Lost: O Primeiro Herdeiro

2 LIVRO 1 — CAPÍTULO 02: O TEMPLO DOS ATERIANOS



A luz da cozinha parecia fria e estéril. Aaron sentou-se à mesa, as mãos cruzadas para esconder o tremor, enquanto Claire permanecia de pé, encostada na pia, como se precisasse de suporte físico para o que estava prestes a dizer.

— Filho... — a voz dela falhou, rouca. — Quando embarquei no Voo 815, de Sydney para Los Angeles... eu não estava indo a trabalho. Eu não era uma cientista, Aaron. Nunca fui.

Aaron franziu a testa, a confusão dando lugar a um medo gelado. — Do que você está falando?

— Eu estava grávida de oito meses. E eu estava indo para Los Angeles... para te entregar. — Claire fechou os olhos, as lágrimas escorrendo livres. — Havia um casal esperando. Eles iriam te adotar.

O mundo de Aaron parou. O som da geladeira parecia ensurdecedor. Toda a narrativa de sua vida — a mãe solteira, batalhadora, a carreira acadêmica interrompida — desmoronou em segundos.

— Como é? — A pergunta saiu num sussurro doloroso. — Você ia... me dar? Como você pôde?

— Eu era uma criança, Aaron! — Claire soluçou, a culpa de décadas transbordando. — Eu estava assustada. Um vidente me disse que eu precisava pegar aquele voo, que eu precisava entregar você... Eu achei que estava fazendo a coisa certa. Eu queria que você tivesse uma vida melhor do que a que eu podia oferecer na época.

Aaron levantou-se bruscamente, a cadeira arrastando no chão. A raiva e a tristeza se misturavam em um nó na garganta. Mas, estranhamente, havia também uma peça se encaixando. A sensação de não pertencimento que ele carregara a vida toda... agora fazia sentido.

— E o que aconteceu? — Aaron perguntou, a voz dura. — Por que você mudou de ideia? O que aconteceu com a família que ia me adotar?

— O avião caiu. — Claire olhou para ele, os olhos vazios. — Ficamos presos naquela ilha maldita. Eu nunca cheguei a Los Angeles. A família... eu nunca mais soube deles. O mundo achou que tínhamos morrido.

Aaron caminhou pela cozinha, tentando processar. Mas havia uma peça solta nessa história. — E o Desmond? Onde ele entra nisso? Você disse que ele é perigoso.

Ao ouvir o nome, Claire estremeceu visivelmente. — Ele já estava lá. Antes de nós.

— Na ilha?

— Sim. Ele não era passageiro. Ele vivia num... num buraco. Uma escotilha subterrânea no meio da selva. — Claire abraçou o próprio corpo, como se sentisse frio. — Nós achávamos que estávamos sozinhos, mas ele estava lá embaixo o tempo todo.

— Mãe, você disse que ele era perigoso. Por quê?

Claire respirou fundo, escolhendo as palavras com cuidado. Ela não sabia os detalhes técnicos, mas lembrava-se do medo nos olhos de Desmond. — Porque ele acreditava que a culpa era dele, Aaron. Ele dizia que tinha uma tarefa... apertar um botão, ou algo assim, para salvar o mundo. E no dia em que caímos... ele disse que falhou. Ele acreditava que derrubou o nosso avião.

Aaron parou. A informação era pesada demais. O homem que apertara sua mão horas antes, o homem que lhe oferecera um emprego e falara sobre "destino", era o mesmo homem que sua mãe acusava de ter destruído suas vidas.

— Isso é loucura — murmurou Aaron. — Se ele estava preso lá, vivendo num buraco... como ele se tornou CEO da Widmore? Como ele saiu?

— Eu não sei — sussurrou Claire, exausta. — Quando fomos resgatados... quando saímos... ele ficou para trás. Ele, o Hurley e o Jack.

— Jack? O médico de quem você falava quando eu era criança?

