Lost Blue

8 Capítulo 8 – Sem escapatória


Notas iniciais
Não acredito que demorei tanto para postar... me desculpem! Mas enfim, com toda essa coisa de Natal e Ano novo, isso me deixou bastante ocupada, agora é voltar a ativa novamente o/ Nada melhor que um novo capítulo para adoçar a vida de vocês ♥ eu espero neh hahahaha Espero que gostem! Boa leitura!

— Dominic, não chore. — Zack dizia, angustiado por ver o saturniano caído sobre o criado mudo, em uma poça de lágrimas.

— Ma-mas… Aquantis se foi. — Ele choramingou entre soluços. — Ele nem mesmo se despediu de mim.

Zack suspirou e se sentou na cama.

— Na verdade ele não quis se despedir de ninguém. Trey achou melhor nós o respeitarmos.

Dominic fungou e então sentou-se sobre as pernas, enxugando suas lágrimas.

— Espero que ao menos ele fique bem.

— É como eu te disse. O veremos novamente daqui duas semanas, até lá teremos que nos manter por perto.

O pequeno saturniano assentiu. Zack não resistiu em pegá-lo em suas mãos e o trazer até o peito. Dominic rapidamente se aferrou a ele.

Durante o tempo em que eles estiveram juntos, Dominic se tornou muito mais que um amigo para Zachary, embora ele não tivesse coragem de dizer algo sobre isso. Apenas gostaria que o pequeno saturniano sentisse o mesmo, mas tinha lá suas dúvidas.

Desde que Dominic tinha chegado à nave, ele não tinha se transformado nenhuma vez em seu tamanho humano. Embora Zack também amasse vê-lo tão pequenino, tinha que admitir que gostaria de vê-lo cara a cara.

Zack passou levemente os dedos sobre as costas de Dominic, percebendo um certo arrepio percorrer o corpo pequeno. Ele o olhou desde cima e alisou os cabelos macios.

— Você me disse que poderia ficar do nosso tamanho. Por que não tenta agora?

Dominic olhou para ele com surpresa.

— Eu tenho vergonha…

— Mas por quê? Se confia em mim, não precisa ter vergonha. — Disse amavelmente.

Estudou o garoto por um tempo até Dominic assentir com a cabeça.

— Mas você tem que me prometer que não irá zombar da minha forma.

Zachary sorriu e ergueu uma mão.

— Eu prometo.

Isso pareceu deixar o saturniano mais corajoso.

Zack o colocou sobre a cama e o viu tirar suas roupas, ele sabia que tinha que desviar os olhos, porém continuou a assisti-lo de rabo de olho.

Sentia-se estranho por gostar de Dominic um pouco mais do que deveria como amigo. Isso não tinha como negar. Ele não era um tolo se perguntando que tipo de sentimentos eram esses, no entanto, para alguém que se julgava exclusivamente hetero, era realmente estranho de repente ver Dominic da forma que o via. Ainda mais daquele tamanho tão pequeno.

O saturniano pareceu não perceber que ele estava olhando-o retirar as roupas, ou talvez não se importasse. Não, tímido como era, simplesmente não tinha percebido.

Quando estava nu, ele se sentou e abraçou as pernas, fechando os outros.

Zack observou com espanto como a magia envolveu o corpo pequeno e o transformou de repente em um rapaz de tamanho normal. Dominic não tinha mais que 1,71 de altura, longos cabelos negros que caíam até o quadril e sobre a cama. Sua pele era cremosa, e parecia macia ao toque.

Antes que Zack engolisse, ele entregou ao garoto um cobertor e o viu se cobrir. Suas bochechas fofas estavam coradas por vergonha. Teve que sorrir com a reação dele.

— Eu gostei.

Dominic o olhou surpreso.

— Do que gostou? — Ele parecia nervoso.

— Gostei de como se parece quando está nessa forma humana. Você pequeno já é uma gracinha, assim, apenas ficou mais lindo. — Disse gentilmente. Dominic o olhou com horror.

