Lost Blue
25 Capítulo 25 - Ponto fraco
Notas iniciais
O treinamento no planeta estranho, Epsulum38, estava sendo o mais desastroso possível na opinião de Aquantis. A cada dia, novas alucinações incorporavam formas quase reais que mexiam com a sua mente e coração. Nos primeiros dias, tinha se preparado para o que provavelmente enfrentaria, mas logo suas defesas foram caindo e em vez de se sentir pronto para a batalha, estava com medo.
Se pudesse, diria a Gavrel que não queria mais o treinamento de Johnny, que tentaria se controlar por conta própria, pois sentia que podia dominar suas habilidades, mas não tinha segurança suficiente para fazer isso ainda. E se errasse e acabasse matando toda a tripulação da nave Margosha ou mesmo seus amigos? E se destruísse a nave Imperatriz?
Até poderia fazer tal coisa, mas em um lugar que fosse isolado, longe de qualquer pessoa. Entretanto, onde encontraria um lugar assim? Não poderia sair sem a nave Imperatriz, não poderia fazer nada se não pedisse permissão a Trey.
É… não estava tão livre como pensava, mas não podia reclamar. Dependia deles, até porque essas pessoas estavam ajudando-o da melhor maneira que podiam. Nunca se queixaria com o que estavam fazendo por ele.
Depois de dez dias de treinamento e vinte na nave Margosha, a nave Imperatriz estava passando pelos últimos retoques. Era um alívio que estivesse pronta e novinha em folha, mas ainda não liberada da revisão. Aquantis não entendia absolutamente nada sobre naves, mas Zachary, o especialista em tecnologia, elogiou muito o trabalho da tripulação do Margosha. Isso o deixava seguro de que tinham feito a coisa certa, entretanto, a sensação da dívida não tinha passado.
Não compreendia o que Gavrel queria dele, qual era o seu real interesse, mas tinha quase certeza que ele tinha algum plano para usar os seus poderes, é claro. Era o mesmo que a Federação queria. No entanto, o comandante pirata não tinha sido rude e muito menos o forçado a nada.
O problema era: Estavam com pressa. Queriam voltar logo à viagem para chegar a Lost Blue.
Até alguns dias atrás, pensava que destruir a Federação era uma coisa que deveriam fazer primeiro. Mas conforme as alucinações no Lado Proibido em Epsulum38 aconteciam, sempre simulando a Rainha Wenda, a morte de seus pais, de seus amigos, os cientistas fazendo experimentos conturbadores com cada um deles, tudo para provocá-lo ao ponto da combustão — onde Aquantis ficava tão louco que explodia tudo — lhe mostrava que não tinha chance. O que faria sem ter que matar a todos?
A não ser que… fosse sozinho.
Mas era incapaz disso. Não sabia pilotar uma nave, mal sabia cozinhar seu próprio alimento e era inocente para tantas coisas que nunca tinha visto. Seria um alvo fácil.
Então… essa última opção estava riscada da lista. E a opção de levar todos com ele, o que era mais provável acontecer, estava lhe dando cada vez mais receio de que as coisas dessem errado.
Era simples pensar isso porque estavam em menor número contra um exército inteiro de vettoreanos, raça que comandava a Federação dos Planetas. Eles eram superiores em vários níveis. Era claro que tinham mentes inteligentes com eles também, como Zack, mas ainda assim, nada era garantido.
— Você está pensando muito. — A voz sonolenta de Trey o acordou de seus devaneios.
Ambos estavam na cama de um hotel em Epsulum38 em uma manhã bastante aconchegante. Um dos três pequenos sóis que iluminavam o planeta estava reluzindo por entre as cortinas. Era um quarto pequeno, bastante tradicional de alguma cultura que desconheciam a julgar pelas cores e formatos arredondados das coisas, mas era confortável.
O teto era de madeira cinza com um ventilador distorcido girando. Tapetes revestiam o chão acima de carpetes, o que era inexplicável, e enfeites horrorosos de cores escuras olhavam para eles de cima da cômoda.
— Eu estava pensando no que vamos fazer.
Trey não tinha movido um músculo ao lado dele na cama, lutando para abrir os olhos.
— Nós vamos destruir a Federação… — Ele disse com a voz rouca e embargada pelo sono. — E então nós vamos para Lost Blue. Simples assim.
— Não sei se é uma boa ideia enfrentarmos a Federação.
Trey se remexeu até se inclinar em um braço e olhar para ele com o cenho franzido.
— Nós não temos outra opção, sabe? Eles estão atrás de nós, não querem mais só você, querem cada tripulante da Imperatriz, então temos que agir primeiro e destruí-los.
