Lost: O Primeiro Herdeiro

3 LIVRO 1 — CAPÍTULO 03: FANTASMAS DO PASSADO



Uma semana havia se passado desde o susto no hospital, mas a atmosfera na casa dos Littleton permanecia frágil, como vidro prestes a estilhaçar.

No quarto, Aaron terminava de fechar a mala. O som do zíper correndo ecoou no silêncio, definitivo e final. Ele ajeitou o terno sobre a cama, tentando manter a mente focada na logística da viagem, ignorando o nó em seu estômago. Ao lado da roupa, repousava a passagem aérea impressa.

A porta se abriu sem ruído. Claire entrou, seus passos hesitantes sobre o carpete. Ela observou o filho por um momento — a postura decidida, os ombros largos — e sentiu uma pontada de orgulho misturada com um terror paralisante.

Seus olhos pousaram sobre a passagem em cima da cama. O logotipo azul e branco parecia brilhar com uma zombaria cruel. Ela estendeu a mão, os dedos trêmulos, e pegou o papel.

— Oceanic Airlines... — sussurrou ela, um sorriso triste e carregado de ironia curvando seus lábios. — Esse bilhete é muito familiar.

Aaron parou o que estava fazendo. Ele não se virou imediatamente, respirando fundo para manter a compostura. — É a companhia que a empresa usa, mãe. Não significa nada.

— Significa tudo, Aaron. — Ela passou o polegar sobre o destino: Los Angeles. O mesmo destino que ela nunca alcançou vinte e cinco anos atrás.

Aaron virou-se e viu a mãe segurando o bilhete como se fosse uma sentença de morte. — Mãe, por favor. Não vamos começar de novo.

Claire largou o papel na cama e encurtou a distância entre eles, envolvendo o filho em um abraço apertado, desesperado. Ela enterrou o rosto no peito dele, sentindo as batidas de seu coração, suplicando para que não fosse a última vez.

— Por favor... volte para mim. — A voz dela saiu abafada, embargada pelo choro contido.

Aaron retribuiu o abraço, mas seus olhos estavam fixos na janela, olhando para o horizonte distante. — Mãe, não se preocupe. É apenas uma viagem de negócios. Eu vou, encontro as pessoas da lista e volto. Simples.

Claire afastou-se o suficiente para olhar nos olhos dele. A intensidade do olhar dela fez Aaron recuar um passo. — Eu não estou falando do seu voo para os Estados Unidos, filho. Eu estou falando da sua partida para a Ilha.

— De novo isso? — Aaron soltou os braços dela, a frustração transbordando. — O que tem nessa ilha de tão perigoso que faz você ficar desse jeito? É apenas um pedaço de terra no meio do oceano.

Claire abriu a boca para responder, para gritar sobre a fumaça negra, sobre os Outros, sobre a loucura que consumia a alma dos homens naquele lugar. Mas as palavras morreram em sua garganta. Como explicar o inexplicável? Como descrever o mal para alguém que só conhece o mundo real?

Ela percebeu que nada do que dissesse o impediria. O chamado da Ilha era mais forte do que o amor de mãe.

— Você vai descobrir — sussurrou ela, a voz vazia de esperança.

Claire deu as costas e saiu do quarto, deixando Aaron sozinho com sua mala, seu terno e a passagem da Oceanic que prometia levá-lo de volta ao lugar onde tudo começou.

O Aeroporto de Sydney era um formigueiro de despedidas e promessas. Aaron movia-se pela multidão, a passagem para Los Angeles queimando em seu bolso. Sua missão era clara: encontrar Yan Tedros e Clementine Phillips. Mas sua mente estava turva, oscilando entre a realidade e a sensação persistente de estar sendo observado.

Foi quando ele o viu.

No canto do terminal, perto de um quiosque de jornais, estava o homem corpulento de cabelos cacheados. O mesmo do Mr. Clucks. O mesmo dos sonhos. Hugo estava parado, imóvel no meio do fluxo de passageiros, acenando diretamente para Aaron com uma urgência silenciosa.

O coração de Aaron disparou. Sem pensar, ele rompeu a barreira de pessoas, correndo em direção à figura.

— Ei! Espere! — gritou Aaron.

Mas, assim que se aproximou, Hugo virou uma esquina. Aaron correu, dobrando o corredor, apenas para colidir violentamente contra um peito sólido coberto por um terno caro.

Mãos firmes o seguraram antes que ele caísse.

— Olá, Aaron. Com pressa para embarcar? — A voz era inconfundível.

Aaron ergueu os olhos, atordoado. — Desmond? O que você está fazendo aqui?

Desmond sorriu, mas seus olhos varriam o perímetro, como se calculassem rotas de fuga. — Vim garantir que seu "ativo" de segurança chegue inteiro. — Desmond fez um gesto sutil para o lado. — Você já conhece o Sr. Miles.

Encostado em uma coluna, Roger Miles parecia um sobrevivente de guerra. Seu rosto estava parcialmente coberto por curativos, o lábio inchado e a postura rígida, denunciando costelas machucadas. Mas o olhar que ele lançou a Aaron era de puro desprezo.

