Lost Inside
33 Por quê ela irá lutar contra o ciclo.
Notas iniciais

A Sakura de doze anos foi repelida por um tentáculo furioso, a de dezesseis desviou do outro, atingindo um deles com um soco que o fez recuar contorcendo-se.
Ela chegou ainda mais perto, desviou de mais ataques e acertou a forma bijuu de Sakura com um golpe poderoso do punho.
A criatura quase tombou para trás, atordoada, urrou outra vez e neste momento, o clone da menina conseguiu alcançar sua figura e finalmente afundar o pulso no ponto maciço em que ficava seu peito.
— Yosh! Ela conseguiu! – Naruto vibrou, Sasuke não comemorou antes da hora.
A criatura de chakra berrou irada, agarrando a menina pela cintura e atirou-a na direção deles.
Sasuke catou-a no ar e pousou mais alguns metros de distância.
Observou o bijuu se debater em fúria e dor, lutando contra as investidas da Sakura de dezesseis anos. A que estava em seus braços ele sentiu ficar mais leve e esfarelar, baixou os olhos e assistiu sua forma desfazer-se completamente.
Por um momento, doeu que não tivesse ouvido nada dela, justo uma das versões dela da qual poderia olhar sem sentir tanta dor e remorso. Aquele foi um tempo tão bom, que eles ás vezes achava que tinha sido mero sonho.
Sasuke olhou novamente pra a frente e então junto do resto, assistiram a forma da bijuu regredir quase que totalmente ao tamanho natural e ficar mais límpida, onde podiam enxergar Sakura através do manto.
Os tentáculos afilaram novamente e a força do chakra ficou consideravelmente menor.
O outro clone atirou um pedaço de rocha do terreno depredado em sua direção, Sakura o destruiu com os tentáculos e aproveitando a brecha, o clone enfim esteve perto o suficiente para tocá-la e refazer o selo.
Todo o manto de chakra desapareceu e Sakura caiu no solo, inconsciente e ofegando muito, sua pele visível estava completamente avermelhada e com brotoejas de calor.
O clone pareceu observá-la atentamente por um tempo.
— Sua missão aqui acabou. – Tsunade declarou para ela, aproximando-se com um sorriso terno.
Esta Sakura fitou-a inexpressivamente, e de repente, pareceu aperceber-se de algo enquanto sua curta existência se desvanecia.
— Tsunade... Shinshou...? – Murmurou, por fim apenas curvando a cabeça ligeiramente antes de sumir por completo.
Sasuke aproximou-se mirando a expressão de Tsunade, ela inspirou profundamente e então se abaixou.
— Bem... Isso foi... Surpreendente, hein? – Sua voz denotando uma fraca nota de humor.
Naruto suspirou com pesar e então fitou Sakura no chão.
— Como ela está?
Tsunade examinou-a rapidamente.
— Como temíamos, o manto de chakra a protegeu de dano externo mas feriu internamente.
— E o veneno? – Sasuke indagou, notando que o cabelo dela mal se movia e conservava um tom apagado.
Tsunade pousou as palmas sobre o colo dela e imediatamente iniciou o processo de cura.
— Naruto conseguiu mesmo injetar o antídoto, mas me preocupa agora saber de onde ele veio.
— Não foi o mesmo veneno que trouxemos. – A jovem Ai assinalou e Bichura concordou.
— Ou tem mais alguém querendo o mesmo, ou essa pessoa está mais adiantada do que imaginávamos...
— Não faz sentido, por que usar um veneno que a faria por a aldeia abaixo quando já tinha lançado mão de um muito mais discreto? – Naruto disse.
— Só tem uma forma de a morte de Sakura ser mais vantajosa pra essa pessoa, é ela morrer depois de destruir parte da vila. – Shikamaru concluiu.
A pele queimada em Sakura foi sendo recuperada e dando lugar a sua tez vivaz e corada outra vez. Tsunade notou que os cabelos estava ganhando cor novamente e então parou.