— Você não está entendendo, Trey. — Aquantis balançou a cabeça. — E se eu não conseguir me controlar e matar todo mundo? Não quero que corram o risco, eu…
Trey colocou um dedo contra seus lábios, impedindo-o de falar. Ele estava franzindo bastante o cenho, irritado, isso deixou Aquantis curioso, pois não se lembrava de já ter provocado isso nele.
— Não seja teimoso. Não estamos fazendo esse treinamento a toa, vai gerar resultado, você verá.
— Será mesmo? — Não se sentia muito confiante disso.
— Sim. Gavrel, apesar de ser quem ele é, é uma pessoa honrada. Se ele diz que você conseguirá controlar seus poderes, você vai. Se não for desse jeito, tentaremos outra solução.
Às vezes seu amante só sabia dizer a coisa certa para acalmá-lo, o que o fez sorrir e assentir. Trey se inclinou e beijou seus lábios, sua mão surgindo dentro dos lençóis, tocando sua pele nua. Ele abaixou o lençol até as coxas e puxou uma perna de Aquantis para cima de seu quadril, acariciando suavemente sua coxa, enquanto o beijava.
Ambos estavam nus, então a sensação de suas peles quentes se tocando logo pela manhã foi muito bem-vinda.
—*-*-
Gavrel chegou ao corredor de seu quarto e Askell estava lá com os gêmeos para cumprimentá-lo.
— Ei, Gav! Dia difícil?
Devia estar escrito em sua face quão difícil foi. Ter enfrentado o treinamento de Aquantis no Lado Proibido não estava fazendo bem para ele, ter acalmado Trey antes que ele atingisse Johnny foi bem trabalhoso. Mas o que o deixou intrigado foram as palavras do androide quando estavam atravessando o lago com neblina.
— Você parece ter um carinho especial por um certo escravo. — Disse Johnny baixinho e com um toque de malícia. — É melhor tomar cuidado, antes que isso se torne a sua fraqueza. Ops, já se tornou, não é mesmo?
Gavrel tinha pego Johnny pelo pescoço e o erguido sem pensar duas vezes, seus olhos flamejaram com raiva contida.
— O que te faz pensar isso, robô imundo?
Johnny soltou uma risadinha meio abafada por ter seu pescoço apertado. — Eu fui criado para isso, comandante, posso ler suas mentes enquanto estiverem em transe provocado pelas alucinações. É o meu trabalho.
Gavrel o soltou, e o andróide quase se desequilibrou, mas em um último instante se endireitou e se recompôs como se nada tivesse acontecido.
— Quer dizer que sabe o que nós vemos em nossas alucinações? — Indagou Trey fechando suas mãos em punhos. Gavrel viu de rabo de olho, Aquantis tentar acalmá-lo.
— Exatamente. Fiz isso durante toda a minha existência para tratar os mais diversos casos. — Johnny parecia orgulhoso de si mesmo. — Posso fazer isso com humanos e uma infinidade de seres alienígenas que costumam vir até este lugar. Mas não com um Blue.
— O quê? — Gavrel não estava acreditando.
— Eu não posso dar um jeito nisso. Não existe atualização para o meu sistema que inclua a leitura mental de um Blue, é uma espécie considerada apenas uma lenda, não existe estudo sobre ela.
— Então como crê que esse treinamento vai funcionar? — Trey parecia frustrado e ainda mais nervoso.
— Bem… talvez eu não consiga ajudá-lo, mas ele saberá o que fazer. A maior parte do treinamento depende de si próprio e não de mim.
Gavrel suspirou, cansado.
— Ei? — Askell acenou em frente de seu rosto. — Alguém aí?
Estapeou a mão para longe.
— O que faz aqui?
— Trouxe Keesa de volta para o seu quarto. Ele parece feliz com os novos amigos que fez. — Askell abraçou seus gêmeos, um de cada lado e eles se apertaram contra ele, visivelmente temendo o comandante da nave Margosha.
— Você fez bem. — Se encaminhou para a porta de seu quarto.
— O quê? Você me elogiou, sério? Viu só, meninos, ele não é tão ruim como… — E Gavrel fechou a porta atrás dele abafando a voz irritante de Askell.
Como prometido, Keesa estava lá ajoelhado sobre o tapete ao lado da cama e olhando para suas mãos. Ele era tão obediente e submisso.
“Você parece ter um carinho especial por um certo escravo. É melhor tomar cuidado, antes que isso se torne a sua fraqueza. Ops, já se tornou, não é mesmo?”
A voz também irritante daquele androide idiota ficava dando voltas em sua mente trazendo sempre as mesmas falas.
