Lost
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Jane se remexeu nos braços de Kurt lutando contra o sono. Os instintos dela era fortes e a presença de mais pessoas era um alerta de perigo. Ele presumiu que seria isso, a envolveu com mais força, beijou seus cabelos sussurrou:
— Está tudo bem. Descanse. Estou cuidando de você.
Estranhamente ela cedeu, relaxando novamente.
— Como? – a latina questionou com outro sussurro, surpresa e confusa.
Kurt levantou os ombros e arqueou as sobrancelhas gesticulando que não sabia explicar aquilo. Seus olhos eram pura emoção.
Patterson aproximou-se da mesa e vasculhou os papéis ali em cima, dando especial atenção às fórmula e anotações ao abaixo delas.
— É realmente uma adaptação do antídoto que desenvolvi. Mas essas anotações confusas podem ser uma Cifra de Vigenère. Vou tentar decifrar. Só um minuto.
Com alguns rabiscos enquanto realizava a conversão das letras aparentemente aleatórias anotadas naquela folha num esquema de substituição polialfabética, novas palavras foram surgindo, dando sentido ao que estava escrito.
— Fórmula + repouso; fórmula + tempo de sono; fórmula + pequenas atividades em alerta...os resultados são bem diferentes. – leu sussurrando para os colegas – Melhor deixa-la dormir o máximo possível. O maior tempo de eficácia do antídoto foi quando ela estava dormindo durante a aplicação e algumas horas depois.
Os três se entreolharam num compromisso mútuo de silêncio, mas Kurt o quebrou sussurrando a seguir:
— Ela está quente demais.
Patterson se aproximou dos dois se abaixando ao lado deles e colocou a mão na testa de Jane.
— Febre. – falou apertando os lábios preocupada.
Enquanto isso, Zapata foi até a outra mesa e começou a remexer o que havia ali.
— Tem antitérmico intravenoso aqui. – falou levantando o pequeno frasco. – Será que podemos aplicar junto com o antídoto?
— Melhor não arriscarmos. Ela precisa de médicos especializados e de um hospital. – Kurt insistiu.
— Ok. Vamos cuidar disso. Ana! — a loira chamou por áudio – Nossa, mesmo com o repetidor o sinal aqui é muito ruim. Ana!
— Aqui. – a jovem finalmente respondeu.
— Jane está mesmo aqui. E viva. Mas precisa de cuidados médicos. Chame uma ambulância com urgência.
— Viva?! Deus, eu mal consigo acreditar. – expressou em voz alta enquanto teclava os comando no seu computador, mas parou de repente – Ei, pessoal, isso é seguro? Quero dizer, pra Jane é seguro? Se ela estava se escondendo esse tempo não pode ser por estar em perigo?
— Ela mencionou que estava sendo caçada. – Kurt colocou – Mas pode ser apenas as agências de segurança que procuravam seu cadáver.
— Ou pode ter mais alguém envolvido nisso. Alguém que a tenha tirado do necrotério e ministrado o antídoto. – lembrou Patterson.
Zapata achou que era o momento de compartilhar suas próprias indagações:
— Por que ela não nos procurou para pedir ajuda? Ou por que não procurou uma das agências de segurança? Ana tem razão. O fato de Jane estar se escondendo deve ser levado em consideração. É melhor esperarmos o antídoto fazer efeito para que possamos esclarecer o que está acontecendo com a própria Jane antes de expô-la num hospital. Qualquer rede de informações vai detectar rapidamente a internação de uma mulher coberta por tatuagens.
— Odeio a lógica por trás de tudo que você disse, Tash. Há risco em expô-la num hospital e há riscos em aplicarmos esse antipirético nós mesmos. E ainda há o fato de que o antídoto original não funcionou da maneira adequada. Logo, temos que considerar que os médicos não poderão fazer muito por ela.
— Pessoal, não me deixem no vácuo. Confirmo a ambulância? – Ana quis saber enviando um áudio.
— A decisão é sua, Kurt. – a loira disse para o amigo batendo suavemente em seu ombro.
Ele respirou fundo. Estava tão perdido entre os sentimentos conflitantes que se enfrentavam no seu interior. Não queria ter que fazer essa escolha. Mas sabia exatamente qual seria a escolha que ela mesma faria sem sequer consultá-lo para isso.
— Aplique o antipirético. É a escolha que Jane faria. Vamos torcer para isso dar certo. Depois que o antídoto agir, a interrogaremos e tomaremos as providências cabíveis como notificar as agências de segurança.
Ainda havia muita mágoa nele. Isso ficou claro em cada palavra. Patterson e Zapata leram claramente todas as entrelinhas.
— Cancele a ambulância, Ana. Nós mesmos vamos cuidar de Jane. – a latina informou.
