Lost Inside
32 Não a deixe ser subestimada
Notas iniciais

Era a primavera em seu ápice novamente, cerejeiras agitavam-se ao vento, vistosas e perfumadas.
Sakura parou na calçada, jogando o rosto na direção em que ouvia o ranger suave dos galhos, sentia quando as sombras dançavam sobre si e o sol a tocava na pele.
Respirou fundo, deixando a brisa agitada preencher os pulmões, e analisou longamente o que sentira.
— Sakura? — Ino chamou, parada mais a frente. Sakura abriu os olhos e seguiu até ela. — O que foi? Aconteceu algo?
— O vento...
— O que tem? – Ino indagou, empurrando a franja para atrás da orelha e olhando para as arvores sendo sacudidas pela ventania.
— Sinto uma monção...- Sakura apenas disse, seguindo em frente com uma expressão reflexiva.
Ino olhou para as árvores e para o céu, um pouco cinzento, e se perguntou se o que ela dissera tinha mais a haver com o tempo.
¤
Sasuke parou onde estava. Seus olhos giraram atentos enquanto uma das mãos pousava sobre o cabo da kusanagi. Por um longo momento tudo o que ele fez foi estudar o que ouvia e sentia.
Aquele trecho da floresta era mais denso, o vento que vinha do alto mau sacudia a copa das árvores que deixavam o terreno quase ás escuras de tão fechadas.
Ele teve a clara impressão de que havia, ao menos algo vivo o cercando mas a sensação se foi ligeiro e nada mais pareceu esquisito.
Com um suspiro, ele seguiu em frente, chegando cada vez mais próximo de desembocar perto dos muros de Konoha, a floresta se abriu mais. Correu mais ar em sua direção, ar forte e frio.
Sasuke olhou para uma brecha entre o teto verde e viu o céu, cada vez mais cinzento e nebuloso, relâmpagos cortavam as nuvens e ele já podia sentir o cheiro de quando a terra começava a ser regada pela chuva.
Ainda assim, talvez pela época do ano, ele sentia um pequeno incômodo com a vinda dessa tempestade. Talvez fosse por ter se formado tão rápido e aparentar que ia ficar cada vez mais forte.
De todo modo, ele seguiu em frente até alcançar os portões de Konoha.
Depois de longas semanas saltando entre dimensões hora estéreis de vida, hora hostis, estar em casa, independente do clima, era bom.
¤
Naruto e Shikamaru observavam os céus banharem a aldeia brutalmente. Ventava tão forte que as árvores pareciam prestes a serem arrancadas, pedaços de telhas e outros objetos inclusive já haviam acertado alguns locais e pontos próximos aos rios haviam sido alagados.
Por enquanto, nada absolutamente grave aconteceu, mas eles já tinham tido que mobilizar um grande número de gennin, chunnin e jounnin para auxiliar os populares.
Esses momentos de muita atividade, lidando com um fator tão imprevisível quanto essa tempestade não eram exatamente momentos de muita tranquilidade. Qualquer grande agitação que perturbasse a aldeia internamente poderia se tornar uma brecha para problemas virem de fora.
Konoha vivia uma era de paz com outros países, mas nunca foram absolutamente todos, e gente mau intencionada existia independente de qualquer local de origem que fosse.
— Nunca vi algo assim. Espero que todos fiquem bem. – Naruto disse.
— Hinata está em casa?
— E como poderia? Está no distrito Hyuuga, o rio próximo e o lago estavam enchendo muito rápido. Ela está tentando administrar a situação.
— Entendo. Ino disse que o hospital está bem agitado. Mas a maioria são crianças, idosos e homens que estavam tentando arrumar o que o vento destruiu.
— Que loucura! Se essa chuva não passar até a noite, ninguém dorme hoje.
— Hah, eu sei de alguém que vai. – Shikamaru recordou, rindo, o cigarro entre os dedos, Naruto não pode deixar de fazer uma careta.
— Aquele bastardo...
Sasuke havia passado um pouco mais cedo, debaixo de chuva, entregou o que tinha de entregar a um ninja e partiu para casa, deixando o recado de que nem se metade de Konoha fosse para o bueiro, deveriam chamá-lo para ajudar em algo.
Ele certamente estava cansado demais até para fingir ser solidário, mas Shikamaru sabia que podia usar Sakura para tirá-lo da cama (o que seria cruel, mas e daí?) ou deixar Karin tomar conta da situação.
Já era bem claro que depois da separação foi que ambos passaram a demonstrar ter uma relação ainda mais estreita, onde ela certamente o chutaria de qualquer cama e o mandaria ajudar, até usando as crianças como chantagem (o que também era cruel, mas e daí?).
Sendo assim, ambos voltaram a observar os céus castigarem Konoha e torcer que esse castigo não durasse muito tempo.
¤
Sakura podia somente ouvir e sentir a força das chuvas batendo contra sua janela, contra o solo lá fora, os trovões, e até mesmo as vozes de quem saia naquele temporal.
Apertou a almofada contra si, incomodada demais com o som para conseguir cochilar, e basicamente ilhada em casa, sozinha.
Ino tinha ido ao hospital e estava ocupada lá, certamente, assim como o resto do pessoal, até mesmo as crianças.
Sakura podia sentir vez ou outra a movimentação de shinobis pelo bairro, provavelmente verificando se as pessoas estavam seguras.
Naruto devia estar ocupado também.
Ela suspirou, esfregando a bochecha no chifre macio de Hōn e apoiando a cabeça no colo de Mimi.