E ele estava tão certo que lhe dava medo.
Gavrel, o pirata intergaláctico que não tinha medo de nada, temendo alguma coisa.
Observou Keesa, um ser humano de sangue puro tão pequeno em comparação a ele, dono de uma pele suave e um cheiro único, que tinha um coração puro e gentil, cheio de amor transbordando. Ele era o tipo carente de atenção, obediente e sorridente, um pouco ingênuo também, o que o fazia diferente dos outros, que sempre queriam ser os mais espertos.
Gavrel fez algo que só se permitia fazer em seu quarto, retirou seu tapa-olho. Pendurou seu casaco pesado e coberto com uma camada de pó de enxofre misturado com o que as tubulações de matéria escura expeliam, depois sentou em sua cama e bateu ao lado dele.
— Venha se sentar comigo. Já disse que não precisa se ajoelhar para mim.
Keesa nada respondeu, mas fez conforme ordenado e olhou curioso para ele.
O coração dele continha a curiosidade. Foi uma surpresa para Gavrel sentir que seu pet estava preocupado com ele. Ninguém realmente… se importava dessa maneira com ele.
Keesa era mesmo tão diferente.
Queria tocar no rosto dele, mas notou que mesmo suas mãos estavam sujas. Não queria sujar a única coisa limpa naquela nave.
— Vou me banhar, espere por mim na cama, está bem?
Keesa assentiu com um pequeno sorrisinho e se deitou enquanto Gavrel saiu para se banhar.
Olhou para o espelho vendo as horríveis cicatrizes que tomavam quase metade de sua face, as lembranças de Balmor, de Keesa ferido e em seguida sendo engolido não lhe deixavam a mente. A cada alucinação, as imagens ficavam mais realistas, mais detalhadas e duravam mais tempo de agonia e tortura também, como um longo pesadelo.
Tentou sacudir tais lembranças para longe e se banhou com o spray quente de seu chuveiro anti-resíduos, levando os resquícios de carvão e enxofre de sua pele e cabelos.
Quando retornou, Keesa estava quase adormecido, mas imediatamente sentou ao vê-lo e sorriu. Gavrel não costumava sorrir sem um bom motivo para isso, mas naquele momento ele tinha esse grande motivo.
— Está melhor, senhor? — Keesa perguntou baixinho quando Gavrel se deitou ao lado dele.
— Eu já disse para me chamar de Gav. Você é o único que pode me chamar assim. — Virou-se para ficar frente a frente, com um braço sob a cabeça. — E sim, estou melhor.
— Isso é bom… Gav. — As bochechas do humano coraram uma cor linda e ele se aproximou, sabendo que tinha permissão para ficar perto dele, para tocar, para falar com ele, para fazer tudo o que quisesse com ele.
Gavrel tinha deixado bem claro tudo isso.
E naquele momento as palavras de Aquantis, de dias atrás, flutuaram por sua mente enquanto abraçava Keesa apertado.
“Você deveria dar mais valor a ele e não tratá-lo como um escravo.”
Mas ele dava valor a Keesa. Queria protegê-lo. Amava-o todas as noites e passava o dia pensando nele. Johnny tinha razão quando lhe disse que Keesa se tornou seu ponto fraco. E foi tão rápido que era assustador.
Como alguém poderia simplesmente surgir em sua vida e em seguida se transformar no que tinha de mais importante?
Isso quer dizer que… tudo o que tinha, seus bens materiais, suas conquistas, sua superioridade, nada disso realmente importava?
O calor de Keesa, o cheiro de sua pele e de seus cabelos, a maciez contra o seu toque, mesmo as pequenas ondulações de suas cicatrizes pelo corpo, tudo isso era inebriante aos seus sentidos. Gavrel enfiou os dedos nos cabelos de Keesa e puxou delicadamente sua cabeça para trás, inclinando-a para beijar seus lábios, suas bochechas, seus olhos… então novamente seus lábios, aproveitando a oportunidade de aprofundar o beijo quando seu amante se abriu para ele.
As mãos quentes subiram por sua face, uma delas tocando suavemente as cicatrizes de seu rosto, sem hesitação.
— Você não tem nojo? — Gavrel perguntou baixinho quando se afastou do beijo.
— Do quê? — Keesa perguntou meio atordoado, seus lábios vermelhos e inchados brilhavam. Era simplesmente perfeito.
— Disso… — Pegou a mão de Keesa e trouxe novamente seus dedos para cima, sobre as cicatrizes. — Não é estranho?