Enquanto Zapata preparou a medicação e lentamente a aplicou utilizando o mesmo equipo que ministrava o antídoto, Patterson observou cuidadosamente o mural de Jane, as anotações sobre a mesa e o que havia nas gavetas.
— Ela tem um relatório detalhado dos testes que fez. – falou mostrando um caderno repleto de anotações. – As informações não estão explícitas. Jane usou outros idiomas, criptografias como a Cifra de Vigenère.
Discretamente, Patterson gesticulou para Tasha e mostrou diversos pontos das anotações de Jane. Várias páginas tinham desenhos de Kurt e Avery acompanhados pelas palavras “Não esquecer” e “não se aproximar”. E, puxando um novo calhamaço de folhas do fundo da gaveta, continuou:
— Isso aqui está em braile. Aposto que são as mesmas anotações do caderno transcritas para ela ter acesso se perdesse a visão novamente. O que mais me desagrada é deixar o antídoto ser aplicado sem uma bomba que calcularia precisamente o tempo da infusão. Eu tenho uma em casa, mas só o tempo de ir até lá buscar e retornar...
— Você tem uma bomba infusora de medicação intravenosa em casa, Patterson? – o cenho franzido de Tasha mostrava o quanto ela estava estranhando aquilo.
— Eu meio que tenho um mini-hospital no bunker do porão. Sabe, foi muito prática de conspiração contra a gente. Sinto-me mais segura assim. E o Lincoln também curte o lugar.
Tasha e Kurt trocaram olhares rápidos e surpresos com a informação.
— Então, vamos levar Jane pra lá. – Kurt concluiu já se ajeitando pra se levantar e carregar Jane.
— Espere aí, Weller. Sei que NYC pode ser muito estranha. Mas subir três andares de uma estação de metrô carregando uma mulher desacordada vai chamar a atenção das pessoas com certeza. Antes de chegarmos no carro, já estaremos cercados pelos caçadores de Jane porque a internet estará cheia de vídeos mostrando seu ato heroico ou desumano em diferentes interpretações.
— Estou no vácuo de novo, pessoal. O que está acontecendo aí? – Ana chamou.
— Ana, queremos tirar Jane daqui, mas ela está desacordada. Precisamos alcançar a rua sem chamar a atenção das pessoas. E tem que ser logo. – a voz de Patterson mostrava-se desanimadora.
— Tá zoando comigo, né? Isso é fácil demais.
— No que você pensou, Ana? – Zapata foi rápida e urgente.
— Só o básico. Colocar Jane numa mala.
— Colocar Jane numa mala... Cômico, se não fosse trágico. Não temos uma mala, engraçadinha. – a latina retrucou.
— Acabei de comprar uma. É só um de vocês retirar na lojinha Mala Maluka do segundo andar. Não é discreta, mas é bem grande. Romero Britto. Artista brasileiro radicado aqui em Miami. Eu gosto do estilo.
Antes que Ana chegasse na descrição de Romero Britto, Zapata já estava correndo para a loja.
— Eu só queria que a Ana falasse um pouco menos. Essa menina quer explicar tudo. – Patterson reclamou de volta a mesa principal juntando os papéis dispersos dali.
— Acho que é mania de quem fica no laboratório. – Kurt lembrou com quase um sorriso.
A loira olhou para ele com desdém, mas não conseguiu manter sua postura por muito tempo. Sabia o quanto aquele dia estava sendo difícil para Kurt. Resolveu, então, fotografar tudo que havia ali com precisão de detalhes.
— O que você está fazendo?
— Quero detalhar bem a posição de cada coisa antes de juntar tudo isso. Se vamos levar Jane, precisamos levar todo o trabalho dela conosco também. E, se estou certa, deve haver uma lógica própria para as formas como as coisas estão organizadas. Vamos reproduzir isso no bunker da minha casa. Assim, o trabalho dela será preservado praticamente intacto.
— Ela não se lembrou de mim nem reconheceu minha voz após as convulsões. Colocar as coisas lá exatamente da mesma forma como estão aqui podem ajudá-la a se lembrar das pesquisas que fez.
Minutos depois, todas as anotações e desenhos de Jane estavam embalados na mochila de Patterson e Zapata retornava com a mala. A loira se aproximou e conferiu os sinais vitais de Jane. Após confirmar que a amiga tinha reagido bem, as duas subiram para pegar o carro e aguardar Weller na saída da estação.
— Vá direto para o elevador. Mesmo que tenha que aguardar alguns minutos ali, será mais rápido e menos agressivo do que subir pelas escadas rolantes. – a loira lembrou antes de sair.
O túnel longo e escuro foi vencido rapidamente. As rampas também. Quanto mais subia, mais Kurt se sentia retornando à vida. Voltando com ela nos braços. A longa escada foi um desafio maior. Estava fora de forma, mas ele não vacilou um degrau sequer.
