Lost
3 Capítulo 3
Notas iniciais
A arma em punho, todos os músculos tensos, a veia saltada na lateral da testa, os cabelos mais longos, a aparência envelhecida, Kurt estava em seu limite. Jane leu isso imediatamente.
— Como...? – questionou parecendo bastante surpresa e confusa.
— Como? – ele quase riu de sarcasmo – Essa pergunta deveria ser minha, não é mesmo? Como, Jane? Como vocês está viva?
“É, que grande merda! Você está ferrada. Tente respirar. Não se esqueça, D-E-C, Sis.” A voz de Roman em sua mente era tão clara e aquela situação era tão difícil que Jane se perdeu.
— Eu sei! Fique fora disso.
— Eu juro pra você que tentei, Honey. Mas não sou um idiota tão completo como você julga.
— Não! Eu não quis dizer isso. Eu... Kurt, é uma longa história...
— E eu seria todo ouvidos, Baby, se fosse capaz de acreditar numa só palavra que sai da boca.
— Você precisa... eu não ment...
— Não mentiria para mim? Como, por exemplo, jamais forjar sua própria morte sem que eu soubesse?
— Foi algo horrível, eu sei.
— Não, você não sabe, Jane! – ele gritou com toda a força do seu ser. – Você não faz a menor ideia do que eu passei!
— Eu sinto muito...
Ele riu com sarcasmo e demonstrando maior autocontrole:
— Sente? Você sempre sente muito, não é mesmo? Sentia muito por afetar minha vida, por fingir ser Taylor Shaw, por ter planejado destruir minha equipe do FBI, por fugir, por mentir. Mas você não parou, não é mesmo? Você nunca para! E, olha só para nós agora. Você conseguiu, Jane! Parabéns. Destruiu a minha vida!
— Não! Você não pode pensar assim. As coisas só ficaram complicadas demais de repente... – ela disse olhando para um ponto qualquer buscando maior equilíbrio emocional para continuar.
— Quando foi que as coisas para nós não foram complicadas, Jane? Olha pra mim, merda! Pelo menos, olhe pra mim. Você sempre olhava pra mim... O que mudou? Não pareço bom o suficiente pra você? É porque eu não sou mais o homem que eu era.
— Não é isso... você sempre foi o melhor, Kurt...
— Então, mantenha seus olhos em mim enquanto eu falo! Olhe pra mim mesmo que minha aparência te incomode. Esse trapo que você está vendo na sua frente, é o que sobrou do homem que acreditou ter te perdido naquela maldita noite na Times Square. Eu fiquei lá olhando pra você mesmo depois que me disseram que estava morta. Eu não tirei os olhos de você enquanto eles te colocavam naquele maldito saco! Eles não me deixaram me aproximar, mas continuei lá.
“Dizer que sente muito ou que imagina como ele se sentiu só vai piorar as coisas, Sis.”
— Eu posso explicar...
“Você pode explicar? Pode mesmo? Essa até eu quero ouvir, Sis.”
— Eu não tive escolha... as agências federais estão me caçando e...
— Você não teve escolha... Está sendo caçada, por isso mentiu e fugiu. Por que isso não me soa estranho?
— Eu sei que é uma espécie de dejá vu sinistro... Mas eu juro que eu ia te procurar depois de resolver as coisas...
— Você só está se repetindo de novo, Honey. Já me disse isso em Veneza, não se lembra?
— Não, não... agora era diferente. Eu não podia deixar tudo se repetir, Kurt. Não queria que você passasse por tudo outra vez. Olha... – e gesticulou com os braços mostrando a sala em que estavam — ... eu tenho trabalhado duro nisso. Eu juro que não desperdicei um minuto...
— É, você realmente tem trabalhado duro. Foi isso que me trouxe até você. Mas parece que as coisas não vão tão bem assim, não é? Acho que não sou o único que perdeu um pouco das habilidades.
— É... – ela soltou com um fiapo de voz, um sorriso miúdo quase se formando em meio a resposta.
