Lost Inside

6 Não a deixe enxergar.


Notas iniciais
Yoooo cap fresquinho pra vcs e no horario nobre :3

O rio desembocava num lago, e a beira dele ficava uma pequena vila, o sol estava começando a raiar e por isso as crianças e mulheres viram toda a água ficar rosada, como se uma onda desta cor viesse do rio e começasse a se espalhar por todo o lago.

Os pescadores em suas canoas se encolheram dentro delas temendo que virassem, ainda mais quando perceberam que no centro da onda algo se movia abaixo da água, esta onda seguiu rumo ao pequeno cais e a medida que se aproximava dele viram ela diminuir encolher-se até tornar-se apenas um ponto rosa que alcançou as tabuas de madeira.

A criatura, não tinha garras, mas braços magros e frágeis que se agarram a beira mas não tiveram força de subir um corpo feminino para cima o que descobriram serem fios vinha da cabeça e agora limitavam-se a mover-se com lentidão sobre as costas, encharcados pesado demais, e num tom opaco, sem vida.

A líder da vila fora chamada, mesmo sendo já uma anciã ainda tinha muito o que ensinar a eles. Determinada e vivida, acreditava que já tinha visto tudo na vida e caminhou sem hesitação pelas tabuas do pequeno cais até a beira, e se abaixou deparando-se, com mais uma vitima do mundo viva, provavelmente muito jovem, mas agonizante, talvez morta, um corpo que perdera consciência.

Ela afundou mais uma vez, e quase não voltara, a senhora segurou sua mão magra, e temeu que se quebrasse, e encarou sua face perdida e miserável.

– tudo bem, nós vamos ajudar, mas precisa livrar-se disto primeiro...- tocou delicadamente o anel de ferro que ocultava sua visão, e a pobre criatura pareceu enfim denota-lo também, a outra mão seca foi para ele mas teve surpreendente força de puxa-lo e destruí-lo entre os dedos, puxou o que sobrara e encarou a mulher, porém não a via e seus olhos verdes estavam opacos demais sequer para se moverem.

Com lágrimas nos olhos, a anciã perguntou-lhe, mesmo sabendo a trágica resposta.

– minha criança, o que você vê?

– o... que há... para ver?

Aquela pergunta seria repetida pelo resto de sua quebrada existência.

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– Haruno Sakura, dezessete anos, Konoha...”

A informação estava errada.

Por que ela devia ter vinte e oito anos.

Agora.

Sasuke correu assim que sentiu aquele chakra que estava sequer perto de ser como o dela, ele foi seguido e enfim chegaram onde o rio levava, horas percorridas a beira dele, seguindo seu fluxo, em busca dela, encontraram uma vila de pescadores e pelo rebuliço de pessoas por ela tinha chegado ao local certo.

Sanji foi a frente tentando encontrar um conhecido.

– onde está Tamara-sama?! – perguntou.

– na casa dela! – uma moça respondeu – tem um estranho lá! Veio pelo rio!

Seguiram-na até uma casinha de taipa que estava rodeada de gente e cuja entrada era apenas uma cortina mas que nem por isso era invadida pela pequena população curiosa.

– foi assustador estava em todo o rio, parecia que um monstro sairia de lá – comentava uma senhora com outras .

– veio pelo rio certo? Deve ter haver com esses tremores...

– Tamara-sama sabe o que faz ou está senil de vez? – reclamou um garoto.

–mais respeito!

A balburdia se acalmou quando uma senhora saiu, baixinha e gorda exprimindo uma aura tão autoritária que calou a todos e encheu o ar de tensão.

– nossa hospede está desacordada e muito fraca, é inofensiva, então podem todos ficar tranquilos declarou — em tom de ordem.

– mas Tamara-sama, vai deixar um estranho aqui?!

– ela é inofensiva e deficiente, não machucará ninguém e parece nem ter memória, por favor, fiquem calmos e voltem aos seus afazeres – seu tom realmente não permitia réplicas o fez todos se afastarem, comentando e também reclamando.

Ela voltou para dentro e Sanji seguiu até lá sendo parado por um rapaz.

