Lost

8 Capítulo 8


Notas iniciais
Por você, leitor, eu sigo tentando levar essa história até o final. Grata pela insistência de vocês que me trouxe até aqui. Boa leitura.

Kurt teria ficado ali naquela cama estreita com ela a manhã toda. Inferno! Ele teria ficado até mesmo o dia todo! Era tão bom sentir seu cheiro, seu calor, ouvir sua voz. Aquela paz que voltou a existir entre eles era o mais próximo de felicidade que já sentira. Ela estava ali, viva e segura em seus braços. Além disso, sabia que ela precisava descansar para se recuperar. Devia ter passado por meses insanos.

Mas a arte de convencer Jane a ceder em pról de sua própria saúde era algo que ele não dominada. E a reconciliação parecia ter fomentado ainda mais a necessidade que ela tinha de lutar por sua vida. Era inútil insistir em permanecer ali, ela precisava se juntar as amigas no trabalho de busca do antídoto. Kurt cedeu e a acompanhou para o laboratório no final do corredor.

Assim que atravessaram a porta, Zapata veio sorrindo ao encontro dos dois com a pequena Elena no colo.

— Hmm, vocês parecem bem melhor agora.

— Estamos bem. – Jane confirmou um pouco tímida enquanto Kurt a enlaçava pela cintura e beijava seu pescoço.

— Dios mio, na nova fase do casal Weller não se esquece apenas dos comunicadores, Patterson. Nossa presença física não faz mais diferença pra ele. – falou se virando para Patterson que estava num dos terminais digitando freneticamente.

— Nada disso! Estamos aqui para ajudar. – se desvencilhando do marido, Jane deu um passo em direção à latina.

Ao ver Jane se aproximar, a bebê riu alto. Jane sorriu para ela em retribuição e conquistou mais risadas. A empatia da garotinha por ela foi tão grande que começou a jogar os bracinhos pedindo seu colo.

— Olha isso, ela quer você. – Zapata explicou.

— Eu não... – e antes que Jane pudesse concluir, Elena já estava em seus braços.

— Você é durona. Vai dar conta. É só por alguns minutos e fará uma enorme diferença para a minha coluna. – a latina não deixou margens para contestação e foi se afastando.

Jane olhou assustada para o marido. Ele não se lembrava de tê-la visto tão insegura. Deduziu que a possiblidade de uma nova convulsão ou as alucinações eram um risco considerável. Então, indicou um confortável sofá que ficava na parede oposta para que se sentassem e a acompanhou.

Apesar do jeito desajeitado como Jane a segurava, Elena parecia confortável e logo percebeu as tatuagens no corpo dela, tentando aproximar a boquinha dos desenhos. E ali os três se distraíram brincando.

— Como eu disse, o todo poderoso Weller não seria capaz de manter Jane fora do trabalho. Precisei deixar minha filha fazendo o trabalho duro por ele. – Tasha comentou ao se juntar a Patterson na estação de trabalho.

A loira olhou a cena por alguns segundos.

— Olha para eles. É tão fofo e, ao mesmo tempo, tão surreal se tratando desses dois. Será que já pensaram em ter um bebê? Jane parecia tão feliz e tão insegura quando me contou que achava que estava grávida.

— Se já correram riscos, pode ser que aconteça um dia. Quando encontrarmos o antídoto e Jane ficar bem, vou garantir doses homeopáticas de Elena para estimular os dois.

Cerca de meia hora depois, a voz de Kurt soou baixa atrás delas:

— Ei, Tasha! – e aponto para Elena dormindo tranquilamente nos braços de Jane – Onde podemos colocá-la?

Zapata se aproximou balançando negativamente com a cabeça e sussurrou:

— Vocês não vão colocá-la em lugar algum. Ela simplesmente acordará se tentarem. E estará muito irritada. Então, Jane, terá que ficar aqui quietinha com ela no colo. É um teste de resistência, eu sei. Mas você já superou situações piores. Acomode-se no sofá e aguarde. É tudo que podemos fazer agora.

Jane assentiu com um gesto de cabeça e se acomodou no sofá. Estranhamente, se sentiu confortável com aquilo. Era um misto entre a sensação de estar tentando desmontar uma bomba e se sentir acolhida, amada, importante. O cheiro da bebê era maravilhoso. A forma como sua mãozinha se agarrava ao dedo de Jane, indescritível. Ela simplesmente se entregou àquele momento.