— ZIP?
— Isso. Vê como é algo maior do eu?
— Vejo, com certeza eu vejo tudo. Por isso você não aceitou parar...
— Sim. Eu não pararia, Kurt. Não depois de tudo...
Ela parou por um minuto, fechando os olhos e puxando o ar. Então pareceu retomar o foco.
— Isso é o D-E-C. Não é tão ruim quanto parece. E agora que você está aqui, pode se juntar a mim... Estamos juntos nessa, né? – arriscou a mesma frase que dirigiu a ele nos seus primeiros dias no FBI.
Ele riu entre dentes, desapontado.
— Acho que vou passar. Não sou o homem mais indicado para o seu caso. E você não está no controle, Honey. Acerte tudo com Nas, ela vai gostar de ouvir a sua história.
— Nas? Não, Kurt, acho que você não entendeu... não pode me entregar pra eles. Eu vou consertar as coisas... – disse já se afastando para trás – Você... você me ama...
— Amo. Infelizmente isso ainda é verdade. Mas eu também preciso “consertar” as coisas, Jane.
Ela torceu o pescoço e sua expressão foi ficando cada vez mais fechada, seu olhar tomado de ira.
— O que houve, Honey? Perdeu a habilidade de me fazer satisfazer todas as suas vontades? É frustrante, não é? Ou está com medo?
Jane puxou o ar duas vezes, respiração pesada e bufante.
— Cale a boca, Weller! Chega! – disse com os olhos em chamas.
Kurt se preparou para a luta. Ela tinha deixado a arma sobre a mesa do lado oposto da sala, teria que partir para um corpo a corpo para chegar até lá. Mas supreendentemente, ela recuou. Dois passos incertos e encontrou a parede. E lentamente escorregou para o chão, se sentando. Pernas flexionadas a frente do corpo, braços apoiados nos joelhos, olhos fixos nele.
Ele estranhou, mas não se se moveu. Permaneceu pronto para o embate, arma em punho, corpo tenso em alerta, também olhando fixamente para ela, esperando.
Jane continuava com a respiração pesada e o olhar ameaçador, mas simplesmente não se movia. Os segundos foram se convertendo em minutos e a tensão entre eles não diminuía. Nenhuma mudança.
De repente, Kurt se deu conta que seus braços estavam cansando daquela posição.
“Boa estratégia, Honey. Sentar e esperar.” Pensou com raiva.
E começou a recuar de costas para alcançar a arma dela sobre a mesa. Jane continuou imóvel. Então, ele tropeçou na sacola que estava no chão e se rasgou deixando rolar algumas garrafas. Contornando-as, finalmente, chegou na mesa e pegou a arma, um olho no que fazia e outro em Jane, a colocando em seu cinto.
Como ela continuava exatamente na mesma posição, ele arriscou olhar as garrafas: água mineral e água tônica. Focou novamente na esposa. O suor agora era nítido em sua testa. Sua respiração continuava pesada, mesmo minutos depois. Ela já devia ter se acalmado.
Ele não devia se importar, não mesmo. Mas foi mais forte que ele. Chutou uma garrafa de água mineral certeiramente nos pés dela.
— Beba! – disse seco.
Nada. Ela continuou imóvel.
Aquilo o irritou mais ainda. Pela primeira vez, calculou o que fazer. Como imobilizá-la? Levá-la para o andar superior imobilizada era impossível sem chamar a atenção. Ele não tinha uma corda ou algemas. Lembrando-se dos cadeados que estavam na porta, considerou que sua melhor opção era trancá-la naquela sala. Então contaria o que aconteceu a Patterson e Tasha e acionaria Nas. Aguardaria até a amiga chegar com agentes treinados e seguiria com eles para prestar depoimentos.
Recuou até a porta devagar e alerta. Destravou e deu um passo para fora. Enquanto pegava a corrente e os cadeados, viu ela se mover em sua visão periférica. Voltou seu foco para dentro. Estranhamente, Jane apenas jogou o corpo para trás, recostando-se na parede e esticou uma das pernas. Depois levou as mãos à cabeça, deixando os dedos se afundarem entre os cabelos.