— Isto deve ser o bastante, ela vai se recuperar do resto por si mesma agora.
— Vamos voltar e estudar isso tudo com mais calma.
— Melhor levar ela para a casa da Ino, não acho que ficará bem em casa depois de tudo. – Naruto disse, enquanto a levava nas costas, dormindo.
Eles seguiram sem muita pressa, bastante contemplativos com a situação.
— Rapaz, essa foi por pouco. E agora, quatro selos estão nas nossas mãos. – Naruto refletiu.
— Nas mãos de Sakura, mas de toda forma, isso muito mais me assusta do que tranquiliza. – Shikamaru comentou.
— Huh? O que quer dizer?
Ele nada respondeu, ainda pensando no futuro. Se haveria um dia em que tudo estaria bem de verdade, se haveria um dia em que perderiam Sakura de vez, e se haveriam um dia, em que ela amadurecesse o bastante para entender o que lhe fizeram e se voltar contra todo o mundo ninja.
Se haveria um dia em que ela seria a única a lançar mão de todo esse poder e usá-lo para ferir e subjugar exatamente como lhe fizeram.
Muitas memórias estavam presas dentro dela, tanto perdidas para sempre, quanto prontas para ameaçar distorcer sua ideia de mundo.
Entre todas as possibilidades existentes, todas reservavam um futuro ainda muito obscuro para se confiar.
♡
Sakura abriu os olhos e se sentou, esfregando-os, molhados.
Ino sentou na beirada e a abraçou.
— Não fique assim, já passou, você não teve culpa de nada.
— O menino.
— Ele está bem, foi tratado a tempo, recebeu alta e já está em casa.
— Eles devem me odiar.
— Eles não sabem, acham que foi apenas infecção alimentar, querida.
— Eh...?
Ino suspirou, temendo que ela não fosse capaz de entender ainda, que ás vezes era necessário mentir para proteger.
— Todos decidiram que era melhor não alarmar o resto da aldeia, e assim teríamos mais tempo para investigar sem deixar os culpados alertas demais.
— Mas... Mas... É injusto.
— Eu entendo que queira ser honesta, mas isto também é para protegê-la. As pessoas vão ficar assustadas se acharem que estar perto de você é perigoso...
— Mesmo que realmente seja? – Ino se encolheu, condoída e Sakura abraçou os joelhos, calando-se e baixando o rosto.
Não importava mascarar tudo isso se um dia ou outro estivesse fadado a se repetir, podia ter sido Ino, ou Inojin, Himawari (outra vez) ou mesmo Chocho.
Sakura poderia suportar menos que estar perto de algum deles fosse como por alvos em suas cabeças. Ela não queria isso, ninguém se machucando por ela seria algo que a felicitaria.
Ino beijou sua cabeça, carinhosamente.
— Nos desculpe por isso, mas é inevitável, você não quer que nos machuquemos por você, mas você, minha irmã querida... Você não pensou duas vezes antes matar tudo dentro de si, por nós. Iremos morrer um pouquinho por você a cada dia, e não será o bastante.
— Eu não quero isso...!
— Eu sei. – Ela lamentou. — Também não queria perder você... – Sussurrou. — Mas desta vez, nós é que tomaremos a decisão, sim?
Ino se levantou, deixando o quarto.
Sakura deitou-se, mas nenhum conforto entre seus ursos, ou o cheiro das flores, foi capaz de diminuir o tormento que sentia, com a impotência de não quebrar esse ciclo de sacrifícios.
O que ela poderia fazer para quebrá-lo?
Se não era capaz de negar-se a fazer qualquer coisa por eles e eles não mediriam esforços por ela?
Como isso poderia acabar realmente bem?
¤
Quando disseram que Sakura havia fugido da aldeia, Sasuke, de alguma forma, percebeu que já sentira que isso iria acontecer hora ou outra.
Por que era da natureza de Sakura dar sem esperar receber de volta, assim como era insistente quando achava que se ficasse parada, ela perderia o que tanto valorizava.
