfume caro e poeira do deserto — foi o suficiente para quebrar a última barreira de Desmond. Ele chorou, enterrando o rosto no pescoço dela, sentindo-se, pela primeira vez em uma década, ancorado à terra.

— Você veio... — ele soluçou. — Você sempre vem.

— Eu nunca parei de procurar — sussurrou Penelope, segurando o rosto dele com as duas mãos, mapeando as novas cicatrizes e as linhas de expressão que o tempo trouxera. — Nunca.

Um movimento atrás de Penelope chamou a atenção de Desmond. Um garoto de cerca de doze anos, com cabelos castanhos e olhos curiosos, observava a cena com timidez.

Desmond congelou. Ele soltou Penelope devagar e se ajoelhou, ficando na altura do menino. — Charlie?

O garoto olhou para a mãe, buscando confirmação. Penelope assentiu, sorrindo através das lágrimas. — Oi, pai — disse o menino.

Desmond puxou o filho para um abraço desajeitado e feroz. A culpa por ter perdido tanto tempo pesava, mas a gratidão por estar ali era maior. — Você está tão grande... — Desmond murmurou. — Eu sinto muito. Eu sinto tanto.

Penelope ajoelhou-se ao lado deles, completando o círculo. — Acabou, Dess. Ninguém vai nos separar de novo. Vamos para casa.

Desmond olhou para ela, e a sombra da Ilha voltou aos seus olhos. Ele se lembrou da caverna, de Hugo, da lista de nomes. — Eu queria que fosse simples assim, Penelope. Mas não é.

Penelope franziu a testa, o instinto de proteção disparando. — O que você quer dizer?

— Eu não saí de lá apenas por sorte. Hugo me deu uma passagem, mas ela tem um preço. — Desmond segurou as mãos da esposa com firmeza. — Existe uma lista de pessoas. Candidatos. Eu preciso encontrá-los. Se eu não fizer isso... se eu não terminar o que começamos... a Ilha não vai nos deixar em paz. Ela virá atrás de nós. Atrás do Charlie.

Penelope ficou em silêncio, absorvendo a informação, mas no fundo ela já sabia de algo, mas decidiu não revelar. Mas em vez de medo, Desmond viu algo diferente nos olhos dela. Viu poder.

— Você precisa encontrar pessoas? Pessoas espalhadas pelo mundo? — perguntou ela.

— Sim. Mas eu não tenho nada, Penny. Sou um homem morto há dez anos. Como vou rastreá-los? Como vou convencê-los?

Penelope levantou-se, limpando a areia dos joelhos. A postura dela mudou. Não era mais apenas a esposa preocupada; era uma mulher de negócios formidável.

— Você não precisa se preocupar com recursos, Dess. — Ela estendeu a mão para ajudá-lo a levantar. — Meu pai morreu há anos.

— Charles? Posso confirmar essa informação. Ben o matou. — Desmond comentou.

— Tudo bem. Já superei. O império dele agora é meu. — Penelope apontou para o comboio de jatos e veículos de alta tecnologia da Widmore estacionados do lado de fora. — Eu sou a dona das Corporações Widmore. Tenho satélites, aviões, dinheiro ilimitado e uma rede de inteligência global.

Desmond olhou para a frota, atordoado. A ironia era palpável: a empresa que sempre tentou destruí-lo agora era a única coisa que poderia ajudá-lo a salvar o mundo.

— Você está me dizendo... — Desmond começou, um sorriso incrédulo surgindo.

— Estou dizendo que você tem um exército, meu amor. — Penelope sorriu, um sorriso afiado e determinado. — Dê-me os nomes. Nós vamos encontrá-los.

Desmond olhou para a família. Ele tinha um filho para proteger, uma esposa poderosa ao seu lado e uma missão impossível pela frente.

— Vamos para casa, Penny. — Desmond abraçou os dois novamente. — Quero tomar uma Coca-Cola gelada e fingir que sou normal por uma noite. Amanhã... amanhã nós começamos a caçada.

Hotel à beira de estrada no Novo México – Presente

O sol começava a baixar, pintando o estacionamento do hotel com sombras longas e alaranjadas. Aaron e Yan subiram as escadas metálicas, o som de seus passos ecoando a urgência que sentiam.

Aaron girou a maçaneta. A porta estava destrancada.

O quarto estava vazio. A mochila tática de Roger repousava sobre a mesa, ao lado de um mapa rodoviário aberto, mas o ex-militar havia desaparecido.

— Senta aí, Aaron — sugeriu Yan, verificando o relógio de pulso. — Roger não deve demorar. Ele provavelmente foi buscar comida ou... sei lá, fazer coisas de espião.

Aaron não se sentou. A adrenalina do encontro com a avó de Clementine ainda queimava em suas veias, misturada com uma ansiedade crescente. A ideia de ficar ali, estático, esperando a permissão de um "guarda-costas" que mal conhecia, parecia insuportável.

— Não vou esperar — decidiu Aaron, jogando a mochila sobre o ombro.