No pequeno patamar que dava acesso à estação já operante do metrô encontrou a mala deixada pelas amigas. Observou-a por um instante. Era colorida e alegre. Cores e sentimento que pareciam ter escapado dele há oito meses atrás.
Cuidadosamente Kurt colocou Jane dentro da mala. Era a segunda vez que se via obrigado a fazer isso. A primeira foi em Veneza quando aplicou succinilcolina nela, um relaxante muscular que simulou sua morte e permitiu que ele a entregasse para o Faz Tudo italiano anulando o prêmio pela cabeça dela. Mas ele nunca a viu saindo de uma mala. Jane estava sozinha na Times Square quando saiu de uma pela primeira vez. Sozinha, nua, assustava, sem memória. Em Veneza, ele lutava com os homens do duque quando ela acordou sobre o altar da igreja, saltando para cima de seus opositores. E, merda, ele nunca a viu sair daquele saco de cadáver no qual a embalaram da última vez que estiveram juntos.
Um outro pensamento o assaltou. Oficialmente ela morreu no Afeganistão. Morreu também naquele dia em Veneza, pelo menos foi o que a Dark Web confirmou nas horas seguintes. E morreu na Times Square naquela noite maldita. Mas, nas três vezes, ela voltou da morte.
— É hora de quebrar o ciclo. Dessa vez você não morrerá, Janie. Precisa perder esse hábito. Uma leoa só tem sete vidas. – e roçou o dedo na têmpora dela antes de fechar a mala.
A estação do metrô não estava muito movimentada. Foi rápido atravessar o parque de embarque e alcançar o elevador. Apertou o botão fazendo uma prece silenciosa para que aquilo não demorasse. Foi atendido. A porta se abriu instantes depois. Entrou e acionou o comando de subida.
O Universo parecia conspirar a seu favor. O elevador não parou em nenhum outro andar além do nível da rua. Kurt saltou dele com rapidez, atravessou a pequena distância que os separava do carro já estacionado a sua espera com a porta de trás aberta. A mala foi colocada no banco de trás com cuidado.
Assim que partiram, Patterson soltou seu sinto e ficou de joelhos no banco da frente pra ajudar o amigo a desembalar Jane. Foram rápidos e precisos. Ele acomodou-a em seus braços. Sua vontade era chutar aquela mala pra longe colocando sobre o objeto a mesma repulsa que sentiu do saco da funerária na noite maldita.
O trajeto até a casa de Patterson demorou quase uma hora. Ela morava em New Jersey agora, numa grande e luxuosa propriedade do subúrbio. E a loira não estava brincando quando contou sobre ter um bunker no seu porão com um mini-hospital. Aliás, ela foi até modesta. Parecia preparada para o fim do mundo.
Jane foi colocada numa cama. Em seguida, conectaram o antídoto a bomba para controlar melhor o tempo de infusão garantindo maior eficácia. Devagar, começaram a despir parte de sua roupa. Queriam avaliam o abcesso no abdômen. Não lhes pareceu nada bom. E mal podiam tocar na região que ela já reagia demonstrando dor.
— Preciso ir pra casa agora. Elena precisa da mãe. Mas tenho alguns contatos. Pela manhã conseguirei um médico confiável e trarei até aqui.
— Vocês retiraram a bala da primeira vez. Não podem fazer isso agora? É melhor do que envolver outra pessoa. – Kurt sentia-se tão seguro ali no bunker de Patterson que não podia arriscar deixar vazar a informação que Jane estava viva.
— Nós retiramos a bala, Kurt, mas foi Jane quem orientou todo o procedimento. Acredite, não foi fácil para ela. Se pudermos poupá-la desse estresse, é melhor.
— Além disso, algo não fizemos direito, não é mesmo? O abcesso é a prova disso. – o sarcasmos da latina era ferrenho.
— Talvez tenha sido um erro nosso. Ou até mesmo dela. Jane orientou o procedimento todo à beira da inconsciência. A dor e o sangramento a castigaram demais. Sem contar que... ela só pedia que fossemos atrás de você, Kurt. O fato é que, logo após o procedimento, ao invés de um repouso necessário, ela enfrentou coisas demais. Voos, missões perigosas, a prisão, o ZIP.
— Naquela missão na Itália, fomos amarrados em cadeiras e precisamos saltar até o outro lado da sala para nos soltar. Ela não se queixou, nem me lembrou que estava se recuperando. – Kurt torceu o pescoço nada satisfeito e deu um leve soco na cama.
— Ei! – a repreensão na voz de Zapata se fez sentir mesmo num sussurro – Todos estávamos sob pressão de Ice Cream aquele dia sem contar a nossa situação geral. E ela é durona, você sabe.