– preciso falar com ela.

– ela não vai receber ninguém agora.

– é sobre a garota! Sabemos quem ela é.

– não me diga...

– o que tem a dizer, Sanji? – A velha indagou reaparecendo, ele segurou suas mãos e fitou-a.

– estamos a procura da moça, sabemos quem é, ela é de Konoha.

– Konoha? Isso não é meio longe? – o homem cuspiu desdenhoso.

– é uma filha de Konoha, e vamos leva-la de volta – Sasuke preferiu vindo na direção deles, o homem entrou na frente e antes que o segura-se, ele agarrou seu braço e o torceu enquanto encarava a mulher. – por bem ou por mal.

Ela o fitou, estudando-o mas cedeu com um suspiro quando ele apertou o braço do homem a ponto de quebra-lo.

– tudo bem, sigam-me. – todos adentraram a casinha que ficou ainda menor com eles ali, e pararam numa pequena sala com chão de terra batida. — você disse que ela era de Konoha...

– quero vê-la — ele cortou.

– era uma moça saudável? – Tamara ignorou-o.

– tsc, claro que sim, era uma ninja.

– esta ninja – Koga disse entregando a ela um dos folhetos e foi quando Sasuke pode ver, era uma foto da qual ele se lembrava, havia ocorrido depois do fim da guerra, ela ainda estava com machucados, as roupas sujas de ajudar no hospital improvisado, sorrindo de maneira dócil e amável, mas contida, porque estava envergonhada, numa brincadeira boba, Naruto pintara o símbolo do próprio clã no braço dela e Ino em provocação, pintara o dele, no outro braço. Era apenas um dia divertido como muitos que a vila recomeçaria a ter partir daquele momento.

Tamara assistiu a foto por um momento tão longo que parecia ver tudo o que acontecera naquele dia.

Com um suspiro ela devolveu a imagem.

– é a mesma moça, ou o que sobrou dela.

– ela está...

– devem leva-la daqui o mais rápido possível, está muito debilitada, temo que não vá sobreviver se continuar aqui.

– mas ela quase nos matou! – Chi protestou.

– ela está quase morta, e quase sinto que talvez a morte seja o melhor pra ela, ninguém merece ser destruído desta forma – ela seguiu para outra porta coberta por uma cortina e Sasuke a seguiu assim que teve o vislumbre de um futon no chão, invadiu o espaço e viu a velha se abaixar do lado de uma criatura magra e pálida, estava coberta até o pescoço os cabelos estavam se revolvendo de maneira lenta e numa quantidade bem maior do que qualquer que já tivera antes, o chakra estava lá, todo concentrado em sua cabeça e era ele que revolvia e dava vida a suas mechas, porém o corpo continuava paralisado.

O rosto novamente indivisível por uma toalha sobre os olhos, apenas lábios magros e secos em vista. Tamara tirou sua mão de debaixo da coberta, tão seca e frágil que não podiam dizer qual era a da velha, ou qual era menos envelhecida de verdade. Ela checou sua pulsação e Sasuke se abaixou do outro lado observando uma respiração quase invisível fazer subir o tronco magro, levou a mão até a toalha em seu rosto decidido a encara-la ao menos uma vez.

E foi contido pela senhora que o fitou com uma expressão derrotada.

– não adianta, ela não deve acordar, e mesmo que fosse...

– o que tem?

– ela não o veria, não verá mais nada.

– o que?

– está cega, e duvido que aja cura.

Sasuke se soltou dela e se afastou atordoado, e Chi se abaixou em seu lugar meio amedrontada ainda, mas examinando-a no pulso e então deitando a cabeça em seu tronco delicadamente, se assombrou e os encarou.

– temos que leva-la pra Konoha, ela pode entrar em choque a qualquer momento!

– Mas é muito longe... não pode estabiliza-la?! – Disse Juugo e ela meneou a cabeça.

– não dá pra perder tempo, posso apenas dopa-la mas se ela entrar em choque todos os órgãos param de funcionar.

– ela é uma ninja médica, discípula da Tsunade, por que diabos não está se curando?! Tem uma quantidade monstruosa de chakra dentro dela – Suigetsu reclamou.

