Lost Inside

34 Não a deixe cair em sono profundo.


Notas iniciais
ALOU, GALERA DE COWBOY? Faltam fucking quatro dias para o ano que vem e nunca é tarde para se atualizar non é mesmo? Vou nem perguntar, pois já pressinto que vão me jantar na porrada.

Era inverno outra vez.

A estações convergiam exatamente para este momento, onde tudo adormece, esfria e descansa.

Sasuke havia viajado muito, conhecido não apenas as mudanças do tempo e do clima, mas cada sinal da vinda delas, e de como se manifestavam em diferentes lugares.

Observou as flores que murchavam e secavam com a vinda do frio, bem como as que desabrochavam na beira dos lagos congelados.

No entanto, ele nunca viu uma flor fazer as duas coisas como Sakura fazia agora.

Ela geralmente era aquela que desabrocharia em qualquer estação. Agora...

Ele pousou no telhado do hospital, parando ali mesmo, a assistindo sua figura parada a beira do terraço, olhando para a aldeia enquanto o vento empurrava seus cabelos para a frente.

— Como foi o exame? – Indagou.

— Tsunade-sama chamou de “apagão”.

O termo parecia impróprio para uma condição médica, mas principalmente soou perigoso.

— O quê exatamente está se apagando?

Sakura se virou, ainda vestindo a camisola hospitalar, ergueu a mão e levou ao peito.

— Eu.

¤

Desde a abertura total de quatro selos pela própria consciência de Sakura ocorreu, ela vinha se sentindo estranha.

Primeiro foram tonturas, depois, ela passou a dormir com um pouco mais de frequência durante as tardes. Até que houveram dias em que despertava com pessoas batendo a sua porta porque havia simplesmente dormindo até perder a noção do tempo.

Quando Sakura simplesmente caiu no meio do corredor do hospital e começou a dormir, Tsunade teve certeza que não era apenas uma fase estranha.

Agora chamava isso de Apagão, e após examinarem Sakura internamente ao máximo, desperta e dormindo, notaram uma sutil mudança no fluxo de seu chakra.

— Lembram quando disse que o chakra dela corria em muito maior quantidade e rapidez? – Ela disse, apontando para o desenho de um corpo humano num quadro. Eles se sentiam como dentro de uma aula.

Sakura estava sentada na carteira, mas, Sasuke podia notar seus olhos começarem a piscar mais lentamente e a cabeça pender vez o outra para o lado, além de um bocejo ou outro.

— Sim. O fluxo constante e superforte, principalmente na cabeça. – Shikamaru disse.

— Sim, durante doze anos, o centro da concentração de chakra dela foi somente o cérebro. Sakura criou selos para conter partes ainda maiores do chakra pelo corpo, de modo que eles estavam inacessíveis, mas...- Shizune disse.

— Mas isto mudou. Três selos estão abertos agora. – Tsunade continuou, cruzando os braços. — E o que isto significa?

Naruto ergueu a mão, empolgado.

— Não sei!

Os outros suspiraram e Sakura bateu a testa na mesa, começando a dormir ali mesmo.

— Três vezes mais chakra correndo. – Sasuke comentou, observando-a. Fitou a sannin. — Mas porque isto a faria dormir?

— Tínhamos a teoria de que, quando ela estava em cativeiro, Sakura desligou certas partes do corpo para conseguir se manter viva com baixo metabolismo. O preço, como já sabemos, foi permitir que o chakra concentrado em sua cabeça a danificasse à vontade.

— E isto agora se confirmou?

— Pode-se dizer que algo parecido está acontecendo. Tem três vezes mais chakra circulando nela. Sua cabeça e o resto do corpo estão passando por uma fase de adaptação. Com mais chakra para estabilizar, mesmo que não tenha noção, ela se cansa mais facilmente. Eu já vinha notando que ela estava tendo algumas dificuldades para estudar. – Shizune falou.

— O apetite dela também aumentou... – Ino disse agora, bastante pensativa. — E ganhou dois quilos, coitada.

— Dois quilos e você acha muito? Não a está deixando passar fome, está? – Naruto arengou logo.

— Não enche!

— Ela estava menos responsiva ao treino. – Sasuke cortou-os, pensativo. Suspirou, agora sentindo-se um pouco mal por ter sido mais rígido com ela nos últimos treinos. Ela parecia estar muito preguiçosa e inventando desculpas e conversas para ignorar o treino.

— Quanto tempo acha que vai demorar até que a situação se estabilize? – Ino disse. — Quer dizer, não estava assim antes, depois dos primeiros selos...

