Lost Blue
6 Capítulo 6 – Inevitável Destino
Notas iniciais
“Sonhe, pois o sonho nos traz o que a realidade nos nega.”
Dias se passaram desde aquele acontecimento fatídico. O General Jack Scarlet permanecia em seu escritório na Federação dos Planetas. E embora houvesse uma pilha de papéis e livros sobre a mesa, e ele aparentemente parecesse envolvido em seu trabalho, na verdade seus pensamentos eram outros.
— O que diabos está havendo comigo? — Perguntou a si mesmo, puxando seus próprios cabelos. — Por que simplesmente não consigo deixar de pensar nele? O que, agora é algo especial para mim?
Aquele escritório, pequeno com imensas janelas para o espaço, lhe respondeu com o silêncio.
— Talvez eu devesse encontrar algum animal de estimação.
A verdade era que estava se sentindo um lixo. Trabalhava naquele mesmo local há mais de cinco anos, exercendo a mesma função. E embora fosse nomeado General, contra a sua vontade, ele não liderava tropas. Estava aposentado desde que deixou a Nave Imperatriz para seu filho Trey. E o que mais lhe perturbava era aquele sentimento lhe comendo vivo...
Solidão.
Mesmo que saísse durante várias vezes nas noites durante a semana, encontrava seus alvos e tinha quantos amantes quisesse, isso para si já estava perdendo a graça.
— Quando é que eu poderia pensar que um dia isso perderia a graça? — Passou as mãos pela face e se inclinou sobre a mesa.
Aqui estava ele, falando sozinho, sem ter nem com quem compartilhar seus problemas. Ou ao menos algum comentário depreciativo.
Trey estava ocupado com a missão e Jack não pretendia atrapalhá-lo. Ele não tinha muitos amigos, já que todos eles possuíam trabalhos que pareciam muito melhores do que o dele.
Às vezes se arrependia por ter aceitado a proposta da Federação de vir trabalhar neste lugar.
Minutos se passaram desde que deixara seu trabalho para simplesmente refletir sobre a vida.
Uma batida em sua porta o tirou de seus devaneios.
— Entre.
— Com licença, general. Tem uma visita lhe esperando. — Disse uma mulher loira e impecavelmente uniformizada de branco na porta.
Jack ergueu as sobrancelhas.
— Tudo bem, peça para que entre. — Rapidamente ele trabalhou em organizar toda aquela bagunça sobre a mesa.
Alguns segundos depois sua porta se abriu, e lá estava Jack de queixo caído. Jamais imaginaria que Kayllon viria até seu escritório por livre e espontânea vontade. Imediatamente sentiu-se nervoso, isso lhe acendeu aquelas mesmas memórias de dias atrás...
A cama estava incrível. Tão quente, tão aconchegante. Como nunca esteve antes.
Virou-se para abraçar um corpo que moldou perfeitamente o seu. A pele abaixo de seus dedos era macia e levemente aveludada. Seu nariz afagou sobre os fios loiros e sedosos, cheirava incrível.
Estava tão bom que não queria mesmo abrir seus olhos, seja lá quem fosse o seu parceiro desta noite. Mas... ele não costumava levar ninguém para sua casa, normalmente iriam para um motel ou algo assim. E de alguma forma, ele sabia que estava exatamente em seu quarto.
O corpo em torno dele se virou, Jack abriu os olhos e se deparou com os mais belos olhos azuis gelo o encarando com curiosidade, um rubor exuberante subiu sobre as bochechas de Kayllon.
As lembranças da noite em que tiveram imediatamente lhe vieram em mente.
— O que eu estou fazendo aqui? — Kay lhe indagou baixinho. A luz do dia penetrava através das frestas das cortinas sobre os vitrais em seu quarto, a expressão de Kayllon naquele momento era indescritível, e logo em seguida se mudou para vergonha quando algo pareceu reluzir na mente dele.
— Você se lembrou? — Jack perguntou, sua voz um pouco rouca de sono. — Nós tivemos uma bela noite juntos.