Aaron recuou, lembrando-se da cena na academia e da maca no hospital. — Você só pode estar brincando. Esse homem mal consegue ficar em pé. Por que ele?

— Porque ele é leal, Aaron. E lealdade é a moeda mais valiosa onde vamos pisar. — Desmond respondeu, o tom não admitindo réplicas.

— Por que preciso de um guarda-costas? — Aaron insistiu, a tensão subindo. — Você disse que era um trabalho de recrutamento. Com o que, exatamente, estamos mexendo?

Desmond aproximou-se, baixando a voz para um sussurro que cortou o ruído do aeroporto. — Estamos mexendo com o destino, brother. E o destino costuma revidar. Apenas entre no avião. Roger vai garantir que você chegue lá.

— Chegue lá... ou que eu não fuja? — Aaron desafiou.

Desmond apenas sorriu, um sorriso triste de quem já viu o futuro e não gostou dele. — Bom voo, Aaron.

A cabine da primeira classe era silenciosa e fria. Aaron sentou-se na poltrona da janela, enquanto Roger, mancando visivelmente, ocupou um assento no corredor oposto, recusando-se a olhar para ele.

Aaron recostou a cabeça, fechando os olhos. O zumbido das turbinas aumentou, empurrando-o para um sono inquieto. Ele tentou focar na missão, em Yan, em Clementine... mas a imagem do homem gordo no terminal persistia.

— Dude...

A palavra sussurrada o fez abrir os olhos.

O avião estava mergulhado na penumbra do voo noturno. A poltrona ao seu lado, antes vazia, agora estava ocupada.

Lá estava ele. Hugo Reyes. Camisa xadrez, sorriso fácil, como se fossem velhos amigos dividindo uma cerveja, e não estranhos a 30 mil pés de altitude.

— Você?! — Aaron engasgou, recuando contra a janela. — Como você entrou aqui?

— Relaxa, cara. Ninguém pode me ver além de você. — Hugo ajeitou-se na poltrona, confortável. — Estou aqui para dar uma força. Sei que a coisa tá ficando pesada.

Aaron olhou ao redor. Os outros passageiros dormiam. Roger roncava levemente do outro lado. — Eu estou ficando louco... — murmurou Aaron. — Você é um fantasma?

Hugo riu, uma risada quente e humana. — Eu sou muito mais do que isso, meu amigo. Sou Hugo Reyes. E digamos que eu sou... um facilitador.

— O que você quer de mim? Por que você me persegue?

Hugo ficou sério. Ele olhou para Aaron com uma profundidade que fez o rapaz estremecer. Havia uma estranha reverência no olhar de Hugo, como se ele estivesse diante de alguém muito importante.

— Porque a Ilha precisa de você, Aaron. Mas, mais importante... porque você precisa se lembrar.

— Lembrar de quê?

— De quem você é. — Hugo inclinou-se para frente. — A missão do Desmond é importante, mas é só o começo. Você precisa encontrar o Yan e a Clementine. Vocês são peças de um tabuleiro que foi montado muito antes de você nascer.

— Eu não pedi por isso. Eu só quero respostas sobre minha mãe e essa maldita ilha.

— E você vai ter. — Hugo sorriu, nostálgico. — É engraçado... Eu recebi ordens de um cara que falava exatamente como você. Ele usava roupas estranhas e falava por enigmas, mas no fundo... ele só queria salvar todo mundo.

— De quem você está falando?

— Eu também não sei dizer. Afinal, ele era um fantasma. — Hugo piscou.

— Isso não faz sentido! — Aaron elevou a voz, frustrado.

— Vai fazer. Confia em mim. — Hugo apontou para a janela. — Estamos chegando. O jogo vai começar.

Aaron piscou. No segundo seguinte, a poltrona ao lado estava vazia. O couro do assento estava frio, como se ninguém tivesse sentado ali.

— Senhor? — A voz da comissária o sobressaltou. — Estamos iniciando a descida para Los Angeles.

Aaron olhou para o vazio ao seu lado, o coração martelando. A frase de Hugo ecoava em sua mente: "Ele falava exatamente como você".

Enquanto o avião furava as nuvens, Aaron não sabia, mas a conversa que acabara de ter era um reflexo distorcido de outra conversa, acontecida anos antes, em um lugar sagrado onde o tempo não significava nada.

A ilha – 2017

No dia que Hugo, Desmond e Ben estavam no templo, Hugo conversava com o fantasma do “primeiro guardião”, como esse se apresentava para Hugo. Era impossível identificar a identidade daquela pessoa, afinal, o traje antigo de guerreiro era de corpo inteiro, e apenas os olhos azuis eram visíveis através do capacete de guerra.

— Pode me dizer seu nome? — Perguntou diretamente Hugo para o guardião, enquanto Desmond e Ben tentavam entender quem realmente estava ali.

O guardião preferiu ficar em silêncio sobre seu nome. Olhando para Hugo apenas apontava para o caminho da saída da ilha usado por Jacob.