— Bem, tudo tem limite, o terceiro selo a fez exceder sua capacidade de se manter estável, agora sua cabeça está exigindo descanso. Suponho que ela esteja trabalhando a um ritmo tão forte que não consiga evitar esses apagões ou sessões de sono intermináveis.

— Agora sobre quanto tempo vai levar? – Shizune pensou. — Bem, só podemos deixa-la dormir a vontade, e alimentá-la sem exageros, se ela dormir o tanto que precisa, não sentirá tanta fome e seu metabolismo vai conseguir se regular novamente.

Todos se entreolharam, expressando um mudo, mas visível sentimento coletivo de alívio. Umas horas a mais de sono. Bem poderia ser pior.

— Mas não é isso que te preocupa, é? – Shikamaru perguntou, afiado como sempre.

Tsunade suspirou.

— O de sempre, Shins. – Declarou. — E claro o monte de outras pessoas que podem estar atentas a isso.

Sasuke não pode deixar de torcer a boca com desgosto. E pensar que meses atrás haviam estado tão perto de sobrepujar o perigo em torno de Sakura ou ao menos de entendê-lo.

O Shin que haviam capturado na vez que Sakura tentava fugir da vila havia sido primeiramente detido e então interrogado. Querendo ou não, ele não passava de uma criança, um clone deturpado da herança do clã Uchiha.

E por mais que Sasuke detestasse a existência dele e de seus irmãos, tampouco desejaria o sangue de uma criança nas mãos.

Com o passar dos dias, o próprio Shin foi sendo convencido de que estava sendo usado, considerando que não houvera sequer uma tentativa de resgate. Porém, quando acharam que estavam perto o suficiente de persuadir o garoto, depararam-se com um quadro tenebroso dentro daquela cela fortificada.

Shin foi encontrado morto com uma das colheres de plástico oferecidas para as refeições cravada em sua jugular. Havia sangue por toda a parte e tentativa de desenhar um selo que Sasuke já sabia resultar inútil.

Era um selo proibido e antigo para teletransporte. Ele não fazia ideia de como tal conhecimento chegou ao Shin, mas aquele selo demandava muito mais que sangue. Quem o ensinou, ensinou errado.

Olhando a expressão desesperada daquele menino. Ele imaginou seus últimos momento, sangrando até a morte e se dando conta de uma vez por todas que havia sido descartado e enganado.

E mais uma vez ficaram de mãos vazias.

— O que me preocupa, é que nestas condições ela está ainda mais indefesa. Fiz alguns testes e o que eu temia ficou claro. Quando Sakura tem esses “apagões” absolutamente tudo nela dorme.

— O que quer dizer?

Tsunade sacou uma seibon e atirou na direção de Sakura, a agulha se encravou na mesa próxima a seu rosto com um baixíssimo som seco. E ela suspirou, totalmente entregue a sono.

Depois de um tempo, eles se ergueram dos lugares, totalmente confusos.

— Co-como?!

— Isto mesmo. Antes, em seu sono habitual, ela conseguia manter um estado de vigilância suficiente para sentir um movimento deste. O cabelo principalmente.

Ino se agachou perto de Sakura, segurando seu cabelo, entre as mãos, a massa de fios parecia pesada como sempre, e a reação “tentacular” dela foi quase mínima, como se estivessem muito lentos para corresponder.

— Nem sequer se moveu.

— Se ela receber um ataque assim, será um problemão.

— Ninguém pode saber disso. E definitivamente ela não pode estar em Konoha por um tempo. – Tsunade concluiu.

— Aonde podemos manda-la? Alguma aldeia?

— Não, por via das dúvidas, será melhor guardar segredo sobre esta condição em particular. Nas últimas semanas, ela tem conseguido ficar menos e menos ativa, receio que chegará um momento em que irá literalmente entrar num estado de hibernação, mas é apenas teoria.

— Onde devemos mantê-la então? Em Konoha há olhos para todos os lados. As pessoas notam quando ela está e mais ainda quando não está. – Naruto disse. — Ela é muito popular!

— Diremos que ela vai viajar, mas será melhor que ninguém saiba exatamente para onde. Deixemos as pessoas difundirem boatos. Ela poderá estar em Suna, Kumo, qualquer outro lugar.

— Mas o lugar que ela estará realmente...?

¤

— Não sei se é uma boa ideia. – Disse Karin. — De todas as pessoas?

Sasuke olhou para o embrulho que Juugo levava nas costas. Sakura dormia a mais de três horas, e teve que ser vestida pelas mulheres quase em meio a um cochilo. Agora parecia totalmente alheia enquanto era carregada dentro de um kimono e embolada numa grossa manta.

— A questão não é a pessoa. – Juugo disse. — Mas o lugar.

Eles finalmente pousaram. Apenas Juugo ficou sobre um galho, esperando que dessem sinal de que o terreno era seguro.

