Lost Inside

9 Não a deixe sentir a sensação.


Notas iniciais
YOOOOOOOO!

– Ino, não acho uma boa ideia...- Hinata falou apreensiva, embora encantada também.

– mas ela está incrível!

– esse é o problema, Ino, se Naruto a vir assim, vai ter um treco!

– ele que se preocupe com a mulher dele!

– Ino...

– olha, eu sempre quis fazer a testuda se vestir assim, quando éramos menores ela era tão vaidosa quanto eu, mas quando crescemos, ela se tornou tão pouco feminina...

– ela amadureceu de forma diferente...

– eu sei, mas não se dar valor acabou se tornando uma das piores coisas que ela poderia ter feito a si mesma, não é que eu queira manipula-la, mas se desta vez eu puder fazer tudo para que ela e todo mundo veja que tesouro que ela é, eu vou.- a Hyuuga sorriu conformando-se, e as duas voltaram para o provador e arregalaram os olhos ao verem Sakura se livrar do vestido sem nem fechar a cortina e se apressaram para faze-lo.

– Sakura-chan! Seja cuidadosa!

– su-sua exibida!

– o que houve com a roupa? Não gostou?

– coça...

– ah, nada que uma boa lavagem não resolva! Hinata ajude ela a se vestir de novo, eu vou procurar sapatos.

–hai.- a morena adentrou o provador e Ino cantarolou enquanto ia para sessão seguinte da loja, o dinheiro que dispunham ainda era pouco para um guarda roupa completo, mas com Naruto apressando a papelada, logo sua amiga e irmã teria novamente seu lugar entre os vivos e continuaria entre eles por um longo tempo.

Como médica, Ino ajudou e conviveu tempo o bastante com pacientes como Sakura, e na verdade ela era bem mais maleável que muitos deles, graças ao nível de instinto defensivo que ela adquiriu não dava um passo sem que antes seu lindo e perigoso cabelo explorasse o caminho, com alguns testes simples feitos ainda no hospital, ela e Tsunade perceberam que a Haruno tinha uma audição incrível e por isso era sensível e irritável com sons estridentes e graves, altos demais.

Sakura também identificava cheiros com ótima eficiência mesmo que não soubesse dizer o que era o que, e ela sempre comia até a borda qualquer coisa que lhe oferecessem, mesmo que nem sentisse o sabor, algo em que teriam de reeduca-la, ela tinha de aprender a dizer e rejeitar o que não apreciava saborear, até as comidas picantes que sempre detestara ela comera, e isso poderia oferecer brecha para que qualquer um a fizesse comer qualquer coisa.

Já seria desgastante o suficiente a preparação de seus alimentos, nada com espinhas ou fragmentos de ossos, nada muito seco, nada muito duro, nada podia estar quente demais, e nada cheio de acompanhamentos como molhos e saladas, variedade demais deixava o cego desconfortável sem pode sair pegando tudo sem que lhe oferecessem, poderia se atrapalhar com uma mesa cheia de alimentos e derruba-los.

Sakura rejeitava tudo e todos enquanto se distraia comendo, e ela comia como um selvagem, pegava com a mão o que ocasionava queimaduras nos dedos e uma boca mais suja que a de um bebe de três anos, não sabia mais usar hashis e Ino tinha arrepios só de pensar em vê-la manuseando garfos e facas, com seu temperamento e mente instáveis ela poderia machucar alguém ou a si mesma, então as únicas alternativas eram colheres ou as mãos, e infelizmente sua amiga ia pelo menos elegante...

Quanto às roupas, Ino escolheu o mais feminino, delicado e suave possível, com aqueles cabelos remexendo-se ela já assustava o bastante, um ar mais dócil ajudaria a se enturmar com outras pessoas e andar na rua chamando atenção por sua beleza, era muito melhor do que ver as pessoas, maldosas ou não, falando de sua deficiência, sentindo pena e querendo trata-la como se fosse uma coitada.

E também com muita fé e esperança, sua amiga não relembraria tudo do passado mesmo com o passar dos anos.

Ela não lembraria de Sasuke.

E poderia ficar ao lado de alguém que pudesse e quisesse dar-lhe todo o suporte e amor que merecia, alguém que a amasse mesmo com seus defeitos, alguém que pudesse curar as feridas que ela esquecera que tinha e não permitir que lembrasse delas.