— Eu sou um homem, pelo amor dos deuses!

— O quê? Quer dizer que um homem não pode ser lindo? — Indagou divertido.

— Não! — Respondeu indignado. — Bem… eu não sei. — Ele desviou o olhar envergonhado. — Eu te acho realmente bom.

Agora Zack não estava compreendendo.

— Eu? Bom? Como assim?

Dominic o olhou de canto e segurou melhor o cobertor em torno de seu corpo nu. Zack estava se segurando para não tocar na pele que estava exposta.

— Isso é um elogio. Quer dizer que eu acho você muito bonito. — Respondeu baixinho.

Zack se aproximou, satisfeito em saber que Dominic gostava de sua aparência. Uma de suas mãos tocou as madeixas longas e negras, adorando a sensação de sedosidade natural. Dominic o olhou com curiosidade e encolheu os ombros.

— Eu gosto do seu cabelo também, acho que é muito bonito.

O garoto sorriu timidamente, e Zack sentiu algo quente percorrer direto para sua virilha. Quando o saturniano se virou para olhá-lo em seus olhos, estava muito perto. O cobertor que o cobria caiu para seu quadril e seus ombros e peito ficaram à mostra.

Zack não pode se conter em olhar para aqueles mamilos vermelho-escuro com aparência macia. Sabia que se tocassem eles apenas um pouco, se tornariam lindos picos duros. Contudo afastou tal pensamento, ao notar o olhar atento sobre ele.

— Zack, alguma vez você pensou em encontrar um amor para toda a vida? — Perguntou Dominic cuidadosamente.

Isso trouxe Zachary a realidade.

— Um amor…? Hum, bem… — Coçou atrás da cabeça. — Eu não sei…

A verdade era que não acreditava em amor. Bem, em paixão sim, afinal ele já tinha se apaixonado algumas vezes em sua adolescência, namorado algumas garotas por tempo suficiente para descobrir que o sentimento passava rapidamente. Desde então, seus únicos encontros foram as fugas para os bordéis espaciais, nada de sentimentos envolvidos, somente satisfação sexual.

Ouvir isso de Dominic, bem… não era estranho. Ele parecia um garoto inocente, suave… doce. Era certo que se preocupava em encontrar alguém especial.

Zack apenas estava ansioso para tocá-lo, para romper o lacre, tomá-lo da forma mais pecaminosa possível…

— Acho que eu encontrei o meu. — Dominic corou suas bochechas e olhou-o timidamente. — Você sente o mesmo por mim?

Os olhos do hacker estavam arregalados após essa confissão. Não fazia ideia do que dizer. A única resposta a qual pode recorrer, foi em tomar o rosto de Dominic em suas mãos e beijá-lo.

—*-*-

Austin estava tentando uma ligação com seu pai desde a manhã. Porém ele não respondia, então resolveu dar um tempo até tentar novamente. Notou Zachary entrar na ponte de comando com o rosto pálido.

— Ei cara, o que houve?

Zachary se sentou em sua cadeira e colocou a cabeça entre as mãos.

— Dominic se confessou para mim.

Austin arregalou os olhos.

— O quê?! Sério isso? — Sugou em seu canudinho seu leite fermentado. Realmente ficou empolgado com a notícia. Só não entendia por que Zack parecia tão preocupado.

— Ele perguntou se eu sinto o mesmo, e a única coisa que fiz foi beijá-lo.

Com um sorriso, Austin deixou sua bebida de lado e se virou na cadeira de piloto para ficar a frente do hacker.

— E qual o problema?

— Qual o maldito problema?! — Zack já estava ficando vermelho, provavelmente irritado. Austin não entendia por que se irritar tão fácil. — Eu não estou interessado em relações sérias. — Respondeu em um sussurro. Olhando por toda parte se por acaso alguém mais estivesse ouvindo.

— Hum, agora entendo. Apesar de que vocês dois ficariam bem juntos.