— O quê? — Yan arregalou os olhos. — Aaron, aquele cara tem cara de quem mata pessoas no café da manhã. Se a gente sumir, ele vai nos caçar.

— Então que ele nos alcance. — Aaron foi até a porta, determinado. — Se sairmos de Uber, Roger vai nos rastrear. Las Cruces fica a três horas de ônibus. O último sai em vinte minutos. Se sairmos agora, chegamos lá ao anoitecer. Desmond disse que o tempo era curto, Yan. Eu não vou perder a chance de encontrar essa garota por causa de burocracia de segurança.

Yan suspirou, olhando para a porta e depois para Aaron. Ele viu nos olhos do rapaz a mesma determinação teimosa que sua mãe descrevia em Jack. — Droga... Tudo bem. Vamos nessa. Mas quando o Roger nos matar, eu vou dizer "eu avisei".

Interestadual 25, a caminho de Las Cruces, Novo México – Minutos depois

O ônibus rasgava a estrada interestadual rumo a Las Cruces. A paisagem pela janela era um borrão monótono de deserto, cactos e terra seca, um vasto vazio que lembrava a Aaron a solidão de seus pesadelos na Ilha. O ronco do motor criava um ritmo hipnótico, e por um momento, a realidade oscilou.

O ar-condicionado do ônibus parecia frio demais. As luzes de leitura piscavam. Aaron sentiu o pânico subir pela garganta, a sensação de queda livre voltando. Ele apertou o braço da poltrona até os nós dos dedos ficarem brancos.

Ele precisava de uma âncora. Virou-se bruscamente e agarrou o braço de Yan.

— Yan... — A voz de Aaron saiu como um sussurro trêmulo. — Você... você é real?

Yan, que cochilava com a cabeça encostada no vidro, despertou num solavanco. Ele olhou para a mão de Aaron apertando seu braço e depois para os olhos arregalados, cheios de terror, do amigo.

— Como assim? Claro que sou. — Yan franziu a testa, preocupado. — Do que você está falando?

Aaron soltou o braço dele, envergonhado, passando as mãos pelo rosto suado. — Desculpa. É que... depois daquele sonho no avião, às vezes parece que nada disso está acontecendo. Que eu ainda estou lá... preso no pesadelo.

— Relaxa, cara. — Yan ajeitou a postura, o tom de voz tornando-se profissional, quase clínico. — Você não está louco. Estamos num ônibus com cheiro de desinfetante barato no meio do Novo México. Infelizmente, é bem real.

Aaron assentiu, forçando a respiração a voltar ao normal. O silêncio foi quebrado pelo toque do celular de Yan. Ele olhou o visor e fez uma careta culpada.

— É a minha mãe.

Yan atendeu, mudando a voz instantaneamente para um tom leve e despreocupado, uma performance ensaiada. — Oi, mãe... Sim, estou bem. Não, não se preocupe. É apenas uma pesquisa de campo, coisa rápida... Sim, eu estou comendo direito. Volto em menos de um mês. — Ele ouviu por um momento, o olhar fixo no horizonte desértico. — Eu também te amo. Tchau.

Ao desligar, Yan soltou o ar pesadamente, como se tivesse segurado a respiração durante toda a chamada.

— Ela te liga sempre assim? — perguntou Aaron, sentindo uma pontada estranha. Não era inveja, era curiosidade.

— Minha avó dizia que desde o acidente do Jack... ela ficou meio paranoica. Superprotetora. — Yan guardou o celular no bolso. — E você? Sua mãe não liga?

Aaron soltou uma risada seca, sem humor. — Tenho mãe, mas... é complicado.

— "Complicado" parece ser o tema dessa viagem.

— É pior do que você pensa. — Aaron olhou para as próprias mãos, decidindo que, se eles estavam juntos nessa loucura, precisavam de honestidade. — Dias atrás, ela me contou a verdade. Ela não queria ser mãe, Yan. Quando embarcou naquele voo, ela estava grávida de oito meses. Estava indo para Los Angeles para me entregar. Adoção.

Yan virou-se, surpreso pela franqueza. — Nossa. Isso é... pesado.

— Talvez. Mas algo aconteceu lá que a fez mudar de ideia. Ela desistiu da adoção. Decidiu me criar, mesmo no meio do inferno.

Yan processou a informação. As peças do quebra-cabeça em sua mente começavam a se encaixar com um clique audível. — Então... você nasceu lá? Na ilha?

A pergunta pairou no ar. Aaron estreitou os olhos. Ele não tinha mencionado o local exato do nascimento. — Ilha? Eu não disse "ilha".

Yan travou. Ele tentou disfarçar, mas o nervosismo vazou em sua voz. — Opa, desculpa. Confundi as histórias. Afinal, a missão da Widmore é numa ilha, não é? Só assumi que...

— Você tem algo a me dizer que ainda não disse, Yan? — Aaron cortou, a desconfiança aguçando seus sentidos. — Você aceitou muito fácil deixar sua vida, seu emprego, sua mãe doente, para embarcar numa "pesquisa" com um estranho.