Uma vez em terra, depararam-se com uma entrada rochosa em forma de cabeça de serpente que se infiltrava através das montanhas mais à frente.

Orochimaru deixou seu covil acompanhado dos dois atuais ajudantes.

— Ora, mas que visita adorável. – Ele disse, em seu tom de serpente habitual.

— Sem delongas, afinal creio que Tsunade-sama tenha explicado bem o motivo da nossa vinda. – Karin disse.

— Claro, claro. Aproxime-se, Sasuke, não vou abocanhar sua preciosa Bijuu.

Sasuke evitou mandar-lhe um olhar cortante pois sabia que só lhe daria mais motivos para o aborrecer. Se aproximou portando Sakura. Orochimaru examinou-a sem se aproximar muito. Parecendo não querer repetir seu último encontro com ela.

— Interessante, interessante. Achei que já sabíamos tudo sobre como o chakra branco funcionava. Venham, já mandei Makaira preparar um bom lugar para nossa hóspede.

Eles o seguiram para dentro. Karin esperou todos entrarem pois não estava exatamente afim de ficar por lá. Suspirou seguiu para dentro. Percebendo que Makaira ainda estava lá, parecendo espera-la de braços cruzados e uma expressão arrogante.

— Parece que ser chutada como lixo não foi o bastante para abaixar este seu nariz, não é?

— Que está dizendo?

— Ora, sabe muito bem. Que Uchiha-sama jogou você fora assim que a queridinha dele retornou e agora você está sozinha, sem nome e ainda por cima como uma cambada de...

Karin pressionou suas costas na parede quando empurrou três agulhas envenenadas contra a jugular dela.

— Use essa língua de cobra para falar dos meus filhos e veja o que acontece. Então, você a nova adição do clube de fãs ignoradas pelo Sasuke-kun?

Makaira crispou os lábios com o rosto avermelhando de raiva.

Karin se afastou com um olhar de aviso e seguiu adiante, através dos tortuosos corredores subsolares e quase sempre iguais. Aquelas paredes talhadas com ondulações e iluminadas por tochas, o ar rarefeito e muitas vezes mofento ou com cheiro e sabor de sangue e medo. Nostalgia em sua forma mais desconfortável, diria.

— Brigando pelo Sasuke novamente? – A voz de Suigetsu quase a assustou.

Karin o fitou na meia luz. Havia observado que ele esteve calado durante a vinda até ali, mas como a sua relação nos últimos tempos vinha se resumindo a buscar Mangetsu na casa um do outro, não havia se incomodado.

Agora ele abria a boca para cuspir ironias no meio de um beco escuro.

— Já devia saber que não havia mudado tanto assim... – Ele diz, com um suspiro de quem fala “eu avisei” para si mesmo, que soou tão petulante que ela sentiu não apenas vontade de molhar a mão dando um soco nele. Mas de cozinha-lo até que evaporasse por completo de sua vida.

Será que se dissesse isso ele também diria que alternativa que necessitasse fogo para funcionar era só por causa de Sasuke.

— Sabe, Suigetsu? Dei-me conta de muitas coisas desde que eu e Sasuke nos separamos.

— O que já não era sem tempo?

— E que uma delas, sempre foi que, você nunca teve qualquer direito de opinar sobre a forma como eu agia ou o que sentia sobre Sasuke. Nem agora, nem muito antes de ficarmos juntos.

Sui afiou o olhar em sua direção e se desencostou da parede.

— Éramos o quê? Cobaias do Orochimaru num mesmo covil como esse? Órfãos de guerras que ninguém se importava, companheiros de equipe? Ainda assim, você nunca enfiou a porcaria dos seus comentários birrentos na vida do Juugo na mesma proporção. Diga a merda que quiser. – Cortou-o antes que ele tentasse rebater. — Que é um cara bonzinho tentando ajudar a aberração obcecada a se tocar, ou apenas aceite que foi coisa de um perdedor apaixonado. Mas ouça, não estou te dizendo isso porque me importo com o que pensa, mas porque não estou com saco pra ouvir sua merda mais. Eu não vivo mais em função de Sasuke, e nem dos nossos filhos. Talvez eu tenha demorado muito ou simplesmente entendido da maneira errada, mas... Eu sou uma pessoa. Eu vou viver tanto para o que considero importante, quanto para mim. Se você está bem com isso ou não, também não importa, só temos um filho juntos e ele é tão melhor que você quanto é melhor que eu, logo não precisará de nós e logo não estaremos ligados.

Ela seguiu através do corredor suspirando, apesar que mais sentisse como se voltasse a respirar.