Hora ou outra ela entenderia que haviam muitos sacrifícios envolvendo sua permanência pacífica na aldeia. Naruto se desdobrando para convencer os conselheiros e chefes de clã, Hinata assumindo os Hyuuga para frear suas convicções radicais.
Ino, Tsunade e Shizune esforçando-se para adaptá-la com o mínimo de estresse a uma vida sem enxergar.
E outros tantos pequenos obstáculos que todos desafiavam firmemente por ela.
Para que ela pudesse viver com eles, para que desfrutasse uma vida plena novamente.
Quando ela sequer podia controlar os selos ou o subjugar por completo o poder a que já tinha acesso.
Ele sabia que mais cedo ou mais tarde ela se sentiria muito frustrada. Gostaria de poder ajuda-la, mas é verdade era que ele, de agora em diante, era o primeiro na fila de sacrifícios.
Sabia que ela também perceberia isso um dia, talvez o odiasse como devia odiar o resto deles no momento, mas ele não estaria menos preparado.
Viver num mundo com uma Sakura que o desprezasse era uma ideia que ele já tinha fixa a muito tempo. Ele aceitara tão bem essa ideia, que por doze anos, só ela fizera sentido, era uma dor que consolava.
Era como enfiar uma faca na carne para ter certeza de que ainda a sentia, que estava vivo.
Deus, deixe que ela me odeie, eu só quero que ela viva feliz.
Quantas vezes ele pensou isso? E Deus deixou ele se consolar com uma ilusão.
Poderia aceitar isso.
Mas também tinha que machucá-la. Isso sim era injusto, então pro inferno com os deuses. Ele faria a coisa certa ele mesmo mas...
Não haveria um mundo sem Sakura.
E esperava que um dia, ela finalmente entendesse isso.
Não importará que me odeie, mas você ainda será absolutamente feliz.
Foi com esses pensamentos que ele bateu a porta de Karin, sob uma nova chuva torrencial.
As crianças assistiam TV e ela ainda segurava um pano de prato nas mãos.
— Sakura fugiu da aldeia.
Karin piscou, atônita e então assentiu, convictamente.
— Vou me trocar.
Ela deu a volta, seguindo para o quarto e Sasuke entrou apenas um pouco, abraçando os gêmeos ao se abaixar.
— Por que a Sakura-chan foi embora?!
— Papa! Ela não gosta mais daqui?
— Ela esta apenas confusa, conversaremos com ela, e a traremos de volta. – Ele disse, suavemente.
— Promete, papa?
— Ah, ela vai voltar, por que aqui é o lar dela.
— Estou pronta. – Karin declarou, retornando com uma roupa mais prática e uma capa. — Shisui, cuide dos seus irmãos.
— E Mangetsu...? – Ele perguntou.
— Ele... está com a madrasta, então estará bem... – Ela afirmou, ainda relutante.
Sasuke percebeu que ela ainda não estava acostumada a ideia de Mangetsu ter outra mãe, mas não se envolveria ou opinaria. Isto era algo que Suigetsu deveria tomar conta.
Ele tinha a responsabilidade de deixar também Karin confortável com seu relacionamento, isto envolvia fazer o filho dela conviver com uma pessoa estranha, afinal.
Ela vestiu a capa e se despediu dos meninos, então ambos cruzaram a chuva em direção a saída de Konoha.
— Como ela escapou?
— Ela está sempre passeando por aí, não foi difícil que tenha escondido o chakra e fugido pela floresta.
— Mas ninguém nas torres...?
— Eu sei. Ainda é cedo para dizer. Mas podem mesmo ter facilitado a fuga dela.
Karin assentiu, percebendo que a situação poderia piorar outra vez.
¤
Sakura caminhava já a bastante tempo, infelizmente não poderia avançar mais rápido sem utilizar mais chakra para apurar os sentidos e seguir sem medo de bater em obstáculos.