Sakura sempre teve pretendentes aqui e ali, e torceria para que mesmo com o passar do tempo e a maioria deles terem formado suas famílias, aqui e ali, ainda houvesse um solteiro bonitão.

Ora, Sakura não via, mas nem por isso deveria aceitar qualquer um.

Ela parou encarando alguns pares de sapatos, infelizmente Sakura daria a adeus a saltos altos, mas podia usar saltinhos desde que com bases mais largas, com anti derrapantes ou quadrados.

– já escolheu algo? – Hinata perguntou enquanto trazia a amiga.

– nem vai ser tão difícil, apenas procure algo que não seja cafona mas com saltos quadros ou largos.

– oh, também podem ser sapatilhas.

– sim sim!

– sente aqui, querida – Hinata a fez sentar num dos bancos para experimentar sapatos e junto da loira passou a selecionar alguns modelos. — que numero ela calça?

– trinta e quatro.

– sé-sério?!

– pois é, nem parece que com pés tão pequenos ela esmigalhe tudo... Eu calço trinta e seis, que injusto, também queria ter pés de princesa, humpf...

– trinta e oito...

– eeeehhh?!

*******************************************************************

– otou-san? Por que temos que sair numa terça a noite? Não era melhor na sexta? – disse Inojin, Sai deu com os ombros.

– sua mãe é louca. – a resposta pareceu obvia e convenceu o garoto, ele devia ouvir isso desde a barriga de Ino.

Estavam todos na sala da mansão do Hokage, largados no sofá sob um tédio excruciante, apenas os homens, os meninos e Karin que lia e futricava num dos livros da estante como desculpa para não subir e ficar com as mulheres mesmo que se roesse para saber o que elas tanto aprontavam lá em cima, afinal todas estavam prontas, até mesmo a mulher do Nanadaime que devia se sentir uma rainha vivendo naquele lugar, se bem que sendo a herdeira dos Hyuuga, ela já conhecia este luxo desde o berço, e não lhe era novidade.

– ah eu vou morrer de tédio – disse Boruto largado no tapete.

– você terminou aquele dever? – disse Shikadai.

– que dever?

– pronto, vá fazer e acabou o tédio.

– humpf.

– você não tá cabulando tarefa de novo, né? Shino e sua mãe foram colegas de equipe, em dois tempos ele te entrega – Naruto disse.

– eu vou fazer! Só não tive tempo, velho!

– haha, sei.

– do que você reclama? Era que nem ele...- disse Shikamaru, bocejando.

– oh cale-se você bem que matava aula comigo, eu você, o Kiba e o Chouji!

– sério? Que cara de pau hein? E ainda diz que se eu matar aula, okaa-san me mata – Shikadai reclamou.

– ora tente então, o que eu fiz está no passado, se você fizer, ela te faz perder o futuro.

– problemáticos...

– você também matava, pai? – Shisui disse.

– humpf, pra perder tempo com esses idio-... – Naruto acertou-o com uma almofada e sorriu para o garoto.

– ele era um chato metido a certinho! Claro que não matava aula, e por isso todo mundo puxava o saco! – Sasuke se desvencilhou e pegando outra começou a sufoca-lo.

– cale a boca seu...

– socorr...tão tentan...matr-...o –Kge!

– Sasuke, pare de tentar matar o garoto, não estou afim de selecionar outro Hokage, tão cedo – A voz que se seguiu o fez parar mesmo, e olhar para porta, não viu nada, mas na janela...Naruto empurrou a almofada e sorriu largamente – nem de assumir o cargo outra vez – Kakashi completou, bem humorado e enfim fechando o livro.

– Kakashi-sensei!

– humpf – Sasuke largou a almofada e saiu e cima de Naruto, o sensei desceu da janela, como talvez sempre o veriam, devidamente uniformizado e mascarado, embora os dois olhos negros estivessem a vista, parecia meio sujo e Sasuke concluiu que só agora ele vinha, e de uma missão longa pois não soube dele nem quando chegara a vila, quando partira em busca de Sakura e no tempo que se seguiu depois de tela trazido.- achei que sua cara não era mais vista por aqui, Kakashi.