Kayllon o olhou nos olhos e engoliu em seco. Ele tentou dizer algo várias vezes, mas as palavras pareciam ter fugido, pois nada saiu. Jack então se sentou sobre a cama, empurrando aquela sensação estranha que se rastejou por seu peito naquele momento.
Aquele era o pai de Austin, um dos melhores amigos de seu filho. Não tinha dito a si mesmo que não teria qualquer relação com ele? Céus, o que ele tinha feito?
— Olhe Jack, se você está preocupado com...
— Isso não foi nada, Kayllon. — Virou-se para olhá-lo, Kay já estava sentado sobre a cama, seu peito liso e nu. Tossiu brevemente. — Nossos filhos não precisam saber disso, só foi uma noite, que diferença isso faz?
Os olhos de Kay não enganaram, ele pareceu um pouco decepcionado, entretanto, logo em seguida sorriu.
— Você está certo.
Jack se lembrava que em seguida o serviu com café e aspirinas pela ressaca da noite anterior.
No entanto, agora estava impressionado com a aparição de Kayllon em seu escritório, pois esperava não vê-lo tão cedo por um longo tempo. Como já havia notado, sua aparência era deslumbrante. Para um homem acima dos quarenta, ele aparentava ter muito menos. Jack não o daria nem trinta e cinco. Seus cabelos curtos até a nuca, loiros e levemente rebeldes, seus olhos azul gelo e sua pele clara cremosa que foi macia ao seu toque como pelúcia.
Jack tossiu.
— Que surpresa vê-lo aqui Kayllon, sente-se por favor. — Ofereceu.
O homem parecia nervoso, seu rosto avermelhado dizia isso, além de suas mãos visivelmente trêmulas. Jack se perguntou o porquê de ele estar assim.
— General Scarlet... é bom vê-lo outra vez. — Murmurou, então sorriu um pouco antes de dizer: — Como vão as coisas com Austin e os meninos?
Jack se recostou melhor em sua cadeira de couro.
— Atualmente estão viajando para Ídeas28, no condado de Góron. Acredito que eles voltem em um pouco mais de uma semana para a Federação.
— Isso é ótimo. — Kayllon se remexeu nervosamente em seu assento. Parecia que estava cada vez mais nervoso.
— O que foi? Você me parece incomodado, quer me contar o que houve?
Kayllon engoliu em seco. Ele tentou dizer, mas nada saiu.
— Vamos lá, eu não tenho o dia todo. — Incentivou.
Jack esperou e enquanto nada saía, começou a se sentir frustrado, então se levantou.
— Olhe, se é sobre aquela noite, eu já lhe disse, apenas deixe no esquecimento. Nossos filhos não irão saber e...
— Eu estou esperando um filho.
Os olhos de Jack se arregalaram. O silêncio permaneceu até que os soluços de Kayllon o cortaram.
O general o olhou sem reação, simplesmente estava incrédulo.
— Um filho? Mas só faz uma semana que nós... — Jack passou a mão pelos cabelos. Nem mesmo uma semana.
— Eu sou um Uraniano, se lembra? — Kayllon esfregou seus olhos. — Podemos descobrir em até cinco dias.
Jack ainda não estava convencido.
— Como posso ter certeza de que essa criança é minha?!
— O que está querendo dizer? — Kayllon se levantou abruptamente. — Que eu estou mentindo?!
— Eu não sei... você disse naquele dia que estava sendo assediado por aquele homem, seu antigo chefe. Como posso ter certeza de que não teve nada com ele? Ou com outros? Eu não conheço seu estilo de vida.
Os olhos de Kayllon se encheram de lágrimas e ele caiu em sua cadeira os enxugando novamente.
— Você é um idiota... não sabe de nada. — Resmungou.
— Kay... — Jack foi até a janela, suas mãos buscando em seu cabelo nada que pudesse encontrar, apenas exasperação. — Eu usei preservativo.
— Nós não fizemos apenas uma única vez naquela noite. Eu me lembro. Você me acordou de madrugada e... — Kayllon ruborizou-se completamente.
O queixo de Jack caiu quase até os tornozelos. Não importa o quanto tentasse negar, Kayllon encontrava um meio de mostrar razão.
