Lost Blue
9 Capítulo 9 - Decisão
Notas iniciais
Tudo o que Aquantis queria era voltar para Trey.
Logo que acordou naquela manhã, levou um susto quando sua boca foi abafada por mãos enluvadas antes que ele gritasse. Lá estava o Dr. Straus e mais três enfermeiros grandes, todos muito bem uniformizados de branco.
— Fique calmo, Aquantis. Seja obediente e se deite na maca, vamos levá-lo para fazer os seus exames. — O Dr. de barbicha ruiva e semblante malicioso lhe disse calmamente.
Um frio subiu pela espinha de Aqua, definindo o quanto estava com medo. Mas sabia que se tentasse algo contra eles, seria castigado da pior forma, então aceitou a ajuda e deixou sua cama para se deitar na maca que estava ao lado. Seu cabelo foi acariciado por um dos enfermeiros como se fosse acalmá-lo. Ele os conhecia, estes mesmos homens cruéis que sempre ajudavam nas experiências com ele.
— O-O que vão fazer comigo? — Perguntou enquanto a maca começou a se mover para fora do quarto. A porta pesada de aço de Ultrônion fez um baque quando se fechou.
— Não se preocupe, menino Blue, nós vamos ser cuidadosos. Você não sentirá absolutamente nada. — Ele lhe deu o sorriso mais sarcástico possível. Aqua poderia vomitar pelo seu nervosismo.
As luzes dos corredores poderiam cegá-lo, aquele lugar parecia um labirinto. Alguns cientistas que estavam discutindo olharam para ele com interesse, e cada ser que encontraram no caminho lhe dava esse mesmo olhar.
— Veja, nós chegamos. Vai ser rápido, você nem vai sentir. — O doutor prometeu, mas Aqua não estava nada confiante.
Eles entraram em uma sala que já conhecia, não esteve muitas vezes, então poderia contar nos dedos, contudo era o lugar onde mais gostaria de evitar.
— Não! Tudo, menos aqui! — Ralhou tentando se mover para fora da maca, mas os enfermeiros seguraram seus membros e o colocaram para baixo de volta no acolchoado.
— Fique quieto. — Straus não lhe deu um olhar de simpatia. — Prendam-no na mesa de cirurgia.
Aquantis arregalou os olhos, a força dos enfermeiros era muito maior do que a dele e não conseguia escapar de suas mãos. Ele foi arrancado da maca para ser posto na mesa plana de cirurgia. O acolchoado poderia ser macio, mas o frio em sua espinha estava fornecendo agulhadas dolorosas por todo o corpo, sua pele esfriando muitos graus abaixo do normal.
— Não! Eu não quero passar por isso! De novo não! — Seus gritos ecoaram no silêncio da sala.
Seus pulsos e tornozelos foram firmemente presos em cintas especiais, evitando qualquer movimento, e sua cabeça foi puxada para seu lado direito, deixando seu pescoço vulnerável. Sabia muito bem o que viria a seguir, e isso o fez congelar, o ar mal conseguindo encontrar o caminho para seus pulmões.
Quando Straus trocou suas luvas e passou a preparar uma seringa de agulha grossa, um enfermeiro colocou uma máscara de oxigênio em seu rosto. Se antes ele gritava por socorro a qualquer grande divindade que poderia existir, hoje estava gritando por Trey. Seu melhor amigo no universo inteiro. Seus olhos se encheram de lágrimas pelo desespero, nunca antes quis tanto a sua liberdade, talvez ter estado longe durante todo aquele tempo foi um erro. Não, voltar tinha sido um erro, deveria ter fugido enquanto teve chance.
Respire…
Seus olhos perderam o foco quando tentou se acalmar ao pensar em Trey, nos cabelos negros e suas madeixas rebeldes. Seus olhos dourados que sempre o refletiram com carinho. Quando ele conversou consigo enquanto não podia dizer sequer uma palavra por estar tão fraco. E quando ele lhe mostrou o universo pela primeira vez em sua vida.
Cada momento em que estiveram juntos, Aqua nunca iria esquecer.
Os amigos dele também foram geniais, era de se esperar que eles confiavam tanto um no outro. Zack tinha sido tão gentil e Austin tinha o alimentado com guloseimas que antes nunca tinha experimentado. Sentiu muita falta de Dominic também, eles não se conheciam tão bem, mas estavam iniciando uma amizade, que se pudesse, iria transformá-la em algo grandioso.
Eu deveria ter aproveitado melhor quando pude… quero tanto voltar. Quero tudo isso de novo.