— Entenda que não vou ficar obcecada por você só por não estar mais obcecada pelo Sasuke, e supere.

Karin chegou ao quarto, pouco depois Suigetsu e por fim Makaira. Não que Sasuke estivesse com pressa para ir, só não achava a melhor hora para se perder tempo visitando os velhos tempos.

O quarto em que estavam era realmente maior que o esperado. Ainda assim, Sasuke não poderia dizer que apreciava o ambiente em consideração a Sakura. As únicas luzes continuavam sendo as dos archotes, o cheiro de umidade ainda era pungente embora o local parecesse bem mais arejado graças a uma espécie de tubulação que levaria até fora, quase no cume da montanha pode onde um ar frio e com cheiro de floresta passava.

Quando posta na cama, Sakura não fez muito mais que se aconchegar contra um travesseiro e continuar dormindo. Ela parecia satisfeita desde que pudesse descansar. Logo Tsunade liberaria Shizune para que viesse estar aqui assistindo-a o tempo inteiro, e enquanto não acontecia, ela ficaria aqui sob a vigia de seu antigo sensei, por quem ele não podia dizer que sentia algo realmente positivo, e dois de seus orientados que tampouco eram de inspirar confiança.

Por fim, havia esse lugar, que o recordava tempos sombrios e solitários. Onde ele viveu para uma única escolha, escolhas que o afastaram de toda a luz e calor das pessoas que mais queriam seu bem. A agora, tinha que simplesmente deixar uma delas aqui e partir como se tivesse apena guardado algo para usar depois?

Mas, talvez o que mais o revoltasse não fosse a escolha do lugar, e sim, estar vetado a estar aqui, ao menos vigiando de perto, por culpa dos deveres que ele mesmo escolheu para si.

Alguém tinha que encontrar Shin, afinal, ou talvez isto nunca acabaria. Enquanto ele tranquilamente se livrava das próprias versões, também continuava a se multiplicar como uma maldita doença viral. E como toda planta daninha, você só acabava com ela, matando-a em seu cerne.

— Bem, parece que será uma tarefa bem fácil. – Orochimaru admitiu. — Três selos sob nosso domínio, tem que admitir que é um número que jamais achei que chegariam.

— Ainda existem quatro, na mão “dele”. – Karin recordou.

Sasuke apertou a colcha entre os dedos, instintivamente e fitou o rosto sossegado de Sakura.

— Ah, minha cara, acredite, as coisas estão melhore do que imaginam. – Orochimaru disse, com ar travesso até.

Eles se voltaram para ele, intrigados e não muito seguros.

— O que insinua?

— Pensem bem. São sete selos, quatro estão sob o domínio do inimigo, mas três estão sob o nosso. Se na pior das hipóteses ele resolver abrir o quarto selo, estará abrindo para si uma brecha enorme para a desvantagem.

— Desvantagem?

— Sim, até agora apesar dos apesares vocês têm conseguido refazer os selos abertos com eficiência e a Senbi até mesmo chegou a usá-los, não?

— Sim...

Recordaram da vez em que a represa arrebentou, um dia assustador e perigoso, mas o dia em que Sakura foi capaz de mostrar o que realmente levava dentro de si: uma feroz vontade de fogo para proteger os que amava.

— Agora se ponham no lugar do outro. Seria mesmo prudente desfazer o quarto selo havendo o risco de vocês o refazerem e assim ele perder o controle da maioria? Não, seria uma completa estupidez e o construtor desta “caixa”. – O sannin indicou Sakura. — Já se demonstrou muito mais hábil que isso, além de calculista.

— Significa que é um impasse. – Yamori comentou.

— Sim. Teoricamente seria mais vantajoso manter consigo o controle dos quatro selos, mas para quê? Qual o sentido de guardar tamanho tesouro e nunca acessá-lo mesmo tendo a chave?

— É como ter o baú, a chave, mas se abri-lo...- Suigetsu murmurou.

— Correção, é um baú com gavetas, e toda vez que ele abre uma, perde uma das chaves também. A não ser...

— Que ele recupere o baú também. – Makaira disse, com ar quase deliciado.

— Sim, sim. Não haverá sentindo em abrir qualquer selo se ele não tiver a garota sob seu domínio. A abertura do primeiro ou segundo selos, podem ter sido meras provocações ou uma forma de concluir parte de seu plano, que suspeito ser destruir Konoha ou qualquer vila no meio do caminho de Sakura. A partir de agora, o que ele vai querer não é implodir as vilas ou tornar sua adorada Senbi uma párea para as nações, querido Sasuke-kun... A partir de agora, todos os seus movimentos deverão ser para deliberadamente recuperar seu bauzinho.