— Mas... pela sua idade, isso é possível? — Jack não conhecia bem a raça de Estrela Uraniana, planeta de origem de Kayllon e Austin.
— Nós vivemos muito mais que humanos comuns e outras raças, então sim.
Jack sentou-se em sua poltrona novamente e suspirou.
— Eu sei que parece um insulto eu ter que dizer isso, mas você precisa realizar o teste para provar que esse filho é meu. Como eu citei antes, não conheço o seu estilo de vida.
Kayllon parecia profundamente ofendido, ele voltou a enxugar seus olhos quando novas lágrimas se formaram.
— General Scarlet, eu não vim até aqui para que aceitasse essa criança, apenas acho que você tem o direito de saber. E tem mais uma coisa... — Levantou-se e apontou para ele. — Eu tinha feito um voto de castidade assim que tive Austin, desde então o único com quem tive relações foi você. Se não quer acreditar em mim, o problema é seu. Adeus.
O Uraniano deixou a sala com o baque pesado da porta se fechando com brutalidade.
Jack colocou a mão sobre o peito, arfando pesado.
Esse filho não podia ser seu.
—*-*-
Trey entrou na banheira repleta de espuma. A água quente imediatamente contribuiu para aliviar seus músculos retesados, relaxando-o a um nível de tranquilidade e paz, depois de um dia corrido e cheio de estresse.
Sentiu-se surpreso quando ouviu a porta se abrir e alguém entrar no toalete, até então estava de olhos fechados, curtindo. Imaginou que talvez fosse um de seus amigos para pegar algo que esquecera. No entanto, ao abrir suas pálpebras, se deparou com o rosto de Aquantis muito perto do seu. O menino, quando se deu conta, sorriu. Estaria ele prestes a beijá-lo?
— Aquantis? — Trey sorriu de volta. — O que faz aqui? — Notando como o garoto vestia um de seus roupões de algodão.
— Como você cuidou de mim naquele dia... — Seus dedos longos e macios tocaram sobre o peito molhado de Trey. — Pensei que talvez eu devesse retribuir o favor... de uma forma mais divertida. — Ele se ergueu e retirou o roupão, exibindo o corpo que Trey tanto tinha fantasiado nos últimos dias.
Pele acetinada, curvas acentuadas, apenas não parecia tão magro como tinha na verdade se lembrado. Seus mamilos inchados e cor de rosa se eriçaram apenas por seu olhar quente. E aquele pênis mediano, cresceu duro de desejo por ele e gotejou na ponta.
Quando Trey acordou, ele estava babando.
Se limpou no lençol de sua cama. — Pareço um animal, eca.
Sentou-se em sua cama king, esfregando o rosto. Por que diabos ele tinha que acordar? Se fosse para sonhar assim, poderia sonhar para sempre.
Depois de resolver o problema de um pênis duro debaixo de seu chuveiro, Trey se vestiu e ficou impecável para o dia. Era cedo e provavelmente todos estavam dormindo enquanto a nave permanecia no piloto automático.
Antes que chegasse a ponte de comando, decidiu passar pela enfermaria e verificar Aquantis. Já estava na hora de arranjar a ele um quarto decente.
Deslizou a porta o mais lentamente possível, e entrou com passos de puma. Como era de se esperar as cortinas estavam abertas, deixando visível a linda paisagem de trilhões de estrelas e planetas lá fora. Trey se aproximou da cama onde Aquantis ressonava tranquilamente, a cor natural voltando a sua face, tão inocente e tão frágil.
Trey se sentou à beira da cama e acariciou os poucos cabelos que Aquantis já tinha, menos que um centímetro, e que ainda assim eram tão macios. Admirou a face de traços finos, andrógenos, e mais belos do que normalmente veria em garotas. Admirava como alguém poderia ter aquela aparência, aqueles olhos, aquela boca, ou a cor azul de seus cabelos. Era fascinante.
Uma tosse repentina quebrou completamente o clima. Quando se deu conta, Austin estava ali com uma sobrancelha erguida.
— Oh... você está aqui.
— Cheguei há pouco. Zack me pediu para administrar o remédio dele esta manhã. Não custa nada, não é?