Queria poder também fazer algo.
¤
Sasuke abriu as pálpebras apenas um ou dois centímetros. Estavam pesadas demais.
Olhou para a janela quase sem ver nada direito, mas identificou que ainda chovia e relampejava muito, nem dava para dizer ainda era dia. Ele não fazia ideia das horas, estatelou-se no sofá da sala e dormiu ali mesmo assim que chegou.
Apenas virou-se para o outro lado, e suspirou, aborrecido.
— É melhor que seja importante. – Avisou.
As duas pessoas que antes se ocultavam entre as sombras da sala, aproximaram-se de onde a parca luz que vinha da janela e empurraram seus capuzes para trás.
— Precisamos de ajuda. – A garota disse.
— O escritório do Hokage é noutra direção. – Sasuke bocejou.
Ambos se entreolharam, para ela, como se já não fosse irritante o bastante o cara os subestimar ao ponto de literalmente dar as costas e cochilar na frente deles, ainda tinham que aturar seu deboche.
O homem permaneceu quieto até então falar.
— Não acho que seja só algo que interesse ao Hokage ou a vila. – Declarou. — É sobre Sakura.
Durante um momento, a única trilha que houve foi a do temporal lá fora, e então Sasuke se ergueu, ainda de costas, o sofá rangendo lentamente.
Ele virou o rosto, por cima do ombro os encarou.
Aquele olho carmim e aquele olho púrpura cintilaram na escuridão e se afiaram atentos e hostis quando ele disse.
— Estou ouvindo.
¤
Kyouya geralmente conseguia evitar esse tipo de situação com bastante êxito. Mas quando ele se encrencava, era pra valer.
— Ôôôô tio! O senhor tá bem mesmo?! – Uma das crianças gritou do alto do penhasco.
Kyouya reuniu alguma dignidade e olhou pra cima, acenando com a mão vaga.
— E-estou!
Bastava ignorar uma queda de mais de cem metros no rio furioso que corria lá embaixo. Seguro apenas por um galho de raiz que milagrosamente engatara em sua jaqueta quando ele escorregou na beirada.
— Vamos tentar arranjar uma corda! – A outra menininha gritou. — Fica tranquilo aí, tio!
— Certo, certo, só tenham cuidado. – Ele disse, de volta, não sabendo se ficava mais desconsolado por não ver como poderia ficar “tranquilo” numa situação dessas, ou se por ser chamado de tio.
Quando passara a ser visto como tão velho? Ele já aparentava tanto?
Bom talvez fosse só a lama e a chuva acabando com seu estilo....
Um suave ranger característico de rasgo o vez lembrar que não podia perder tempo pensando na sua auto estima. Gente morta não tinha.
Mas se quer podia usar as mãos para tentar agarrar algo.
A caixa de papelão com seis cãezinhos estava começando a se desmanchar com a chuva e ele não fazia ideia de como seguraria os filhotes que o puseram nessa bagunça. Ou como se seguraria, ou como seguraria uma bendita corda!
Olhou para a profundidade do precipício mais uma vez, calculando se poderia se soltar e tentar grudar na parede com chakra. Porém havia o risco de um dos filhotes cair.
— Oooooi! Tiooo! Segura isso!
Uma corda desenrolou-se a poucos centímetros dele, Kyouya. Olhou para cima e a imagem o assombrou, a garotinha estava perto demais da beirada enlameada e frágil.
— Afaste-se daí! Agora! – Gritou.
— Mas...
— Agora!
Ela recuou um passo, mas a beirada ruiu aos seus pés, derrubando um bocado de pedras e pedaços de barro sobre Kyouya também. Ele não conseguiu enxergar nada, apenas sentir que também estava caindo, os filhotes ganiram, a garotinha gritou.
E então algo o envolveu, aspecto úmido, rijo e também terno.
Kyouya sentiu que ganhava altura, mas seu rosto e olhos estavam encobertos de lama. Sentiu o traseiro pousar em um solo molhado e soltou a caixa entre as pernas, esfregando a vista rapidamente.
Primeira coisa que viu foi um tentáculo rosa escuro o soltar suavemente e a garotinha ainda soluçando ao lado assustada e junto dos irmãos.
— Are... Kyouya-kun?
Ele ergueu mais os olhos e deu com Sakura, ela segurava um guarda-chuva amarelo sobre a cabeça, e boa parte dos fios tentava se esconder sob este, menos um par de mechas mais encharcadas que repousavam enroladas em seu ombro, os movimentos mais lentos e pesados.
Sakura inclinou o rosto, avaliando cada resposta do ambiente e a espera da dele.
— Sakura... Quer ser a minha deusa particular?
As crianças se engasgaram totalmente pegas de surpresa e Sakura sorriu largamente.
— Kyouya-kun, é você mesmo!
Kyouya olhou para si mesmo, sua roupa branca do uniforme médico estava marrom de lama, e seu cabelo tão desmazelado que nem ele iria querer que ela enrolasse seus dedinhos nele como antigamente.
Sinceramente, ele não achava que havia sobrado muito dele depois dessa enrascada. Mas estava absolutamente agradecido de Sakura ter salvado o que restou.
¤
Já na recepção do hospital a movimentação era intensa, enfermeiras faziam a triagem dos pacientes que chegavam, em sua maioria, pessoas que se machucaram ao andar sobre telhados na chuva, ou nas ruas alagadas.
Mas também haviam pessoas frágeis que geralmente repousavam em casa e que agora precisaram vir ao hospital garantir que não seriam prejudicadas pela chuva.