– estive meio ocupado – ele disse pondo a mão em seu ombro – você cresceu, mais um pouco...

– daí não passa, e eu sou muito mais alto! – Naruto disse empurrando ombro dele, irritado Sasuke empurrou de volta.

– alto porra nenhuma a não ser que essa cabeça oca infle...

– huh? Passo de você quase uns dez centímetros!

– nem sonhando, dobe...- rosnaram para entre si e Kakashi sorriu apreciando a nostalgia.

– cresceram apenas de corpo – disse, e eles o fitaram fulminando-o, ele como sempre ignorou e afago suas cabeças – é até bom saber...

– humpf – o Uchiha resmungou enquanto Naruto sorria, encabulado.

– atenção! Estamos descendo! – gritou Tenten, do alto da escada.

– nossa, que legal – Kiba resmungou – quer que batamos palmas?

– não para mim, obrigada! – ela riu enquanto descia – anda logo Ino!

– Ino ela não é uma boneca! – brigava Karui enquanto descia mais atrás, Temari veio e então Himawari e Chouchou.

– rapazes peguem seus babadores, e Sai se babar vai dormir com o cachorro – Ino disse.

– não temos cachorro...

– pior pra você! Venha Hinata!

– hai hai, Ino, pode deixa-la nervosa.

Hinata começou a descer puxando Sakura, seja por reflexo ou qualquer outra coisa, todos se levantaram, e se voltaram para lá.

A Hyuuga a fez descer com calma, um passo de cada vez, sobre saltos médios mas quadrados e firmes, num tom de rosa delicado e suave como um dia foram seus cabelos, o mesmo tom era do vestido, alças caídas de forma graciosa e atraente sobre os ombros alvos, o colo nu, a cintura ajustada e a saia armada e rodada, seus lábios foram pintados de um rosa quase vinho, e o cabelo estava reduzido em cachos amontoados sobre os ombros, quase numa juba de espirais que ficavam girando e enroscando-se de forma lenta.

– tchanrã! Não aplaudam joguem dinheiro pra pagarmos a primeira rodada de lanches! – tagarelou Ino.

– ela está linda! – disse Naruto – pera aí, linda até demais! Pra que tanta arrumação?!

– estar bonita nunca é pouco pra uma jovem mulher, Naruto!

– você não está aprontando, está?!

– não enche!

– quando me disseram que não a reconheceria, achei o pior – Kakashi declarou, eles se calaram vendo-o se aproximar da mulher – fico feliz que o pior já tenha passado – suspirou.

Sakura entortou o rosto como sempre fazia para reconhecer ou conhecer um som, seus cachos giraram como parafusos, um tanto mais rápido e ela ergueu os dedos da mão que não estava junta a de Hinata para ele.

– quem é? – Kakashi pegou sua mão trazendo até a face, já que era alto demais para ela.

– é Kakashi – Hinata disse.

– Kakashi...? – ela sentiu o hitaiate os dedos contornaram a gravura do símbolo da vila e desceram enfim encontrando pele, foi pelo centro do nariz e sentiu a mascara sobre a boca, piscou e subiu diretamente para o olho com a cicatriz, e seus olhos se abriram mais um pouco demonstrando clareza e entendimento – Kakashi...- sensei...

– oh, essa foi rápida – Ino disse – mas este sujeito tem mesmo essa cara inconfundível, ou parte dela, haha.

– culpado – ele disse. Sakura continuou acariciando a cicatriz.

– Kakashi-sensei... Está atrasado de novo.

Kakashi piscou surpreso e então seus olhos baixaram de forma melancólica.

– sim, eu sei...- puxou-a delicadamente e envolveu num abraço paternal. – perdão.

– chega destas caras derrotadas! Vamos comer, por que ficar tristes?! – disse Tenten batendo palmas.

– tem toda a razão tia! – Chouchou concordou.

– você também vem Kakashi-san?! Tem lugar pra todos!

– bom, acabo de vir de uma missão, mas se insistem...

– nem tanto, mas pode ir mesmo assim – brincou Naruto. – nós te liberamos cedo, todo mundo tem que dormir na hora, e eu mesmo ainda vou voltar pro escritório...