Porém, percebia que estava cada vez mais distante, sentia seu coração pesado a cada passo, e a frente parecia mais e mais frio e solitário.
Chovia muito forte e a capa que usava já não estava servindo de muito.
Sakura entrou na floresta, tateando os troncos até encontrar um deles encurvado sobre outro, abaixo, não havia exatamente muita proteção contra o vento, mas ao menos protegia da chuva.
Ela se sentou encolhida e torceu para que estivesse fazendo a coisa certa, no final.
Quando acordou, ouviu o som dos pássaros e sentiu o calor do sol.
Saiu do abrigo, escutando os sons em volta atentamente, antes de retornar para a estrada.
De repente, sentiu algo ser lançado sobre si, e se protegeu, mas era muito mais pesado do que imaginara e caiu contra o solo, enroscada nos próprios fios e no que parecia ser uma pesada rede de ferro.
— UUUH! Olhem só o que apanhamos desta vez, rapazes!
— Aaah, uma mulher sozinha por essas bandas? Certamente que é muita sorte.
Sakura identificou que havia simplesmente muito deles para contar, mas pelo o que podia sentir, eram de medianos para medíocres.
Não hava nada que pudesse fazer que certamente não os machucaria demais e ela não podia deixar rastros.
Se sentou sob a rede de ferro, sentindo-os cercarem-na.
— Com licença... Mas o que pretendem fazer comigo? Não levo nada de valor, na verdade...
— Não se preocupe, boneca. – Um deles bafejou em sua direção, o hálito tinha cheiro de carne estragada e saquê. — Haverá muita serventia para alguém bonita como você, acredite.
Sakura estreitou os olhos sob a malha de metal, e decidiu que talvez não se importasse tanto assim de machucar eles um pouco.
— Não me chame de boneca. Odeio que me tratem dessa forma.
— Hoho, ela tem coragem!! Vamos ver se com isso...!
Ele ergueu a mão em sua direção, o que saiu da rede e capturou seu pulso, não foi o braço dela, mas um tentáculo de cabelo espesso e brilhante.
— Vamos ver se com isso, você encontra seu lugar.
Os fios dispararam de dentro das redes, afundando também o chão e formando uma cratera. Sakura agarrou toda alma viva que encontrou no perímetro e arrastou-as, atirando no na cratera, uma gritaria irritante ecoou pela floresta e o tilintar de armas caindo pelo chão também.
Ela flutuou para solo firme, parando na beirada e ouvindo o berreiro daqueles homens rastejando pelo fundo do buraco inutilmente, o solo ainda estava enlameado demais e quanto mais lutavam para sair mais a terra erodia sobre eles.
— Ba-bakemonooo!
Sakura deu as costas, e foi embora.
— Humpf, sou muito mais ninja que vocês. – Resmungou, seguindo caminho, agora estava até mais agradável seguir sozinha.
¤
Sasuke olhou para aquelas caras amedrontadas e sujas de lama e então voltou-se para Karin.
— Definitivamente, ela esteve aqui.
Karin estava abaixada, estudando algumas pegadas, ergueu-se e se aproximou dele.
— Ela passou a noite por aqui, não deve estar mais a muito tempo de distância.
— Certo, vamos indo.
— E eles?
Sasuke deu de ombros e saltou acima da cratera, pousando do outro lado.
— Vão ficar bem aí onde estão, logo as equipes que Naruto mandou encontrarão eles aí.
— Certo.
Ela o seguiu através dos galhos da árvores.
A esperança de alcançar Sakura acabou diminuindo outra vez quando o terreno de floresta e colinas deu lugar a uma longa região de solo reto e pouco acidentando. Sabiam que nestas condições ela poderia aumentar e muito a distância que tomara deles, Tsunade informada de seus avanços durante o tempo que viajaram.
Sakura estava priorizando não ser detectada antes de tomar maior distância, mas sabia quando aproveitar as condições a sei favor, como a chuva que apagara muito de seu rastro inicial.