— E se ele conseguir... – Sasuke disse, sua voz soou profunda e gelada como uma ameaça. Como pisar no fino gelo de um lago no inverno.

— Daí, ele não precisará se preocupar com os selos. Se três deles, um após o outro puseram esta garota na cama para bem ou mal. Quatro deles, de uma vez, podem e provavelmente vão fazê-la perder o controle como uma bonequinha de trapos.

“— Eu sou uma caixa... A caixa dele... Uma caixa...”

¤

— Ahhh, que saudade...

— Do que fala?

— Ora, do que mais seria?

Ergueu a pequena boneca de panos a qual, com seus olhos de botão pintados de preto e boca costurada, particularmente inspirava arrepios no outro.

— Da minha pequena caixinha... Da minha bela dama... Pergunto-me quando vou recuperá-la.

— Ah, sim... Acho que também gostaria... De voltar a brincar com ela.

¤

O inverno seguia se arrastando em Konoha quando Sasuke retornou para lá após uma quinzena de viagens incessantes, dentro e fora deste mundo.

Tão cansativo quanto vagar através das dimensões, era vaguear nos próprios pensamentos. Antigamente, haviam existido poucos momentos em que ele tivesse detestado a companhia de si mesmo como agora.

Como se a solidão imposta ou auto imposta conseguisse saturar a tal nível que ele poderia facilmente ir a loucura se não buscasse um único ser vivo que pudesse fazer algum som ao seu redor. Indicar que não estava sozinho. Que não era só ele e uma longa estrada inóspita seja qual fosse o lado que olhasse haveria somente ele.

Sasuke retornou à aldeia, as ruas pareciam ser de uma cidade fantasma, pouquíssimas pessoas arriscando sair em meio a nevasca que cobria as calçadas acima das janelas.

Ele foi à torre do Hokage apenas para descobrir que Naruto havia tido que ir visitar o Daimiô, e Hinata e Shikamaru eram os únicos cuidando das coisas por lá.

Entregando o relatório, ele visitou os filhos logo em seguida.

— Onde Shisui está? – Indagou enquanto segurava os gêmeos no colo. Não comentou sobre Mangetsu, pois não achava segredo onde ele estaria.

— Disse que foi comer no Ichiraku junto com os amigos. – Karin pousou uma travessa com comida fumegante sobre o kokatsu* e então inspirando ligeiramente cansada, o fitou e sorriu. — Olá! Como foi a viajem?

— O de sempre. Sentem direito. – Ele respondeu, pondo as crianças na mesa, elas alegremente se sentaram nas almofadas.

— Entendo... Bem, não quer comer? Ou prefere descansar? Pode dormir na cama do Shisui.

Sasuke achou a ideia tão tentadora quanto, de certa forma, parecia que vivia uma espécie de déjà vu. Este de repente pareceu um dos muitos dias em que chegava de uma missão era recebido pela família. Um dos muitos dias em Oto, dias em que ele achava possível se consolar com as escolhas que tomou.

Mas não era mais esses dias, tantas coisas aconteceram, tantas coisas mudaram, ele, as crianças, até Karin, muito mais vibrante e vivaz do que jamais esteve.

E Sakura... Que ainda dormia.

Olhou para o nada, perdido em pensamentos e refreando a pequena e crescente ansiedade.

Karin olhou para seu rosto e logo voltou a sorrir.

— Se queria tanto assim vê-la, como não o fez antes?

Sasuke jogou o olhar para ela, os olhos quase arregalados como de quem se depara com uma bruxa leitora de mentes.

— Eu... Vim por outra rota...

— Entendo. Bem, nada mudou desde que teve que sair. Shizune-dono está lá com ela, e Orochimaru e suas cobras parecem estar se comportando. Então, acha que pode sentar e comer antes de ir?

— Papa! Vai visitar a Sakura-chan? Eu posso ir? – Sakuya disse. Sasuke tirou a capa, e então se sentou junto dos filhos. Karin trouxe mais tigelas e ofereceu uma ele.

— Não é uma boa hora para crianças visitarem, mas trarei notícias. Se ela estiver acordada, posso lhe passar alguma novidade?

— Sim! Eu aprendi a lançar kunais hoje! – Izuna declarou. — E Sakuya quase espetou o sensei!

— Mentiroso!

— Estão chamando ela de “matadora de senseis”!

— Hm? – Sasuke franziu a testa, Sakuya parecia que mataria o irmão o que de certa forma tornava crível a história deste. Karin gargalhou e revirou os olhos.

— Chega vocês dois.

— Temos mesmo que deixar um parte para o Shisui? Ele já foi comer mesmo...

— Ele vive indo se divertir com os amigos dele...

— E vocês não têm os seus? – Sasuke disse.