— Ele não quer dizer o nome dele, apenas para onde devemos ir. — Disse Hugo.

— Então devemos confiar no amiguinho imaginário do Hugo? — Perguntou Ben.

— Você sabe que Hugo vê fantasma, Ben. — Comentou Desmond.

— Não. O que sei que é que Hugo diz ver fantasmas, mas eu nunca vi nenhum deles, então é apenas a afirmação dele contra a realidade. — Disse Ben, aparentemente enfurecido.

Hugo virou para Ben e disse: — Então, Ben. Ele sabe que você matou Jacob e o jogou na fogueira. Ele quer ouvir suas desculpas, cara.

— Não vou me desculpar com uma ilusão da sua cabeça.

— Ben, ele disse que tem mais para nos revelar, mas depende de você pedir desculpas.

Desmond sorriu da situação. Hugo continuou:

— Vai lá cara. É só pedir desculpas.

— Isso é ridículo. — Disse Ben.

— Faz isso por mim, Ben. Lembre-se que você agora é meu braço direito. — Disse Hugo.

Ben suspirou, contrariado disse: — Me desculpe por matar Jacob. Satisfeito? O que mais você quer de mim? — Perguntou Ben, irritado enquanto Desmond e Hugo riam da situação.

Los Angeles – presente

O silêncio dentro do táxi que cortava as ruas de Los Angeles era mais denso que a poluição da cidade. Roger Miles olhava pela janela, o maxilar travado, ignorando a presença de Aaron ao seu lado.

— O que houve com você em Sydney? — Aaron tentou quebrar o gelo, apontando para o curativo no rosto do guarda-costas.

Roger nem piscou.

— Concentre-se no seu trabalho, garoto. Eu cuido dos meus ferimentos.

Aaron suspirou e voltou a olhar para frente. Quando o táxi finalmente parou, ele ergueu os olhos para o letreiro do prédio: St. Sebastian Hospital. O lugar era imponente, mas para Aaron, era apenas mais um nome na pasta de Desmond. Para Yan Tedros, no entanto, aquele lugar era um templo assombrado.

Aaron entrou na recepção, sentindo o cheiro característico de antisséptico e café velho. Roger ficou na entrada, encostado na parede como uma gárgula de terno barato, observando tudo.

— Por favor, procuro por Yan Tedros — pediu Aaron à recepcionista.

— Ele acabou de sair de uma cirurgia de doze horas. Acho difícil ele atender representantes agora.

— Diga que é sobre a Fundação Shephard. — Aaron improvisou, usando um nome que ele viu de relance nos arquivos. A ligação de Yan com Jack era quase religiosa, pelo menos era o que apontava a pasta de Desmond.

A menção do nome surtiu efeito. Minutos depois, as portas duplas se abriram.

Yan Tedros parecia exausto, mas seus olhos estavam arregalados, varrendo o saguão com uma ansiedade nervosa. O jaleco branco estava amassado, os cachos loiros desgrenhados e havia olheiras profundas sob seus olhos. Ele não parecia apenas cansado; parecia alguém que tinha visto um fantasma.

— Oi. — Yan aproximou-se, secando as mãos trêmulas no jaleco. — Me disseram que era sobre a Fundação.

— Desculpe o subterfúgio. — Aaron estendeu a mão. — Sou Aaron Littleton, das Corporações Widmore.

A expressão de Yan fechou-se instantaneamente, mas havia um tremor em sua voz. O cansaço deu lugar à impaciência defensiva.

— Widmore? Olha, amigo, eu estou virado há 24 horas. Se isso é sobre doações ou recrutamento, a resposta é não. Estou... satisfeito onde estou.

O celular de Yan tocou no bolso do jaleco. Ele pediu licença com um gesto brusco e atendeu, virando-se para olhar para uma máquina de vendas automática no corredor.

— Oi, mãe... Sim, já estou saindo. Não, o plantão foi... tranquilo. — A voz dele falhou na mentira. Tornou-se suave, protetora. — Eu prometo que passo na farmácia. Te amo. Tchau.

Ele desligou e olhou para Aaron, já dando as costas, tentando fugir daquela conversa e daquele corredor.

— Como eu disse, não tenho interesse. Tenho uma mãe que precisa de mim em casa.

— Sarah, não é? — Aaron disse, alto o suficiente para fazer Yan parar. — Sarah Shephard. A ex-esposa de Jack.

Yan congelou. Ele girou nos calcanhares, caminhando de volta até Aaron com passos pesados. A menção ao sobrenome "Shephard" naquele hospital soava como um trovão.

— Quem é você? E por que está investigando minha família?

Aaron abriu a pasta que carregava, não para ler, mas para mostrar que tinha informações.

— Eu não estou investigando. Estou oferecendo respostas. Você não trabalha no St. Sebastian por acaso, Yan. Você estudou na Columbia, foi o melhor da turma... mas escolheu aqui. O mesmo hospital onde Jack Shephard operou o "milagre" na coluna da sua mãe. O mesmo hospital onde ele foi chefe de cirurgia antes de desaparecer.