No fim, Karin estava ficando cansada rapidamente, afinal já não pegava uma missão dessas a bastante tempo, Sasuke teve que se conformar e fazer uma pausa. Aproveitou para mandar uma mensagem para Konoha.
— Sasuke, não estamos sozinhos. – Karin alertou, se erguendo rapidamente da pedra em que estava descansando.
Ele se virou, sacando a espada e desviando três kunais com ela.
Uma espécie de mini arpão acertou e atravessou o tornozelo de Karin e ela caiu gritando ao ser arrastada vários metros e içada a dor excruciante praticamente a impedia de raciocinar, mas tentou atirar uma kunai e cortar a corda, ela bateu contra a linha que descobriu ser de aço resistente e caiu no chão.
— Karin! – Sasuke exclamou, indo em sua direção porém dezenas pousaram a sua frente e ele viu praticamente o mesmo rosto em todos eles. — Shins. – Silvou, irado.
Eles não pareciam dados a conversar desta vez, simplesmente o atacaram com tudo o que tinham.
Atiraram shurikens contra Karin, Sasuke saltou contra o paredão rochoso e se impulsionou na direção dela, partiu a corda com a espada e segurou-a com um braço, mergulhou na floresta, levando-a consigo, perseguidos por eles.
Sasuke jogou Karin sobre o ombro e emergiu fora da floresta, numa clareira.
Assim que seus pés pisaram no gramado ele sentiu a ativação de um selo.
— Merda...!
A clareira inteira explodiu, cobrindo tudo com fumaça e um pouco de poeira. Sasuke se agachou, tentando proteger a ambos.
— Sasuke! – Karin o alertou, ele olhou para cima, percebendo que estavam confinados numa esfera vibrante e poderosa.
Tateou-a, sentindo aquela energia vibrar em contato com a palma.
Imediatamente o globo se desfez, as mechas recuaram de volta para o outro lado da clareira, entre as árvores que tombaram.
— Encontramos você, Sakura! – Karin exultou, ainda pressionando o tornozelo ferido.
Sakura permaneceu parada, amuada demais para responder. Tudo o que mais queria evitar estava acontecendo. Vieram atrás dela, e sentia o cheiro de sangue, um deles estava ferido por sua causa.
— Poupou-nos a caçada.
Um dos Shins declarou, quando a cercaram.
Sakura atacou um deles, atirando-o contra árvores, os outros revidaram sacando flautas e sopraram com toda a força. Ela caiu sobre os joelhos, lutando para proteger os ouvidos.
Sasuke avançou, envolto no esqueleto do Susanoo, afundou o punho ossudo no chão ao lado dela, varrendo Shins para longe, envolveu as mãos em torno dela, tentando protegê-la do maldito som.
Sakura tentou se levantar, mas desta vez, um selo se ativou abaixo dela e a explosão afundou todo o terreno, uma ferida e abriu arrastando todos eles num redemoinho de terra molhada, lama e rochas.
Sasuke agarrou o pulso de Karin, e atirou uma kunai com linhas de ferro na direção do tronco mais próximo. Este pendeu na beira da cratera, ameaçando tombar para dentro dela mas eles conseguiram se estabilizar.
Os Shins emaranhados na terra tentaram escapar e nesse momento um gigante de luz eclodiu do fundo da cratera.
Sasuke reconheceu a forma bijuu, rugindo para o ar na direção dos Shins que estacaram, congelando de terror.
Muitas caudas pendiam do topo da cabeça da besta, mas foi com as mãos em concha que ela se inclinou pegando Sasuke e Karin e os pousando cuidadosamente em terra firme.
Deu três longas passadas para fora da cratera, diminuindo sua estatura significativamente e por fim Sakura surgiu do manto reluzente, cambaleando.
— Vocês estão bem...? Que bom...
Sasuke a segurou com um braço e Karin suspirou com alívio.
Na cratera, os Shins havia desaparecido, mas Sasuke sabia bem o que os havia resgatado.
Se ergueu, segurando Sakura e recostando-a num tronco.