A discussão seguiu durante todo a refeição. Com o dia mais curto, e crianças que pareciam não se dar conta da passagem do tempo, Sasuke acabou ficando até o anoitecer. Quando Karin o chamou, ele dormia a um bom tempo na cama de Izuna após passar horas vendo ele e Sakuya brincarem ou mostrarem seus avanços na parte teórica da academia.

Despertou grogue e desorientado.

— Já está tarde, você já vai mesmo de noite?

— Eu... – Esfregando os olhos, ele suspirou. — Acho que sim. Shisui?

— Ah, está no quarto.

— Então partirei depois.

Ela concordou e foi mandar os gêmeos para o banho. Sasuke foi ao quarto do filho e bateu na porta entreaberta antes de entrar.

— Parece tudo bem por aqui?

Shisui se levantou e foi até ele, abraçando-o. Era um menino de pouca demonstração afetuosa, mas o fazia sempre que achava necessário, e não havia deixado isto para trás mesmo nesta fase conhecida como ser a mais conturbada.

— Sim. – Ele disse, arrumando os óculos. — Vai ficar pouco tempo?

— Não foi decidido. Ainda pretendo avaliar os resultados da última missão junto com o Nanadaime.

— Vai visitar Sakura-san?

Aa. Gostaria de mandar algo?

— Hm...- Shisui se afastou e seguiu até a escrivaninha. Abriu a gaveta e tirou dele uma espécie de aparelho. Era pequeno, oval, de plástico seco e rosa escuro, e tinha uma corda rosa claro e algumas teclas. — Pode dar isso a ela?

Sasuke arqueou a sobrancelha, não querendo admitir que não fazia ideia de que tipo de apetrecho as crianças usavam hoje em dia.

— Isto...?

— É um rádio comunicador, era de curto alcance mas Shikadai conseguiu modificar todos eles e agora, mesmo que estejamos bem longe da aldeia podemos nos falar.

— Um alcance deste nível em um brinquedo? – Sasuke questionou, sentindo a veia paterna apitar – com Shisui, como raramente acontecia. — Suponho que ele não tenha informado isto a nenhum adulto.

— Bem, era apenas para ser mais divertido, é melhor que o telefone, já que nossas mães usam o tempo todo. Sem falar que não tem custo além das baterias.

— E querem dar um à Sakura...?

— Todos temos um. – Shisui sacou o dele, azul e branco. — Facilita quando queremos nos encontrar. Shikadai disse que funciona numa frequência diferente dos usados pelos ninjas...

— Inclusive os ANBU? – Shisui se limitou a arrumar os óculos sobre o nariz.

— Hm. Apenas achamos que se, Sakura-san quiser falar com outras pessoas, poderia usar este. Vocês disseram que ela não está muito longe da aldeia, talvez posa funcionar de lá?

Sasuke já tinha entendido o suficiente. Eles só queriam notícias tanto quanto ele próprio.

— Isto é... Se ela estiver acordada...

— Terei certeza de que ela o terá. E sei que ficará muito feliz. Espero que dê certo.

— Vai ficar de guarda lá? – Sasuke suspirou, guardando o brinquedo dentro da bolsa de shuriken.

— Vou ver como tudo está. Embora tenham me dito que parece tudo sob controle. Então eu devo voltar em um dia. Espero que com novidades.

— Nós também.

— Nossa, nunca ouvi vocês dois falarem tanto. – Karin disse, quase os assustando, ela riu da porta, e se afastou. — O banho está pronto, filho, vá antes que a água esfrie.

Aa.

— Lavei sua capa, Sasuke, já está seca, também tem um lanche, e uma coisa que Shizune me pediu.

Aa.

Ainda ouviram Karin rir, se entreolharam se perguntando se sempre eram assim tão engraçados para ela.

Sasuke se despediu do filho, dos outros dois, e pegou a capa. Fora isso havia um pequeno bentô e um envelope.

Ele suspirou, sentindo-se uma espécie de garoto de recados.

Deixou a vila, apressando o passo tanto pela ansiedade quanto pelo frio mortal. O perigo estava por todos os lados. Desde possíveis companhias desagradáveis até a umidade dos galhos secos recobertos de neve em que pisava.

Sasuke chegou ao covil durante a madrugada. Aproximando-se da entrada. Yamori surgiu, o fitando com o feroz e atento olhar de um cão de guarda. Se limitou a bufar e das as costas.

Sasuke o seguiu até certo ponto, de onde se desviou em direção a onde Sakura deveria ainda estar instalada.

Vagou pelos corredores ainda mais frios e úmidos e de repente parou. Olhou para um longo corredor e quase no fim dele, notou uma silhueta baixa, o encarando de volta.