– que novidade...- resmungou Boruto, quando viu que fora ouvido bufou de forma presunçosa, Sakura o captou e agarrou sua cabeça puxando-o para si e abraçando.

– Boruto...- roçou o rosto no topo da cabeça dele de forma carinhosa e o garoto ficou rubro em seguida, mole a ponto de tombar se ela o soltasse.

– ah, ela ainda o trata como quando era um bebe? – Kakashi perguntou, surpreso – não é mais adequado que o fique beijando, é pervertido como o pai...

– hey!

– tem razão, ele tem que procurar boquinhas da idade dele – disse Ino puxando-o de Sakura – vamos querida!

Sakura se deixou ser guiada e todos foram seguindo para fora, um grupo bastante numeroso e ainda com crianças escandalosas, embora Sasuke não pudesse reclamar desta parte porque Sakuya e Izuna estavam irados de ciúmes ou inveja do meio irmão, Sakura lembrara dele no caminho e quando pegou sua mão, não soltou mais, e com Ino agarrada a ela do outro lado, não houve espaço a ser disputado.

Talvez por ter sido a primeira criança com quem tivera contato, ou por Mangetsu ser uma criança dócil e calma quando entre adultos, ela parecia preferi-lo aos outros e só quem podia talvez disputar com ele era Boruto, de todo modo, Karin já estava possessa com tanto apego, e Sui não dava a mínima, até incentivava.

Logo estavam em um famoso e espaçoso restaurante e churrascaria, pediram uma mesa redonda e perto de uma janela e como se a presença do Nanadaime em outro lugar público além do Ichiraku já não chamasse atenção o bastante, os olhares não saiam de Sakura.

Até quem passava pela calçada pelo lado de fora se demorava olhando e algumas crianças curiosas e nada educadas grudaram os rostos no vidro, tentaram fazer caretas para ela, mas quando ela não notou ou não deu importância bateram no vidro e Sakura voltou a cabeça para eles. Conversando, quase ninguém na mesa notara, Sasuke pretendia ignorar mas quando as viu voltarem a bater e fazer caretas percebeu que estavam provocando por sua deficiência.

– esses moleques! Não tem pais não?! – Ino reclamou e quando viram que ela brigava mostraram as línguas.

– são só projetos de delinquentes, ignore – disse Karui virando a cara.

– delinquente e ignorantes! – ela esbravejou se erguendo de uma vez, os garotos chegaram a recuar mas percebendo que até ela chegar a eles teriam tempo de fugir continuaram, bateram no vidro com tanta força que o som começou a chamar a atenção das outras mesas. — seus fedelhos...

Sakura tinha virado o rosto para ouvir Ino e quando voltou para os moleques ele intensificaram as caretas, e ela apenas inclinou a cabeça tentando entender a situação, um deles bateu a palma com força, e ela estreitou o olhar, seus cabelos desenrolaram num único movimento e se chocaram contra o vidro como um balde de tinta, se espalhando por ele, o som do outro lado cessou, e quando eles voltaram para o lugar e forma que estavam antes, tudo o que viram foi a molecada correndo em disparada para a calçada oposta, trombando nas pessoas, e caindo apavorados demais para olhar pra trás.

– onde está? – Sakura perguntou.

– onde está o que?

– o barulho irritante...

– oh, ele já foi, duvido que volte, vai mijar na cama esta noite – a loura disse satisfeita, voltando a se sentar.

– perdão pelo incomodo, estes garotos já se acostumaram a vir aqui perturbar os clientes – disse um garçom se curvando.

– bom, não voltam mais, e se fizerem pode fazer queixa, mesmo sendo crianças, alguém o responsável ou os pais vai resolver – Naruto instruiu.

– arigatô, Nanadaime-sama.

– agora... O que vamos pedir?!

E a mesa se encheu de vozes cada um querendo algo, e o garçom sorriu tentando anotar cada um.

– essa gente é insana – Karin resmungou ao seu lado, Sasuke concordou, mas também sorriu discretamente.

– e também... uma família.