Zack cruzou os braços sobre o peito e se recostou em sua cadeira de couro.

— Mesmo assim… não sei se posso fazer isso. Eu me interesso por ele, mas não nasci para alguma relação de longa duração. Eu perderia a minha liberdade!

Austin teve que rir.

— Droga, você é tão despreocupado.

Austin riu novamente.

— Por que não aproveita a oportunidade? Talvez te faça bem. Até mesmo Dominic pode descobrir depois se é só algo passageiro. Não tem porque se preocupar.

Zack piscou para ele.

— É isso!

— É isso o quê? — Austin pegou sua bebida e voltou a sugar pelo canudinho. — Acabou… — Murmurou decepcionado.

— É uma oportunidade. Já que não iremos a um bordel tão cedo, nada melhor do que conseguir sexo de graça. — Ele riu. Entretanto Austin notou por uma fração de segundo, que Zack não parecia realmente feliz com o que tinha dito.

Bom. Aproveitar-se de uma pessoa era uma coisa horrível. Ninguém melhor do que ele para saber disso. Seu pai era uma prova. Tinha sido enganado por algum maldito que simplesmente o abandonou grávido. Kayllon havia dito diversas vezes que jamais se arrependeria de nada, porque amava Austin, e se lembrar dessas palavras fez ele sorrir.

Precisava falar com ele. Já fazia uma semana que não se viam nem por vídeo. Eles tinham discutido na última conferência. Kayllon queria que Austin fosse morar com ele, que largasse o trabalho perigoso, porém Austin não iria desistir, era o que ele amava fazer, ser o piloto da nave Imperatriz.

De repente a tela gigantesca a frente deles foi substituída por uma chamada de vídeo. Era Morgana, e ela estava de muito bom humor como sempre.

— Mamãe! — Zack exclamou claramente feliz em vê-la.

— Querido! Ah, oi Austin! Onde está Trey? — Ela olhou para a cabine, não encontrando o comandante.

— Trey está em seu quarto, não tem se sentido muito bem. — Austin deu a informação. Em parte era verdade, mas por outro lado havia muito mais do que isso: Ele tinha assistido a partida de Aquantis, e como Trey pareceu destruído ao ver o menino Blue ir. Sem contar as lágrimas nos olhos do garoto.

Austin podia ser um cara tranquilo, porém ele era um grande observador.

Era claro que estava preocupado com Trey.

— Bem, Zack querido, eu resgatei um rapaz tão gentil! A nave dele colidiu contra a minha casa!

— Ouch. — Zack fez uma careta. — Ele foi pego por uma onda?

— Sim, bem, os mecânicos daqui não são confiáveis, pensei que já que estão pelas redondezas, poderiam dar uma mãozinha para ele. Ele está ferido e eu tenho cuidado dele desde ontem.

Austin assistiu Zack suspirar. Ele nunca diria não para sua amada Morgana.

O hacker olhou para ele e Austin assentiu. Sem o comandante a vista, e sem quaisquer missões previstas, não custava ir ajudar.

— Tudo bem, estarei aí em breve.

— Obrigado queridos! — Morgana cantarolou e desligou o vídeo.

—*-*-

Keesa estava sentado ao lado de Askell no táxi espacial enquanto observava pela janela Exórdio ficar cada vez mais longe. Foi apenas daquela distância em que reparou que a nave hotel estava sendo reconstruída de um lado. Ficou curioso, queria perguntar a alguém o que tinha acontecido, mas um olhar para o homem de moicano verde o fez encolher em seu assento. Ele parecia um punk raivoso.

— Ei… — Murmurou cuidadosamente, olhando por baixo de seus cílios para Askell.

— O que é? — O homem lhe respondeu sem emoções em sua voz.

— Hum… bem… o meu dono é um vampiro? — Perguntou baixinho. De certa forma, Askell olhou para ele com as sobrancelhas erguidas.

— Vampiro? — Ele gritou uma risada, assustando o motorista do táxi. — Cuidado ai cara! Estou carregando uma carga preciosa aqui!