— Sou aventureiro. Talvez seja isso.

— Sei... — sussurrou Aaron, incrédulo. Ele olhou nos olhos de Yan e decidiu jogar as cartas na mesa. — Se quer saber, sim. Jack Shephard e minha mãe, Claire, estavam no mesmo voo em 2004. O Voo 815. Estamos mais ligados do que você pensa. Eles viveram naquela ilha. A mesma ilha para onde a Widmore quer nos mandar. E sim, eu nasci lá.

— Que loucura... — Yan balançou a cabeça, o peso da revelação assentando sobre eles. Então, a conexão final se formou. — Espera. Se a sua mãe estava no voo da Oceanic... e o Jack também estava...

Aaron completou o raciocínio, sentindo um calafrio que não tinha nada a ver com o ar-condicionado. — James Ford. O pai da Clementine. Ele é um dos sobreviventes. A avó dela disse que ele destruiu a vida da filha. Ele estava lá também.

Os dois se encararam no banco apertado do ônibus.

— Aaron... — Yan sussurrou. — Essa lista do Desmond. Não é um recrutamento de funcionários.

— Não. — Aaron olhou para a estrada à frente, para o destino que se aproximava. — Nós não somos aleatórios. Somos herdeiros.

O silêncio caiu entre eles, pesado e absoluto. Não eram mais dois estranhos em uma viagem de negócios. Eram filhos dos destroços, caminhando em direção ao passado que seus pais tentaram desesperadamente esquecer.

— Não acha estranho tudo isso? — Yan perguntou, a voz baixa. — As pessoas da lista e o destino que nos aguarda? É quase como um conto de ficção onde somos os escolhidos.

— Sim, cara. — Aaron olhou para a estrada à frente, onde o sol começava a se pôr sobre Las Cruces. — Por isso eu não quis esperar o Roger. Eu preciso ir a fundo nisso. Preciso saber o por quê de tudo isso e por que falar disso é quase como um tabu? O que tem de tão perigoso naquele lugar?

Las Cruces, Novo México – Horas depois

O ônibus os deixou na beira de uma estrada de terra batida, levantando uma nuvem de poeira vermelha que cobriu suas roupas. Las Cruces não era o fim do mundo, mas dali, parecia que dava para vê-lo.

Aaron e Yan caminharam pela trilha de cascalho em direção à única propriedade visível num raio de quilômetros. O rancho parecia uma relíquia esquecida: a cerca estava quebrada em vários pontos, o mato crescia desordenado e a casa principal, de madeira envelhecida pelo sol, parecia gritar abandono.

— Tem certeza que é aqui? — perguntou Yan, espantando uma mosca. — Parece que ninguém vive aqui há anos.

— O endereço bate. — Aaron parou diante da varanda, onde uma cadeira de balanço vazia rangia com o vento. Não havia campainha.

— James! — gritou Yan, as mãos em concha ao redor da boca. — Senhor Ford!

A única resposta foi o som do vento e o grasnar de um corvo.

— Vamos entrar — decidiu Aaron, subindo os degraus da varanda. A madeira gemeu sob seu peso.

— Isso é invasão de propriedade, cara — sussurrou Yan, mas seguiu o amigo.

A porta da frente estava destrancada. Eles entraram em uma sala mergulhada na penumbra, com as cortinas fechadas bloqueando o sol impiedoso do deserto. O cheiro de tabaco velho e uísque barato impregnava o ar.

— Quem está aí?

A voz veio da cozinha, grave e carregada de ameaça. Passos pesados fizeram o assoalho vibrar.

Um homem surgiu no umbral da porta. Ele era alto, loiro, com o rosto marcado por uma barba por fazer e olhos que demonstravam um cansaço profundo, de quem não dormia bem há décadas. James Ford segurava uma garrafa de cerveja como se fosse uma arma.

— Olá... Senhor Ford? — Aaron ergueu as mãos num gesto de paz, tentando sorrir. — Imagino que seja o senhor. Meu nome é Aaron Littleton e este é Yan Tedros.

James semicerrou os olhos, a expressão de hostilidade vacilando. Ele deu um passo à frente, ignorando Yan completamente e fixando o olhar em Aaron. Ele estudou o rosto do rapaz como se estivesse vendo uma aparição.

— Aaron? — A voz de James falhou, rouca. — Littleton?

— Sim, senhor.

A garrafa de cerveja escorregou dos dedos de James e caiu no tapete, derramando espuma, mas ele não notou. Um sorriso incrédulo, quase doloroso, quebrou a dureza de seu rosto.

— É você mesmo... — sussurrou James.

Antes que Aaron pudesse reagir, James avançou e o envolveu em um abraço de urso, apertado e desesperado. Aaron ficou rígido, os braços presos ao lado do corpo, trocando um olhar assustado com Yan. Aquele homem cheirava a álcool e tristeza.

— Você está vivo, garoto... Você está aqui — murmurou James, dando tapas fortes nas costas de Aaron antes de se afastar, segurando-o pelos ombros. — Olha só para você.