— Sim. Jack Shephard. Ele morreu para nos salvar. Eles ficaram lá para que nós pudéssemos viver. — Claire olhou para o filho, suplicante. — Aaron, por favor. Aquele homem, o Desmond... ele traz a morte com ele. Fique longe disso.

Aaron olhou para a sua mãe. Viu a fragilidade, o trauma, a dor de uma vida construída sobre mentiras e sobrevivência. Ele sabia que ela estava tentando protegê-lo, mas ela só tinha conseguido acender um fogo incontrolável dentro dele. Havia mais nessa história. Com esses relatos, tudo parecia se encaixar. Seus sonhos, as visões... Mas ele precisava de mais resposta.

— Eu preciso pensar — disse Aaron, secamente.

Ele virou as costas e caminhou para o quarto, fechando a porta. Encostou-se na madeira fria e ouviu, do outro lado, o choro abafado de sua mãe.

Mas Aaron não conseguia chorar. Sua mente estava acelerada. Desmond Hume estava no centro de tudo. O acidente, a ilha, o passado oculto.

Se sua mãe não sabia como Desmond tinha saído, só havia uma pessoa que poderia responder.

Aaron trocou de roupa rapidamente. Pegou as chaves da moto. Ele não ia dormir. Ele ia caçar respostas.

O motor da moto rugiu pela última vez antes de Aaron desligar a chave. O prédio à sua frente era uma carcaça de tijolos que esteve mais cedo, com a placa "WIDMORE CORPORATION — EST. 1990” apagada, rangendo ao vento noturno, uma relíquia de um império que sobrevive ao tempo.

Aaron subiu as escadas de metal, o som de seus passos ecoando como batidas de um coração ansioso. Ao chegar à porta do escritório improvisado onde recebeu as ordens de Desmond, não houve hesitação. Ele socou a madeira três vezes.

A porta se abriu.

Desmond Hume estava lá, mas não era mais o CEO confiante que Aaron conheceu no Mr. Clucks. Ele parecia um homem assombrado. O paletó estava jogado sobre uma cadeira, a gravata frouxa, e um copo de uísque tremia levemente em sua mão. Algo havia acontecido ali alguns minutos antes da chegada de Aaron.

— O que você quer? — perguntou Desmond, a voz rouca, sem o charme habitual.

— O que houve com você? — rebateu Aaron, percebendo a situação de Desmond, entrando sem ser convidado.

— Não é importante. — Desmond virou o resto da bebida num gole só, fazendo uma careta. — Diga logo o que veio fazer aqui a essa hora.

Aaron parou no centro da sala, encarando o homem que sua mãe descrevera como um monstro. — Minha mãe me contou. Sobre o voo 815. Sobre a escotilha. Ela disse que a culpa do avião ter caído na ilha foi sua.

Desmond travou. Ele colocou o copo na mesa com um clack seco. — Ela disse isso, é?

— Disse. — Aaron deu um passo à frente, a raiva superando o medo. — Preciso saber a verdade, Desmond. Que tipo de "oportunidade" é essa? Você está tentando me levar de volta para o lugar que arruinou a vida dela?

Desmond encarou o rapaz por longos segundos. Ele via a fúria nos olhos de Aaron — a mesma fúria que vira tantas vezes nos olhos de Jack. Ele suspirou, derrotado, e indicou a cadeira.

— Sente-se, Aaron. Se você quer a verdade... ou pelo menos a parte que você consegue digerir... sente-se.

Aaron puxou a cadeira, sentando-se na ponta, pronto para levantar a qualquer momento. Desmond caminhou até uma estante de metal enferrujada e puxou um arquivo grosso, marcado com o logo octogonal escrito Dharma Inc. Ele o jogou sobre a mesa; a poeira subiu, dançando na luz fraca.

— Sua mãe não mentiu sobre o acidente. — Desmond começou, a voz baixa. — Mas ela não entende o que aquele lugar realmente é. Não é apenas uma ilha onde aviões caem. É um ponto geológico único. Uma fonte de energia eletromagnética incalculável.