— Desculpe senhor! — Disse o homem voltando a direção do veículo.

Askell se voltou para Keesa, olhando diretamente em seus olhos.

— Não, Gav é um Valius, ele pode se alimentar de comida normalmente, porém, o sangue é um alimento revigorante e altamente necessário para ele. Digamos que faz parte de seu quadro alimentar. — Askell sorriu ironicamente. — Se ele gostar de você, provavelmente vai me dar seus animais de estimação. — Disse com empolgação. — Espero que ele não os tenha traumatizado como os anteriores, eu mal pude desfrutá-los.

Keesa não estava compreendendo, mas de certa forma, sua espinha se arrepiou.

— Sinto por você, humano. — Askell o surpreendeu quando afagou sua cabeça. — Eu não sou a favor de quão violento Gav costuma ser, mas não há nada que eu possa fazer. Ele é o meu comandante e eu não estou afim de ser decapitado. — Riu. No entanto, logo sua expressão mudou completamente. — Nós chegamos. Tente ser bom, escravo. Quem sabe assim Gav o trate um pouco melhor, o que não posso garantir nada.

Keesa tremeu completamente e sentiu seu sangue esvair da face. Eles chegaram quando o táxi atracou no porto espacial. Quando saíram, Askell pegou de Kimm, uma mulher alta, bonita e com um semblante perigoso, uma coleira e a prendeu ao pescoço de Keesa, em seguida prendendo-a em uma corrente de prata.

— São formalidades. — Askell lhe disse em meio a um riso. Ele o puxou e Keesa quase tropeçou, porém o seguiu obedientemente.

Se estava indo se tornar um animal de estimação, já que não tinha outra escapatória, deveria aceitar sua realidade. Embora seu coração doesse tanto ao pensar sobre isso. Algo que nunca imaginou, seria que um dia desistiria de suas esperanças.

—*-*-

Aquela habitação não poderia ser simplesmente chamada de quarto. Não por tudo o que havia dentro dela.

Uma estufa de plantas das mais variadas espécies, colhidas cada uma em um planeta diferente. Havia desde árvores altíssimas, às mais pequeninas flores silvestres.

Não havia animais, se Aquantis não fosse considerado o único naquela jardim botânico.

Toda essa natureza citada tomava cerca de oitenta por cento daquele espaço, e o restante era branco brilhante. Aquele era o local onde Aquantis dormia, impecavelmente limpo, onde estava uma cama de solteiro recostada contra a parede, um puff branco e um baú de madeira onde guardava suas roupas e poucos objetos que mantinha consigo. O banheiro ficava na outra extremidade do quarto. Para chegar até ele era necessário atravessar toda aquela selva.

A porta de entrada estava próxima de onde dormia. Naquele quarto não havia quaisquer janelas para que pudesse ver o espaço sideral.

Quando permanecia a observar o local onde viveu praticamente toda a sua vida, não podia conter o desgosto, a dor de que novamente estava solitário naquela sala, mantido como um animal para experiências científicas.

Se Trey soubesse… se ele já alguma vez tivesse imaginado tudo o que Aquantis passou… talvez poderia ter mudado de ideia ao invés de entregá-lo.

Duas semanas? Esse era o prazo para que retornasse a nave Imperatriz. Aquantis não tinha ideia do que a Rainha planejava, no entanto, sabia que não era esperado algo bom. Não compreendia a mentalidade daquela mulher, ou de todos os seus subordinados, porém sabia que seu coração era imerso em trevas.

Queria se acalmar e ter paciência para esperar. Havia chegado há poucas horas e já estava louco para fugir, para deixar este lugar imundo… a verdadeira sujeira eram as pessoas que o mantinham aprisionado.

Aquantis estava sentado sobre a cama, suas costas contra a parede, joelhos juntos contra o peito enquanto abraçava suas pernas e olhava assustado ao redor de si.