— Você... – Concluiu, a figura deu as costas e saiu correndo, Sasuke ainda viu o brilho de uma cordinha azul céu em seu pescoço.

Ele meneou a cabeça e seguiu caminho. Bateu na porta e ouviu a voz de Shizune em seguida.

— Entre.

O fez e a primeira coisa para qual olhou foi para a cama. Sakura dormia de costas para a porta, não usava mais o kimono, mas o que parecia ser um vestido preto e confortável e uma camisa branca por baixo. Seu longo cabelo parecia da mesma forma, tão pesado e lento que mal se notava os leves espasmos. Também estava todo trançado, o que ele estranhou, e fitou Shizune quando ela veio do banheiro. Assim com Makaira que estava sentada numa banqueta, lixando as unhas com uma careta entediada.

— Porque desta forma? – Indagou. — Até onde sei, ela detesta quando estão restringidos.

Shizune piscou, surpresa com a interrogação repentina.

— Ah...? Oh, refere-se ao cabelo? Tivemos um pequeno incidente, então...

— Incidente?

— Ela quase morreu. – Makaira cuspiu, deliciada, e seguiu para fora balançando os quadris como se quisesse quebra-los. Sasuke encarou Shizune.

Que com ar tenso, levou a bandeja cheia de terra que segurava até a mesa de cabeceira.

— O que aconteceu?

— Bem. Você entende o mecanismo, certo? Dos cabelos? – Ela começou, cruzando os braços antes de se sentar na beirada da cama. — Eles são altamente resistentes e responsivos. Acontece que o estado de agora é como uma dormência. – Shizune tocou a trança, Sasuke se aproximou, encarando os fios mais de perto e vendo eles se remexerem lentamente como longas serpentes presas numa trança a tentar se libertarem. Apenas gostou menos de ver. — Eles continuam instintivamente tentando defender Sakura, ela também se mexe com frequência enquanto dorme, aconteceu que eu não fazia muito além de verifica-la em duas ou três horas. Quando voltei, ela estava se sufocando presa no próprio cabelo.

— Ele geralmente se recolhe para não atrapalhar ela...

— Sim. Mas creio que o mecanismo não funcione com ela dormindo, apenas o de autoproteção. Então decidimos trança-lo para que ela possa dormir sem mais acidentes.

— Isto foi a quanto tempo?

— Hum, umas duas semanas, mas não se preocupe, ela também não apreciou muito, mas entendeu e estava com sono demais para reclamar. Ela desperta, come algo, vai ao banheiro, reclama do lugar e volta a dormir.

Ele já sabia que Sakura destetara o lugar, mas ela não fez nenhuma grande confusão, nada que Sasuke pudesse usar como desculpa para tirá-la de lá.

— Tsunade-sama pretende programar uma nova bateria de exames, já fazem dois meses que ela está nesta situação.

— Sim, seria o melhor mesmo. – Ele se abaixou perto da cama, e olhou para o ombro dela e a orelha, a lenta respiração que fazia o corpo se encolher ligeiramente.

— Nossa maior preocupação era que a falta de alimento e inanição afetasse sua saúde, Mesmo ela tendo chego ao redor de dormir por cinco dias inteiros, parece que o chakra a está mantendo bem.

— Cinco dias?

— Sabendo que ela pode fazer isto ou mais, decidimos obriga-la a acordar a cada vinte e quatro horas. Uma pena, se tivesse chego mais cedo, a veria desperta. Ela louca para conversar, Makaira só vem aqui quando ela dorme.

— Orochimaru?

— Ele vem dar uma olhada vez ou outra, mas está ocupado com outra coisa. – Shizune indicou a porta, Sasuke mirou-a e viu baixa silhueta fazendo menção de fugir. Imediatamente sacou o rádio de brinquedo do bolso pela corda e ergueu.

O garoto parou, e observando mais, finalmente entrou se aproximou diante a luz. Chegou perto e tocou o objeto, e então, com seu pequeno sorriso que parecia pintado ali de tão imóvel bem como os olhos abertos, puxou outro brinquedo azul celeste de dentro da roupa.

— Imaginei. – Sasuke concluiu, e pôs o brinquedo sobre o criado. — Encarregue-se de ensiná-la a usá-lo bem, há muitas pessoas querendo conversar.

Ele assentiu.

— Eu teria trago, mas ainda não estava pronto.

— Certo... Aliás. – Sasuke encarou bem aqueles olhos âmbar com fendas de serpente no centro e perguntou. — Qual o seu nome mesmo?

O garoto sorriu, parecendo até lisonjeado, mas parecia apenas mais semelhante a um antigo sensei de Sasuke.

— Mitsuki.