— Estranho…? Por quê? — Ele realmente pareceu confundido e estava, Gavrel podia ver isso. A forma como seu coração inchava e bombeava os melhores sentimentos quando estava com ele, apenas fez Gavrel amá-lo mais. Como alguém poderia estar com ele e sentir tudo isso? Como alguém era capaz de olhar para ele com aquele olhar? Aquele sorriso? Aquela expressão?
— Eu não tenho nojo de você, não sei por que acha que alguém teria. Essas cicatrizes te fazem ser quem você é. Elas contam uma história… assim com as muitas que eu tenho no meu corpo. — Keesa disse isso com uma naturalidade que o deixou sem fôlego. — Mostra que você é um homem forte, que luta pelos seus ideais, que conquista aquilo que deseja… também exige ser respeitado. Não vejo por que ter nojo disso.
Gavrel o puxou novamente para fazer seus corpos colarem juntos um no outro, beijando um ponto entre o ombro e o peito de Keesa, provocando nele arrepios. A forma como ele reagia às suas carícias era linda.
Beijou seu pescoço, sua mandíbula e sua boca, colocando todo o seu coração nisso. Aquela sensação de poder e ansiedade permeou seu ser… uma sensação que só aparecia quando estava bem próximo de Keesa. Era um sentimento que nunca teve antes por qualquer pessoa, seja pet ou não.
Queria mordê-lo.
Beber de seu sangue que tinha um sabor todo especial em sua língua e era capaz de fazê-lo se sentir como novo, sentir uma conexão única pelo pequeno ser humano puro em seus braços.
— Está com fome? — Keesa indagou entre o beijo, depois inclinou a cabeça, expondo seu pescoço e tirando o cabelo do caminho. — Aqui.
— Humm. — Gemeu, deslizando seu nariz pela pele suave e quente. — Certeza?
— Sim. — Keesa estremeceu. — Oh, espere… que tal tentar de uma forma diferente?
Gavrel se afastou para olhá-lo, curioso.
— Diferente como?
A forma como o rosto de Keesa corou o deixou ainda mais interessado no que ele estava querendo lhe dizer.
O pet se sentou na cama e inclinou para a mesa de cabeceira, trazendo um tubo de lubrificante. Só então Gavrel entendeu o que ele queria.
— Deve ser bom se nós tentarmos… uh… você sabe.
— Sim, eu sei. — E ele queria muito isso.
— Então?
— Dê-me isto. — Pegou o tubo enquanto Keesa retirava sua camisola transparente, ficando completamente nu. Ele tinha um corpo lindo, seus traços masculinos misturados com a suavidade que só era dele, tornava-o um deleite para os olhos. E sua ereção já estava bem dura e úmida.
Gavrel não queria fazer aquela experiência dolorosa ou desconfortável, ver aquele olhar de confiança em Keesa só cimentou esse sentimento. Preparou-o suavemente, abrindo caminho para o que viria depois. Enquanto isso, beijava lentamente seu corpo… seu peito, seus mamilos, seu pescoço e orelhas, então descia para o abdômen, o interior das coxas.
Isso era algo que — se envergonhava em lembrar — nunca tinha feito com alguém antes. Ou seja, nunca tinha tido aquele cuidado, aquela preocupação em beijar alguém, em querer que se sentisse melhor do que ele, de querer agradá-lo.
E não foi em vão, pois os gemidos de seu companheiro eram doces e como música para seus ouvidos, ele realmente estava se deleitando com seu toque, o que trouxe uma onda de euforia para ele.
Nunca pensou que fazê-lo se sentir bem o deixaria tão feliz, tão satisfeito consigo mesmo.
Quando deslizou para dentro de seu corpo, o calor de Keesa o abraçou maravilhosamente bem e seu companheiro parecia mais do que feliz com a intrusão também. Ele sorriu quando estava completamente enterrado nele e aceitou o beijo molhado e gostoso de Keesa.
Movia-se vagarosamente, tocando onde era possível e também sendo tocado. Keesa era tão apertado em torno dele, melhor que qualquer punho. Gavrel o beijava apaixonadamente, sentindo os espasmos e o estremecimento na pele de seu amante. Ele parecia desfrutar tão bem do que estavam fazendo.
— Gav… — Ele murmurou entre gemidos, transformando seu coração em geleia. Céus, só ele tinha esse poder.
E quando Keesa novamente ofereceu seu pescoço para ele, Gavrel tomou seu tempo para cheirar a pele, beijar e provocar com os dentes, até finalmente afundar suas presas nele e sugar suavemente seu sangue.
Foi como se faíscas surgissem detrás de seus olhos, formando fogos de artifício, espasmos correndo por todo o corpo, sua pele esquentando de modo alarmante e um prazer sufocante arrancando um gemido no mais profundo de seu ser.