— O senhor... o senhor me conhece? — perguntou Aaron, recuando um passo, desconfortável.

James soltou uma risada seca, passando a mão pelo rosto. O brilho de reconhecimento em seus olhos se transformou em algo mais sombrio. — Conheço? Eu troquei suas fraldas, garoto.

— Como é? — Aaron franziu a testa. — Minha mãe nunca mencionou seu nome.

A menção a Claire fez a expressão de James endurecer. — É claro que não. A Claire nunca te contou nada, não é?

— Sabe o nome da minha mãe? — A apreensão na voz de Aaron era palpável.

— Sei o nome dela, sei o seu, e sei de onde vocês vieram. — James virou as costas, caminhando em direção à cozinha. — Entrem. Fiquem à vontade. Parece que temos muito o que conversar. E eu vou precisar de outra cerveja.

Enquanto James desaparecia na cozinha, Aaron e Yan olharam ao redor da sala com mais atenção. Agora que os olhos se acostumavam à penumbra, eles percebiam os detalhes.

As paredes não tinham quadros de família. Elas estavam cobertas de recortes de jornal, colados com fita adesiva amarelada pelo tempo. Manchetes sensacionalistas, fotos granuladas, mapas.

Yan aproximou-se de uma parede, os olhos fixos em uma foto específica. — Aaron... você precisa ver isso.

Aaron foi até lá. No centro de um emaranhado de recortes, havia a capa de uma revista antiga, datada de 2005. A manchete gritava: "OS SEIS DA OCEANIC ".

Na foto, seis pessoas desciam de um avião militar, acenando para as câmeras. Aaron reconheceu os rostos instantaneamente, e o choque fez suas pernas tremerem.

Lá estava Hugo Reyes, o "fantasma" do aeroporto. Havia um homem árabe sério. Uma mulher asiática chorando. E... Jack Shephard.

— É ele — sussurrou Yan, tocando o rosto de Jack na foto. — Meu Deus, Aaron. O Jack estava lá. Minha mãe não mentiu.

Mas Aaron não estava olhando para Jack. Seus olhos estavam fixos na mulher ao lado do médico. Uma mulher morena, bonita, segurando um bebê no colo. A legenda da foto identificava os sobreviventes:

Jack Shephard, Hugo Reyes, Sayid Jarrah, Sun-Hwa Kwon, Kate Austen e o bebê... Aaron Austen.

Aaron sentiu o mundo girar. — Aaron Austen? — Ele leu em voz alta, a confusão se transformando em pânico. — Esse bebê... ele tem o meu nome. Mas a mãe dele é essa tal de Kate.

— Veja — apontou Yan. — Não tem nenhuma Claire na foto. Sua mãe não estava entre os seis.

— Mas isso é impossível. Eu sou Aaron Littleton. Minha mãe é Claire. — Aaron olhou para os outros recortes. Havia fotos daquele bebê crescendo. Fotos que ele nunca tinha visto em seus próprios álbuns de família, porque, ele percebeu com horror, sua mãe não tinha fotos dele bebê.

Passos pesados anunciaram o retorno de James. Ele trazia três garrafas de cerveja. Ao ver os rapazes encarando a "Parede da Obsessão", ele parou, suspirando longamente.

— Eu ia começar com uma conversa leve, mas vejo que vocês foram direto ao ponto — disse James, entregando uma cerveja para cada um e se jogando no sofá puído.

— O que é isso? — Aaron arrancou o recorte da parede e o brandiu para James. — Quem é Aaron Austen? E onde está a minha mãe nessa foto?

James tomou um longo gole da cerveja, os olhos fixos no papel na mão de Aaron. — Pelo que estou vendo, a Claire escondeu o jogo melhor do que eu pensava. — James apontou para o sofá vazio. — Senta aí, garoto. A história é longa, e a maioria dela é feia.

Sede da Widmore, Londres – 2017

O saguão da Widmore Corporation em Londres era um monumento à riqueza e ao poder, mas para Desmond Hume, parecia uma cela de prisão dourada.

Ele caminhava ao lado de Penelope, os aplausos dos funcionários ecoando nas paredes de mármore. "Bem-vindo, Sr. Hume", diziam. Desmond sentia o estômago embrulhar. Aquele lugar representava tudo o que ele odiava: a arrogância de Charles Widmore, as mentiras, a manipulação que lhe custara dez anos de vida.

Ao entrarem no elevador privativo, o sorriso de Desmond desapareceu instantaneamente.

— Penny, tire-me daqui — pediu ele, afrouxando a gravata como se fosse uma forca. — Eu não posso fazer isso. Eu não quero ser o dono disso. Deixo isso com você.

— Desmond, por favor — Penelope suspirou, a máscara de "CEO forte" caindo para revelar a esposa exausta. — Não é sobre o que você quer. É sobre o que precisamos fazer.

— O que nós precisamos? — Desmond riu, amargo. — Eu preciso de tempo com você e com o Charlie. Não preciso presidir o império do homem que tentou me matar.