A mesa ficou cheia de comida rapidamente, a volta de Sakura porém, Ino tomara cuidado para manter tudo mais distante, principalmente alguns peixes, deram-lhe só filés, de peixes, de carne e de frango, arroz bem compactado em bolinhos tudo bem separado e em temperatura morna para que não se queimasse, inevitavelmente, ela comeu com a mão, porém já tinha certo senso de limpeza, pegando com as pontas dos dedos, o que era pastoso com a colher, já sabendo guiar bem. Não sentindo coisas doces, serviram-lhe apenas água.

Sasuke notou que não era só ele prestando atenção em tudo, afinal só Ino estava realmente por dentro de como cuidar de alguém como Sakura, e eles não sabiam quem já seria o próximo, de modo que, estavam tentando aprender o máximo.

– hey, Ino você disse que ela aceita qualquer coisa pra comer, como vou saber se não está gostando? – disse Karui.

– em geral, ela não gosta mais de doces e nunca apreciou coisas picantes, de todo modo, se perguntar enquanto ela experimenta ela dirá, Sakura às vezes não entende do que exatamente estamos falando, ela perde o fio da meada se nós pularmos de assunto muito rápido, e bem, as vezes mesmo que falemos com calma, Tsunade-sama suspeita que ela tenha desenvolvido um tipo de DDA.

– o que é isso? – disse Sakuya – o que é papai?

– não faço ideia – ele deu de ombros, a menina fez um enorme bico, ela tinha a estranha visão de que ele sempre sabia destas coisas complicadas.

– é algo que chamamos de Distúrbio de Déficit de Atenção, querida – Karin pronunciou – entende? D, D, A.

– oooooh.

– exatamente – Ino continuou – ela se perde muito fácil nos próprios pensamentos, só não sabemos em que fluxo isso ocorre.

– fluxo você diz...

– sim, ela pode estar pensando milhares de coisas e por isso não conseguir se focar em algo por muito tempo, ou pode pensar devagar demais e pode ser sempre algo complexo demais para ela, o que a faz agir de forma mecânica externamente, lenta, por isso, além de não sabermos o que ela pensa, não sabemos em que velocidade isso ocorre e a combinação disso, com um instinto de agressão e defesa excepcionalmente alto...- ela ergueu colher que usava e bateu com ela na lateral da taça, o som agudo ecoou e seu pulso foi agarrado por uma mexa curta — temos uma pessoinha bem irritável. – sorriu, voltou-se para Sakura que tinha os olhos focados na direção da taça como se esperasse outro som – tudo bem, querida, não foi nada demais.

A Haruno suspirou e voltou a cabeça para a janela perdendo a atenção até mesmo na comida.

– ela está sempre em alerta mas em níveis diferentes dos quais nunca temos como saber e por isso não sabemos quando ela vai reagir de forma muito abrupta á determinadas situações, e isso a deixa enfadada facilmente, já está sem fome, querida?

– compra sorvete pra ela, tia! – disse Mangetsu.

– ela não gosta de doces, querido, mas vamos arranjar algo bem gostoso como sobremesa – ela pegou o cardápio começando a folhear – deve ter algo salgado como sobremesa aqui...

– eu também quero – falou Chouchou – deve ser interessante comer algo salgado na sobremesa.

– ótimo, vamos acompanhar a Sakura nisso.

A sobremesa foi uma espécie de torta salgada e gelada, a qual Sakura devorou tanto quanto as crianças, depois de tanta comida mais conversas fluíram, Kiba se levantou indo ao banheiro, mas eles sabiam que ele ia comprar algo pra levar ao Akamaru que não pode entrar no local, e quando estavam rindo disto, foi Sakura quem se levantou de uma vez, a cadeira quase caiu e todos a fitaram surpresos.

– Sakura? Sakura? O que foi querida?

A Haruno girou a cabeça na direção da janela, procurando algo mas não haviam pessoas passando no momento, e o restaurante já tinha poucos clientes, ela girou a cabeça para o lado oposto de uma vez, e então saiu a passo rápido, bateu na quina de uma mesa e mais adiante noutra, ao chegar a saída só não bateu nas portas de vidro por que alguém passava no momento e ela quase o atropelou.

– algo está errado – disse Ino se levantando.

– humpf, tudo está errado – Karin murmurou.

– só não te respondo à altura, por que pra isso eu me rebaixaria – a Yamanaka rebateu, ácida enquanto seguia quase correndo para lá.