— Você está bem?
Karin assentiu, enquanto curava o tornozelo.
— Não foi grave.
— Sinto muito.
— Eu não disse que não foi grave? Agora vamos nos preocupar com levar essa pessoa de volta e... No que fazer com ele. – Apontou.
Sasuke localizou um dos Shins inconsciente e preso embaixo de um tronco.
— Aa, tenho uma boa ideia do que fazer com ele, na verdade.
— Por enquanto, vamos cuidar dessa aqui. – Ele declarou, sem pretensão de soar cordial, olhou para Sakura, agora sentada sobre os joelhos e com uma carinha de cão arrependido.
Bem ela ao menos sabia o que estava por vir.
Ele não sentia qualquer orgulho de estar nesta posição, afinal, não era, não achava justo, e nem tinha vontade de bancar o pai dela, mas era o jeito, Sakura aprontou, e teria de sofrer algum castigo ou sermão por isso.
— Gostaria de dizer alguma coisa? – Indagou-a, ela encolheu os ombros e então, de arrependida, ficou chateada, inflando as bochechas e virando o rosto.
— Por que eu deveria? Não é como se tivesse planejado ser perseguida...
— Duas vezes? Acontece que encontramos os assaltantes no buraco lá atrás. – Karin disse, Sakura avermelhou, como uma criança pega em flagrante, mas tentou manter a pose.
— Não é como se eles não merecessem...
— Sim eles devem ser castigados, são ninja fora da lei, e irão pagar por seus crimes. Mas, isso não anula que você fugiu da sua vila, deixando todos preocupados.
— E-Eu tenho direito de ir e vir!
— Claro que tem, mas também tem responsabilidades, nenhum ninja pode deixar a vila sem determinação do Hokage, apenas nukenins fazem isso, você pretendia se tornar uma?
Sakura baixou o rosto, apertando as mãos sobre os joelhos.
— Eu... Eu... Eu não sou uma ninja. – Admitiu, dolorosamente. — Não importa o quanto treine, ou quanto digam que já fui tão boa eu... Ninguém acredita que possa voltar a ser como antes, não posso voltar a ser um ninja de Konoha, enquanto tudo o que posso fazer é tomar cuidado para não ferir ninguém.
Sasuke e Karin se entreolharam, quase sem palavras. Desmentir Sakura, era complicado, soava desonesto, por que era difícil prever quão longe ela poderia ir, era difícil aceitar que seu desenvolvimento estava sempre em cheque a cada selo rompido, e mais difícil aceitar que ela poderia tão facilmente converter-se numa arma descontrolada.
Mas mais difícil que tudo isso, era ver ela duvidar de si mesma.
— E também, porque eu deveria voltar, quando todos sabem que é melhor que eu esteja longe.
— Isto não é verdade.
— Porque vocês não vão permitir?! Quão longe isso vai? Quanto mais vão se machucar? Quanto mais vão deixar eu machuca-los? – Sakura exclamou, em lágrimas. — Até que machucasse Ino, Himawari e aquele menino, até que todos os clãs me odeiem? Até quando? Eu não quero que ninguém se fira por minha causa, eu não quero!
— Sakura, você fez tudo isso e muito...
— Eu sei o que eu fiz! – Ela vociferou, magoada. — Não preciso que me diga, não entende? Todos os dias, as pessoas, elas só lembram disso, todos os dias agradecendo, todos os dias me temendo... Eu sei... Que não sou mais parte delas... Eu me tornei outra coisa, eu me tornei um sacrifício, e sacrifícios não deveriam estar entre os vivos... Sim...? Konoha não é o meu lugar, eu sei que dei minha vida, por eles, sei porque e daria outra vez, mas agora... Agora eu sei também, que eu aceitei que não estaria mais com eles nunca mais...
— Sakura...
— Você aceitaria que eu ficasse, mesmo sabendo que poderia machucar você um dia? – Sakura direcionou-se a Karin. — Que machucasse Mangetsu? Izuna, Sakuya ou Shisui? Você poderia mesmo aceitar? Estaria mesmo feliz com isso?