— Hum. — Trey sentiu seu rosto ficar quente. — Eu vou para a ponte. — Se virou para sair, no entanto, Austin pegou seu braço.
— Vamos conversar, Trey. — Disse seriamente.
Um pouco pasmo pela atitude de seu amigo, o comandante da Nave Imperatriz apenas assentiu. Esperou pacientemente que Austin colocasse o despertador para acordar Aquantis e os comprimidos na mesa ao lado, acompanhado com um copo de água.
Ambos seguiram para a ponte de comando, e assim que a porta cerrou automaticamente, Austin se virou para ele com um semblante divertido.
— Vamos lá, Trey. Admita de uma vez por todas, está realmente gostando daquele garoto?
Incomodado, Trey zombou:
— Do que está falando Austin? Eu já deixei bem claro antes e...
— Trey, apenas pare. — Austin ergueu a mão. — Você negou desde o início ter sentimentos por ele, mas suas atitudes revelam o contrário. Está mais óbvio e exato do que cálculos matemáticos para mim. — Fez uma careta. — Não é como se fosse um “pecado” você estar se apaixonando pelo garoto Blue.
— Austin... — Trey se ergueu, prestes a dizer algo, com uma alta necessidade de se defender. Aquilo não era um ataque, mas admitir aqueles sentimentos...
Seu amigo o cortou novamente:
— Eu entendo o que está se passando, assim como Zack também, mas você precisa estar ciente de que Aquantis é apenas uma missão nossa. Tudo bem nos relacionarmos com ele, porém não temos mais do que cinco dias restantes antes de entregá-lo a Rainha.
O coração de Trey se afundou. Seu amigo tinha razão, ele estava se apegando muito rapidamente ao garoto Blue, e sabia que mais rápido do que podia imaginar, teria que devolvê-lo a Federação. O nó que se instalou em seu estômago começou a doer terrivelmente.
— Trey, meu amigo... eu conheço você há tempo suficiente para duvidar se realmente está gostando de Aquantis. — Austin envolveu os ombros de Trey com um braço musculoso. — Provavelmente seja apenas uma atração, como sempre hein. Você vai esquecê-lo rapidamente em uma semana, verá.
Sem palavras, Trey apenas abaixou a cabeça e fez um movimento positivo.
— Vou verificar se Aqua tomou seu remédio, eu já volto. — Austin bateu em suas costas antes de sair da ponte.
Austin estava certo, ele poderia parecer bobo as vezes e não se importar com as coisas realmente, mas a verdade era que ele era um cara muito observador e muito inteligente. Mesmo que sentimentos estivessem começando a florescer dentro de Trey, ele iria esquecê-los rapidamente e seguir em frente como sempre.
A primeira coisa que precisaria fazer agora seria um pouco de diversão, talvez eles pudessem atracar no próximo porto e procurar por um bordel espacial.
—*-*-
Assim que Austin tinha deixado a ponte, alarmou-se ao encontrar Aquantis no corredor, olhando para ele zangado.
— Você está podendo sair da cama já? — Perguntou com surpresa notável em seu rosto.
— Vocês trabalham para a Federação? — Aquantis não olhou para ele, mas sim para o chão. Suas mãos se fecharam em pequenos punhos apertados.
— Aqua... olhe, você não deveria ter saído da enfermaria, vai se sentir mal...
Aquantis ergueu a face e olhou-o com ódio mortal brilhante em seus olhos grandes.
— Vocês todos me enganaram... nunca me disseram por que me resgataram... — Seu dedo apontou para o peito de Austin e ele se afastou um passo. — Agora pretendem me devolver para aquele lugar horrível!
A porta da ponte de comando deslizou aberta e Trey saiu exasperado, olhando com surpresa ao vê-los.
— Aquantis, você não deveria ter saído da cama!
— Cale a boca! — O garoto gritou contra o comandante. — Pensei que fôssemos amigos... você me traiu... — Lágrimas encheram os olhos de Aquantis, enquanto os de Trey estavam arregalados.