As portas se abriram na cobertura. Penelope não o levou para a sala principal, mas para uma sala de arquivos restrita. Ela digitou uma senha no painel e a porta deslizou.

— Você acha que eu estou aqui pelo dinheiro? — Penelope entrou, acendendo as luzes. A sala estava repleta de caixas e servidores. — Eu assumi a empresa para limpar a sujeira dele, Desmond. E para proteger as pessoas que ele tentou destruir.

Desmond parou, a curiosidade vencendo a repulsa. — De quem você está falando?

Penelope caminhou até uma mesa e pegou uma pasta grossa. Ela a jogou na frente de Desmond. Na capa, estava escrito: PROJETO 815 — INDENIZAÇÃO E VIGILÂNCIA.

— Meu pai não apenas procurou a ilha — disse Penelope, a voz dura. — Ele enviou aquele cargueiro. Ele falsificou os destroços do avião no fundo do oceano. Ele fez o mundo acreditar que todos estavam mortos.

Desmond abriu a pasta. Fotos, extratos bancários, escrituras. — O que é isso?

— É o preço do silêncio. E da segurança. — Penelope apontou para os documentos. — Quando assumi, descobri que os sobreviventes que retornaram... James Ford, Kate Austen, Claire Littleton, Richard Alpert, Miles Straume e Frank Lapidus... eles estavam à deriva. Destruídos. O mundo achava que eles estavam mortos ou eram fraudes.

Desmond folheou as páginas. Seus olhos pararam em uma foto recente de James Ford. Ele parecia mais velho, cansado, encostado em uma cerca de madeira.

— Sawyer... — sussurrou Desmond.

— James estava destruído, ele não era um dos seis sobreviventes, então, consequentemente, ele era arquivo morto. — explicou Penelope. — Sem dinheiro, sem identidade, perseguido pelo passado. Eu usei os recursos da Widmore para comprar um apartamento em Nova York para ele, posteriormente, um rancho para ele no Novo México. Dei a ele uma conta bancária, documentos novos... uma chance de recomeçar perto da filha.

— Você está sustentando eles? — Desmond perguntou, chocado.

— Estou protegendo-os, Dess. — Penelope o encarou com intensidade. — É uma indenização pelos crimes do meu pai. Se eu soltar a Widmore, se eu deixar isso desmoronar, o dinheiro para. A proteção para. E eles ficam expostos.

Desmond olhou para a foto de James Ford. Ele se lembrou da lista que Hugo lhe dera. Desmond sabia que a ilha não os deixariam em paz. Completar a missão de Hugo era crucial para manter a estabilidade no mundo.

— Você sabe onde todos eles estão? Os sobreviventes e os nomes da lista de Hugo? — Desmond perguntou, a voz mudando de tom. A repulsa deu lugar ao foco.

— Sei. Monitoramos cada passo. É a única forma de garantir que ninguém... chegue até eles antes de nós.

Desmond fechou a pasta. O peso em seus ombros não diminuiu, mas agora tinha um propósito.

— Você não precisa fugir, Desmond — disse Penelope, segurando a mão dele. — Você precisa usar isso. Se você tem uma missão... esta empresa é o seu exército.

Desmond olhou para a esposa, admirado com a força dela. Ela havia transformado o legado de sangue do pai em um escudo.

— Você comprou um rancho para o Sawyer? — Desmond permitiu-se um leve sorriso.

— Ele odeia o lugar. E me odeia por pagar por ele. — Penelope sorriu de volta. — Mas ele está seguro. Pelo menos por enquanto.

— Não por muito tempo — murmurou Desmond, pensando em Osíris. — Eu aceito, Penny. Eu assumo o cargo. Mas vamos precisar de todos esses recursos para reunir os candidatos de Hugo.

Las Cruces, Novo México – Presente

James recostou-se no sofá gasto, o couro rangendo sob seu peso. Ele tomou um longo gole de cerveja, os olhos perdidos na fumaça invisível de suas memórias. O silêncio na sala era denso, quebrado apenas pelo zumbido de um ventilador de teto preguiçoso.

— Então, você quer a versão do diretor ou a versão sem censura? — James soltou um riso amargo. — Porque a versão que os jornais contaram... aquela ali na parede... é uma piada de mau gosto.

— Eu quero a verdade — disse Aaron, a voz firme, embora suas mãos ainda apertassem o recorte de jornal com a foto sua ainda bebê.

— A verdade... — James girou a garrafa na mão. — A verdade é que aquele avião caiu no inferno, garoto. E nós fomos os condenados que tentaram sair de lá.

Ele apontou com o gargalo da garrafa para Yan. — O doutor, Jack Shephard... ele tinha essa mania de herói. Achava que podia salvar todo mundo. Quando um cargueiro apareceu na costa, ele pensou que era o resgate. A cavalaria chegando. Mas era o pessoal da Widmore.

Aaron enrijeceu ao ouvir o nome da empresa. — Widmore?

— É. Charles Widmore. O velho era pior que dor de dente. — James balançou a cabeça. — Ele mandou mercenários, não resgate. Mas o Jack... ele era teimoso. Ele fez um acordo com o diabo para tirar a gente de lá. Apesar dessa teimosia, sinto falta do doutor, acredito que ele esteja morto.