Mesmo que ele fosse sequestrado e tivesse todo aquele sofrimento novamente, ele iria, para poder acordar na nave Imperatriz e ver seus novos amigos. Principalmente que Trey pudesse dormir ao seu lado e conversar com ele enquanto se recuperava, ocupando-o com as histórias mais sensacionais de suas aventuras como comandante, de seus comentários sobre tudo e todos.
O frio da agulha espetou seu pescoço e Aquantis sentiu-se tão sonolento até fechar os olhos com a imagem de Trey em sua mente, e em seguida tudo se tornar trevas.
—*-*-
— Sully, este é o Capitão Trey Scarlet, dono da nave Imperatriz. — Morgana apresentou-o ao novo cara que estava hospedado na casa dela com uma nave tombada na parte dos fundos.
Trey recebeu um aperto de mão.
— É um prazer. — Disse o rapaz que tinha curiosos cabelos rosa-salmão e olhos que o lembraram muito os de Aquantis, verde-água, grandes e brilhantes.
— Igualmente. — Disse Trey.
— Então quer dizer que você foi atrapado por uma das ondas? — Zack comentou para Sully com humor. — Diariamente acontecem acidentes naquela praia. Sempre que vem turistas de fora e não estão informados, ou mesmo algum habitante que é pego de surpresa.
— Eu pensei que tivesse horário para aquelas ondas surgirem. — Sully parecia surpreso.
— Sim, na maioria dos dias, sim. — Respondeu Morgana. — Mas as vezes acontece de elas surgirem do nada e nos pegar de surpresa.
— E quanto a natureza na região? Não há sinais de devastação!
— Isso porque as árvores e plantas do litoral são consideradas umas das mais fortes em toda a galáxia. Não há onda que as derrubem. — Zack deu risada.
E enquanto eles conversavam, Trey não conseguiu continuar prestando a devida atenção. Estavam todos reunidos na grande sala de estar da casa da mãe de Zack, e pareciam estar se divertindo, até mesmo Dominic tinha aceitado vir com eles, mesmo que em sua forma pequenina.
Mas o único que não estava se divertindo ali era Trey. Já fazia dias desde que Aquantis tinha voltado para a Federação, e o comandante da Imperatriz não conseguia tirá-lo da cabeça.
Seu sorriso, seu olhar doce… a lembrança de quando ele veio lhe pedir para dormir em sua cama, que foi impossível recusar. Trey tinha o assistido dormir, e de alguma forma seu coração fisgou ainda pior com a aproximação deles.
Queria vê-lo, desesperadamente queria.
Só o fato de saber que Aqua estaria sendo forçado a realizar exames dos quais não tinha conhecimento algum, Trey queria destruir aquela merda de lugar, levar tudo abaixo e ter Aquantis consigo mais uma vez, mesmo que tivessem que fugir para além do Universo conhecido, onde a Federação jamais iria encontrá-los.
Céus, ele já estava pensando em fugir com o menino Blue? É, realmente não estava bem.
— Trey? — Austin olhou para ele com um sorriso estranho. — Você está bem?
Trey apenas assentiu com a cabeça.
— Eu vou sair e dar um telefonema. Já volto.
Sabia que os olhares dos demais caíram sobre suas costas, mas não se importou. Precisava saber de Aquantis, queria notícias. E se não estava autorizado a entrar e verificar por si mesmo, precisaria da ajuda de seu pai. Seu velho precisava fazer isso por ele.
—*-*-
— O que há com ele? — Morgana perguntou curiosa para Zachary.
— Está de coração partido. — Zack se expressou dramaticamente. Austin e os demais riram.
— Isso é sério? Que surpresa! — Ela parecia verdadeiramente de boca aberta. — Não me diga que é mesmo por aquela criança?
— Sim. — Austin lhe deu um sorriso triste e Zack abaixou a cabeça, dando atenção a Dominic que estava sentado sobre o seu joelho. — Parece que ele realmente gostou do menino.
— Mas ele parece tão novo! — Morgana olhou em Sully que parecia curioso. — Trey e os meninos tiveram que trabalhar em uma missão para a Federação há cerca de um mês. Eles resgataram um menino Blue que tinha sido sequestrado do laboratório secreto. — Sully tinha os olhos arregalados e engoliu em seco. — Eles tiveram que cuidar do garoto e escondê-lo por todo esse tempo. E parece que o capitão se apegou a ele de verdade. Conheço Trey desde que era uma criança, e esta é a primeira vez em que eu o vejo abalado desse jeito.
Morgana, como sempre, estava curiosa por Trey. Contudo, ver Austin e Zack com aqueles semblantes, foi um pouco assustador. Eles não estavam nada felizes.
— Bem, nós rimos de Trey o tempo todo… — Começou Zack. — Mas jamais riríamos de Aquantis. Ele passou por tanta coisa, e ainda há muito que nós não sabemos. Acho que a atenção que nosso comandante deu a ele lhe fez muito bem. Mas foi triste vê-los se despedir. Sabe… Aqua já estava quase fazendo parte da tripulação.