Karin abriu os lábios, sem resposta. Sasuke não poderia esperar isto dela. Ela era mãe, tudo para ela significava protege-los. Ela sabia a resposta, qualquer um no lugar dela daria. Quanto mais seguros seus filhos pudessem estar...
— Provavelmente não. – Karin admitiu. — Eu tenho muito medo, tenho muito medo de você. É isto que quer ouvir?
Sakura não respondeu, deixando-se amargar naquelas palavras, não importava se soubesse que eram verdade, era duro de ouvir.
— Mas eu também sei, que Konoha é muito mais seu lar do que meu, e que independentemente de onde eu estivesse vivendo, se você se tornasse um perigo, ninguém estaria a salvo, sei disso porque sei o que é a guerra. Sei como ela se instala, e sei como ela infecta tudo. Eu sei que você se tornasse o foco inicial, muito mais coisas ruins surgiriam, Sakura, você não é um motivo para a guerra, você só é um motivo para causa-la, um estopim. Não são as armas que causam guerras, são as ideias por trás delas. – Karin se aproximou, agachando-se a frente dela, pousou as mãos em seus ombros. — A pessoa que tornou você o que é hoje, ele a quer como um meio para incendiar o mundo atual, e ele usaria você ou qualquer um que estivesse ao alcance, do mesmo modo. Eu sei o que é ser usada por conta de quem se é, eu sei o que ser tratada como uma peça com somente aquele propósito. Mas acredite, Sakura, você só estará se tornando o que ele quer, caso decida se distanciar daqueles que a amam. Quando você se isola, permite que seus sentimentos afundem e adormeçam, permite que se torne cada vez mais vazia por dentro, se assim o fizer, irá se tornar uma arma por completo, é se perdendo dentro de você, que permitirá que te usem para machucar todos nós.
Sakura nada respondeu, angustiada, temerosa demais para aceitar a pequena luz que lhe ofereciam.
— Quer ser tornar uma ninja? – Sasuke cortou, duramente. — Então treine de verdade, quer proteger a todos? Entenda suas próprias fraquezas e domine-as, quer ir embora de Konoha...? Eu a levarei comigo quando fora a hora certa.
— Eh...?
— Você quer proteger todos neste mundo, então deverá conhece-lo primeiro, saber como ele é feito, saber o que realmente quer. Antes de disso, tem que conhecer a si mesma, e amadurecer como se deve e encarar os problemas de frente, é isso que nós estamos fazendo. Vamos sim protege-la de tudo, mas não ouse achar que não sabemos o que isso pode nos custas, é egoísta e arrogante pensar que só você sabia o que estava perdendo. Se vamos trocar de lado, faremos isso tão bem quanto você fez. Na verdade, melhor, porque nenhum de nós pretende perder o outro por mais doze anos, e suponho que você também não.
— Sasuke-kun...- Sakura proferiu, genuinamente surpresa. — É a primeira vez que o ouço falar tanto.
Sasuke soltou o ar, exasperado, e Karin riu.
— E não é?!
— E- então eu posso voltar...? – Ela ciciou, insegura.
— Você ouviu mesmo o que dissemos?
Sakura sacudiu a cabeça, esfregando os olhos chorando de felicidade.
— Então eu vou poder ficar com todos!
— Para quem estava fugindo...- Ele resmungou.
Sakura se levantou rapidamente, mas logo suas pernas cederam outra vez e ela se abaixou.
— Você liberou quatro selos de uma vez, sua tola.
— Desculpe.
— Vamos trabalhar sobre isso, acredite. – Sasuke ameaçou, dando-a as costas para ela subir.
— Bem, bem, hora de ir. – Karin declarou, olhando para o Shin desmaiado.
Ao menos isto poderiam tirar alguma vantagem disso tudo, e quem sabe, adiantar-se alguns passos à frente do inimigo.
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