Yan cruzou os braços, defensivo, olhando para os lados como se esperasse ver o homem de terno preto surgir das sombras novamente.

— Jack foi um herói para minha mãe. Ele salvou a vida dela. Trabalhar aqui é minha forma de honrar isso. E daí?

— E daí que Jack Shephard não desapareceu num acidente qualquer. — Aaron baixou o tom de voz, aproximando-se, sem saber que estava prestes a dizer as palavras exatas que Yan temia ouvir. — Nós sabemos para onde ele foi. Sabemos onde ele viveu seus últimos dias. E estamos montando uma expedição para encontrá-lo.

A palavra atingiu Yan como um soco como se aquela conversa já tivesse sido predestinada antes. A voz que ecoava em sua mente não era a de Aaron, mas sobrepunha o que ele dizia, como uma confirmação de algo que Yan esperava que acontecesse.

— "Encontrá-lo"? — Yan repetiu, a voz sumindo. — Você está falando do acidente da Oceanic em 2004?

— Estou falando do lugar que mudou a vida do Jack. E que, indiretamente, moldou a sua. — Aaron olhou nos olhos de Yan, usando a mesma intensidade que Desmond usara com ele. — Desmond Hume está financiando isso. Ele esteve lá com o Jack. Ele o viu vivo quando o mundo achava que ele estava morto.

A menção de que alguém esteve com Jack e que havia uma missão para encontrá-lo fez a guarda de Yan cair. Não era loucura. A visão não fora um delírio de cansaço. Era um chamado. Pelo menos ele se sentia assim.

— Minha mãe... ela nunca superou o fato de não saber o que aconteceu com ele. — Yan passou a mão pelo rosto, tentando disfarçar o tremor. Ele olhou para Aaron, buscando a verdade. — Você está me dizendo que ele está chamando? Que ele quer ser encontrado?

Aaron franziu a testa, estranhando a escolha de palavras de Yan, mas assentiu.

— A Ilha está chamando, Yan. E precisamos de alguém que entenda o legado dele. Alguém conectado.

Yan olhou para o corredor do hospital, para as sombras onde a figura de terno preto havia sussurrado para ele. Se ele recusasse, passaria o resto da vida achando que estava louco. Se aceitasse, talvez encontrasse a resposta.

— Se eu for... vocês me contam tudo? O que realmente aconteceu com ele?

— Você vai ver com seus próprios olhos.

Yan respirou fundo, tomando uma decisão que parecia inevitável desde a madrugada anterior.

— Ok. Eu vou. Mas se isso for mentira, ou algum jogo doentio... eu processo a Widmore até o último centavo.

Aaron sorriu, aliviado, sem perceber que acabara de confirmar um evento sobrenatural para o enfermeiro.

— É um trato.

Do outro lado do saguão, Roger observava a cena, os olhos fixos em Aaron. Ele não ouvia a conversa, mas reconhecia o padrão nos olhos de Yan: o olhar de alguém que acabara de perceber que não tinha mais controle sobre o próprio destino. A Ilha já o tinha pegado.

A ilha – 2017

Nas profundezas do Templo, a luz das tochas tremulava, projetando sombras longas nas paredes gravadas com hieróglifos que antecediam o Egito Antigo. Hugo estava parado no centro da câmara, os olhos fixos no vazio, ouvindo atentamente uma voz que apenas ele podia escutar.

Desmond encostou-se em uma coluna, os braços cruzados, a paciência se esgotando. Ben, sempre prático, analisava as gravuras na parede com um interesse calculado.

— Ele está falando sobre o Jack — disse Hugo, quebrando o silêncio. A menção do nome fez Desmond endireitar o corpo.

— O que ele diz sobre o Jack? — perguntou Desmond. — Jack morreu salvando este lugar, Hurley.

— Ele diz que... o sacrifício de Jack foi heroico, mas incompleto. — Hugo franziu a testa, repetindo as palavras do homem à sua frente que se dizia o primeiro guardião. — Ele está me contando uma história. Sobre o começo de tudo.

— Eu adoro histórias — zombou Ben, sem desviar o olhar da parede. — Especialmente quando estamos com pressa.

Hugo ignorou o sarcasmo, focado na revelação. — Ele diz que este lugar era habitado pelos aterianos. Eles adoravam uma entidade chamada Taweret, a fonte de vida e prosperidade desta ilha. Mas havia outra entidade... Osíris. Ele cobiçava os poderes de Taweret. Ele queria roubar essa energia para dominar o mundo.

— Uma guerra de deuses? — Desmond perguntou, cético. — O que isso tem a ver com a gente, brother?

— Tudo. — Hugo olhou para os amigos, o rosto pálido. — Taweret venceu a batalha com a ajuda dos guardiões e expulsou Osíris, retirando parte de seus poderes.

— Guardiões? Não seria apenas um guardião? — Indagou Ben, pensativo.

— Havia outros além desse que está conversando comigo. Um deles era Minut, acho que é assim que se pronuncia, que foi morto e ressuscitado por Osíris... Ele se tornou um traidor quando resolveu lutar ao lado inimigo. — Disse Hugo, despertando a curiosidade de Ben e Desmond.