Assentindo cuidadosamente, Morgana lhe deu um pequeno sorriso, mas nada disse. Esperava que Trey não brincasse com os sentimentos do garoto. O comandante parecia sério, mas o conhecia, ele poderia trocar alguém da mesma maneira que trocava de sapatos.
—*-*-
Jack soltou um longo suspiro, dando uma pausa com o amontoado de documentos sobre a mesa. Estava cansado dessa vida, desse trabalho e de sua mente lhe perturbando. Simplesmente não conseguia esquecer aquela noite em que esteve com Kayllon, muito menos a confissão, e agora o fato de que ele estava grávido. A mistura de tudo isso lhe dava dores de cabeça.
Enquanto observava através da imensa janela do escritório, ainda sentado em sua poltrona de couro, seu comunicador apitou e ele apenas clicou sobre o dispositivo na orelha.
— Oi, pai. — A voz de Trey flutuou até ele.
— Filho, aconteceu algo? — Perguntou gentilmente. Normalmente Trey não gostava de ligações, era mais Jack quem se comunicava primeiro.
— Bem… estamos na casa de Morgana. Ela nos chamou para ajudar a consertar a nave que colidiu contra a casa dela. Mas, não é sobre isso que eu te liguei.
— Hum. — Jack tinha um leve palpite. Trey parecia desanimado. — Fale comigo, o que está te incomodando, filho?
— Pai, você… tem notícias de Aquantis? — A voz de Trey foi baixa e hesitante.
Jack escondeu sua surpresa. Para seu filho estar se incomodando por alguém da forma como estava fazendo… isso não era nada comum. Era óbvio que estava nutrindo sentimentos pelo garoto Blue.
— Sem notícias. Você sabe como aquele garoto é mantido a sete chaves. Ele é um segredo Universal, jamais que iriam me dar notícias dele.
— Mas você é o general, quem me colocou nessa missão.
— General é apenas um rótulo. A única coisa que faço aqui é trabalhar com malditos papéis e comandar pela internet. — Jack respondeu enquanto revirava os olhos.
— Pai, você é o único que pode descobrir para mim o que estão fazendo com Aquantis… — Trey quase soou desesperado. — Eu jamais poderei entrar e vê-lo, mas você pode colher informações para mim, ao menos saber do que seus exames se tratam.
— Está preocupado com os exames? — Jack engoliu em seco.
— É claro! Você os conhece, eu sei quem são eles… só podem estar maltratando ele para descobrir onde está Lost Blue e usá-lo para experiências malditas. Quando ele tinha sido sequestrado, foi a mesma coisa, uma facção que queria descobrir as mesmas informações, mas tinham meios muito mais dolorosos do que a Federação. — Trey parecia desabafar sua injúria. — Ele estava melhorando, pai… eu o vi se curar pouco a pouco de todo o ocorrido, minha mente não consegue parar de me perturbar por isso, é como se eu fosse responsável por ele! Não posso suportar!
Jack assentiu com a cabeça, mesmo sabendo que ninguém veria. Compreendia os sentimentos de seu filho, ele não estava falando de sua mente perturbando-o, mas de seu coração ditando o que ele tinha que fazer, isso explicava esse comportamento.
— Sim, você tem razão. Estes exames… — Jack fez uma pausa. — São experiências de um doutor e sua equipe que vieram de outra galáxia. Eles tem métodos muito mais progressivos do que os próprios técnicos da Federação.
O silêncio de Trey foi o caos para Jack. A mensagem estava penetrando na mente de seu filho, e Jack sentiu a si mesmo afundar.
— Eles deram duas semanas…
— Eu preciso saber dele. — Trey murmurou. — Preciso vê-lo.
— O que você pretende?
— Preciso falar com você, pai, mas apenas quando você estiver em casa. Eu sei o que faremos.
Jack estava com medo. Trey provavelmente iria fazer uma besteira.
— Olha, filho… não vá se meter em problemas.
— O que eu tenho para te dizer é muito sério. Mas antes disso, preciso ter uma reunião com meu pessoal. Por favor, tente descobrir como Aquantis está.
Frustrado com aquele assunto, Jack não teve escolha senão aceitar. Ele só não fazia ideia de como conseguir isso. Esperava que Trey não fosse cego pelo coração e pensasse sabiamente no que iria fazer.
—*-*-
Austin fechou a porta atrás de si e olhou para Trey. Seu amigo estava sentado a beira da cama, braços inclinados sobre os joelhos e cabeça baixa. Ele não parecia bem desde a saída de Aquantis, e compreendia a forma como devia estar se sentindo. Contudo, não sabia a maneira certa de ajudá-lo.