— Aquantis, o que você esperava que nós fôssemos? Por que acha que te salvamos? Nós arriscamos as nossas vidas para encontrá-lo em Exórdio, não trabalhamos exclusivamente para a Federação, mas fomos chamados para salvar você de um sequestro. Nós não fazemos ideia de qual a sua relação com a Rainha, não venha nos culpar!
O garoto parecia decepcionado após as palavras de Trey, porém não havia mais ódio ou raiva exalando dele.
— Nós tivemos a oportunidade de dizer a você sobre a Federação, no entanto resolvemos deixar para depois, já que estava se recuperando. Não queríamos que tivesse preocupações, e que isso afetasse a sua saúde. — Austin falou.
Os ombros de Aquantis caíram, assim como suas pernas tremeram antes de falhar, mas Trey o trouxe de volta em seus pés e o sustentou.
— Não sei por que estou assim... eu já sabia que mais cedo ou mais tarde eles viriam me buscar. A única diferença é que eu vou até eles.
—*-*-
O clima de Xlon era maravilhoso, exclusivamente naquele ponto específico em que sua pequena nave havia pousado. Sully Vegan olhou através das ondas do vasto oceano, a brisa úmida atravessando seus cabelos cor de salmão.
Caminhou pela areia, sem quaisquer pessoas a vista, pensando que provavelmente ninguém viria para um banho enquanto o céu estivesse encoberto e fizesse frio. Não duvidava que em breve choveria.
Sully agarrou seu tablet da bolsa e em seguida seu comunicador, encaixando-o em sua orelha. Estava chiando, possivelmente a droga do aparelho estava quebrado. Ele precisaria fazer algumas compras, embora não tivesse qualquer vontade disso.
Desde que saiu de seu planeta em busca de algo muito valioso para ele e sua família, não havia quaisquer sinais de que poderia encontrá-lo. Pouco a pouco o destino estava forçando-o a desistir daquilo que esteve batalhando durante anos para encontrar. Cujo mesmo, seria a única coisa que poderia fazer seus pais felizes novamente. Embora um deles estivesse sendo forte e seguindo com a governança, seu progenitor estava se afundando em uma triste amargura, e seu maior medo seria perdê-lo se caso não encontrasse o que tanto procurava.
A única ocorrência em que não comentou com seus pais ou com seu povo em seu planeta natal, seria o fato de que ele estava pronto para destruir a Federação e buscar a paz que seu planeta merecia. Não permitiria que fossem encontrados.
Sully guardou seu comunicador estragado de volta em sua bolsa e então ergueu os olhos arregalando-os quando avistou uma onda imensa vindo em direção à praia.
Isso explicava por que aquele litoral era praticamente deserto, sem quaisquer edifícios ou pessoas que vivessem próximas do mar.
Sully correu o mais rápido que pode e se jogou para dentro de sua nave, levantando voo quando a onda veio e arrebatou o pequeno veículo espacial para longe. Sua porta mal teve tempo de se fechar quando colidiu violentamente contra uma construção. Sully caiu contra o assoalho molhado de sua nave e apenas sentiu seu corpo adormecer, assim como sua mente. Seus olhos sendo apagados por milhares de pequenos pontos negros, até que nada mais existisse.
—*-*-
Trey tinha permanecido os últimos três dias evitando chegar ao quarto que foi dado a Aquantis, desde que ele se recusava a continuar na enfermaria. Não lhe tiraria a razão, afinal, Aqua se sentia muito melhor e já podia fazer tarefas simples ou mesmo caminhar sem o risco de ter um desmaio. Ele não precisava mais de sua ajuda.
Naquela noite, de acordo com o relógio universal, o comandante entrou em seu quarto depois da meia noite, realmente sonolento. O trabalho tinha sido exaustivo, todas aquelas pesquisas que ele detestava, o planejamento de rotas e a análise para novos clientes... além do relatório para ser entregue à rainha sobre o resgate de Aquantis e o seu comportamento na nave. Inibiu vários detalhes que não achou necessário fazer alguém mais saber além dele mesmo, como quando tinha banhado Aquantis...