Sasuke olhou em volta atentamente não gostando de toda aquela conversa os ter direcionado até aqui.
Shizune apareceu, esbaforida e segurando uma caixa com rolos de ataduras.
— Ela acabou de sair de uma cirurgia, mas como não temos garantias de que vai ficar tudo tranquilo por um tempo. Melhor se apressarem.
— Certo. – Ele disse, apenas acenando para os outros dois o seguirem a caminho do consultório da godaime.
— Não achei que o tempo ficasse assim nessa época...
— Não fica. – Sasuke garantiu.
— Sasuke-kun? Já está aqui? – Karin o abordou, segurando uma bandeja com itens de curativos. — Algo aconteceu?
— Apenas preciso ter com a godaime.
— Oh? – Karin espiou atrás dele, reconhecendo aquelas pessoas, não perguntou mais pois já imaginava que tinham pressa e Sasuke mais ainda.
— Tudo bem, boa sorte.
— As crianças...?
— Com Juugo, as aulas da academia foram suspensas.
— Melhor assim. – Karin concordou, o que tinha de crianças chegando na emergência feridas por estarem aprontando no temporal ou fora de casa não era pouco.
Melhor que os seus tivessem ficado sob a rédea firme de um tio como Juugo, ficava mais tranquila.
Seguiu caminho e Sasuke continuou o dele até o escritório.
Tsunade desligou o telefone assim que ele entrou e os fitou acidamente.
— Já avisei para Shikamaru e Naruto virem até aqui. Mas podem começar.
Sasuke então voltou-se aos outros dois e acenou com o queixo.
— Diga a elas o que me falou. E mostre a coisa.
Bichura mexeu na pochete e se aproximou da mesa da mulher, pousando um pequeno vidro contendo um líquido de coloração vermelho ferrugem.
— Roubei isso de um laboratório de venenos clandestino. A intenção de infiltrar lá era outra, mas eles trabalham na rotina de pedidos.
Tsunade catou o vidro, o analisando visual e minuciosamente primeiro.
— Você diz quem quer matar, como quer que pareça e eles criam um veneno próprio para isso. É como funciona lá. Então havia uma lista com pedidos e no meio deles, estava esse item.
Antes de abrir ela o encarou estreito.
— Para quem foi criado?
— Sakura.
Tsunade não o abriu, suspirou e apertou a tecla num aparelho ao lado do telefone.
— Na lista, havia quem fez o pedido?
— Os nomes estavam em códigos. Pensei em roubar a lista, mas seria desperdício pois ainda tinha uma missão a cumprir. – Bichura suspirou, voltando a remexer na bolsa. — Encontrar esse pedido foi uma baita sorte. Apenas copiei o código, esperava que alguém aqui pudesse interpretá-lo para chegar ao cliente. – Ele tirou um pequeno pergaminho, destes que se mandava pássaros transportarem e ofereceu a ela. — Também anotei algumas das especificações, mas não entendo muito de venenos então...
— Eu entendo. – A jovem Ai pronunciou. — O bastante para saber que queriam algo altamente letal e difícil de identificar, solúvel em água, o que indica que planejavam estar próximos o suficiente dela para oferecer uma bebida. Também a ação deve ser rápida, os sintomas inicialmente inofensivos, e sem qualquer.. Sofrimento á vítima.
— Eu vejo. – Tsunade comentou, passando os olhos pelo número de ingredientes, era capaz de saber como aquilo agiria apenas lendo cada ingrediente e quantidade a ser usada na porção. — É quase uma eutanásia. Como ela tem muito chakra, seu metabolismo e seu sistema são bastante reflexivos, ela demonstraria sintomas em uma hora, que alguém normal apresentaria somente em questão de seis horas ou mais. Por isso o cuidado para que efeito externo só pareça um mau estar. E evitar sofrimento para que não alarme ninguém nem perca o controle. Esse tipo de veneno não é qualquer um que faz. Imagino que exista uma equipe numerosa nesse laboratório.
Bichura concordou.
— Que mal lhe pergunte, mas que missão é essa? Para quem?
— Bem, tivemos que nos manter na linha desde aquele incidente... Então estamos trabalhando como mercenários para o Kazekage, alguns desses caras são nukenins de Suna que roubaram uma grande quantidade de ervas raras da estufa do hospital de lá. Então ele temia que em algum momento essas ervas seriam usadas contra alguém e investigou. Nunca imaginaríamos que esse caso se ligaria á Konoha.
— Gaara sabe que vieram? – Sasuke indagou.
— Mandei a informação enquanto vinha para cá. Tanto ele quanto os outros kages tem por unanime a decisão de passar qualquer informação ligada á Haruno Sakura com o máximo de urgência.
— Fez bem. – Tsunade falou. — Mandarei Shizune analisar o veneno e Shikamaru deverá gostar de desvendar esse código. Quanto ao resto, acho que podemos concordar que essa informação não poderá vazar dessa sala enquanto não tivermos total certeza de quem está por trás da encomenda.
— E como vai proteger ela? – Ai indagou. — Diga a eles, Bichura. Isso que você pegou, essa é só uma amostra extra. O veneno já está nas mãos de quem encomendou. Estava na lista, riscado como concluído e pago.
Tsunade sorriu de maneira confiante e até um pouco sombria.
— Deixe comigo. É comigo que estão lidando agora.