– não fazemos ideia do que ela passou, Suigetsu, o que importa é leva-la pra onde possa ser tratada e salva, estas perguntas ficam pra depois – Juugo atenuou.

– senhora, me ajude – Chi pediu.

– no que for preciso, querida.

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Nem demorou tanto, Shisui tinha de admitir, e sua mãe também, porém, ele ficou apreensivo com o que isso poderia significar, afinal até onde sabia, seu pai havia ido investigar coisas estranhas e buscar o paradeiro da tal ex amiga.

Já era mais do que hora de dormir e só por isso ele não desceu para receber o pai, seus irmãos já dormiam e ele enganara sua mãe para ler mais um pouquinho, mas seu pai não cairia em sua lábia então assim que da janela o viu entrar em casa, correu para debaixo dos lençóis, era infantil, admitia, mas era melhor do que levar bronca.

Depois de um tempo não ouviu mais que passos pelo corredor, e estranhou, não importava a hora, sua mãe sempre recebia o marido falando alto, seja para reclamar, seja para dizer bem vindo. Ele pretendia usar essa desculpa para levantar e ir sondar o pai, mas desta vez, não teve.

E isso era perturbador, no mínimo.

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– você chegou cedo – Karin enfim disse, ela sempre se orgulhava de ter coragem de ignorar as caras feias de seu prodigioso marido, porém este foi um dia que ela se quer soube o que falar, surpresa em vê-lo voltar tão cedo, surpresa em não saber se isso era bom ou ruim, Sasuke tampouco pareceu nota-la, e isso a incomodou profundamente, mesmo que ele fizesse sempre, sabia que desta vez não era só por ele ser desse jeito, tinha haver com aquela maldita missão, e isso ela não toleraria.

Ele ter vindo tão cedo realmente era algo que não poderia definir se bom ou ruim.

Sasuke subiu as escadas e quando o viu tirar a capa e largar na beira da cama, soube que não arrancaria nada dele, ela saiu do quarto e desceu indo esquentar a refeição, embora estivesse sempre disposta a servi-lo com comida fresca e feita na hora, estas malditas missões, idas e voltas sem aviso não permitiam tal luxo, ele não reclamava talvez nem ligasse, mas uma dona de casa e boa esposa que se preze, sim.

Quando subiu com uma bandeja ele não estava mais lá e não a brindou com uma possível visão de seu corpo semi nu, xingando baixinho, ela deixou a refeição sobre a cômoda e saiu a procura dele, e o encontrou no quarto de Sakuya, talvez por ela ser sua caçula ou por ser menina, Sasuke sempre a visitava por ultimo, agora estava sentado na beira da cama, as costas recostadas na cabeceira e o braço que ainda tinha acarinhando os fios negros que enfeitavam a testa da pequena.

– Sasuke-kun, eu esquentei a comida. – ela avisou baixinho, Sasuke suspirou.

– obrigado, mas estou sem fome.

– algo aconteceu na missão? Foi o idiota do Hozuki?

– não quero falar sobre isso, Karin.

A Uchiha assentiu fechando a porta suavemente, e caminhado o mais controlada o possível para não fazer uma bela dança, provavelmente Sasuke ficaria na cama da caçula esta noite, mas valia a pena pois parecia que tudo de mal aconteceu naquela missão.

Mas logo, outra vez, ela não saberia definir se era bom ou ruim para ela.

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– como ela vai ficar? – Naruto disse, em tirar os olhos da grande vidraça, Tsunade meneou a cabeça, os olhos já cansados de expulsarem lágrimas.

– eu não sei, Naruto.

– qual é o quadro dela? – Shikamaru disse.

– está num alto nível de desnutrição, os pulmões estão infeccionados, ela está muito desidratada, e o coração pode parar a qualquer momento.

– só podemos esperar, então?

– Infelizmente sim, tive de pô-la em quarentena, está com a imunidade baixa e não sabemos se não carrega algum vírus ou bactéria contagiosa, já mandei fazer todos os exames e também mandei todos que tiveram contato com ela fazerem, aliás, Naruto, pode avisar a Sasuke? Ele também precisa.