— Energia? — Aaron franziu a testa. — Como uma usina?

— Como um reator nuclear sem tampa. — Desmond abriu o arquivo, revelando fotos antigas de estações científicas e gráficos de oscilação magnética. — A Iniciativa Dharma tentou estudar isso nos anos 70. Falharam. A Widmore tentou controlar. Falhou.

— E agora você quer tentar?

— Não. Eu quero impedir que outros tentem. — Desmond inclinou-se sobre a mesa, o olhar intenso. — Nossos satélites detectaram uma nova oscilação. Alguém... ou alguma coisa... está tentando reativar a fonte. Se essa energia sair de controle, Aaron, o que aconteceu com o avião da sua mãe vai parecer um acidente de trânsito. Estamos falando de uma catástrofe global.

Aaron olhou para os documentos. Parecia loucura, mas havia uma lógica fria naquilo. — Então a missão é... o quê? Salvar o mundo?

— Reconhecimento e contenção. — Desmond mentiu com a fluidez de quem praticou por anos. — Precisamos ir lá, verificar a integridade da fonte e garantir que ninguém mais a encontre. É uma missão de extração rápida. Entramos, verificamos, saímos.

— E por que eu? — Aaron insistiu. — Por que não mandar mercenários?

— Porque a radiação daquela ilha é específica. Ela... rejeita quem não tem a assinatura genética certa. Você nasceu lá, Aaron. Seu corpo se adaptou àquela frequência antes mesmo de você respirar. Você é a chave para entrarmos sem sermos fritos.

Aaron absorveu a informação. Fazia sentido, de um jeito distorcido, mesmo que parecesse loucura. Explicava os sonhos, a conexão. Mas havia uma lacuna na história.

— Minha mãe disse que você ficou para trás. — Aaron disse, estreitando os olhos. — Ela disse que quando eles fugiram, você, o tal do Hurley e o Jack ficaram lá.

Desmond desviou o olhar, uma sombra de dor cruzando seu rosto. — Sim. Nós ficamos.

— Se aquela ilha é uma prisão de energia, e você ficou lá... — Aaron se levantou lentamente, a pergunta pairando no ar como uma guilhotina. — Como você saiu, Desmond? Como você está aqui agora?

O silêncio que se seguiu foi pesado. Desmond olhou para as próprias mãos, lembrando-se de um tempo diferente, de promessas feitas na areia e de um adeus que deveria ter sido eterno.

— Essa... — Desmond sussurrou, a voz carregada de fantasmas. — Essa é a parte complicada. Garanto que no momento certo você terá todas as respostas que precisa.

— No momento certo?

— Não tenho mais informações para você, rapaz.

Aaron percebeu que não conseguiria mais nada dele naquela noite. Ele pegou o capacete da moto. — Eu vou com você. Mas não por causa da sua energia ou da sua empresa. Vou porque preciso ver com meus próprios olhos. — Aaron caminhou até a porta, parando antes de sair. — Mas se eu descobrir que você está mentindo sobre "entrar e sair", eu mesmo te jogo naquele oceano.

Aaron saiu, batendo a porta.

Desmond ficou sozinho no escritório silencioso. Ele fechou os olhos, e a imagem do escritório em ruínas desapareceu, substituída pelo som de ondas quebrando e a voz de Hugo Reyes, dez anos antes.

— Como eu saí? — Desmond murmurou para o vazio. — Eu não deveria ter saído.

A fogueira estalava na praia, lançando sombras longas sobre a areia. Era 2017, mas na Ilha, o tempo parecia uma sentença perpétua.

Desmond Hume não conseguia ficar sentado. Ele andava de um lado para o outro, chutando a areia, a ansiedade emanando de cada poro. Hugo, por outro lado, permanecia imóvel, encarando as chamas com a serenidade de quem aceitou seu destino há muito tempo.