¤
O temporal finalmente passou a dar indícios de trégua, Kyouya suspirou cansado do peso das roupas encharcadas de lama, precisava de um banho e seguir o mais rápido possível ao hospital, seu atraso certamente o faria ser torturado pelas outras enfermeiras e por Tsunade.
Depois de deixar as crianças e os cãezinhos seguros em casa, ficou sob uma marquise esperando a chuva passar. Por mais que fosse ser adorável dividir o sombreiro com Sakura, era pequeno demais para ambos e ele já era um boneco de barro, de toda forma.
Apenas queria evitar pegar mais frio e chuva além de uma virose.
— Eu disse que algo estava vindo. – Sakura comentou. — Mas acho que ninguém prestou muita atenção.
— Hum? Se refere á chuva?
Sakura direcionou o queixo para o céu, parecendo até que o encarava diretamente, seus olhos se estreitaram um pouco numa expressão intrigada e mais séria que habitual.
— Algo assim...- Comentou.
Ele encarou as nuvens azuladas e cinzentas, curioso, mas notando que rapidamente a chuva diminuiu para um sereno persistente, observou o fluxo de água que corria pelos bueiros.
— Acho que já é seguro retornar. Tem certeza que não quer companhia até em casa? Já estou atrasado mesmo.
Sakura encolheu os ombros, sorrindo com ar de desculpas.
— Na verdade, gostaria de ir ao hospital também. Quero ajudar de alguma forma.
— Por isso saiu nessa chuva?
— Perdão.
— Apenas seja mais cuidadosa. Com essa água toda correndo nas calçadas, seu caminho habitual poderia ter sofrido com algum entulho e se você tropeçasse e caísse?
— Acho que... Doeria?
Tão fofa. Como ele achou que poderia dar sermão nesta coisinha adorável?
Suspirou e tocou de leve o ombro dela, indicando-a a seguir ao seu lado.
Esperava que levar ela diminuísse seu sermão, mas temia que seria totalmente o contrário.
— Não vamos perder tempo aqui. A tempestade pode voltar a engrossar.
— Hai!
Chegaram ao hospital sem mais problemas, porém Kyouya optou por seguir pela entrada dos fundos para evitar tanto um alvoroço com presença da princesa, quanto com sua própria aparência enlameada. Ainda assim, deu para perceber quão movimentadas as coisas estavam.
— Kyouya?! O que aconteceu com você? Sakura-chan?! – Shizune os abordou.
— Er...
— Kyouya estava pendurado num barranco quando o encontrei.
— Huh?!
— Algo assim. Irei tomar uma ducha e trocar de roupa agora mesmo!
— Certo, e siga direto para a triagem!
— Sim senhora! – Kyouya se foi pelo corredor e Sakura suspirou, um pouco chateada.
— Oh, nem pude tocar no cabelo dele...
— Ah, não estava exatamente apropriado no momento. – Shizune atenuou, a cabeça do garoto parecia uma escultura de barro. — E quanto a você? O que veio fazer aqui?
— Eu gostaria de ajudar no que fosse possível!
— Oh. – Shizune ainda tinha consigo o veneno que Tsunade mandou-a levar para a análise no mais absoluto sigilo, e não precisava se palavras inteiras para saber a quem isso se relacionava.
Porém, era melhor que Sakura ficasse por perto mesmo.
— Vamos até o escritório? Sasuke, Naruto e Shikamaru estão aqui e mais algumas visitas também.
— Eh? Estão? Ah, percebo agora... – Sakura exclamou, surpresa, ambas caminharam até as escadas rumo o primeiro andar.
— Shizune-dono! Por favor! Precisamos da sua ajuda! – Um médico as abordou, afobado.
— Certo! Sabe o caminho, não é, Sakura?
— Claro.
Shizune desceu os degraus rapidamente, a urgência nos passos e nas palavras dele, faziam Sakura vibrar internamente com ansiedade, como se cada músculo seu soubesse algo decorado.
Essa cena não era estranha, esse cenário, ela fez parte dele.
A outra Sakura fez, e a Sakura de agora podia sentir sensação de pressa nas pernas, para chegar até onde precisassem dela e suas mãos formigando, sabendo o que tinham de fazer.
Até mesmo seus olhos sentiam falta de analisar algo milimetricamente, estudar longas horas e arderem de cansaço.
Isto tudo ainda era parte de quem ela era. Sempre seria.
Sakura continuou seu caminho, a sala de Tsunade ficava no terceiro andar então ela pegou mais dois lances de escada até lá.
Quando derrotava a última subida, facilmente notou que havia alguém parado perto das escadas. Não reconhecia seu chakra, mas respirando suavemente, podia sentir o cheiro de areia do país do Vento, sobressaindo-se mesmo ao da lama e chuva que inundavam Konoha.
Inevitavelmente, manteve-se atenta àquela presença, independente de ser alguém á serviço do Kazekage.
Sakura murmurou um cumprimento sem muito interesse, pois lhe era natural e instintivo suspeitar de estranhos silenciosos.
Apenas seguia em direção a porta de Tsunade, quando pode pressentir algo cortar o ar do corredor em sua direção, ela girou sobre um calcanhar, uma mecha capturou o item atirado, mesmo sentindo aquilo através dos fios, ela não soube o que era e isso só aumentou sua raiva e suspeita. Por pouco apenas não atacou de volta instintivamente.
Instintos rápidos eram bons, mas Tsunade a treinou para aprender a ser racional antes de atacar. Defender-se o quanto possível sim, atacar, somente com o aval da certeza.
— Quem é você? – Exigiu.