– certo.

– onde ele está? – disse o Nara.

– ele foi pra casa, está muito perturbado.

– vá pra casa você também, Hinata está esperando.

– vovó...

– vá, Naruto, por hora é tudo o que podemos fazer – Tsunade se voltou para o vidro e com um suspiro fitou sua amada pupila, a situação lastimável dela inflamava sua revolta e sua dor.

– tudo bem vovó, ela já está aqui, é o que importa. – ela assentiu e os dois homens partiram, mas o que mais apertava o coração da Sannin. Era saber que depois de tanto tempo, Sakura poderia enfim, não dar mais conta de lutar tanto.

E não poderia culpa-la.

Àquela altura, a morte seria talvez a única forma de recompensa-la por sua força e perseverança.

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A primavera de Konoha estava em seu auge, dois meses haviam se passado, mas a flor que um dia fora a mais querida, continuava reclusa numa berlinda de vidro.

E Sasuke, se recusou a ir vê-la desta forma, a noticia de que ela fora resgatada já era soprada em todas as direções, e as pessoas não se aguentavam de ansiedade em vê-la.

Com um amargo incalculável na boca, Sasuke lembrava que ela nunca voltaria a vê-los.

Todo esse tempo, ele havia ficado em Konoha, cuidando não só da segurança dela mas da de seus filhos, aquele usuário de Sharingan poderia vir atrás deles, embora fosse-lhe um mistério o que poderia querer com Sakura, aprisionando-a durante tanto tempo.

Ela ficara um mês em coma e esse fora um tempo horrível para Tsunade, pois passaram perto de perde-la de vez em vários momentos.

Ao fim do coma, ela apenas reagiu a pequenos estímulos, e o que mais aconteceu depois daí, ele não foi informado.

Seria agora, enquanto pisava no hospital junto a Naruto.

– estou nervoso – o loiro admitiu – e se ela não me reconhecer? E se me odiar?

– por que o faria?

– por que não a salvei...- ele murmurou, o Uchiha o observou, seus ombros trêmulos de derrota e raiva de si mesmo. Naruto inspirou profundamente, e para Sasuke não foi surpresa, ele sempre tirava forças de algum lugar dentro de si, embora temesse que elas caíssem quando atravessassem as portas da unidade intensiva. Sakura mesmo acordada continuava lá, quarentemada e sob alta segurança.

Quando entraram depararam-se com Shikamaru, Ino a Tsunade e Shizune lá, as cortinas da vidraça no quarto de Sakura ainda estavam cerradas.

– perdão pelo atraso, vovó.

– não estão atrasados – ela deu de ombros.

– então, mais alguém deve saber da situação? – Shikamaru disse.

– só os chamei por precaução, pretendo dar alta a Sakura.

– o que?!Isso é serio vovó?! – vibrou o Nanadaime – ela vai poder ir pra casa e...

– não é tão simples, Naruto, só a estou liberando por que sua vida não corre mais risco, porém, não sabemos se ela é um risco.

– como assim?

– eu mandei especialistas ao local onde Sakura foi aprisionada – o Nara disse – depois de vasculharem o que sobrou eles descobriram que ela foi mantida não só presa, mas em um processo cujo intuito, Naruto, era com certeza transformá-la em algum tipo de arma.

– isso é... impossível... o que fizeram com ela vovó?

– Sakura sempre teve um controle espetacular de chakra, e como podemos sentir a longa distancia, tem uma quantidade exorbitante de chakra selado nela.

– quanto? – Sasuke sussurrou.

– não podemos nem mensurar – Shizune disse — existem selos implantados nela, aos quais apenas quem os pôs lá pode libera-los, esta parte que está ao alcance do uso dela estava sendo de alguma forma transformada em chakra homogêneo e puro, esse chakra não podemos dizer de quem é, mas pode ser de qualquer um, mas ele não pertence a mais ninguém.

– não entendo por que por essa coisa nela?

– você mais do que ninguém deveria entender, Naruto, agora ela é como você – Shikamaru disse.

– como?