— Eu não vejo a hora de sair desta ilha, brother — murmurou Desmond, parando para olhar o horizonte escuro. — Dez anos... eu nem sei se o mundo lá fora ainda é o mesmo.

— Eu entendo a pressa, amigo. — A voz de Hugo era calma, quase terapêutica.

Desmond virou-se, a frustração transbordando. — Escuta, Hugo. Você aceitou essa missão do Jack como um bom soldado. Mas é sério? Você pretende mesmo viver o resto da sua eternidade aqui? Preso nessa praia?

Hugo jogou um graveto no fogo. As chamas subiram. — Sinto que não tenho escolha, irmão. Mesmo que você traga os substitutos... mesmo que eu perca meu posto de Guardião... acho que meu lugar é aqui. A Ilha faz parte de mim agora.

O som de passos leves na areia interrompeu a conversa. Benjamin Linus emergiu da escuridão da selva, carregando uma pasta de couro velha e desgastada. Ele parecia não ter envelhecido um dia sequer; a Ilha o preservava, ou talvez fosse apenas sua natureza imutável.

— Eu coletei os nomes — anunciou Ben, sem cerimônias. — Candidatos perfeitos para substituir o Hugo. Todos têm alguma ligação com a Ilha ou com alguém que derramou sangue aqui.

Desmond olhou para a pasta como se fosse água no deserto. — Posso perguntar como você conseguiu isso?

— O Jacob tinha um farol. — Ben entregou a pasta a Hugo. — Ele o usava para observar seus candidatos através de espelhos. Jack o quebrou num acesso de raiva anos atrás. Eu o consertei.

Hugo abriu a pasta, iluminando as páginas com a luz do fogo. — Você está falando daquele Farol mágico com espelhos? Como você consertou vidros estilhaçados há uma década, Ben?

Ben deu de ombros, aquele meio sorriso enigmático brincando nos lábios. — Apenas fiz. Sem perguntas sobre logística agora, Hugo. Temos um prazo.

Hugo correu os olhos pela lista, seus dedos parando em um nome específico. Um sorriso nostálgico, cheio de saudade, iluminou seu rosto. — Aaron Littleton? Sério?

— Algum problema com o garoto? — perguntou Ben.

— Não... é só... nostálgico. — Hugo fechou a pasta, os olhos brilhando. — Senti saudade dos velhos tempos. Da Claire, do Charlie... O Aaron deve estar grandão agora.

— Ótimo. A nostalgia é tocante, mas temos trabalho a fazer. — Ben virou as costas, pronto para desaparecer na mata novamente. — Vou indo.

— Aonde você vai? — perguntou Desmond, desconfiado como sempre.

— Não é da sua conta, Desmond. Prepare-se para a viagem. — Respondeu Ben, sendo engolido pelas sombras.

Desmond olhou para Hugo, incrédulo. — Você confia nele?

Hugo soltou uma risada, o som ecoando na praia vazia. — Já estamos juntos há muito tempo, Dess. É óbvio que não.

Desmond riu junto, um momento breve de leveza antes do salto no escuro que estava prestes a dar.

Voltando ao presente, a chave girou na fechadura com um estalo seco, quebrando o silêncio da madrugada. Aaron empurrou a porta, exausto, esperando encontrar a casa adormecida. Mas assim que pisou no hall de entrada, a luz da sala se acendeu, ferindo seus olhos.

Claire estava de pé, imóvel, como uma sentinela. Seus braços estavam cruzados com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Ela não parecia a mãe frágil de horas atrás; parecia uma leoa encurralada.

— Você foi vê-lo — disse ela. Não era uma pergunta. Era uma acusação.

Aaron suspirou, fechando a porta atrás de si. A tensão no ar era espessa, quase sufocante. — Mãe, por favor. Eu estou cansado.

Ele tentou passar direto em direção à escada, mas Claire bloqueou o caminho com uma rapidez surpreendente. — Não dê as costas para mim, Aaron! Eu fiz uma pergunta. Você voltou lá? Você falou com o Desmond?