De certa forma, não compreendia a si mesmo sobre a forma em que se sentia em somente lembrar de vê-lo nu. Dos vários amantes que já teve, talvez dezenas deles desde que ele nunca realmente namorou, Aquantis nem mesmo tinha se conectado com ele para fazê-lo se sentir tão maldito excitado, além de provocar essa dor em seu peito que ele queria que acabasse logo.
Somente depois que ele fosse embora, poderia se concentrar em esquecê-lo.
Por que tinha a sensação de que se sairia muito machucado?
Trey se desvestiu pelo caminho até sua cama, caindo apenas de boxers sobre ela. Gemeu em contentamento contra a maciez do colchão e dos lençóis brancos.
Estava tão sonolento que demitiu o desejo de se masturbar e cobriu-se com o edredom até a cabeça. Não demorou nada até que mergulhasse em um sono restaurador, com sonhos bons.
Pouco tempo depois, o som da porta deslizando aberta o acordou. Trey se se sentou na cama esfregando um dos olhos e ligou o abajur. Espantou-se ao ver que era Aquantis.
O garoto cerrou a porta fechada, ele tinha um travesseiro em mãos e vestia um pijama simples de calças de algodão e camisa de mangas com botões na cor azul claro.
— Aqua? — Indagou confuso. — O que está fazendo aqui a essa hora?
— Eu posso dormir aqui com você? — Perguntou baixinho e incerto. Trey não podia recusar, embora parecesse tão tentador. Com um sorriso, puxou o edredom.
— Venha cá. — Ofereceu. Não precisou repetir, o garoto subiu rapidamente no colchão e ajeitou seu travesseiro acima dos outros que já estavam ali, ficando rente ao rosto de Trey. O comandante aproveitou para cobri-lo com o edredom até os ombros. — Está confortável?
— Sim, obrigado. — Aquantis lhe deu um sorriso tímido.
— Não estava conseguindo dormir? — Talvez o outro quarto lhe incomodasse.
O garoto Blue balançou a cabeça negativamente.
— Na verdade, eu nunca dormi junto com alguém. Quis experimentar com você. — Havia algo mais em seus olhos que Trey tentou compreender. Ele ficou lisonjeado de ser o primeiro com quem Aqua resolveu dormir junto, embora o tivesse visto dormir diversas vezes na enfermaria... mas não se comparava com vê-lo dormindo enquanto estava saudável e não parecendo doente. — Te incomoda? — Questionou apreensivo.
Trey sorriu.
— De forma alguma. Faz tempo desde que dormi perto de alguém. Quer se aconchegar melhor? — Ofereceu um pouco descaradamente, abrindo os braços. Um frio se passou pela boca do estômago com o risco de ser rejeitado. Porém, mesmo que Aqua parecesse um pouco incerto, fez conforme ele pediu, entrando em seu abraço. Trey o envolveu com ternura, colocando a cabeça do garoto contra seu peito e beijando o topo dela. — Está tudo bem?
— Hum... não. — Respondeu sincero. Ele se aferrou melhor contra seu peito.
Trey esperou que ele dissesse mais, o que demorou algum tempo.
— Eu não quero voltar.
Surpreso, Trey engoliu em seco. Ele não fazia ideia de como responder isso. Permaneceu ponderando, porém Aquantis apenas complicou a situação.
— Eu vou te ver de novo? — Ele perguntou esperançoso. — Você foi o meu único amigo em toda a minha vida... Zack e Austin também. — Seus olhos grandes brilharam com lágrimas, mas que não as deixou derramar.
Trey o segurou perto e mordeu o lábio inferior, franzindo a testa enquanto pensava em uma forma de responder aquilo. Ele não poderia aguentar ver Aquantis chorar. Em todo o universo, vê-lo derramar lágrimas, ainda mais por sua causa, iria quebrar seu coração.
— Eu não sei. — Foi sincero.
O silêncio foi presente. Aquantis apenas continuou quieto e aconchegado em seus braços. Trey ficou se perguntando o que se passava em sua mente. Ele sabia, esse garoto seria a sua perdição.
Desistindo de tanto lutar com seus pensamentos, finalmente concentrou-se apenas no aroma maravilhoso que emanava do garoto Blue e na sensação de tê-lo em seus braços por tanto tempo. Logo, adormeceu.
Continua...
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