– você é uma criança na qual foi selado o chakra da besta de nove caudas, uma quantidade gigantesca mas com consciência o bastante até para tentar tomar seu corpo e engolir sua alma, Sakura foi transformada num recipiente de chakra, tal como você, este chakra apenas deve ter sido sugado de milhares de pessoas, perdido todas a propriedades de seus respectivos donos e armazenado nela à força, tem tanto chakra nela quanto eu poderia ter armazenado na minha testa assim que nasci, eu procurei o Byakugou dela mas deve ter sido sugado para seu cérebro assim que o processo foi iniciado.

– e é esse o grande problema – Shizune balbuciou abatida.

– como?

– por ter sua testa como centro de armazenamento de chakra, acredito que quando iniciaram o processo nela, esse chakra subiu para a cabeça dela, destruiu o selo Yin, e se acumulou em seu cérebro, e com essa pressão enorme, esse fluxo intenso e constante, o cérebro de Sakura sofreu avarias permanentes e longas.

– o que exatamente aconteceu?

– ela perdeu a memoria – Tsunade começou – mas creio que ainda possa recuperar boa parte dela.

– mas isso é bom não é? – Ino insistiu.

– do que lhe adiantaria ter memorias, se não souber o que fazer com elas?

– como assim?

– depois que ela acordou, foi extremamente agressiva, e por não enxergar foi ainda mais difícil acalma-la, mas ao ouvir o nome de Shizune, ela apenas se sentou na cama novamente, o que eu quero dizer é que, Sakura perdeu todo seu senso de ser, sua cognição está muito afetada, ela é como uma criança de colo, pode até lembrar de todos nós, mas não saberá reagir a nós, ela perdeu sensos básicos, amor, medo, dor, saudade, gostos, desgostos, ela não tem mais, mesmo que lembre que somos sua família ela não tem mais ao senso de reagir com carinho, ou desgosto, ela perdeu tudo isso, perdeu coisas básicas como senso de horas, de espaço, de bom ou ruim suas emoções estão limitadas ao limiar das suas necessidades, ela reage à fome, à dor, sede, liberdade, e pelo ultimo teste que fiz, seus instintos de perigo e agressão estão mais aguçados que nunca.

– por isso ela é perigosa? – Shikamaru indagou.

– sim, por que ela atacará qualquer coisa que lhe parecer uma ameaça, ela não vê e agora não sabe diferenciar coisas básicas, ela pode revidar o toque brusco de uma criança, pode atacar quem grita perto dela, qualquer mínima ação que indique uma agressão, e isso é perigoso, não tem como ela voltar para seu meio social desta forma e com todo este chakra selado dentro de si, ela pode ser mortal para a aldeia inteira.

– mas pode reaprender certo? Como uma criança? – Naruto disse, esperançoso, Sasuke suspirou com pesar e raiva, Naruto não sabia ver quando chegavam ao fim, não entendia como Tsunade explicara?

Ela estava condenada, não tinha mais jeito, talvez não houvesse mais diferença entre estar morta ou não, se não podia se quer exercer suas capacidades mentais, era pra ele como prende-la num corpo invalido. A invalidez do corpo limitava os movimentos, mas a seu ver, a da mente, limitava a alma.

Sakura estava presa e se perdeu dentro de si mesma, o que havia para salvar?

Ele certamente não queria assistir a pessoa mais inteligente e determinada que conhecera convertida numa retardada invalida, era humilhante demais para ela.

– Naruto, ela pode, mas isso tudo é um processo muito lento, e Sakura não é uma criança, ainda que pareça como uma, ela tem vinte e oito anos, ela precisa de atenção especial e o tempo todo ou no mínimo de um lugar onde possa ser tratada de forma que eleve sua situação, onde possa aos poucos ir aprendendo, e agora sozinha, não tem uma família que fique vinte e quatro horas por dia cuidando dela.

O Uchiha franziu o cenho ante aquilo.

– onde estão os pais dela? – todos o encararam e um suspiro pesado e fúnebre se fez.

– morreram.

– como? Impossível, eram jovens.