Aaron parou no primeiro degrau, o sangue começando a ferver. A conversa com Desmond tinha aberto uma caixa de Pandora em sua mente, e a postura defensiva da mãe só confirmava que havia muito mais escondido.

— Eu fui atrás de respostas — retrucou ele, a voz ganhando volume. — Respostas que você passou mais de vinte anos me negando.

— Eu te proibi! — Claire gritou, a voz estridente ecoando pela casa. O controle que ela mantinha sobre sua "confusão mental" estava se desfazendo. — Eu te disse que aquele homem é perigoso! Ele é veneno, Aaron!

— Ele é o único que está sendo honesto comigo! — Aaron gritou de volta, descendo o degrau e ficando cara a cara com ela. — Ele me ofereceu uma chance. Uma expedição. Eu vou para aquela ilha, mãe. Eu preciso ver de onde eu vim.

O rosto de Claire se contorceu em horror. — Você não vai a lugar nenhum! Eu sou sua mãe, e eu estou dizendo que você não vai pisar naquele lugar maldito!

— Eu não sou mais uma criança que você pode esconder do mundo! — Aaron explodiu, a frustração transbordando. — Talvez se você não fosse tão... instável, eu pudesse confiar no seu julgamento!

A palavra pairou no ar como um tapa. Instável.

O silêncio que se seguiu foi terrível. Os olhos de Claire se encheram de lágrimas, mas não de tristeza — de uma dor antiga, uma ferida que nunca cicatrizou. A menção à sua sanidade tocou no ponto fraco de todos os anos que ela passou lutando para criar aquele menino sozinha, assombrada por memórias que ninguém mais via.

— Instável? — A voz dela quebrou, transformando-se em um soluço. — Você acha que sou louca? Minha opinião não vale nada para você?

Ela recuou, as mãos tremendo. — Você não faz ideia... Você não sabe o que eu passei naquela selva. Eu fui caçada, Aaron. Eu fui drogada, sequestrada... Eu quase perdi você para sempre. E agora você quer voltar para a boca do lobo por causa da "verdade"?

Aaron sentiu o arrependimento bater imediatamente. Ele viu a mãe desmoronar diante dele, revivendo o terror que ele nunca compreendeu. — Mãe, eu não quis dizer...

— Não! — Ela levantou a mão, impedindo-o de se aproximar. As lágrimas escorriam livremente agora. — Eu fiz tudo para te proteger. Tudo. E não foi o suficiente.

Claire virou as costas, soluçando, e correu para o seu quarto. A porta bateu com estrondo, fazendo as janelas vibrarem.

Aaron ficou ali, sozinho na sala mal iluminada, o eco da discussão ainda zumbindo em seus ouvidos. A raiva havia desaparecido, substituída por um peso esmagador no peito. Ele tinha conseguido as respostas que queria com Desmond, mas o preço tinha sido alto demais.

— Desculpa, mãe... — sussurrou ele para a casa vazia.

Mas a porta continuou fechada. E Aaron sabia que, naquela noite, nenhuma desculpa seria suficiente.

A manhã seguinte arrastou-se com uma normalidade sufocante. Aaron terminava de ajustar a gravata no espelho do corredor, pronto para mais um dia na Widmore, quando o som de porcelana estilhaçada veio da cozinha, seguido por um baque surdo e pesado.

— Mãe?

O silêncio que respondeu foi mais aterrorizante do que qualquer grito.

Aaron correu. Encontrou Claire caída entre os cacos de uma xícara de café, o rosto pálido contra o ladrilho frio. O pânico, frio e agudo, perfurou o peito do rapaz.

— Mãe! Mãe, acorda! — Ele se jogou ao lado dela, tateando o pulso, buscando o sopro de vida. Havia pulsação, mas era fraca. O terror de perdê-la, a única constante em sua vida, o paralisou por um segundo antes que o instinto assumisse o controle.