Uma risada sarcástica foi a resposta, aumentando a antipatia dela. Talvez aperta-lo um pouco não seria tão possivelmente errado.
— Isso foi divertido. Ver essa coisa na sua cabeça se movendo tão rápido. – Ele afirmou, maldosamente.
Sakura não pode deixar de recolher seus fios em resposta. Tinha consciência de que a aparência de seu cabelo deveria assustar a maioria das pessoas num primeiro momento. Mas Ino dizia que todo mundo temia o desconhecido, e que a forma como eles se moviam, era encantadora de observar e Sakura ficava feliz com isso.
Sabia que ouvir comentários maldosos não fazia bem, mas ela não podia somente evitar ou adivinhar de onde eles vêm. Como agora.
Ele chamou seu cabelo de “coisa”, e isso magoava. Ela não pediu por eles, ela nem sabia como eles pareciam mais, era injusto.
— Eu fiz uma pergunta.
— Sinto dizer, eu não respondo a qualquer um. Quanto mais alguém como você.
Sakura estreitou as vistas, a ofensa dando lugar a raiva.
— Que insinua?
— Que estou aqui para falar com ninjas de verdade, não com armas. – Ele rebateu, parecendo despejar nela algum tipo de rancor antigo. E isto também a magoou.
Por que ela tinha que ouvir algo assim de um estranho?
Isso a irritava, magoava, ofendia, machucava.
E Sakura não gostava de ser machucada.
A ideia de ser ferida por um estranho, a colocava numa zona de resposta imediata que ela não podia evitar.
Instinto de sobrevivência altamente responsivo, era como chamavam.
Ela passaria a chamar de intolerância a ignorantes.
— Não sei quem é você... – Iniciou, numa última tentativa de permanecer incauta. Ele respondeu com mais desdém na voz e foi a primeira voz que Sakura decidiu que odiava.
— Não me surpreende, querida. — Num vertiginoso movimento dos cabelos, ela o pressionou contra a parede, aproximando-se com uma expressão feroz nos olhos. Podia ouvir ele arquejar com a pressão e os ossos das juntas estalarem um pouco.
Esse som dele, ela podia gostar.
— Não sei quem é você, mas se voltar a se dirigir a mim desta forma... Não irá sobrar muito para que alguém também saiba.
— Sakura? – A voz de Tsunade chamou-a. Sakura moveu a cabeça, atenta aos passos de Sauke, Shikamaru e Naruto vindos de fora e Tsunade assim como de outros dois conhecidos que ela teria o maior prazer em receber se não estivesse ainda aborrecida demais.
Soltou aquele mau educado de uma vez e se afastou, seguindo direto para dentro da sala, sentou-se calada no pequeno sofá perto da janela.
Tsunade então deu atenção ao estranho e não o fitou com menos hostilidade enquanto ele girava a junta dos ombros doloridos com todo um ar entediado.
— Quem é você? E é bom a resposta ser boa. – Informou.
Ele tinha um cabelo castanho espetado que cobria um dos olhos amarelos, usava uma touca verde escuro, calça, colete e uma bolsa de alça transversal passada no tronco, tudo em cores escuras e a bandana com os traços de Suna amarrada no cinto.
— Sou Kirisuke Nobuyo, jounnin de Suna. – Afirmou, parecendo achar que isso tinha grande relevância para eles. — Vim aqui por causa deles. – Apontou Bichura e Ai de mau gosto. — O Kazekage recebeu sua mensagem e quer que os escolte até lá depois que falar o que deve ao Nanadaime.
— Huh? Nós? Já? Ele já mandou alguém tão rápido? Você é ligeiro...
— Sim, sou. – Ele afirmou, muito convicto disso.
— Pode ser rápido mas não soa inteligente. – Sasuke pronunciou, finalmente re-encaixando a espada na bainha. — Provocá-la não te faz grande coisa, só te faz mais medíocre. – Afirmou, ameaçadoramente. Deu as costas retornando para dentro da sala.
— Oe, oe. Sasuke! Não piore a situação! – Naruto ralhou com ele.
— Como se eu me importasse...
— Tsc. Se vire com ele mesmo. – Tsunade resmungou, dando as costas e também entrando.
Naruto bufou, chateado que estavam jogando tudo para si e indo ter um tempo com Sakura.
Shikamaru apagou o cigarro e atirou na lixeira próxima.
— Vamos retornar para a torre. — Os cinco se retiraram.
Sasuke sentou-se perto de onde Sakura estava, e tocou suavemente a tez do queixo dela, induzindo-a a levantá-lo.
— Está tudo bem?
Sakura estreitou os ombros, chateada e amuada e permaneceu com a cabeça baixa.
— Desculpe...- Murmurou.
— Não pedi desculpas, perguntei se estava bem.
— Estou.
Tsunade pousou um copo de chá na mesinha em frente eles de forma um pouco brusca, os espantando até e se sentou, suspirando alto.
— Ai, esses ninja formados em tempos de paz são tão aborrecedores...- Comentou, tomando um gole de seu copo que Sasuke duvidava muito que contivesse chá. — Eles crescem desesperados para se destacar, mas sem uma guerra, não tem heróis. Então vivem essa relação de admiração e ódio aos das gerações que enfrentaram conflitos... – Prosseguiu seu olhar e tom se tornando perdidos num ar sombrio e rancoroso. — Como se isso fosse algo a se invejar...
Sasuke presumia que ela entendia, as guerras que viveu, as mortes e perdas que presenciou, os intervalos de paz que desfrutou, ela sabia tudo.