– a dor e a espera envelhece as pessoas – Ino pronunciou amargamente – eles morreram de desgosto, aos poucos ninguém os via mais, foram sumindo, as pessoas comentavam quando os viam, sentiam pena e isso os fez perderem a esperança, um dia, foram encontrados na cama, parecia que dormiam, e estavam com uma foto dela, acho que apenas não deram mais conta, eles ficaram doentes e não se trataram e acho que já nem se alimentavam...- Ela levou a mão tremula à boca – então....

– morreram de gripe – disse Tsunade – eles se descuidaram de propósito acho, também tomaram remédios para dormir em altas doses, mas não os teria matado em condições normais, mas doentes, o organismo parou de funcionar durante o sono.

– faz quatro anos – Naruto disse. – vovó, eu posso...

– não, Naruto, você tem filhos em casa, tem que pensar na segurança deles, sei que é doloroso, mas temos que ver o que Sakura pode ser capaz e ainda lembrar que, se ela foi tornada uma arma, e não foi usada em quase doze anos, aqueles que a tornaram nisso podem estar vindo a qualquer momento para faze-lo.

– talvez ela não seja uma arma, mas apenas um recipiente – Shikamaru lembrou – se podiam entupi-la de chakra podiam retira-lo também, talvez quisessem uma fonte dele.

– de todo modo ela é perigosa, em suas possíveis tentativas de escapar ela tentou expulsar o chakra pelo cabelo, o que aconteceu foi que ele adentrou seu crânio e se fundiu as partes mais superficiais do cérebro de modo que é agora uma ligação direta com a fonte de chakra como se estivesse o tempo todo na tomada, os selos que foram postos em seu corpo não permitiam que ela acessasse o fluxo e o usasse para aumentar sua força então ele foi se moldando aos fios e ela pode controla-lo com movimentos dos dedos e mãos, por isso como Yusuke disse, ela tinha os braços tão bem imobilizados, ela deve ter ficado totalmente presa por anos, e só não morreu por que talvez, antes de perder-se totalmente, Sakura tenha visto que desligando determinadas áreas de seu corpo ela poderia manter-se viva como o organismo em baixíssima atividade.

– não entendi nada.

– oh...

– o que ela quer dizer que, em troca de manter seu corpo vivo, Sakura pode ter optado por deixar que o fluxo de chakra danificasse seu cérebro – Shikamaru disse – ela desligou regiões como a circulação de sangue para as pernas e parou a própria produção de células naquela região, concentrando esses processos na respiração e metabolismo. Ela deve ter sido alimentada pouquíssimas vezes e quando viram que estava se mantendo só na base do chakra que punham nela, cessaram a comida e água talvez para testarem sua resistência, tudo o que seu organismo vinha fazendo desde então foi respirar, porque independentemente de o chakra estar sendo forçando dentro dela, o corpo ainda era dela e sendo uma usuária de Byakugou ela sabia manipular o próprio corpo para se curar em determinadas regiões.

– tal como eu posso concentrar e acelerar a produção das minhas células, Sakura também pode, ela se aproveitou disso e quando seu corpo começava a necrosar ela o regenerava quase que instantaneamente com o passar do tempo, e por isso não apodreceu naquele inferno, o custo disso foi parar de tentar controlar o chakra circulante em sua cabeça e ele danificou sua mente.

– uma ideia inteligente, mas suicida, ela poderia perder o movimento das pernas de vez, mas ela se concentrou em perder a circulação sanguínea e limitar os processos químicos do corpo – o Nara suspirou .

– eu pude “religar” esses processos, mas a algo que eu não posso recuperar...

– sua visão...?

– irreversível, ela deve ter abnegado dela na primeira vez, ela desfez as ligações dos nervos e sensores óticos ligados ao cérebro, e já faz tanto tempo que não posso refaze-los, ainda mais porque com o chakra selado dentro de sua cabeça impede uma incisão de chakra estranho em seu corpo de forma tão profunda, ele se acostumou a curar-se por si só e não podemos mais cura-la em áreas profundas, a sorte é que, com todo esse chakra, ela pode regenerar-se à vontade e talvez até curar, mas ela teria que reaprender de novo a molda-lo, o chakra que carrega agora pode ser extremamente agressivo á uma pessoa.