As luzes fluorescentes da sala de espera do hospital zumbiam, marcando o tempo de uma espera agonizante. Quando o médico finalmente apareceu, trazendo a notícia de que fora apenas uma síncope — um desmaio causado por estresse extremo e queda de pressão —, Aaron sentiu os joelhos cederem de alívio.

No quarto, Claire dormia, sedada. Aaron sentou-se ao lado da cama, segurando a mão dela. Observando as linhas de expressão no rosto da mãe, ele prometeu a si mesmo que descobriria a verdade, não para confrontá-la, mas para protegê-la do que quer que a estivesse aterrorizando.

A porta do quarto se abriu suavemente.

Aaron virou-se, esperando uma enfermeira. Em vez disso, encontrou Desmond Hume. O CEO vestia um terno escuro impecável, mas seus olhos estavam escondidos por óculos de sol, e sua postura era rígida.

— Olá, Claire — disse Desmond, a voz baixa, ignorando Aaron inicialmente.

Aaron levantou-se de um salto, colocando-se entre o homem e a cama. — O que você faz aqui?

Claire agitou-se na cama, despertando com a voz de Desmond. Seus olhos se abriram e, ao focarem na figura parada à porta, o monitor cardíaco acelerou.

— Desmond? — A voz dela era um fio de medo. — Você... você é real?

— Sou, Claire. — Desmond retirou os óculos, revelando olhos cansados. Ele olhou para Aaron. — Preciso de um momento com ela, rapaz.

— Nem pensar — retrucou Aaron. — Você é o motivo dela estar aqui.

— Aaron... — Claire chamou, tentando se sentar. — Deixe-nos. Por favor.

— Mãe, não vou te deixar com ele.

— Saia, Aaron. — A ordem foi fraca, mas firme. — Eu preciso ouvir o que ele tem a dizer.

Aaron hesitou, olhando de um para o outro. A tensão no ar era palpável. Relutante, ele soltou a mão da mãe e caminhou até a porta, lançando um último olhar de aviso para Desmond antes de sair.

Assim que a porta se fechou, Desmond suspirou, a postura corporativa desmoronando levemente. Ele puxou a cadeira para perto da cama.

— Como você saiu? — perguntou Claire, as lágrimas já escorrendo. — A ilha... ela não deixa ninguém sair.

— Tive ajuda — respondeu Desmond, a voz carregada de culpa. — Hurley. Ele me deu uma chance.

— E agora você quer usar essa chance para tirar o meu filho de mim? — Claire agarrou os lençóis com força. — Por que o Aaron?

— Eu não quero levar seu filho, Claire. Eu preferia não levar ninguém. — Desmond inclinou-se para frente, o rosto sério. — Mas você sabe como funciona. A Ilha chama. O Aaron já é um adulto, e ele tem perguntas que só aquele lugar pode responder.

— Ele é tudo o que eu tenho! — Claire soluçou. — Eu passei a vida fugindo, escondendo ele... Deixe-o em paz, Desmond. Por favor.

— Não é uma escolha minha. E, no fundo, você sabe que também não é escolha dele. — Desmond falou com uma suavidade dolorosa. — O destino dele foi traçado antes mesmo de ele nascer naquele lugar. A Ilha precisa dele.

Claire olhou para o homem à sua frente. Viu a determinação, mas também viu a tristeza de um pai que entende o sacrifício. Ela sabe pelo o que o Desmond passou. Ela lembrou-se de Charlie Pace, de como ele se sacrificou por Aaron e ela. Lembrou-se de como a Ilha sempre cobrava seu preço.

— Se ele for... — Claire engoliu o choro, a voz tremendo. — Eu vou junto. Não vou perdê-lo de novo.

— Sinto muito, Claire. — Desmond balançou a cabeça lentamente. — Isso é impossível. Você não faz parte dos planos da ilha. Se for, será apenas um alvo. O Aaron precisa ir sozinho para cumprir o que deve ser feito.