“D-E-C” a voz de Roman sussurrou.
— Eu sei. – ela respondeu baixo, num gemido que Kurt não decifrou da distância em que estava.
“Oh, merda! Você tem problemas bem sérios dessa vez, Sis. Acho que é a hora de jogar a toalha.”
Jane não respondeu. Porque admitir o óbvio. Ela realmente tinha sérios problemas. Sentindo a garrafa d’água perto de seu pé, a alcançou e abriu. Estava bastante trêmula o que Kurt percebeu. Quando foi devolver o objeto ao chão, deixou que a garrafa batesse violentamente no cimento o que a fez tatear o espaço a sua volta.
Kurt esticou a cabeça para dentro da sala. Aquelas reações dela eram muito estranhas.
Apoiando-se na parede, Jane se levantou com dificuldade. Tateando-a foi circundando o cômodo até alcançar a primeira mesa como se ignorasse a presença de Kurt ali. Algumas vezes, levou a mão ao lado do abdômen enquanto trocava os passos.
“Sem as anotações, é inútil tentar. É impossível fazer qualquer coisa cega.”
— É muito mais difícil, mas sempre existe uma saída, lembra-se? Você repetia isso o tempo todo durante meu treinamento. – respondeu enquanto tateava os objetos que estavam sobre a mesa.
“Impossível prever o que pode acontecer agora. Novos sintomas aparecerão. As alucinações foram tão reais quando você estava abraçando a morte na Times Square. Cheiros, sensações. Chegou a sentir Kurt tocá-la, não foi mesmo? Talvez suas alucinações materializem um anjo ou algo assim pra te ajudar.”
— Você devia dizer algo motivador e não ficar me lembrando dos problemas, Roman.
“Se eu não te lembrar, vai conseguir fazer isso sozinha?”
— Você sabe que não, Roman. – e parou por alguns segundos nitidamente buscando maior autocontrole – Não vá embora, por favor... Você sabe o quanto é difícil enfrentar tudo sozinha. Eu já pedi perdão por ter deixado as coisas acontecerem assim com você... – e engoliu um soluço de choro – Mas eu não posso desistir. Se algum dia eles descobrirem o que aconteceu comigo, quero que saibam que eu tentei até o último minuto.
Kurt tentava processar o que estava acontecendo. Ela parecia estar cega e alucinando com Roman. Calma, Kurt! Não aceite assim tão facilmente. Ela é astuta. Blefaria para poder contornar a situação em que se viu acuada.
Nesse instante, dois breves bips soaram da centrífuga mostrando que o processo havia terminado.
Rapidamente Jane se virou na direção do som.
— É a centrífuga. Então deixei uma nova fórmula em preparação. Se eu conseguir conectar ao soro... – e levou uma mão à cabeça apertando fortemente – Por favor, Roman, só por algum tempo, faça-os parar.
Aquilo parecia completamente insano. Kurt sempre foi um homem de ação, não suportaria ficar ali observando e se questionando. Se fosse uma estratégia pra driblá-lo, que ela tentasse logo. E entrou na sala, arma em punho apontando pra ela, mas mantendo uma distância segura.
Jane pareceu se transformar. A mulher tateante deu lugar a agente imbatível que o acompanhava em campo. Postura ereta, olhar firme, queijo alinhado, mas uma das mãos segurando desesperadamente na mesa. Ela não parecia cega agora.
Kurt ficou imóvel a sua frente esperando que ela se movesse primeiro. Conforme o tempo foi passando, percebeu que os olhos dela não se movia, mas leves movimentos dela, quase imperceptíveis indicavam que estava com a atenção total no que ouvia.
Silenciosamente, ele moveu o corpo para a esquerda sem tirar os pés do chão. Foi um movimento rápido, para chamar a atenção do olhar dela. Nada. Em seguida, soltou uma das mãos da arma e, se abaixando, pegou outra garrafinha do chão. A moveu na frente dela e depois fingiu que a tinha arremessado. Nada. Para finalizar, executou a manobra de fato. Jane só voltou o rosto para a direção onde a garrafa caiu após o barulho se fazer ouvir.