– e a partir de agora, a prioridade é proteger Sakura, e ensiná-la a viver, de novo.

– podemos vê-la? – Naruto suplicou.

– sim, mas falem de forma moderada, principalmente você, e mantenham seus chakras de maneira mais baixa possível, não os ocultem, ela precisa senti-los pra saber que não vão agredi-la.

– ela adquiriu um senso de chakras muito aguçado e seus ouvidos são muito apurados também, tentem não cochichar ou ela fica arisca. – instruiu Shizune.

Seguiram para a porta, Tsunade foi a primeira a entrar e parou ainda na porta.

– Sakura? – falou de forma amena – você tem visitas, quer recebe-los? – ela concordou e entrou sempre a passo lento chamou-os e Shikamaru entrou, então Naruto, Shizune e Ino e Sasuke não se importou de ser o ultimo, por que não tinha mais vontade de entrar.

Mas o fez, o quarto era grande embora só houvesse um armário na parede oposta à cama a qual só tinha aparelhos de monitoramento ao redor, não tinha janelas para o ambiente externo posto que ficava no interior do prédio.

Sakura estava sentada na cama, as costas eretas e a cabeça voltada para a frente, o olhar fixado em algo mesmo que não visse, e os lábios mais cheios e corados fechados numa linha inexpressiva, usava uma camisola hospitalar e seus braços estavam repletos de fios de eletrodos e uma agulha transmitia soro para sua veia.

Haviam eletrodos até em suas têmporas mas já havia mais cor em sua face também mais cheia, na verdade, ela parecia ter recuperado seu peso quase que totalmente, os braços e mãos já não mostrando as veias finas, ossos ou tendões. Nem a ossada da clavícula estava mais tão visível e as olheiras estavam agora num tom cinzento claro.

Além de apenas doente, ela só parecia uma criatura estranha, seu cabelo se movia sobre os ombros em movimentos ondulados, hora circulares, hora subindo acima da cabeça e se espalhavam um pouco no ar como se estivessem embaixo da água de um rio.

Tsunade se aproximou com leveza e se sentou na beira da cama, arrastou a mão pela colcha chegou a dela, apertando com gentileza.

– como se sente?

– não sei.- ela soou óbvia.

– algo dói ou incomoda?

– não.

– então você está bem. – Tsunade concluiu, sorrindo.

– quem está aqui?

– quem você acha que está?

Sakura inclinou a cabeça para o lado, pensativa.

– Shizune?

– sim – Shizune respondeu.

– dois chakras estranhos... mas comuns, e dois chakras estranhos...

As mexas se revolveram ampliando-se acima dela e sannin inspirou nervosa e Sasuke se desencostou da parede percebendo que aquelas mexas estavam de certa forma, voltadas para a direção dele e de Naruto, de um jeito que lhe pareceu perigoso.

– dois chakras muito fortes...- ela murmurou com olhos estreitos na direção deles, verdes mais brilhantes, porém perdidos na escuridão.

– shiii, não se preocupe, eles não vão te fazer mau, são amigos.

– amigos...?

– sim, Ino, venha – ela chamou, Ino se apressou para sentar-se do outro lado da cama. – esta é Ino, algo te vem a mente?

– Ino...? Ino... Yamanaka?

Ino soltou o choro e avançou abraçando-a, o cabelo se esticou quase num ataque, mas apenas caiu sobre suas costas revolvendo-se ameno, enquanto ela sentia o rosto da loira contra o próprio, suas mãos subiram para suas costas e sentiu as mechas longas de Ino, entremeou-as entre os dedos, pensativa, sentido a textura, e quanto Ino se afastou ela a fitou.

– continua longo... Ino?

– si-sim...

Sakura pôs a mão no rosto dela, a palma aberta na frente dele os dedos tocando a testa e então os arrastou para baixo sentindo as pálpebras, nariz, maçãs, lábios, queixo e bochechas ao mesmo tempo que repetia o gesto com a outra mão na própria face.

– Ino... Sakura...

– eh?