Lembrava que quando era uma criança, sua inocência não compreendia a sua casa. Para si, este era o seu mundinho. Tantas plantas, flores, tudo tão belíssimo escondendo um mero salão de branco gelo brilhante. Teve todos os brinquedos mais caros, crianças cujos pais foram pagos para deixá-las brincar consigo.

Com o tempo, cada um foi afastado de perto dele, cada brinquedo foi para o lixo, suas roupas foram trocadas por peças brancas, e as primeiras experiências foram feitas, simplesmente para apagar a sua infância de uma vez por todas e revelar a ele um futuro cruel.

Aquantis enxugou os olhos com a manga de sua blusa de algodão, revoltado consigo mesmo por estar aceitando tudo isso. Imaginou que após ter sido sequestrado… talvez ele iria se divertir, afinal tinha visto o universo, tantos planetas de perto, estrelas reluzentes.

Entretanto, aqueles homens foram ainda piores do que a Rainha, lhe fizeram coisas horrendas, e cada vez que se lembrava, seu estômago se retorcia com dor.

A porta deslizou aberta automaticamente, ela era muito reforçada com aço de Ultrônion, um dos metais mais fortes de toda a galáxia. Aquantis sabia que eles estavam se precavendo desde sua última crise. Sabia da destruição que tinha causado… inclusive das mortes.

A dor de saber que era um assassino não se comparava a qualquer outra espécie de culpa. E talvez esse sentimento fosse o único que o impedia de simplesmente exterminar tudo o que havia ao redor dele.

Ele era bom demais para isso.

— Aquantis! — Uma mulher de longos cabelos loiro platinados, chamada Stella, entrou acompanhada de um homem alto que vestia uma roupa completamente branca, como era de se esperar de todos que entrassem naquele setor. — Lhe apresento o doutor Straus, ele será o responsável pelos seus próximos exames. — Disse-lhe simpaticamente.

Sabia que essa simpatia era toda uma farsa.

Aquantis apenas balançou a cabeça.

— É um prazer conhecê-lo, jovem Blue. — Disse o homem orgulhosamente, se aproximando da cama onde estava. Ele não tinha mais do que quarenta anos, e sua barba ruiva e trançada causou-lhe arrepios. — Não há o que se preocupar, eu vou cuidar muito bem dele, Stella.

Aqua olhou atentamente. De verdade sentiu uma dor aguda no peito. Por que algo lhe dizia que desta vez os exames seriam diferentes?

O olhar interessado que o doutor Straus lhe deu em seguida, respondeu sua pergunta.

—*-*-

Keesa olhou para o tamanho da dimensão que era a nave Margosha. Era assustadoramente enorme! Quase tão grande quanto exórdio, mas provavelmente o que lhe chamava mais a atenção era a sua aparência medonha, parecia ter saído de um filme de terror.

Mesmo que estivessem no espaço, um enevoado de matéria escura contornava seus detalhes rústicos, onde a frente se assemelhava a uma gigantesca caveira de metal escuro e riscado, com diversos chifres imensos que a fazia parecer um demônio. Os próprios dentes eram pontiagudos e desiguais.

— Vamos logo! Não vai me dizer que está com medo disso? — Gritou Askell. Eles atravessaram o corredor de ar com o teto em formato de arcos ogivais e paredes transparentes desde o porto espacial até a nave Margosha. O som das tubulações de ar era quase ensurdecedor, por isso a necessidade de gritar.

Keesa tinha pensado que já tinha sentido piores medos em sua vida, desde que perdeu seu planeta natal, visto seus amigos humanos serem escravizados e a si mesmo em uma jaula para ser leiloado como um objeto de uso pessoal. No entanto, ali estava ele, freando seus passos e lutando contra a coleira que usava. Askell puxou e por pouco não tropeçava e caia. O punk deu-lhe um olhar de alerta e ele continuou a andar obedientemente.

Nunca tinha rezado tanto em sua vida como estava fazendo a cada minuto dentro daquele túnel.