A raiva pulsou nas veias de Claire, mas foi rapidamente substituída por uma resignação devastadora. Ela conhecia a força daquela Ilha. Lutar contra ela era inútil. Ela sabia que seu filho estava sendo perturbado por sonhos e visões que talvez só parassem quando ele de fato fosse até lá.

— Prometa — sussurrou ela, agarrando o braço de Desmond. — Prometa que vai cuidar dele. Que não vai deixar que ele se torne... o que nós nos tornamos.

Desmond colocou a mão sobre a dela. — Farei o possível, Claire. Eu prometo.

Do lado de fora, Aaron andava de um lado para o outro no corredor, a mente fervilhando. A porta do quarto se abriu, e Desmond saiu. Antes que Aaron pudesse confrontá-lo, uma comoção no final do corredor chamou sua atenção.

Portas duplas se abriram com estrondo. Enfermeiros corriam empurrando uma maca.

— Trauma craniano, múltiplas contusões, preparem a sala dois! — gritava um médico.

Aaron olhou para a maca que passava apressada. O rosto do homem estava inchado e coberto de sangue, mas era inconfundível.

Era Roger Miles. O homem da academia e também o mesmo que o enfrentara.

Aaron congelou. Roger parecia ter sido atropelado por um caminhão, ou espancado por um exército. O olhar de Aaron cruzou com o de Desmond, que também observava a cena, mas sem surpresa, afinal, Desmond estava ali por Roger também. A mensagem era clara: Isso é real. E é perigoso.

Voltando a 2017, na Ilha...

Ben e Hugo guiavam Desmond através da selva densa. O destino não era a praia, nem as estações da Dharma, mas o imponente Templo, cujas pedras pareciam respirar a história da ilha.

— Espere — disse Desmond, parando na entrada das ruínas. — O que estamos fazendo no Templo? Achei que a saída fosse na orquídea.

— Tive muito tempo para investigar, Desmond — respondeu Ben, sua voz ecoando nas paredes de pedra. — Descobri que Jacob tinha seus próprios caminhos. Existe uma passagem no subsolo.

— Então sempre foi possível sair? — perguntou Hugo, olhando para as gravuras nas paredes com curiosidade.

— Possível sempre foi, Hugo. A questão era quem tinha permissão — retrucou Ben, guiando-os para as profundezas.

Eles desceram até uma câmara subterrânea iluminada por tochas que nunca se apagavam. As paredes estavam cobertas de hieróglifos e desenhos que antecediam qualquer civilização conhecida.

— Quem construiu isso? — perguntou Desmond, passando a mão pela pedra fria.

— É uma boa pergunta — disse Ben. — Se souber ler o idioma morto na parede, talvez nos diga.

— Foram os aterianos — disse Hugo, casualmente.

Ben e Desmond pararam e olharam para ele.

— Aterianos? — repetiu Ben. — Como você sabe disso, Hugo?

Hugo apontou para um canto escuro da câmara, onde não havia nada além de sombras para os olhos dos outros dois.

— Eu não sei, na verdade. Foi ele quem me disse.

— Não me diga que está vendo outro morto? — bufou Ben.

Mas Hugo não estava olhando para um fantasma comum. Ele olhava para um homem alto, vestindo uma armadura primitiva que brilhava com uma luz etérea. O homem tinha olhos azuis e uma postura real. Apenas Hugo o via.

— Sim — respondeu Hugo, conversando com o vazio. — E ele disse que eu sou a reencarnação dele. Não... não reencarnação. Sucessor.

Hugo virou-se para os amigos, o rosto pálido. — Ele disse que foi o primeiro Guardião. O primeiro herdeiro dos poderes da ilha. E ele quer conversar.

Notas finais
Por favor, ao ler, comente, siga e favorite. Ajuda muito. Qualquer dúvida pode perguntar nos comentários. Próximo capítulo: 04/04/2023 às 09:30