– é assim que ela tenta te reconhecer – Tsunade explicou – procurando as diferenças entre vocês.

– oh, sim faz sentido – Ino sorriu esfregando a manga do jaleco no rosto – aposto que sou mais bonita, sua testa continua grandeeee – cantarolou. Sakura levou os dedos ao local, franzindo o cenho.

– mentira...

– oh, você acha? Que convencida...

– tudo bem, tudo bem, vamos ao próximo, Shikamaru.

– que problemático – ele disse se sentando no lugar de Ino.

– Shika... maru?

– o preguiçosoooo. – A loira cantarolou com a voz ainda embargada.

– não seja problema-...- ele foi cortado quando Sakura pôs a mão em sua cara de forma abrupta e quase se afastou dela, mas a mulher apenas repetiu o gesto anterior, demorando-se na barba dele, provavelmente estranhando a sensação que era diferente da que sentia na própria face.

– Shikamaru... Sakura.

– você não lembra de mim — ele disse.

– não.

– você nunca teve grande importância – Ino alfinetou e ele se levantou.

– e eu? – disse Naruto sentando-se, Sakura voltou os olhos para ele, e chegou a parecer que o via, mas na verdade ela ainda parecia arisca com o chakra dele, delicadamente o Uzumaki pegou sua mão e pôs no próprio rosto, ela pareceu não gostar de ser guiada, mas tocou a própria face com a outra.

Quando terminou, sua cabeça se voltou para Tsunade.

– não.

– como?

– eu não sei quem é...

– co-como assim? Querida, é Naruto, o baka Naruto! Como não?

– eu não sei quem é.

– por favor tente de novo – Naruto pediu – sou eu, o baka, que você sempre socava, o viciado em lamém, ninja numero um e cabeça oca!

– calma, chega, Naruto...

– você sempre me chamava de idiota, mas sou seu melhor amigo!

– Naruto!

Sakura levou as mãos a cabeça, aos ouvidos e seus cabelos saltaram atingindo o teto violentamente.

– NÃO! — Gritou.

– chega Naruto! – Shikamaru e Ino o puxaram e correram para fora do quarto Sasuke recuou vendo as madeixas se espalharem pelo teto inteiro o empurrando de forma que pó escapava dele até alcançar as extremidades das paredes e racha-las. Shizune fechou a porta e a ultima visão que teve foi de Tsunade injetando algo no tubo que levava soro para Sakura enquanto esta encarava o nada com as mãos na cabeça e uma expressão furiosa e dolorida.

– você tem que se acalmar! Não pode exigir que ela se lembre de tudo de uma vez – Ino protestou chorando outra vez.

– chega Ino, vá se acalmar – Shika ordenou e ela saiu quase correndo, Naruto se voltou para a parede e bateu a própria testa contra ela.

– ela me odeia...

– não pode dizer nada, ela não lembrou de mim, e Tsunade disse que só lembra de Shizune.

– ela não recorda nem Tsunade? – Sasuke indagou, vendo a testa de Naruto sangrar e manchar a pequena rachadura que ele mesmo fez.

– não, e como ela mesma disse, lembrar de Shizune não a fez ir para o colo dela e abraça-la, então Naruto, se acalme ou Tsunade não vai deixa-lo vê-la, ela pode lembrar de você eventualmente, pode demorar ou já pode ter lembrado, mas força-la vai apenas torna-la agressiva como agora, e mesmo que ela não lembre, não significa que não são mais amigos.

– não é a mesma coisa – o Uzumaki rosnou – todas as coisas que vivemos, boas ou ruins, fazem parte de quem somos e do que seremos, se ela não lembrar disto... Quem ela é?

– ela está em reconstrução, só podemos ajuda-la, o importante é, que depois de tudo o que ela passou, ela ainda está aqui, entre nós, ela pode não lembrar, mas pra mim esta garota que sobreviveu ao inferno e voltou, é e sempre será Sakura Haruno, por que foi isso que Sakura sempre fez, sobreviveu, lutou e ficou forte, esta é ela, ela saiba, ou não... Ela veja, ou não.

Notas finais
ja ne!