Quando finalmente entraram no elevador e foram para a câmara de pressurização de ar, Keesa foi capaz de sentir o ar pesado das dependências da nave. Se por fora era algo assustador, por dentro era ainda pior. Uma típica nave pirata e das antigas. Ele nunca tinha visto uma verdadeira antes, e por muito tempo imaginou que fossem apenas lendas do passado, todavia aqui estava ele dentro de uma com seu queixo caído.

— Diga a Gav que seu novo bichinho de estimação está aqui. Eu vou levá-lo para ser tratado. — Askell disse a Kimm, a mulher de olhar perigoso.

Ela apenas deu de ombros e saiu elegantemente pelo lado oposto ao que eles tomaram. Parecia um labirinto de corredores, cheirava a metal pesado, carvão sendo queimado… e havia também um sentimento de morte, de trevas. Tal qual seria como entrar em um manicômio assombrado.

Seus olhos poderiam saltar a qualquer momento.

— Olhe. — Disse Askell. — Eu apenas vou limpá-lo, porque Gavrel pediu exclusivamente a mim para te ter pronto e limpo. — Disse com pesar. — Você está imundo! Seria impossível que ele pudesse te receber desse jeito.

Keesa apenas assentiu. O punk o levou até uma porta de metal e abriu a alavanca. Para a surpresa do humano, era um espaçoso banheiro revestido por azulejos negros, tinha uma banheira de mesma cor com torneiras de ouro, um vaso sanitário brilhante e um grande balcão com espelho que revestia toda uma parede.

— Tire suas roupas. — Askell ordenou enquanto ligava a banheira. Keesa estremeceu. — Ah! — Ele veio e destravou sua coleira e corrente, deixando-o livre. — Temo que há de usar mais dessas muitas outras vezes, então se acostume.

Keesa obedeceria, afinal não queria ser espancado outra vez.

Ele se moveu para tirar a bata velha que usava, porém seus braços não queriam cooperar, as feridas em suas costas provavelmente estavam grudando nas vestes. Sua dificuldade o fez demorar muito mais do que gostaria, pois ouviu uma maldição e em seguida Askell estava lhe ajudando. Ele vaiou quando o viu nu.

— Ual, você realmente deve ter sofrido um bocado. — Havia humor, mas também pesar em sua voz.

Keesa se virou para olhá-lo, e Askell lhe deu um sorriso estranho. Julgou que talvez fosse um pouco de compaixão.

— Eu vou tratar disso… — Ele pegou um banco cor de mogno e colocou próximo, indicando para Keesa sentar. Ele fechou as torneiras e despejou alguns líquidos coloridos na banheira. — São remédios, vão ajudá-lo.

Askell passou a limpar suas feridas. Keesa de início tentou com todas as forças segurar seus gritos, pois chegava a ser insuportavelmente doloroso. Não sabia que sua situação estava tão ruim. Quando o punk terminou, pensou que poderia desmaiar, contudo foi praticamente carregado e colocado na banheira.

Imaginou que iria doer muito, mas foi de grande alívio. Suas costas se aliviaram, e seus músculos retesados também. Sentiu-se tão relaxado, pensou que talvez Askell tivesse colocado drogas na água.

— São ervas da minha terra. Elas ajudam a curar diversas doenças, mas são desconhecidas pelos outros planetas. — Ele explicou por vontade própria. — Eu costumo cuidar dos animais de estimação que Gavrel machuca. Você sabe… ele é um pouco violento… pouco não é a palavra certa. Mas ele é meu melhor amigo, e eu não vou contra ele. Não me arrisco a perder minha cabeça.

Keesa apenas assentiu em concordância, engolindo em seco no processo. Se antes pensou que estava perdendo as esperanças, algo dentro dele gritava agora para encontrar um meio de fugir. Não queria aceitar que agora era um animal de estimação. Esperava que seus colegas escravos não tivessem um destino tão cruel quanto o dele.

Continua...





Notas finais
Obrigada por ler Lost Blue ♥ Até breve!