Ben virou-se lentamente. — Minut? Nunca ouvi esse nome.

— Nós o conhecíamos por outro nome — disse Hugo, a voz baixa. — O Monstro de Fumaça. O Homem de Preto. Ele era um ateriano que traiu a ilha para se juntar a Osíris. Como punição, Taweret o aprisionou na fonte da ilha.

— Então... Minut era o nome real dele? — Ben impacientou-se. — Ele queria sair. Jacob o manteve preso. Jack o matou. Fim da história.

— Não, Ben. Não é o fim. É o começo do problema. — Hugo olhou para o Guardião fantasma tentando entender e interpretar a mecânica daquela prisão. — O Guardião está explicando que a prisão de Minut não era apenas um castigo. Era um selo de segurança. Taweret determinou que Minut e o Guardião seriam as trancas.

Desmond deu um passo à frente, o medo começando a surgir em seus olhos. — Trancas para quê?

— Para manter Osíris fora. — Hugo engoliu em seco. — Era um sistema de bloqueio duplo. Enquanto o traidor, Minut, estivesse preso aqui e o Guardião protegesse a luz, Osíris jamais poderia retornar para pegar seus poderes de volta ou roubar os de Taweret. A presença de Minut, ironicamente, impedia seu mestre de entrar.

Hugo olhou para as próprias mãos, trêmulo. — Jack... quando Jack matou o Locke... quando ele destruiu a fumaça preta... ele achou que estava nos salvando.

— E ele salvou! — Desmond insistiu.

— Ele quebrou a primeira tranca, Desmond. — A voz de Hugo falhou. — Ao matar Minut, Jack removeu metade da barreira. Agora, a porta da frente está presa por um único fio: eu.

O silêncio na câmara foi pesado. A vitória de Jack, o sacrifício supremo, de repente ganhava um novo e terrível significado. A morte do monstro não trouxe paz, trouxe vulnerabilidade.

— Você está dizendo... — começou Ben, a mente rápida conectando os pontos com horror. — Que agora Osíris só precisa eliminar o Guardião restante para entrar?

— Exatamente. — Hugo confirmou, olhando para o vazio onde o Guardião apontava com urgência. — Osíris está vindo. Ele quer seus poderes de volta e quer tomar a ilha. E como eu já estou "marcado" por ter tentado passar o cargo... eu sou um cadeado frágil.

Hugo virou-se para Desmond, o desespero evidente. — É por isso que precisamos dos candidatos, Desmond. Não é apenas para proteger a luz. É para restaurar a barreira. Se eu morrer sem um sucessor, Osíris entra. E se ele entrar... o mundo acaba.

Desmond passou a mão pelo rosto, sentindo o peso da responsabilidade esmagá-lo novamente. A missão não era apenas uma troca de turno; era uma corrida para impedir o apocalipse.

— Então nós não vencemos — murmurou Desmond.

— Não — respondeu Hugo, olhando para a escuridão do túnel. — Nós apenas destrancamos a porta.

St. Sebastian Hospital – Presente

O zumbido do ar-condicionado do hospital parecia alto demais no silêncio que se seguiu à proposta. Yan olhou para o corredor, onde Roger estava encostado na parede, os braços cruzados e o olhar fixo neles como um predador aguardando o momento do bote.

— Aquele cara... — Yan baixou o tom de voz, incomodado. — Ele é algum tipo de segurança? Ele não parou de me encarar desde que chegamos.

— Ele é apenas o "seguro". Ignore-o. — Aaron deu um passo à frente, invadindo o espaço pessoal de Yan para forçar a intimidade. — Concentre-se no que importa. Eu preciso da sua resposta, Yan. O avião não vai esperar.

Yan olhou para o chão, para seus sapatos brancos de hospital, e depois para o rosto de Aaron. Havia dúvida ali, mas havia algo maior: uma necessidade de fechamento.

— Eu aceito. — A voz de Yan saiu firme, decidida.

Aaron soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo. Um sorriso de alívio, quase infantil, quebrou sua postura corporativa. — Sério?

— Minha mãe passou os últimos vinte anos esperando um telefonema que nunca veio. — Yan passou a mão pelos cabelos cacheados, nervoso. — Se existe uma chance de saber o que realmente aconteceu... de dar a ela algum tipo de paz... eu tenho que ir.

— Você está fazendo a coisa certa. — Aaron pegou um pedaço de papel e uma caneta do bolso.

— Certo. E quando partimos? — perguntou Yan.

— Hoje. Agora.

— O quê? — Yan riu, nervoso. — Aaron, eu estou no meio de um plantão. Tenho pacientes. Tenho uma vida.

— Yan, escute. — Aaron rabiscou um endereço no papel e o colocou na mão do enfermeiro, fechando os dedos dele sobre o bilhete. — Essa não é uma viagem de férias. É uma extração. Vá para casa. Arrume uma mala pequena. Diga à sua mãe que você recebeu uma proposta de pesquisa de campo, algo irrecusável e imediato.

— Mentir para ela?