— Eu também estou preocupado. — Comentou em um baixo volume de voz quando se sentou ao lado de seu comandante.
Trey ergueu a face e olhou para ele, um pequeno sorriso brotou em seus lábios.
— Ele era apenas trabalho. Já tivemos missões de resgate antes, e esta é a primeira vez que me sinto assim.
Austin assentiu.
— Ele se tornou especial para você. — Foi uma afirmação.
Trey arregalou um pouco os olhos e engoliu em seco.
— Sim.
— Bom. — Austin sorriu para si mesmo.
— Como isso é bom? — Perguntou indignado. — Graças a esses sentimentos, minha vontade agora é invadir a merda da Federação e fugir com ele. Isso não é bom!
— Isso é o natural para se sentir. — Austin quase revirou os olhos. — Você gosta dele, quer resgatá-lo, protegê-lo. É assim que as coisas são.
Seu comandante mordeu o lábio inferior e parecia frustrado.
— O que vamos fazer? — Ele perguntou, sua voz quase soando desesperada.
— Não sou eu quem deve dizer isto, mas seu estrategista.
— Eu estou aqui. — A voz de Zack os surpreendeu e ambos sorriram para o hacker inteligente. — Trey, precisa estar ciente que se invadir a Federação, teremos que levar seu pai conosco. Seremos os piores fugitivos da Galáxia.
Trey assentiu, e seu semblante que normalmente era decidido, estava mostrando sua fragilidade. Ele parecia perdido em qual decisão melhor tomar.
— O problema… é que não sei se vale a pena o risco. Não quero colocar a vida de vocês em perigo, ou a do meu pai. Kayllon e Morgana também correrão perigo se nós enfrentarmos a nave-mãe. Isso é muito perigoso.
Austin assentiu, assim como Zack. Era um risco gigantesco. Mas, como piloto e melhor amigo deles, estava disposto a enfrentar todos os desafios que vierem em seu caminho.
Levantou-se.
— Eu vou conversar com Morgana. Mas saiba que onde quer que você vá, Trey, estou contigo. Esta é a minha decisão.
O olhar que seu comandante lhe deu foi emocionante, poderia jurar que tinha visto lágrimas se formarem nos cantos de seus olhos.
— Estou com Austin. Nós somos uma equipe, se lembra? Nunca abandonar é nossa política. Então, tenho certeza que vão precisar de mim. Aquantis se tornou um dos nossos, então não vamos abandoná-lo.
Trey lhes deu um sorriso, e toda a vulnerabilidade de sua face foi substituída por convicção.
— Vamos conversar com Morgana.
—*-*-
Trey sentou-se na poltrona da sala de estar da casa de Morgana, assim como todos os demais sentaram-se nos sofás e puffs. A tela de plasma gigante foi ligada e a conexão com Jack Scarlet, estabelecida. Já era tarde da noite e era possível se ouvir de fora a força das ondas gigantes batendo sobre a vegetação litorânea.
Seu pai estava sério na tela de vídeo, provavelmente receoso com os planos de Trey. Não que isso já não tivesse se repetido antes. A nave Imperatriz já participou de tantas missões perigosas que era um milagre dizer que estavam todos inteiros e bem vivos.
Todavia, para Trey, essa missão que ele mesmo estava criando, parecia uma das mais complicadas de sua vida. E tudo isso, porque estava conectado diretamente com o seu coração.
Queria se jogar de um penhasco a ter que admitir isso em voz alta.
— Estive pensando durante todo o dia o que diabos está planejando, Trey. Espero que não venha a nos prejudicar.
— Infelizmente, pai, vai nos prejudicar diretamente. Mas não posso fazer nada sem o seu consentimento e dos demais. Seria muito perigoso.
Morgana se remexeu desconfortável no sofá.
— Jack, tem notícias do garoto? — Ela parecia a mais preocupada ali. Afinal, ela nunca antes tinha participado de uma missão.
— Sim, são poucas, no entanto. — Ele olhou para alguns papéis em suas mãos. — Eu tive muito trabalho para entrar naquele setor, está quase tudo bloqueado, mas consegui ver Aquantis através do vidro. Você tinha razão, Trey, estão usando ele para fazer testes de energia e gravidade. Prenderam ele em uma espécie de aquário.
As mãos de Trey se fecharam em punhos, revoltado com a descoberta. Já estava preparado para o pior, porém mesmo que tomasse uma decisão, tinha um grupo de pessoas envolvido consigo que tinham que estar de acordo com o perigo. Seu pai era um deles.
— Pai, o que acha de abandonar o seu trabalho como general e se tornar um tripulante da nave Imperatriz?
Continua...
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