A menção a Jack fez Yan se inclinar para frente, a ansiedade transparecendo. — Jack está morto? Você tem certeza?

James estreitou os olhos, encarando o enfermeiro com desconfiança. — Por que o interesse repentino no bom doutor? Você é do fã-clube dele?

Yan hesitou, mas Aaron interveio antes que a conversa desandasse. — E quanto à Charles Widmore? O que aconteceu com ele?

Aquela era a pergunta que rondava os corredores da Widmore até os dias atuais. O enterro de Charles foi um teatro com caixão vazio e hipocrisia.

James soltou uma gargalhada seca. — O velho Charles? Felizmente, o diabo o levou. Mas o cheiro de enxofre ficou. A empresa ainda existe, bancando a vida de quem sobrou para comprar nosso silêncio. É por isso que estou neste buraco no meio do nada. "Indenização", eles chamam. Eu chamo de cala-boca.

Aaron engoliu em seco. Ele trabalhava para a empresa que James descrevia como vilã. Se James soubesse disso, a conversa acabaria ali mesmo.

— Mas e a minha mãe? — Aaron trouxe o foco de volta. — O jornal diz que Kate Austen estava com o bebê. Onde minha mãe estava?

A expressão de James suavizou, uma sombra de tristeza substituindo o cinismo. — A Claire... ela sumiu, garoto. Um dia ela estava lá, no outro... puff. Desapareceu na selva. Eu juro por tudo que é mais sagrado, nós a procuramos. Eu revirei cada pedra daquela ilha. Mas ela tinha ido.

— Isso não faz sentido. — Aaron passou a mão pelo rosto, atordoado. — Ela está viva. Ela mora em Sydney. Ela me disse que voltou com vocês.

— Ela mentiu em partes... — James foi brutalmente honesto. — Sua mãe não saiu no primeiro voo. Quando o resgate veio... a Kate pegou você. Ela cuidou de você. Ela te amou como se fosse dela. Por três anos, você foi o filho da Kate.

Aaron olhou para a foto na parede. A mulher bonita, segurando o bebê com proteção feroz. Kate Austen. Uma estranha que fora sua mãe.

— E depois? — A voz de Aaron era um sussurro. — Como eu voltei para a Claire?

James tomou outro gole, o olhar distante. — A culpa, garoto. A culpa é uma cadela. A Kate não aguentou. Ela voltou para a ilha. Voltou para buscar a Claire. — Ele sorriu, um sorriso triste e nostálgico. — Ela disse que era por você. Mas, entre nós... eu acho que ela voltou por mim também. Ou pelo Jack. A Sardenta sempre gostou de complicar as coisas.

— "Sardenta"? — repetiu Yan.

— Apelido carinhoso. — James piscou, mas seus olhos não sorriam. — Enfim. Eles voltaram. E, de algum jeito que eu ainda não entendo direito, conseguiram tirar a Claire de lá. Mas o preço... o preço foi alto.

— O que aconteceu, Senhor Ford? — Yan insistiu. — Você saiu com eles?

James levantou a mão, pedindo tempo. — Calma lá, rapazinho. Não vamos pular para o final do filme. Ainda estamos no climax. E minha garganta está seca.

Ele se levantou, indo até a geladeira para pegar mais cerveja. Aaron trocou um olhar desesperado com Yan. Eles precisavam daquelas informações, mas James estava dançando ao redor da verdade.

— Nós não viemos aqui só para ouvir histórias, Sr. Ford — disse Aaron, decidindo arriscar. — Nós viemos porque precisamos da sua ajuda.

James parou com a mão na porta da geladeira. Ele não se virou imediatamente. — Ajuda? — A voz dele mudou, ficando fria. — Dois garotos aparecem na minha porta, fazendo perguntas sobre gente morta, acidente antigo... e agora querem ajuda?

Ele se virou, segurando duas garrafas. O sorriso sarcástico voltou, mas agora parecia uma ameaça. — Vocês não vieram passear no deserto, vieram? Quem mandou vocês? A Widmore?

Aaron gelou. — Nós viemos por conta própria.

— Não minta para mim, garoto. — James caminhou até eles, a postura relaxada, mas perigosa. — Eu sinto o cheiro de problemas de longe. E vocês cheiram a escritório e passagem de avião paga por terceiros.

Ele colocou as cervejas na mesa com força. — Vocês querem saber o final da história? O final é que todo mundo se ferrou. Agora, digam logo o que vieram fazer aqui antes que eu chute os dois para fora.

Sede da Widmore – 2025

A chuva de Londres batia contra as janelas de vidro do escritório de Penelope, criando um ritmo melancólico que combinava com o humor de Desmond. Ele tamborilava os dedos na mesa de mogno, impaciente. Quatro anos haviam se passado desde seu retorno, e a "caçada" pelos candidatos parecia estar estagnada.