— Protegê-la. — Aaron corrigiu, com a seriedade de quem aprendeu essa lição da pior maneira com a própria mãe. — Não mencione a Ilha. Não mencione a Widmore. Apenas diga que é trabalho.

Yan olhou para o papel. Era o endereço de um hotel próximo ao aeroporto.

— Estaremos te esperando lá até às três horas. — Aaron verificou o relógio de pulso. — Nosso voo para Albuquerque sai às cinco. Se você não estiver lá, partiremos sem você.

— Albuquerque? — Yan franziu a testa. — O que tem no Novo México?

— O próximo nome da lista. — Aaron estendeu a mão. — Bem-vindo a bordo, Yan.

Yan apertou a mão de Aaron. O aperto foi firme, selando um pacto que mudaria o curso de suas vidas. — Eu estarei lá.

Aaron assentiu e se afastou, caminhando em direção a Roger. O guarda-costas desencostou da parede, lançando um último olhar desconfiado para o enfermeiro antes de seguir Aaron saiu para fora das portas automáticas, deixando Yan sozinho com o peso de sua decisão e o fantasma de um homem que ele nunca conheceu, mas que assombrava sua família há décadas.

A ilha – 2017

A câmara subterrânea do Templo vibrava. O "Guardião Fantasma" havia desaparecido, deixando para trás apenas o eco de suas instruções e uma luz branca, cegante e pulsante, que emanava de um arco de pedra no centro do salão. O ar cheirava a ozônio e eletricidade estática.

— Ele se foi — disse Hugo, protegendo os olhos da luminosidade intensa.

Desmond deu um passo à frente, hipnotizado e aterrorizado pela energia pura diante dele. — Estamos por nossa conta agora, brother?

— Sim — respondeu Hugo, a voz ganhando a autoridade de quem finalmente compreendia seu papel. — Ele nos deu o caminho. Segundo o Guardião, este portal é uma artéria direta. Ele se conecta aos pontos de eletromagnetismo ao redor do mundo. Se quisermos enviar você para fora sem destruir a ilha, é por aqui.

Ben caminhou ao redor do arco, analisando-o com ceticismo. — Parece instável. Quando movi a ilha anos atrás, usei o Leme sob a Orquídea. Foi brutal, mas funcionou. Aquilo era mecânico. Isso aqui... isso é magia pura, Hugo.

— O Leme foi uma medida de emergência, Ben. Ele move a ilha no espaço e no tempo, desancora a gente da realidade. — Hugo apontou para a luz. — Isso é diferente. Isso é uma porta. O Guardião disse que Jacob a usava. Ela não move a ilha; ela move o viajante.

— Estou impressionado — murmurou Ben, sem tirar os olhos da luz. — Você conversa com um fantasma por cinco minutos e vira um especialista em física mágica antiga.

— Não é perigoso? — perguntou Desmond, sentindo os pelos do braço se arrepiarem com a radiação que vazava do portal.

Ben virou-se para ele, a expressão séria. — Claro que é perigoso. Qualquer outro homem seria vaporizado ao tocar nessa luz. Mas você não é qualquer homem, Desmond.

— Você é a nossa constante — completou Hugo. — Você sobreviveu à implosão da Escotilha. Você virou a chave de segurança. Seu corpo aguenta o deslocamento. Você é o único que pode atravessar isso e chegar inteiro do outro lado.

Desmond olhou para o abismo de luz. Do outro lado estavam Penny e seu filho. Mas também estava a missão incerta de encontrar estranhos para salvar o mundo.

— Mesmo assim... — Hugo hesitou, o medo de perder o amigo falando mais alto. — Talvez devêssemos testar antes. Jogar algo lá dentro...

— Não temos tempo para testes, Hugo! — Ben explodiu, a urgência quebrando sua máscara de calma. — Você ouviu o que o Guardião disse. A tranca está quebrada. Osíris sabe que o Fumaça preta se foi. Se demorarmos, ele encontrará o caminho antes de nós. A missão de Desmond é a única chance de restaurarmos a defesa antes que seja tarde demais.

Hugo olhou para Ben, depois para Desmond. Ele sabia que Ben estava certo. A proteção da ilha estava por um fio.

— Eu não quero te mandar para a morte, Desmond — sussurrou Hugo.

Desmond sorriu. Era um sorriso triste, de quem já aceitou que o sacrifício faz parte do seu DNA. Ele colocou a mão no ombro de Hugo.

— Você não está me mandando para a morte, brother. Está me mandando para casa.

Sem esperar por mais discussões, Desmond caminhou em direção ao arco. A luz parecia chamá-lo, uma canção de sereia feita de energia pura. Ele parou na borda, a silhueta recortada contra o branco infinito.

Ele olhou para trás uma última vez. Para Hugo, seu amigo leal. Para Ben, o mal necessário.

— Vejo vocês em outra vida, brothers.

Desmond fechou os olhos e deu um passo à frente.

A luz o engoliu instantaneamente. Não houve grito, apenas o som de ar sendo deslocado violentamente, e então... silêncio.