– hey pessoal, o que houve? – disse Kiba vindo, ele franziu a testa e então enfiou o indicador num dos ouvidos e reclamou – mas que barulho chato é esse?!

– barulho? Não ouço nada...- Hinata começou, então arregalou os olhos e puxou a manga de Naruto ao se levantar, encarou o Inuzuka – que som é esse?! O que você ouve Kiba?!

– erm.... parece uma flauta estranha... espera... achei que estivesse longe... mas é a frequência... é uma frequência baixa!

– algo como apitos para cães? – disse Shisui.

– sim mas... é estranho...

– Naruto! Sakura pode ouvir melhor que nós! – a Hyuuga alertou.

– como?!

– ela ouve melhor que nós! Naruto... Isso pode a estar... atraindo!

– merda!

Eles se levantaram e saíram correndo do restaurante mandando as crianças permanecerem, as ruas estavam quase vazias e se viram seguindo para um parquinho praticamente deserto, uma atípica nevoa tomava o lugar e Kiba parou olhando em volta e farejando...

– esse cheiro...- ouviram um latido e Akamaru surgiu latindo para ele agoniado. – o que?! Você sentiu aqui?!

– o que ele sentiu?!

– cheiro, cheiro de sangue!

– se espalhem!

– não! basta seguir o chakra da Sakura!

Aquela grande massa foi achada facilmente, avançaram até os brinquedos e cortando a nevoa encontraram a silhueta da Haruno parada encarando o chão, seu cabelo alongara e formava um circulo ao redor dela e de Ino, que estava no chão, e com um forte sangramento sujando a testa.

– Ino! – Sai gritou se aproximando.

– Sai! Não! – mas ele se desvencilhou e saltou exatamente entre elas, agarrou a Haruno pelo ombro e com a outra mão desferiu um tapa – Maldição! O que deu em você?! Disse que se lembrava dela! Inferno! Por que a está machucando?! Faz ideia do quanto ela sofreu por você?! – ele a sacudiu e enquanto ela o encarava com aqueles olhos opacos nem sentindo o filete de sangue que escapou de seus lábios cortados. – MAS QUE INFERNO DE ABERRAÇÃO VOCE SE TORNOU?!

Uma risada desdenhosa chegou até eles vindo de algum lugar e todos se puseram em guarda, Sai olhou em volta e se abaixou ao ouvir os gemidos de Ino.

– Ino?! Ino?!

– Sai...

– Ino você está bem?! Não durma...

– proteja... Sakura...

– o que?

– proteja... do... Sharingan...

– Ino...?

O som de uma kunai cortando o ar foi percebido por ele, mas quando levantou a vista ele só pode assisti-la vir em sua direção amarrada a uma tarja explosiva, abraçou Ino e se encolheu esperando o impacto, ele aconteceu, não o sentiu, mas a fumaça subiu e quando ergueu a cabeça viu apenas uma parede de fios maciça se revolvendo a sua volta, então a viu se abrir e baixar dando passagem a Sakura.

– você está aqui – ela declarou, encarando a nevoa, seu cabelo cortou naquela direção como uma serpente num bote e atingiu o chão com um estrondo que fez a terra tremer, uma sombra saíra do local segundos antes do impacto e pousou nas barras de ferro em que ficavam os balanços, ele se ergueu, caminhou até metade dela e se sentou de maneira despojada, a névoa recuou e a luz da lua iluminou seu rosto. Sasuke o reconheceu de cara, usava até as mesmas roupas e o sorriso.

– e você me achou – ele sorriu e então tirou de dentro da manga uma fina flauta de aço cheia de orifícios em todos os lados – ou melhor, eu a fiz me achar... bela da-...

Sakura acertou o balanço com os tentáculos sedosos entortando-os e ele saltou para o chão mais atrás.

– não vim pra lutar com você, é apenas um recado. – ele declarou e olhou em volta atencioso com o numero de ninjas diminuindo o cerco a sua volta. – o pai quer você de volta, nem que seja seu corpo, não precisamos de você viva pra liberar os selos...- Sakura acertou o solo outra vez e seus cabelos agora eram longos o bastante para tentarem formar um cerco a volta dele e ataca-lo, com o sharingan poderia ser fácil para ele prever seus movimentos, mas provou que não tinha muita técnica quando num giro que deu para desviar, ela conseguiu capturar seu tornozelo e o erguer de ponta cabeça.