A porta se abriu. Um homem entrou, sacudindo um guarda-chuva molhado. Ele vestia um terno cinza alinhado, mas sua postura estava curvada, cansada.

Desmond semicerrou os olhos. — Richard?

Richard Alpert sorriu, mas o sorriso não alcançou seus olhos. Pela primeira vez em séculos, havia rugas visíveis ao redor deles. Fios de cabelo branco misturavam-se ao preto impecável de sempre. — Olá, Desmond.

— Você... você envelheceu — comentou Desmond, incapaz de esconder a surpresa.

— O tempo chega para todos, meu amigo. Especialmente quando a Ilha retira seus presentes. — Richard sentou-se, recusando a oferta de água de Penelope com um gesto de mão. — Mas não vim aqui falar da minha mortalidade. Temos um problema maior.

A atmosfera na sala mudou instantaneamente. Penelope inclinou-se para frente. — O que você encontrou, Richard?

Richard abriu sua pasta e deslizou uma fotografia preto e branco sobre a mesa. Mostrava um homem idoso, mas com olhos que queimavam com uma inteligência fanática. — A Iniciativa Dharma não morreu nos anos 90. Ela estava apenas... hibernando. Este é Wilbert DeGroot. Filho dos fundadores.

Desmond pegou a foto. — Dharma? Pensei que Ben tivesse matado todos eles na Purgação.

— Ben matou os funcionários. A ideologia sobreviveu. — Richard olhou para Desmond com gravidade. — Wilbert reorganizou a estrutura. Eles têm recursos, têm tecnologia e, o pior de tudo, eles têm um objetivo: tomar a Ilha à força. Eles querem a Fonte.

A menção à "Fonte" fez um estalo na mente de Desmond. As palavras de Hugo na caverna, oito anos atrás, ecoaram com clareza terrível: "Osíris está vindo. Ele quer o poder de volta."

— Osíris... — sussurrou Desmond baixindo, o sangue gelando. — Hugo me avisou. Ele disse que havia alguém tentaria tomar a fonte.

— Exatamente — concordou Richard. — E eles sabem que a única coisa que impede a entrada da Dharma na Ilha é a barreira dos Guardiões, como Penelope havia mencionado antes. Eles estão caçando os candidatos para quebrar essa barreira.

— Deixe que venham — disse Desmond, sentindo a velha raiva subir. — Nós temos o exército de Penny. Vamos proteger os candidatos.

— Não é tão simples. Eles já encontraram um. — Richard puxou outra foto. Desta vez, era uma imagem granulada, tirada à distância com uma lente de longo alcance. Mostrava um homem loiro, bebendo cerveja na varanda de um rancho decrépito. Mas o foco da foto não era ele. Era a garota ruiva adolescente ao seu lado, rindo de algo.

Desmond reconheceu o homem imediatamente. — Sawyer.

— James Ford — corrigiu Richard. — Mas ele não é o alvo, Desmond. A Dharma não está interessada nele. Eles querem a garota.

Desmond olhou mais de perto. — A filha dele?

— Clementine Phillips. — Richard assentiu. — Meus contatos interceptaram comunicações de Wilbert. O nome dela está no topo da lista de prioridades. Eles sabem da sua lista. Eles não têm certeza dos outros nomes, mas o dela, eles confirmaram com alguma fonte.

Penelope levou a mão à testa, horrorizada. — Nós pagamos a segurança daquele lugar para mantê-los escondidos. Se a Dharma sabe onde eles estão...

— Eles vão pegar a garota — concluiu Desmond, fechando o punho. — Se a Dharma colocar as mãos em um candidato...

Richard recolheu as fotos. — Eles não vão atacar agora. Estão apenas observando. Esperando o momento em que ela esteja vulnerável. Ou talvez esperando que ela os leve até os outros.

Desmond levantou-se, a cadeira arrastando no chão. A indecisão dos últimos anos evaporou. Ele agora entendia que não estava lutando contra uma empresa rival, mas um ideal perigoso.

— Não podemos deixar isso acontecer. James não faz ideia do que está por vir. Ele vai tentar protegê-la com uma espingarda e vai morrer.

— O que você vai fazer? — perguntou Penelope.

— Vou acelerar o cronograma. — Desmond olhou para a chuva lá fora. — James não vai gostar de me ver. Ele provavelmente vai tentar me socar por eu trabalhar para a Widmore. Mas precisamos tirar Clementine de lá. Precisamos reunir todos eles. Agora.

Richard assentiu, satisfeito. — Eu vou preparar a logística. Mas Desmond... cuidado com o James. Ele é um homem ferido. E se ele descobrir que a filha é o alvo, ele vai queimar o mundo.

— Eu sei. Mas e se mandássemos... Aaron? Talvez a nostalgia faça James abaixar a guarda. — Comentou Desmond.

— O garoto ainda mora com a mãe nos arredores de Sydney. Podemos arrumar um emprego para ele na empresa e enviá-lo no momento certo. — Disse Penelope.

— A ideia é ótima. Mas vamos devagar. Ainda temos tempo até a próxima brecha para a ilha. — Disse Richard.