¤

— Você disse que estava com saudades. Achei que faria alguma coisa...

Ele sorriu, mais consigo mesmo ou para aquela boneca. Aborrecido o colega deu as costas e bateu a porta, deixando-o exatamente como gostava, na escuridão.

Ele apalpou a boneca até tirá-la do bolso e ficou cantarolando para ela em meio a eterna noite sob a terra.

— Minha bela dama... Já está na hora de voltar, porém... Antes disso, devemos cuidar para que enxergue... Exatamente o que deve enxergar... Apenas a escuridão.

¤

A trança inflou como um balão, como se tinta negra se derramasse através das mechas, se desfez, os cabelos soltaram-se e rapidamente começaram a encher a sala.

Sasuke e Shizune invadiram o quarto, consternados com a vibração do chakra de Sakura que parecia se somar a todo o ambiente, inclusive suas peles.

Shizune deixou o saquinho de sementes que Karin lhe havia enviado cair no chão e ele só conseguiu ficar parado, olhando para aquilo.

O cabelo de Sakura se expandia, enchendo metade da sala, subindo pelas paredes como de repente houvesse um portal ali, direto para a mais profunda escuridão, a cama e o criado desapareceram e ele chegou a achar que ela também, quando ela surgiu dentre o mar de fios, sentada, se levantando e então se voltando para eles.

Seus orbes completamente escuros, a face mergulhada num torpor obscuro, os braços caídos ao lado do corpo.

— Sakura...?

Ela quase pareceu mirá-los, os cabelos parecendo inchar cada vez mais ao ponto das paredes e do teto começarem a criar rachaduras.

— O que está...?! – Makaira ficou muda ao chegar à porta, Yamori segurou a espada que levava nas costas, mas foi parado por ninguém menos que Kakashi.

— Nenhum. Movimento. Brusco.

— Sakura... – Sasuke chamou. — É você?

Ela voltou-se para ele.

Eu. Eu? Eu, Haruno Sakura, deze-...

Sakura piscou, seus olhos abriram-se verdes em orbes brancos novamente, e o rosa escuro e vivo nasceu na raiz de seus cabelos descendo para engolir a escuridão neles, tão rápido que de repente, parecia que havia sido uma alucinação. Os cabelos caíram contra o chão, movendo-se de forma calma outra vez.

Sakura sorriu e juntou as mãos, com ar curioso, virando um pouco a cabeça para ouvir.

— Hm?

— Sakura...? – Shizune balbuciou, aproximando-se dela, insegura.

— Shizune! Que bom que está aqui, podemos ir comer? Sasuke-kun e Kakashi-sensei vieram me ver?!

Sasuke se aproximou dela e o tocou seu braço, ela o abraçou forte, com uma risada feliz.

Ele segurou uma porção de seu cabelo na mão, e nada mais sentiu que o habitual.

Porém só conseguia pensar que aquilo estava lá, pois agora também estava marcado em sua mente, e na das pessoas ali.

— Sakura...? Como se sente?

— Ah...- Sakura ecoou, com ar feliz. — Melhor do que nunca! Quando posso voltar para casa?!

Kokatsu*: Mesa com um aquecedor embutido, muito utilizado nas estações frias do ano.

Notas finais
pós-créditos*: o capítulo de hoje foi um oferecimento de: The Walt Disney Company (Sim estou sonhando) Quem sacou a referência sacou, que não sacou, é bom que fica ~misterioso~ Enfim, PRONTAS PRA ERA DARK DE LI? EU TO PRONTÍSSIMA MEU AMOR. Coisas que eu amey neste cap e vou ressaltar: — KARIN jantando Makaira e Suigetsu só na base do verbo. Meu anjo evoluído ♥ — Sasuke com aquela baita saudade da crush e dos pimpolho. — Meu Team crianças tá vivíssimo e Mitsuki chegou pra a-b-a-l-a-r (na vdd ele já estava (?)) — Shins, seu fim está próximo, mas bem que podiam economizar o esforço e se auto explodirem. — Sakura toda trabalhada em: 1. Meter o terror da forma mais fofinha (inspired by baby Yoda (?)) e, 2: "Wither and decay End this destiny Break these earthly chains And set the spirit free" OKAY, se ninguém sacar a referência agora, apenas finja que bebeu demais no Natal. ATÉ A PRÓXIMA, FELIZ ANO NOVO E FELIZ NATAL OUTRA VEZ. ANO QUE VEM TAMO JUNTO DE NOVO MESMO QUE SOB TORTURA. PS: Fãs de Vingador, calmem as pregas pq que a próxima blitz de atualização vai ser lá! PS2: A blitz ainda vai passar em outra fanfic, qual a aposta de vocês?