Sakura caminhou um pouco vindo ao seu encontro e ele se debateu e atirou-lhe as armas que tinha que foram repelidas por outras mexas facilmente.

– por que não para? Vocês sempre me diziam isso...

– é você que tem que ficar presa, não nós!

– ah... é verdade... mas eu também dizia... que eu vou matar você, Shin...- as madeixas subiram ao redor dele prontas para darem-lhe um abraço de morte, ele rosnou e puxou de novo a flauta e então soprou com toda a força e elas recuaram tremendo, Sakura pôs as mãos na cabeça se curvando.

O som parecia apenas irritante, para todos ali, mas Kiba e Akamaru também se curvaram grunhindo de dor.

Shin soprou outra vez e desta, foi tão forte que o cabelo que o segurava soltou-o, como que sem forças ele todo recuou em direção a ela se contorcendo como uma criatura com espasmos e Sakura caiu de joelhos numa frágil tentativa de se defender do som, os cabelos se juntaram na direção dela, envolvendo-a num tremulante casulo, mas ele impediu se aproximando dela e soprando mais notas rascantes, o cabelo se encolheu em sua cabeça e ela a bateu no chão soltando um grito de dor.

– sua memoria continua ruim? Mas acho que lembra disto não é? Era nosso brinquedo favorito, lembra? Você sempre gritava com raiva do silencio no começo, mas depois que trouxemos nossos brinquedos, você implorava por silencio... – ele soprou outra vez, e a resposta foi apenas mais um grito, sorriu e só então pressentiu o perigo.

não machuque ela...- Rosnou Sasuke.

seu verme maldito! – rugiu Naruto, os dois acertando o solo com uma mistura violenta de chidore e rasengan, em meio ao ataque, Sasuke percebeu algo surgir atrás de Shin, uma coisa miúda e estranha mas que foi responsável por levar o garoto dali, com um Kamui, ou algo do tipo.

A poeira baixou aos poucos e os dois se encararam meio arfantes.

– quase...- ele suspirou.

– da próxima, ele não escapa.- Naruto prometeu.

Voltaram-se para a frente e viram Sakura, largada no chão e se abaixaram perto dela, Naruto a puxou e embora respirasse, filetes de sangue escapavam de cada ouvido dela.

– vamos para a mansão – Naruto ordenou pegando-a no colo.

Quando voltaram para lá apenas Karui e Tenten não estavam com eles por que voltaram para buscar as crianças.

Naruto deitou Sakura num sofá e na poltrona, Ino já estava melhor apenas tonta enquanto Temari limpava o sangue em sua testa com algodão.

– o que aconteceu?

– eu fui atrás dela... Eu segui seu chakra... mas ele é tanto... que não percebi o daquele esquisito por perto, e quando vi... só haviam aqueles olhos... maldição, ela está bem? O que fizeram com ela?

– ela vai ficar – Hinata disse enquanto curava os ouvidos de Sakura, com a cabeça dela em seu colo.

– ela acordou – avisou Kakashi e então se abaixou perto dela, Sakura encarava o nada e piscava de forma lenta e não pareceu notar que ele segurava sua mão. – Sakura? Quem é Shin? E quem é o pai dele?

– Shin...?

– isso, quem é ele? E como ele tem um sharingan?

– eu não sei... Shin... não sei... Pai... o pai...- as piscadas se tornaram mais frenéticas e quando viram as lágrimas estavam lá novamente enquanto ela cantarolava com uma voz abandonada e aterrorizada.

–“ Não deixe a bela dama ...

Sair...

Não deixe a bela dama...

Não deixe...

– Sakura? Querida...

Todo um horror parecia se passar em seus olhos e ela sorria, como que forçada, um sorriso perdido e infantil.

Não deixe...

Tranque-a no quarto...

Tranque a bela dama...

Tranque-a...

– Kakashi? – ela murmurou baixinho, como se fosse um segredo – Kakashi?

– estou aqui.