Sentiu algo se formar entre eles, uma sensação inexplicável e distinta de tudo o que já sentiu antes. Quando se afastou, a ferida tinha se transformado em um grande símbolo que só poderia ser reconhecido por alguém como ele.
Um valius.
Keesa não era um ser humano qualquer. Ele era o seu companheiro de alma, sua outra metade.
Ficou parado, sem mover um músculo enquanto tentava entender aquilo. Encontrar outra resposta para algo que parecia tão impossível ou… seja lá o que fosse. Enquanto sua confusão não o deixava, Keesa já estava profundamente adormecido e satisfeito.
—*-*-
Dominic entrou com Zack e os demais para inspecionar o que havia de novo na nave Imperatriz.
Por fora não havia tanta diferença de como foi antes, mas por dentro… era visível que Gavrel quis ajudar, mas também quis economizar. Parecia uma cópia da nave Margosha. Não que se importasse, afinal a nave não era dele, mas ver Zachary surtar foi até engraçado.
— Paredes de aço, portas de metal com… alavancas… — Zack estava ficando vermelho feito um tomate. — Luzes vermelhas… oh céus, canos por toda parte! Eles pensam que isso é alguma arte? É horrível! Absolutamente horrível!
— Calma, Zack…— Dominic estava em sua forma normal humana e colocou a mão sobre o ombro do outro. — Vamos conversar com…
— Trey vai surtar! SURTAR! — Interrompeu Zack gritando. — Quando ele ver quão horrível ficou tudo isso, sabe quem ele vai esganar? Eu! Isso mesmo, vai sobrar para mim, por quê? Por que eu que estava no comando do projeto, mas confiei… eu confiei, Nic, que eles fariam um bom trabalho… — Zack pegou Dominic pelos ombros e passou a sacudí-lo para frente e para trás. — O que eu vou fazer? — Agora ele estava choramingando, os olhos cheios de lágrimas. — Eu não tenho dinheiro, crédito, nada, estou zerado, sabe o que é isso? Zeradoooo!
— Mas o que está havendo aqui? Olhe o que está fazendo com ele! — Austin apareceu separando Dominic de um Zack entrando em pânico. — Por que está tão nervoso? O que aconteceu?
Dominic ainda estava zonzo para dizer qualquer coisa.
— Você é cego, Austin?! — Zack procurou nos bolsos do casaco até achar sua bombinha e inspirou profundamente fazendo um barulho estranho de asfixia. — Olhe ao redor!
Austin fez, tão calmo que era admirável e Dominic fez o mesmo.
— É… meio peculiar. — Ele coçou atrás do pescoço, sem graça. — Trey não vai ficar feliz quando souber da decoração interna. Mas não podemos reclamar, já que até agora Gavrel não mencionou como vamos pagar isso. O importante é termos a Imperatriz voando.
— Eu vou agora mesmo dizer a Trey! Antes que ele veja, porque não quero o meu pescoço cortado. — Zack saiu pisando duro e Dominic estava pasmo por vê-lo agir assim.
— Não se preocupe com ele. — Austin sorriu. — Zachary surta por qualquer coisa, ele grita, fica histérico, entra em pânico, é sempre assim, nós já estamos acostumados com isso. Logo ele ficará tranquilo novamente.
Dominic assentiu se sentindo um pouco mais aliviado, e claro, divertido por saber que o seu… uh, parceiro, diria, tem um lado bastante engraçado.
— Tem um cheiro estranho aqui dentro. — Dominic comentou. — Igual ao cheiro dos corredores…
— Sim. — Austin concordou. — É matéria escura. — Seus olhos cintilaram com um brilho estranho. — Isso é bem anormal. Precisamos falar com Gavrel e saber o que ele fez aqui. Você vem comigo?
— E-Eu? Por quê? — Dominic encolheu os ombros sentindo seu rosto queimar. Falar com estranhos sempre o deixava muito encabulado e cheio de vergonha. Antes mesmo que Austin tivesse a chance de responder, Dominic ficou pequeno feito um roedor e a risada do uraniano retumbou contra o aço das paredes.
Ele pegou Dominic e o colocou em seu ombro.
— Quer se esconder?
— Sim… — Respondeu tímido.
— Entre aqui. — Austin abriu um dos bolsos de sua jaqueta e Dominic deslizou para dentro, sentindo-se seguro e protegido. Se não pudessem vê-lo, tudo estava bem. Queria fazer isso com Zack, é claro, mas já que ele estava mais ocupado surtando, ficaria ali mesmo. Não conteve seu beicinho e colocou apenas a cabeça para fora do bolso para observar ao redor.
Continua...
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