Ele ainda se perguntava se o significado não era apenas esse ciclo de bonança e tempestade. Uma versão imatura sua, teria decidido quebrar o eixo fixo destruindo a roda. Mas a mais madura, ao menos a de agora, continuaria tentando quebrar o eixo, mas para que a roda se soltasse e pudesse girar para novos lugares, mais adiante, a um futuro onde não precisassem mais de guerras para evoluir.
Ele não achava que viveria o bastante para isso, ou que seus filhos e netos desfrutariam disso, mas tanto ele como Naruto, esperavam que só ter começado a danificar esse mecanismo, ajudasse em algo. E seus filhos e netos poderiam ir fazendo mais coisas.
Um começo, era bom, um recomeço, traçar do zero, isso era melhor, revigorante.
Lutaria por isso cada dia de sua vida.
Jogou os olhos para Sakura, que atentava os ouvidos á mestra, curiosa com a forma que ela falou.
Sakura era o próprio reinício de uma era. Ela não se recordava do passado, mas fora talhada por ele, sua força vinha dele, e ela tinha o potencial para cativar mais pessoas a lutarem por esse recomeço, tanto ou mais quanto Naruto tem.
E Sasuke, ele não chegava ser tão vaidoso de achar que era como eles. E estava conformado com o papel de apenas continuar protegendo ambos, Konoha, o futuro dos filhos deles, dos filhos de Suna, Iwa, Kumo e outros mais.
— Tsunade-sama, está irritada? – Sakura indagou, por que não tinha segurança o bastante para chutar.
— Ah, apenas com essa chuvarada problemática...
— Oh... Me desculpe, eu queria vir ajudar, mas só trouxe mais problemas? Eu espero não irritar o Kazekage...
— Humpf. Não se preocupe. Se ele foi impertinente com você, apenas o ponha no lugar. Eu o teria mandado de volta com alguns ossos trincados, no mínimo.
— Oh. Mas e Bichura-kun e a Ai-san? Eu nem o cumprimentei! Eles vieram visitar?
— Mais ou menos... Enfim. – Tsunade deixou o copo na mesa se ergueu, esticando os braços. — Ora de voltar ao trabalho... E quanto á você. Disse que veio ajudar...? Hehehe, ah, você vai. E é bom não se arrepender.
O arrepio que Sakura sentiu, também soou meio nostálgico...
¤
Sasuke retornou de uma loja com um espeto de dango. Ofereceu para Karin que o pegou com um aceno agradecido da cabeça.
— Vai cobrir mais um turno?
— Não tenho certeza. Mas a chuva passou, desde que todos os pacientes permaneçam estáveis, talvez alguns de nós sejam liberados.
— Hm. De qualquer modo, pretendia levar as crianças para casa. Algum problema?
— Ficaria agradecida de chegar e encontrar apenas silêncio e solidão! – Ele arqueou a sobrancelha, mas não comentou nada.
Karin parecia empolgada apesar de tudo. Antes, ela geralmente comentava que preferia fazer trabalhos de rastreamento. Mas se estava feliz com o serviço médico, não havia o que questionar. Talvez ela só preferisse agora, algo que a mantivesse em movimento sem necessariamente precisar sair da vila ou de perto das crianças.
Sasuke debatia cada vez mais a ideia de fazer o mesmo...
Separar-se da esposa, o fez ver que estava mais distante dos filhos do que imaginara.
Talvez por Karin ter sempre tido a responsabilidade maior para si, agora, ele definitivamente não poderia mais apenas escorar nela e deixá-la cuidando exclusivamente do crescimento deles. Ela também precisaria de mais apoio, de mais tempo para si e sua nova rotina, e ele teria que se desdobrar mais, tanto para dar atenção e afeto quanto para vigiar o desenvolvimento destas crianças.
— De acordo então, buscarei eles na casa de Juugo mais tarde.
— Ainda tem muito a resolver com o Hokage?
Sasuke suspirou, afirmando. Karin o observou, ajeitando as lentes do óculos.
— Parece ser realmente perigoso dessa vez...?
— Certamente, sempre é. Parece haver alguém disposto a usar qualquer método possível...
— Bem. Sabe que pode contar comigo. Ainda podemos ser bons caçando pessoas, não?
— Não foi exatamente a melhor das épocas...
— Você provavelmente foi o único que ficou bem naquele manto da Akatsuki. – Karin riu. — Então não reclame tanto assim. – Ela descartou o palito na lixeira e olhou o relógio no pulso. — Bem, está na minha hora. Até mais.
— Aa.
Karin subiu novamente os degraus da entrada do hospital. Sasuke então deu a volta. As ruas ainda estavam encharcadas de lama e lixo que veio na correnteza, mas mesmo sendo fim de tarde, alguns comerciantes ainda arriscavam abrir suas lojas e tentar vender algo.
Olhando para o céu, nem parecia ser o de Konoha ainda. E Sasuke não duvidava que o temporal logo retomaria a aldeia. O que seria ainda mais perigoso, caso adentrasse a noite.
Tsunade abocanhou Sakura em diversas pequenas tarefas e ele sabia que não era apenas questão de testá-la, mas de mantê-la num ambiente controlado e sob seus olhos.
Provavelmente teria de ser assim por algum tempo.
¤
Dias depois
Sakura se espreguiçou na cama, os raios solares pareciam adentrar seu quarto com a boa e velha intensidade de antes e isso a alegrou. O mal tempo que castigara Konoha nos últimos dias finalmente havia partido.