Hugo e Ben ficaram sozinhos na câmara escura. O portal se fechou por 1 segundo. A peça-chave estava no tabuleiro. A caçada pelos candidatos havia começado.

Um hotel seguro, Los Angeles – presente

O relógio digital na cabeceira da cama do hotel piscava: 02:55. Faltavam cinco minutos para o prazo final.

Aaron andava de um lado para o outro no carpete gasto, roendo as unhas. A ansiedade formava um nó em sua garganta. Roger, por outro lado, estava sentado na poltrona, limpando as unhas com um canivete, a calma de um predador que sabe esperar.

— Será que ele vem? — perguntou Aaron, parando na janela para olhar a rua pela décima vez. — Talvez eu tenha pressionado demais. Ele tem uma mãe doente, um emprego...

— Você é muito impaciente, garoto. — Roger fechou o canivete com um estalo seco. — Sente-se. Gastar a sola do sapato não vai fazer o relógio andar mais rápido.

— Se ele não aparecer, perdemos o voo para Albuquerque. E a missão começa com um fracasso.

Roger levantou-se, ajeitando o coldre da arma sob o paletó. — Não tem por que se preocupar. Se ele não aparecer por vontade própria, passamos para o Plano B.

Aaron franziu a testa. — Que Plano B?

— Sedativo e porta-malas. — Roger disse aquilo com a naturalidade de quem pede um café. — Se ele é essencial, ele vai. Acordado ou dormindo.

— O quê? — Aaron recuou, horrorizado. — Você está brincando, né? Nós não somos sequestradores.

Roger virou-se para ele, o olhar frio e sem brilho. — Eu não brinco em serviço, Aaron. A missão é levar o alvo. O método é detalhe.

Antes que Aaron pudesse protestar contra a loucura daquilo, três batidas firmes soaram na porta.

O silêncio caiu no quarto. Roger fez um sinal para Aaron ficar atrás dele e aproximou-se da porta, a mão pairando sobre a arma. Ele olhou pelo olho mágico e relaxou a postura, destrancando a fechadura.

A porta se abriu. Yan estava parado no corredor, segurando uma mochila de lona surrada. Ele parecia nervoso, mas seus olhos brilhavam com determinação.

— Vamos? — disse Yan. — Antes que eu mude de ideia.

Aaron soltou o ar, sorrindo aliviado. Roger apenas olhou para o relógio: 02:58.

— Em cima da hora. — Roger resmungou, passando por Yan. — Vamos. O táxi está esperando.

Enquanto os dois rapazes desciam para o saguão, Roger ficou para trás por um segundo. Ele sacou o celular e discou um número rápido.

Do outro lado do mundo, em Sydney, a noite já havia caído sobre o galpão abandonado da Widmore.

Desmond estava sentado na mesma cadeira de metal onde conversara com Aaron dias antes. O escritório estava mergulhado na escuridão, iluminado apenas pela luz da lua que entrava pelas janelas quebradas. À sua frente, uma garrafa de uísque MacCutcheon — um luxo raro — estava intocada.

Desmond não bebia. Ele esperava.

Sua mente viajava de volta para 2017, para o momento em que entrara na luz do Templo, deixando Hugo e Ben para trás. Ele se lembrava da dor, do deslocamento, do medo de nunca mais ver Penny. Ele fizera tudo aquilo para garantir que este momento, doze anos depois, acontecesse.

O celular vibrou sobre a mesa, o som arranhando o silêncio. Desmond atendeu no primeiro toque.

— Pronto. — disse ele, a voz tensa.

— O pacote está seguro — a voz de Roger soou metálica do outro lado. — O enfermeiro se apresentou. Estamos indo para o aeroporto. Próxima parada: Albuquerque.

Desmond fechou os olhos, e a tensão que segurava seus ombros finalmente cedeu. Um suspiro longo e trêmulo escapou de seus lábios.

— Ótimo trabalho, Roger. Mantenha-os vivos.

— Vou tentar. Mas o garoto Aaron... ele faz muitas perguntas.

— Deixe que ele pergunte. Apenas garanta que ele chegue até a filha de James Ford.

— Entendido. Desligo.

A linha ficou muda. Desmond baixou o telefone, olhando para a garrafa de uísque. Ele não precisava beber para esquecer. Pela primeira vez em anos, ele sentia algo parecido com esperança.

— Três já foram, brother — sussurrou ele para a sala vazia, como se Hugo pudesse ouvi-lo através do tempo e do espaço. — Faltam os outros.

Desmond levantou-se, pegou seu paletó e saiu para a noite de Sydney. A engrenagem estava girando. Não havia mais volta.

Deserto da Tunísia — 2017

A luz branca não se dissipou suavemente; ela explodiu, rasgando a realidade.

O chão de pedra fria do Templo desapareceu, substituído pelo impacto brutal contra a areia escaldante. O ar, antes úmido e carregado de ozônio da caverna, agora era seco, quente e sufocante.