— 2029? — Perguntou Desmond.

— Então temos quatro anos para nos preparar. — Confirmou Richard.

Las Cruces, Novo México – Presente

O silêncio na sala era quebrado apenas pelo som de James batendo a unha contra o rótulo da garrafa de cerveja. Ele observava Aaron e Yan com olhos de águia, desconstruindo cada movimento, cada peça de roupa, cada hesitação.

— Seria interessante contar o resto dessa história, garoto — disse James, a voz perigosamente calma. — Sobre a ilha, sobre sua mãe... Mas eu tenho uma regra de ouro: não gasto saliva com quem recebe cheques em nome da Widmore.

Aaron congelou. Yan olhou para o amigo, o pânico começando a surgir.

— Como... como você sabe que somos da Widmore? — Aaron gaguejou, caindo na armadilha.

James sorriu, um sorriso que não chegava aos olhos. Ele apontou a garrafa para Aaron como se fosse uma arma. — Eu não sabia. Foi um chute. Mas você acabou de confirmar. — Ele tomou um gole longo, saboreando a vitória amarga. — Roupas novas, cortes de cabelo caros, passagens aéreas de última hora... Só uma pessoa tem dinheiro e obsessão suficientes para me rastrear até este buraco: Charles Widmore. Ou quem quer que esteja sentado no trono dele agora.

Aaron deu um passo à frente, tentando recuperar o controle da situação usando a lógica que Desmond lhe passara. — James, escute. Não é o que você pensa. A Widmore está financiando uma expedição científica. É uma oportunidade única...

— Não me interessa que tipo de "oportunidade" é! — James explodiu, a calma desaparecendo num instante. Ele se levantou, a cadeira arrastando no chão com um ruído estridente. — Aquela empresa tirou tudo de mim. E agora mandam o filho da Claire para me recrutar? Que baixo nível. Continuam nos tratando como ratos de laboratório.

— Nós não viemos recrutar você, James! — Aaron gritou, tentando ser ouvido sobre a fúria do homem. — A missão não é sobre você.

— Ah, não? Então vieram fazer o quê? Turismo no deserto?

Aaron respirou fundo. Ele precisava ser direto. Desmond disse que Clementine era essencial para o sucesso da expedição, que ela tinha a "assinatura" certa. — A Widmore precisa de Clementine Phillips. A conversa é com ela.

O nome da filha atingiu James como um soco físico. O rosto dele perdeu a cor, e por um segundo, Aaron viu o medo puro nos olhos do golpista. Mas o medo rapidamente se transformou em uma fúria assassina.

James avançou, agarrando Aaron pelo colarinho da camisa e empurrando-o contra a parede cheia de recortes de jornal. As fotos dos sobreviventes tremeram com o impacto.

— O que você disse? — James rosnou, o rosto a centímetros do de Aaron.

— Precisamos... da Clementine — Aaron engasgou, lutando para respirar, sem entender o motivo de tanta violência. — Ela foi selecionada... Desmond disse que ela é essencial para a equipe...

— Se vocês tocarem em um fio de cabelo dela... — A voz de James era um sussurro aterrorizante. — Vocês acham que podem vir aqui, na minha casa, e tentar levar a minha filha para aquele lugar maldito?

— É apenas uma expedição! — Aaron insistiu, ingênuo quanto ao verdadeiro perigo. — Ela é adulta, James! Ela tem o direito de ouvir a proposta!

James não o deixou terminar. Ele girou Aaron e o empurrou em direção à porta aberta, com força suficiente para fazê-lo tropeçar e cair na varanda empoeirada.

— Fora! — James gritou. — Saiam da minha propriedade agora!

— James, por favor! Você está sendo irracional! — Yan tentou argumentar, recuando para a porta.

— Eu disse FORA! — James sacou uma arma que estava escondida na parte de trás da calça, apontando para os dois. — Se eu ver a cara de vocês de novo, eu juro por Deus, eu esqueço que você é filho da Claire.

Aaron levantou-se, limpando a poeira das calças. Ele olhou para James, confuso. Por que tanto medo de uma simples oferta de emprego?

— Nós vamos — disse Aaron, erguendo as mãos, a frustração evidente. — Mas você está cometendo um erro. É uma chance de respostas, James. Para ela e para nós. Você não tem o direito de decidir o futuro dela.

James engatilhou a arma. — Sumam.

Aaron e Yan não esperaram o segundo aviso. Eles correram para a estrada de terra, deixando para trás o rancho e o homem quebrado na varanda.

James observou os dois sumirem na poeira. Sua respiração era irregular. Ele baixou a arma, as mãos tremendo. A Widmore tinha encontrado Clementine. Eles queriam levá-la para a Ilha. Ele não sabia sobre Osíris ou Dharma, mas sabia de uma coisa: nada de bom vinha daquela empresa e daquela ilha.

Notas finais
Por favor, ao ler, comente, siga e favorite. Ajuda muito. Qualquer dúvida pode perguntar nos comentários. Próximo capítulo: 18/04/2023 às 09:30