– Kakashi... está escuro, mesmo que eu abra os olhos... mas se eu fechar...pode haver apenas sangue...- quando notaram, a outra mão dela se dirigia para o ventre um silencio sufocante se instalou e Sasuke sentiu Karin apertar-lhe o braço a medida em que a tremula mão deslizava para o quadril, e avançava para a cocha e descia lateralmente subindo para quase encaixar entre elas, parando e tremendo, temendo chegar lá, e ele percebeu que não respirava mais — ... e dor... Nee Kakashi... Eu não posso me casar, não por que não quero... Mas eu não sou uma moça pura... Nee... Kakashi... Eu não sabia que podia doer tanto...

A seguir, só houve o grito de Ino.

********************************************************************

– à essa altura, não podemos comprovar nada além de que, ela não é mais virgem. – Tsunade disse, Ino se encolheu ainda mais e Hianta abarcou seus ombros, dando um olhar para dentro da sala de exames, Sakura permanecia deitada e perdida, não reagindo nem mesmo quando fora examinada.

– não nos atentamos a esse tipo de exame pela forma como relataram que ela foi encontrada, não suspeitamos disto.

– significa que pode ter sido a muito tempo?

– exatamente, talvez não por... desejo sexual, é uma forma de tortura muito empregada contra kunoichis, e até mesmo homens.

– entendo... acha que ela pode voltar a...

– ela tem estado bloqueada a muitas emoções, boas e ruins, agora sabemos que talvez ela não tenha abnegado da própria memoria apenas para se manter viva, devem haver muitas coisas que ela gostaria de esquecer.

– entendo.

Tsunade fechou a porta e seguiu junto a Hinata para algum corredor onde houvesse um bebedouro, para servir água a Ino, ainda mais transtornada.

Sakura virou o rosto para a janela, e logo localizou o dono daquele chakra sentando-se a beira da maca.

O silencio parecia natural vindo dele. E ela, tinha sua mente muito dividida, repartida, despedaçada e remendada de milhares de formas que criavam um quebra cabeças confuso mas que ainda se encaixava. Ou não.

Sentou-se na cama, e buscou o som de sua voz, um barítono grave, baixo e estranhamente, harmonioso para ela.

Um som agradável, se pudesse entender sempre o que dizia.

– quem foi?

Sakura, inclinou a cabeça e mais uma vez, não entendeu o que ele dizia.

– quem foi? Sakura, quem foi que te tocou?

– tocar?

– quem tocou você, Sakura? Quem foi? Quem te machucou?

– tocar...?- naquele momento, entender cada palavra era a única coisa que sua mente buscava, ergueu a mão e encontrou a pele tenra e um tanto fria dele, em um ponto que julgou ser a bochecha – isto é... Tocar?

Sasuke deixou a cabeça cair, em frustração e ódio, arrancar algo dela era impossível, Sakura não soltava mais que lembranças quebradas e em momentos inoportunos, a mente dela era como um globo cheio de bolas com números, sempre girando, e a cada parada soltando um numero inesperado, um sorteio impossível de prever, por que nem sabiam quantos números havia ali dentro.

Ele nunca imaginou que pudesse voltar a sentir tamanho ódio, aquele velho sentimento de impotência, falta de poder, e sede de vingança, obscurecia sua mente e voltava a envenenar sua alma.

De novo.

– quem é? – ela indagou de novo, deixando a palma escorregar do rosto dele, Sasuke a segurou inicialmente com o objetivo de afasta-la de vez, não queria que ela o reconhecesse ou mesmo conhecesse logo agora, havia dado lhe a oportunidade de sentir seu rosto, mas ela reconhecia apenas seu chakra e nome, mas parecia que era fácil para ela esquece-los, ela se habituou a guardar as pessoas pelas caracteristicas faciais que conseguia captar nos dedos.

Ele apertou os dedos entre os dela, e suspirando se permitiu ergue-los e beijar as falanges finas, ela piscou levemente aturdida e curiosa com tal gesto e ele a soltou se levantando e seguindo para a janela.

– Sasuke – declarou e então saiu por ela.

Sakura tirou o foco da janela ao perceber que ele se afastara e voltou-o para a mão no ar, balançou os dedos e podia sentir claramente a sensação de lábios finos mas macios contra aquele ponto.

– Sasuke...? – ela levou a mão até a boca e pressionou os lábios ali – Sakura...

Agora o reconheceria, e não o esqueceria mais.