Desmond engasgou, o corpo convulsionando enquanto seus pulmões tentavam se adaptar à mudança violenta de pressão. Ele rolou de lado, tossindo bile e areia, sentindo como se cada molécula de seu corpo tivesse sido desmontada e remontada às pressas.

Ele abriu os olhos, protegendo-os contra o sol impiedoso. Não havia selva. Não havia oceano. Apenas um mar infinito de dunas douradas estendendo-se até onde a vista alcançava.

— Tunísia... — sussurrou ele, a voz arranhada. Ele sabia onde estava. A Ilha o havia cuspido ali. O "ralo" do mundo.

Ele tentou se levantar, mas as pernas falharam. A sede o atingiu como um soco, instantânea e avassaladora. Mas ele não podia ficar ali. Se ficasse, morreria, e se morresse, a promessa que fizera a Hugo — e a vida que devia a Penny — seriam em vão.

— Penny. Charlie.

Os nomes eram o combustível que o forçou a ficar de pé. Cambaleando, Desmond começou a andar. O sol castigava sua pele, o vento jogava areia em seus olhos, mas ele continuava. Cada passo era uma batalha contra a gravidade, uma luta contra dez anos de estática.

Horas se passaram. A visão de Desmond começou a turvar. A miragem de um oásis dançava à sua frente, mas ele sabia que era mentira. Ele caiu de joelhos, depois de cara na areia. A escuridão começou a fechar as bordas de sua visão.

— Eu não posso morrer aqui. Não depois de tudo.

A última coisa que ele sentiu foi o chão vibrar com passos de camelos e vozes falando uma língua que ele não compreendia, antes de a escuridão o levar.

O som rítmico de um monitor cardíaco o trouxe de volta.

Desmond abriu os olhos. O teto era branco, imaculado. O ar condicionado zumbia suavemente. Ele tentou se sentar, mas seu corpo parecia feito de chumbo.

— Alhamdulillah, huwa mustayqiz.

Uma mulher estava ao lado da cama. Ela vestia um terninho ocidental, mas falava em árabe, rápida e eficientemente, num rádio comunicador. Ela se virou para ele, continuando na língua local.

— Desculpe... — Desmond tentou falar, a garganta seca. — Eu não consigo entender.

A mulher sorriu, um sorriso profissional e treinado. Ela desligou o rádio e mudou para um inglês perfeito.

— Assim está melhor?

— Está sim... Onde eu estou?

— Você está em uma instalação médica privada, nos arredores de Tozeur. — Ela se aproximou, verificando o soro em seu braço. — Bem-vindo de volta ao mundo real, Sr. Hume. Meu nome é Caroline. Represento as Corporações Widmore. Estávamos esperando pelo senhor.

A menção do nome "Widmore" fez a adrenalina disparar nas veias de Desmond. — Esperando? Como sabiam?

— Temos monitorado as flutuações eletromagnéticas nesta região há anos. Sabíamos que, se alguém saísse, sairia aqui.

Desmond agarrou o pulso dela, ignorando a fraqueza. Havia apenas uma coisa que importava. — Penelope? Onde ela está?

Caroline não se assustou com o gesto brusco. — Ela já está a caminho. O jato dela partiu de Londres assim que detectamos sua assinatura térmica. Ela chega amanhã.

— Amanhã? — Desmond sentiu o pânico subir. Amanhã era uma eternidade. — Não... não posso esperar. Ligue para ela. Por favor. Preciso ouvir a voz dela.

Caroline assentiu, compreendendo a urgência no olhar daquele homem que parecia ter voltado do inferno. Ela tirou um objeto do bolso — um retângulo fino de vidro e metal, sem botões físicos.

Desmond franziu a testa, olhando para o aparelho. — O que é isso na sua mão?

Caroline notou o estranhamento dele. — É um smartphone. A tecnologia avançou um pouco enquanto o senhor esteve fora. Dez anos é muito tempo, Sr. Desmond.

Ela tocou na tela de vidro, esperou um segundo e estendeu o aparelho para ele.

O som de chamada ecoou. Um toque. Dois toques.

— Alô?

A voz. Aquela voz. A única constante em todas as suas vidas, em todos os tempos. Desmond sentiu as lágrimas quentes escorrerem pelo rosto, incontroláveis. O nó na garganta era tão grande que doía.

— Sou eu, Caroline — disse a mulher, mantendo a voz firme. — O Desmond quer falar com a senhora.

Houve um silêncio do outro lado da linha, um silêncio carregado de esperança e medo de acreditar.

— Desmond? — A voz de Penny tremeu, quebrando. — É você? Meu amor?

Desmond segurou o aparelho com as duas mãos, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Ele fechou os olhos, imaginando o rosto dela, o rosto do filho que ele precisava conhecer. A missão de Hugo, a ameaça de Osíris, a lista de candidatos... tudo isso podia esperar um minuto.

— Sim, Penny... — ele soluçou, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Sou eu, meu amor. Eu te prometi. Estou de volta. Finalmente.

Notas finais
Por favor, ao ler, comente, siga e favorite. Ajuda muito. Qualquer dúvida pode perguntar nos comentários. Próximo capítulo: 11/04/2023 às 09:30