A parte um pouco triste era que ela não teria mais motivos fortes o suficiente para convencer Tsunade a deixá-la trabalhar no hospital. Mas isso não estragava sua alegria em saber que ninguém havia se ferido demais com os problemas causados pela chuva.
Ela saltou da cama e seguiu para o banheiro. Depois aos bocejos, seguiu para a cozinha. Abriu a janela de lá e procurou os utensílios para preparar algo para o café.
No fim, ainda estava com preguiça demais para preparar algo e optou por ir se trocar. Antes de retomar o corredor. Ouviu a campainha tocar. E isso a surpreendeu, geralmente percebia fácil quando estava a sua porta.
Seguiu até lá, abrindo-a e percebeu que havia alguém diminuto a sua frente.
— Pois não?
— Hi-Hime-sama! Pediram para eu trazer algo para Hime-sama!- Uma criança que ela tinha a ligeira impressão de já ter ouvido brincar na praça em frente o apartamento disse.
— Eu? – Sakura abriu mais a porta e tateou o ar até sentir uma caixa e as mãos rechonchudas do garoto. — Quem mandou isso?
— E-eu não sei...
Sakura imediatamente sabia que não deveria tomar algo assim. Estava cansada de ouvir conselhos sobre não aceitar nada de estranhos. Porém, se era algo perigoso, tampouco poderia deixar nas mãos de uma criança. — Qu-quer dizer. Eu não sei quem era a pessoa que trouxe. Mas ele disse que era uma encomenda do nanadaime-sama.
— Eh? Naruto-kun? Mas por que essa pessoa não trouxe?
— Ele disse que estava muito atrasado, que a esposa bateria nele e pediu pra eu levar.
Sakura se perguntou se a pessoa não seria Shikamaru. De qualquer modo. Abriu a caixa e um cheiro forte de tortinhas suculentas encheu a sala. Tanto o estomago dela quanto o do menino roncaram.
— Tortinhas! – Ela catou uma e abocanhou, podia sentir a carne molhada e macia, a massa crocante e o suave azedo do toque de limão. Sem duvida eram as mesmas tortinhas que ela e Naruto haviam descoberto enquanto passeavam na vila um dia qualquer.
— Hmmm! E estão tão quentinhas! – Afirmou, abocanhando outra. — Você quer? Ainda tem muitas, não é?
— Ha-hai!
¤
Uma vibração intensa e poderosa sacudiu atmosfera da cidade. Sasuke e Juugo já sabiam o que era, apenas deixaram as crianças bem onde estavam e correram na direção do complexo de apartamentos.
De longe, nada parecia acontecer de mais. Porém assim que pousaram na frente do prédio, era como se o chakra de Sakura fosse uma sineta.
Saltaram direto para o andar do corredor dela. Encontrando a porta aberta. Sasuke invadiu encontrando pedaços de comida pelo chão e vômito.
O cabelo de Sakura piscava continuamente com uma luz forte como o próprio sol, como se o organismo vivo que seu cabelo era pulsasse. Ela estava ofegando no chão, com vômito embranquecido escapando de sua boca. Ele se agachou, puxando-a para si.
— Sakura! Sakura?!
Arquejando e se retorcendo ergueu a mão tateando o ar e apontando.
— Me-...Menino...
— Sasuke! – Juugo exclamou, abaixado perto da mesinha. Segurava um garotinho de nove anos que pálido quase não respirava. — Ele precisa ir ao hospital agora!
— Leve ele.
— E Sakura?
Sasuke não sabia o que fazer. Pois agora de perto, não era preciso um byakugan para ter certeza.
Seja o que for que Sakura havia ingerido, estava causando uma reação tão violenta que ameaçava abrir um dos selos a qualquer momento. Se a levasse ao hospital e um selo se rompesse muita gente poderia morrer.
— Leve-a para fora da aldeia. Vou avisar aos outros!
Juugo partiu, levando o menino.
Sakura ergueu a mão, tocando a de Sasuke.
— Menino...
— Ele ficará bem. Me escute. Vou levá-la daqui. Mas não pode ser o hospital, Sakura. Você sente? Um dos selos, talvez mais, se rompa. Sabe o que isso quer dizer?
— Selo... Selo ruim... Vai machucar... Não... Vai machucar as pessoas. Não quero, não quer ir, Sasuke-kun.
Sasuke percebeu que se ela não tivesse dito, ele a levaria mesmo assim. Não sabia quando o bem estar de Konoha havia perdido tanto para o bem dela.
Isso também era amar ou ele estava sendo egoísta de novo?
Não perdê-la valia a vida de tantas outras pessoas?
Perdê-la valia essas vidas?
Sasuke não podia tomar essa decisão, com pesar e raiva de si mesmo, aceitou o que ela queria.
Desapareceram num vórtice escuro.
Konoha seria salva novamente pela abnegação de Sakura.
Quantas outras vezes ainda viriam?
¤
O grito de Sakura reverberou por todo o vale quando um dos selos se rompeu.
Naruto pousou em frente a entrada de uma antiga torre de vigia e viu as paredes estremecerem e as janelas estourarem.
— Chegamos tarde! – Exclamou.
— Não ainda. – Tsunade declarou energicamente, avançando rumo a entrada.
Ela, Naruto, Shikamaru, Kô, um Hyuuga que Hinata indicou e o ninja da areia vieram primeiro.
Obtendo o antídoto do veneno em mãos, Tsunade esperava que ainda pudesse ser útil.