“Merda, Jane.” Kurt pensou já sentindo seu coração quebrar.
— Jane. – chamou firme, mas tentando por um toque de doçura na voz.
Ela ficou visivelmente mais tensa e recuou se espremendo contra a mesa.
— Sou eu. Fique calma.
— Quem é você? – ela exigiu com a voz totalmente aflita.
— Estou com você aqui já há algum tempo...
— Não, não está. Eu estou sozinha aqui!
— Não se lembra? Não reconhece a minha voz?
— Quem é você e como me conhece?
“Você vai ficar questionando o cara? Tente pedir ajuda.” A voz de Roman pediu a ela.
Kurt ficou em silêncio por um momento, pensando no que dizer. A tensão no rosto dela fazendo toda a raiva e certeza de minutos atrás se transformarem em medo e dúvidas.
— Janie, eu sou... um amigo.
Mentiu. Talvez assumir a verdade a afastasse. Se ela se lembrasse dos embates recentes, não confiaria nele.
— Roman sabe disso. Diga a ela, Roman! Eu posso ajudar.
— Você consegue ver o Roman?
— Não, eu não consigo ver ou falar com ele. Mas sei que Roman está aqui. Vocês são inseparáveis, não é mesmo?
— Ele é meu irmão...
Jane mal terminou de falar e se baixou bruscamente, segurando a perna e gemendo de dor.
Sem pensar, ele fez o mesmo e levou a mão até a perna dela, apalpando.
— Câimbra? – questionou massageando o local e forçando o pé dela pra cima.
Jane balançou a cabeça concordando sem conseguir responder. Quando foi relaxando, ele aproveitou para passar o braço pelas suas costas a apoiando. Novamente a mão dela foi para o lado esquerdo do abdômen e Kurt percebeu que ela ardia em febre.
— Você está com febre.
— É o abcesso. – e precisou respirar – Preciso fazer uma nova punção. Vai ajudar até eu pensar numa forma melhor de lidar com isso...
— Precisamos levar você até um médico...
— Não! Eles vão me encontrar. Eu resolvo sozinha. – e, com muito esforço ficou de joelhos tateando a mesa.
— O que você está procurando? Eu pego pra você.
— Água tônica.
Kurt rapidamente alcançou uma garrafinha e a abriu. Puxando Jane cuidadosamente de volta ao chão, a acomodou entre suas pernas e ofereceu o líquido. Mas, ao afastar os cabelos dela do rosto, viu que seu nariz sangrava.
— Seu nariz está sangrando...
Imediatamente, ela passou o braço coberto pela jaqueta tentando limpar. O couro só espalhou mais o sangue deixando o rosto dela uma bagunça. Alcançando um paninho que estava num canto da mesa, Kurt foi tentando resolver o problema com toques suaves. Depois a ajudou a beber a água tônica.
— O gosto não é dos melhores – brincou tentando deixá-la mais confortável – sem gelo, então...
Por um instante, pareceu que ela ia sorrir, mas Jane soltou a garrafa e voltou a ficar imóvel.
— Jane! Jane! Está tudo bem?
Nenhuma resposta.
Então, Kurt resolveu recliná-la mais em seus braços e buscar qualquer outro sinal do que estava acontecendo. Foi quando percebeu que os olhos dela tremiam, apenas a menina dos olhos fazia um movimento intermitente.
— Jane! Jane! – voltou a chamá-la enquanto acariciava sua bochecha com o polegar. — O que está acontecendo com você, Jane?
Eles precisavam de ajuda, finalmente se deu conta disso. Pegando o celular enquanto a segurava firme contra seu peito com o outro braço ao redor do dorso dela, chamou a conexão.
— Patterson! Patterson!
A conexão ainda estava instável.
— Merda de conexão! – xingou com o áudio acionado.