— Shshshsh! Ela precisa dormir agora. Nada de discussões. Preciso de ajuda. Vamos remontar o painel com os desenhos dela aqui pra que Jane veja algo familiar ao acordar.
Mais tarde, fora do quarto, Kurt e Patterson conversaram demoradamente. A loira anotou todas as descrições que ele fez, pedindo pra que ele repetisse seu relato do encontro com Jane detalhadamente.
— Bem, parece óbvio que ela está alucinando. E, quando o novo ZIP começa a cobrar seu preço, novos sintomas aparecem. Achei bem interessante que você tenha dito que exigiu que ela olhasse para você durante a discussão e depois da sequência de espasmos convulsivos Jane perdido a visão e não se lembrasse mais de você. Não parece uma coincidência para mim.
— Não tinha feito essa conexão. No calor do momento, minha intenção era fazer ela olhar pra mim e perceber o quanto a morte dela tinha me custado, me mostrar irreconhecível. – admitiu arrependido.
— Imagino o quanto esse encontro te impactou. Mas temos um ponto aqui que precisa da nossa atenção daqui pra frente. Bem, é tarde. Vá descansar. Vamos precisar de você quando ela acordar. Vou repassar as anotações de Jane para refazer o caminho de pesquisa feito por ela. Também quero entrar em contato com Nicolas Johansen. O cara tem trabalhado com substâncias bem próximas do ZIP. Talvez as pesquisas dele possam nos ajudar. Já usei parte delas quando desenvolvi o antigo antídoto.
— Vou tomar um banho e preparar algo para comermos. Depois vou ligar pra Allie e dizer que ficarei alguns dias por aqui.
— Sinta-se em casa. – ela sorriu.
Assim que ele saiu, ela começou seu trabalho. Decifrar as anotações de Jane era excitante. As pesquisas do Dr. Johansen também. Ela foi obrigada a deixar um comentário no final de um artigo simplesmente fenomenal. Mas surpresa mesmo foi quando seu e-mail notificou a resposta do cientista. A troca entre os dois se prolongou por mais tempo do que ela podia prever. Ele era realmente genial. Ficou suspirando após a despedida. Seu ego estava inflado. Conseguira manter uma conversa de alto nível intelectual com um especialista fora de sua área. Também estava muito feliz em descobrir que o homem era tão acessível. Isso com certeza seria útil e facilitaria a descoberta de um antídoto eficaz.
Enquanto isso, no quarto hospitalar do bunker, os olhos pesados de Jane começavam uma luta árdua para se abrirem. Era tudo muito estranho. Uma sensação de conforto que não sentia há muito tempo a envolvia. Isso a impulsionava a despertar, era suspeito.
A penumbra do lugar era convidativa ao sono. Ela quase cedeu. Na verdade, após um breve despertar visualizou o equipo e soro ligados a bomba e se permitiu novo cochilo, desfrutando da ideia de que, se estava recebendo o antídoto, estava tudo em ordem. Mas não durou muito. Seus instintos pediam que despertasse e averiguasse melhor a situação.
Com algum esforço, ela finalmente acordou e devagar sentou-se na cama, sondando o local. O painel trouxe uma familiaridade acolhedora. Ela respirou fundo e tentou colocar-se em total controle de si mesma. Definitivamente ali não era seu esconderijo. Alguém a encontrou, a transportou, tirou a maior parte de suas roupas. E, apesar de tudo isso, a sensação de acolhimento e de segurança não a deixavam. Isso era o que mais a intrigava.
Levantou-se com algum esforço, mas ficou em pé de forma determinada, postura ereta apesar da dor no abdômen. Não mostraria seu real estado. Sondou o local com os olhos. Não viu suas roupas, não ouviu barulhos.
Resolveu verificar o que havia atrás das duas portas daquele quarto. A primeira dava acesso ao banheiro. A segundo a levou a um longo corredor. Transportando o suporte com a bomba para ser silenciosa, ela se esgueirou pelo espaço comprimindo-se contra a parede que tinha uma porta alguns metros a frente. Parou bem ali ao lado.
A porta estava entreaberta, a luz do cômodo acesa e alguém trabalhava num computador lá dentro.
“Uma falha que custará caro a quem conseguiu me capturar” pensou.
O ideal seria um salto direto para o interior seguido do ataque. Mas ela não estava em condições de fazer isso. Ou talvez até estivesse. Mas o fato é que algo lá dentro de seu coração pedia para ser menos feroz com seus captores.
“Não tão feroz, mas nada fraca” decidiu.
Com cuidado, parou a bomba e desconectou o equipo de seu intracath. Segurando o suporte com as duas mãos, decidiu que ele seria sua arma. Numa ação rápida, entrou no cômodo afrontando seu algoz. Parou subitamente, confusa:
— Patterson? Então é você? O que estou fazendo aqui?
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