Abriram as portas da sala principal, encontrando Sasuke a poucos metros tentando se proteger dos tentáculos cintilantes, debatendo-se sem controle e atingindo as extremidades e teto da sala.
— Por que trouxe ela tão longe?!
— Não poderia correr tamanho risco. Ela não aceitou ir ao hospital. O que deram a ela?!
— Veneno, desestabilizar o chakra é um dos efeitos. Foi uma dose concentrada mas não era das mais difíceis de lidar. -Tsunade explicou, segurando o injetável. — Agora alguém precisa se aproximar o bastante.
— Tem outro selo se rompendo. – Kô alertou.
— Maldição!
— Se continuar nesse ritmo, mais selos romperão.
— E o que vai acontecer? – Kirisuke indagou, assombrado.
Ele podia sentir toda aquela energia esmagadora no ar, denso, arranhando sua pele. A sensação era aflitiva. Fazia você se sentir diminuto, uma formiga sob a sombra de uma bota.
Ainda assim, o resto deles se comportava como se fosse algo quase normal. Como se não fosse algo pra te fazer tremer e gelar.
Aquilo ainda era humano?
— Se romperem, a reação pode ser tão violenta quanto uma bijuudama. – Shikamaru concluiu.
— O quê?!
— Vamos lá, Sasuke! – Naruto exclamou, tomando a frente.
— Aa. – Sasuke assumiu ao lado dele, atirando a capa preta ao chão.
— O que eles vão fazer?
— Tentar chegar perto o suficiente para refazer os selos. – Tsunade disse. — Naruto! Tome isso! – Ordenou, atirando a injeção para ele.
— Yosh. – Shikamaru se abaixou sobre um joelho, mirando cada tentáculo atentamente. — Vou tentar criar uma brecha.
Naruto e Sasuke partiram na direção da mesa de pedra onde Sakura permanecia deitada sofrendo com a pressão do chakra descontrolado.
Sua consciência completamente afundada em dor e medo, só podia captar qualquer aproximação como ameaça.
Atirou os tentáculos furiosamente na direção deles. Ambos saltaram no ar e pousaram nas paredes opostas. Seguiram subindo e desviando dos golpes, mergulharam outra vez no nada acima dela e Shikamaru fez seu movimento daí.
A grande sombra negra escorreu até as sombras dos cabelos, enrijecendo-as no lugar por alguns segundos.
— Agora! Eu não vou suportar mais tempo!
Naruto e Sasuke pousaram nos tentáculos paralisados e dispararam na direção dela.
Sasuke finalmente pode ver seu rosto o bastante para perceber que seu nariz e ouvidos sangravam e Naruto preparou o injetável. No entanto, Sakura urrou numa nova implosão de chakra que cegou-os por segundos e os atirou para longe.
Naruto lançou a injeção quase mecanicamente e ambos foram varridos para fora da torre junto com parte das paredes e entulhos. Rolaram pelo solo e bateram as costas contra pedaços de concreto.
— A-acho que consegui! – Naruto vibrou.
Sasuke se levantou, dolorido.
A cama de poeira que subiu após a destruição de quase toda a torre foi baixando. O que havia agora era uma espécie de humanoide três ou quatro vezes maior que uma pessoa, sentado no chão, era uma amadura completa de chakra semi transparente, ainda podiam enxergar a parca silhueta de Sakura perdida lá dentro. Os tentáculos cresceram ainda mais espessos movendo-se em posição de ataque.
— Estamos acabados...
— É como um manto de chakra. Como quando eu era mais nov...- Naruto comentou, ressabiado.
Sasuke recordou daquela primeira batalha deles no vale do fim.
— Temos que tira-la de lá logo. Aquilo a protegerá de tudo externamente mas a ferirá por dentro. – Tsunade avisou.
Eles assentiram. Sabendo que achar alguma forma de imobilizar aquilo era o melhor que podiam tentar. Não sabiam quão nociva essa forma de dois selos liberados de uma vez poderia ser prejudicial á Sakura.
Preparando-se para um movimento, a criatura permanecia sentada e silenciosa, pronta para reagir brutalmente a qualquer investida.
E então pareceu sentir algo no fundo do peito, levando até mesmo as mãos até lá e se encolhendo um pouco. Duas nuvens estouraram de dentro dela e mais a frente, quase a passos de onde eles estavam.
Duas espirais cuspiram duas figuras baixas lado a lado. A fumaça se desfez e eles reconheceram aquela cálida porção de chakra.
Sasuke e Naruto se entreolharam, crente que não viam a mesma coisa.
Duas Sakuras diante deles, uma no auge dos dezesseis anos, empunhando novamente seu par de luvas roxas com uma expressão dura, a outra, aos doze ou treze anos, cabelos curtos, aquele vestido vermelho e olhos igualmente ferozes, mirando a criatura á frente.
— Quem.... Quem são elas...? – Kirisuke indagou vendo-as partir sem qualquer hesitação na direção daquilo.
Naruto e Sasuke suspiraram com nostalgia e saudade e Tsunade mirou aquelas duas sombras de uma época tão boa com ar conformado, afinal, estava certa.
Não importava qual delas estivesse diante deles, aquele era e sempre seria seu espírito.
A mais velha golpeou o solo fazendo a criatura afundar numa cratera e a outra, avançou desviando dos fios com bastante habilidade.
— Não é óbvio? Elas são Sakura.
— As três.
— Nenhuma delas deve ser subestimada.
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