— Opa, opa! Mais respeito aí, senhor agente especial. Dá pra não ir até o inferno para o sinal te alcançar? – Ana respondeu.
— No inferno é exatamente onde estou, Ana. Onde está Patterson?
— Aqui, Weller.
— Por que todo mundo só quer a Patterson? – Ana reclamou.
— Jane está aqui. – a voz aflita de Weller chegou até elas.
— Ok, entendido. Você está seguro, Weller?
— Estou. Patterson, ela não está bem.
Ana chama imediatamente Patterson no privado.
— Melhor você contar que ela está morta, Boss.
— Weller, por favor, você precisa se acalmar. – a loira suplicou.
— Ela está viva, Patterson. Está nos meus braços agora.
Tasha, que acabara de entrar na conversa, chamou Patterson e Ana no privado:
— Preciso de dez minutos para chamar uma babá e já estarei a caminho. Não pensei que o estado dele era tão grave.
— Vou também. Encontre-me na entrada da estação, Tash. Vou mantê-lo em contato. – e voltou para o grupo – Kurt, vamos até você, ok? Não saia de onde está.
— Patterson, os olhos dela estão tremendo e ela fica completamente imóvel quando isso acontece. Eu a confrontei quando chegou, parecia normal. A Jane de sempre, com exceção para o fato de que não lutou comigo. Teve uma dessas... crises. E, quando acordou, estava cega e não se lembrava que eu estava aqui. Também falou com Roman. O que eu faço? Como posso ajudá-la? Pode ser o ZIP, não é? Como ela resistiria a tanto tempo envenenada?
— Ok, ok... deixe-me pensar... – a loira tentou ganhar tempo já pegando a bolsa e a chave do carro.
— Tenho que fazer algo agora, Patterson! Não posso deixá-la morrer de novo. Ah, ela também teve câimbras muito fortes.
— Pra câimbra, meu irmão me dava água tônica. – Ana disse inocentemente.
— Ela trouxe água tônica quando chegou. Conseguiu tomar alguns goles antes da crise. E sobre o ZIP, Ana, o que eu faço? – com o desespero começando a se apoderar dele, Weller perdeu até a noção do que pedia.
— O antídoto... – Ana disse fazendo o jogo de Patterson para mantê-lo focado nos áudios das mensagens.
— Ela colocou algo na centrífuga e a máquina parou a pouco. Vou ver o que tem lá.
Colocando Jane cuidadosamente no chão, ele se levantou e foi até a centrífuga. Pegou o frasco e fotografou enviando para as meninas. Depois fez o mesmo as anotações recentes de Jane.
Patterson já estava saindo da garagem quando as fotos chegaram. Ela parou e observou.
— Isso é realmente muito parecido com a fórmula do último antídoto que desenvolvemos, aquela que usamos em Jane. – respondeu.
Nesse momento, Jane começou a se mover. Kurt a alcançou e envolveu em seus braços.
— Está tudo bem, Jane.
— Quem é você? – a voz dela saiu muito trêmula.
— Um amigo. Estou aqui para ajudar. O que você preparou na centrífuga, é o antídoto?
Ela não respondeu, se mantendo firme em não dar informações a ele.
— É melhor que seja. Você não parece bem. Vou tentar aplicar essa fórmula em você.
E, a soltando novamente, correu até a sala ao lado. Voltou trazendo o colchonete e o cobertor para deixá-la mais confortável enquanto preparava a aplicação. Ele só rezava para isso ter um efeito por via intramuscular porque não tinha a menor habilidade para fazer um acesso venoso.
Ao retornar, viu que ela tinha coberto os ouvidos com as mãos. Se aproximou com cuidado.
— Está tudo bem. Vai passar em breve. Vou cuidar de você.
— Se você está aqui mesmo pra ajudar, por favor, cuide deles. – ela disse e não conseguiu conter as lágrimas.
— Quem, Jane? Conte-me para que eu possa ajudar.
— Os bebês... Não está escutando? Estão chorando a muito tempo e não consigo fazer nada por eles.
— Os bebês estão bem, Jane...
— Não, não estão. Devem estar com fome... ou frio... ou medo...
Kurt estreitou o abraço ao redor dela e beijou seus cabelos.
— Escute, Honey, eu estou vendo os bebês e eles estão bem. Só estão... tristes, preocupados com você. Então, vamos cuidar de você para que eles se acalmem, ok? Com isso você pode me ajudar, Janie?
Ela balançou a cabeça concordando e ele a colocou no colchonete. Ficando em pé, foi para a mesa buscar os equipamentos necessários.
— Você tem agulhas e seringas aqui. A quantidade que está no frasco é o que preciso aplicar em você?
— Não! Cada frasco são três doses.
— OK. Então, vou aplicar um terço dessa quantidade. Posso fazer isso em qualquer parte de seu corpo? O efeito será o mesmo?
— Não pode aplicar no músculo. É preciso diluir em soro fisiológico e deixar entrar lentamente no meu sangue. Eu tinha uma bomba dosadora, mas quebrou. Ficará pronta amanhã. Não era pra eu ter uma crise ainda. Faltavam alguns dias para a data certa de aplicar o antídoto.
Kurt sentiu o chão se abrindo embaixo de seus pés. Como faria isso? Percebendo seu silêncio, Jane intercedeu a seu favor:
— Se você preparar tudo, com a dose certa diluída no soro, eu coloco no cateter.
— Cateter? Como assim?
Com algum esforço, ela se sentou e tirou a jaqueta e depois a blusa de mangas longas preta de gola rolê. Usava uma regata por baixo. Então, desceu o decote mostrando o cateter.
— Aqui. É um intracath, um acesso venoso direto com uma veia de grosso calibre. Fizeram no necrotério. Mantive limpo e desobstruído pra receber o antídoto e os antibióticos que me ajudam com o abcesso.
Kurt tentou afastar todos os fantasmas do relato dela que o cercavam para ser objetivo na tarefa que tinha pela frente. Abriu as gavetas da mesa e pegou tudo que precisava: o frasco de soro, o equipo, a agulha e a seringa. Jane foi orientando claramente como proceder. Por segurança, ele mandou fotos de tudo que estava fazendo para as meninas que confirmaram que o procedimento estava correto.
Mais calmo agora, ele procurou na internet como ligar o equipo ao intracath de Jane e descobriu que era uma tarefa bastante simples.
— Controle o gotejamento. Sem a bomba, vamos ter que calcular manualmente. Acho que uma gota a cada dois segundos será suficiente.
Após executar o procedimento, Kurt se sentou encostado à parede e a puxou para seus braços.
— Obrigada. – ela sussurrou cansada se aninhando ao peito dele.
— Não precisa agradecer. Você fez a parte mais difícil: conseguir o antídoto.
— Eu não tenho escolha. Preciso fazer o melhor para sobreviver e consertar tudo isso. Ainda assim será pouco, eles nunca entenderão...
— É complicado, mas confie nos seus instintos. – e voltou a beijar os cabelos dela.
— O antídoto vai me fazer adormecer logo...
— Então, descanse.
— Quando eu acordar, você não vai mais estar aqui.
— Claro que estarei. Eu prometo.
— Por favor, não minta pra mim. Você sabe que talvez eu nem me lembre que você veio e me ajudou. Estou presa nessa montanha russa de esquecimento. É D-E-C mais uma vez... – e ele já a sentiu começando a ceder ao sono — E nem anotei ... Isso não é bom...
Jane adormeceu. Pouco depois Patterson e Zapata entraram pela porta, armas em punho, à procura de Weller. A cena era o que elas menos esperavam. Ele sorriu deixando as lágrimas aflorarem pela primeira vez naquele difícil dia.
— Ela está mesmo viva... – Patterson disse boquiaberta, deixando a mão com a arma cair ao lado do corpo.
— Santa Madre de Dios! – foi só o que Zapata conseguiu balbuciar.
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