Kurt a observou por alguns instantes. É claro que ele sonhou com uma família para os dois. Mas conhecia os traumas que a esposa carregava e ainda se lembrava da reação dela no Colorado quando sugeriu terem um bebê. Procurou afastar a ideia desde então. Agora, vendo como ela estava feliz em ter Elena nos braços, pensava que deveria ter insistido mais. Só se afastou porque lembrou que a vida de Jane estava em jogo e ele precisava se juntas as amigas naquela corrida contra o tempo.

Trabalharam rápido. Formavam uma ótima equipe. várias lacunas do trabalho de Jane foram preenchidas. Quando se lembraram de observar como a amiga estava se saindo com a bebê, surpreenderam-se ao ver que as duas dormiam tranquilamente.

— Acho que progredimos mais que o esperado. – Patterson concluiu. – Espero que o Dr. Johansen nos ajude a concluir o que falta. Vou tentar contato pessoalmente com ele hoje a tarde. Está em NYC para um congresso.

— Temos que conseguir as substâncias necessárias para sintetizar o antídoto. São bem raras. – Zapata estava preocupada.

— Digam-me onde encontrá-las e vou darei jeito. – a ferocidade na voz de Kurt mostrava que ele estava disposto a tudo.

— Calma, Kurt. Existem outras formas de conseguirmos isso sem nos comprometermos. Patterson pode falar com o Lincoln. – a latina sugeriu.

A loira suspirou desconfortável.

— Patterson, por favor, não faça nada que não se sinta pronta para fazer. – Kurt deixou claro.

— Tasha está certa, Kurt. Preciso me abrir com Lincoln. Está na hora de superar o passado e deixá-lo entrar de vez na minha vida. E será uma prova de fogo para nossa relação pedir que ele me ajude a curar minha amiga morta.

— Não é mais estranho do que você ter uma banheira vitoriana na ala hospitalar do seu bunker privado. Ele vai entender. Acho até que tudo fará muito mais sentido para ele. – a expressão travessa no rosto de Zapata era desencorajadora.

Patterson saiu para se encontrar com Lincoln, Ana chegou. Jane e Elena acordaram. Todos retomaram suas pesquisas.

No horário do almoço, se depararam com a negativa de Jane em se juntar a eles na cozinha da casa acima do bunker. Ela simplesmente se negava a subir. Deduziram que tinha receio de ser vista e colocá-los em risco por mais improvável que isso fosse.

No final da tarde, o casal se viu sozinho no laboratório. Kurt aproveitou para se aproximar e abraçá-la. Não queria perder nenhuma oportunidade que tivesse para fazer isso. Jane retribuiu e buscou os lábios do marido para um beijo gentil que logo evoluiu para algo mais profundo e desesperado. A forma como os braços dela enlaçaram o pescoço de Kurt ou como as mãos dele alcançaram a cintura de Jane a puxando para mais perto, era tão familiar e tão necessários. Foi um beijo totalmente diferente de todos os outros que já tinham compartilhado. A saudade que sentiam os guiava como uma naturalidade tão fora do comum que se deliciavam do beijo. Reafirmaram que queriam ser parte um do outro e colocar fim em toda a dor que a separação tinha lhes causado.

No instante seguinte, ela estava sentada sobre a mesa, pernas abertas acomodando o corpo dele como tantas vezes no passado. Aquela sensação de que seus corpos foram feitos um para o outro ali presente, a respiração pesada os enlouquecendo.

Jane precisava sentir que ele ainda a desejava como antes. Então, balançou o corpo para frente, buscando se movimentar e senti-lo. Ela varria o pescoço do marido com beijos úmidos, sedentos de vontade sem controle. E ela gemeu o nome dele de forma totalmente reverente, mostrando-se vulnerável como nunca. Kurt queria aquilo, por Deus, como queria! Ele seria capaz de livrá-los das roupas em segundo e se afundar já totalmente preparado mesmo sem que tivessem tido tempo ou carícias suficientes para isso. Mas a realidade se abateu sobre ele. Em menos de vinte e quatro horas, ela tinha convulsionado na frente dele enquanto ardia em febre. E, naquela manhã, passou por uma cirurgia para livrá-la de um abcesso que carregou por meses. Não, ele não podia arriscar a frágil saúde dela. Então, optou por romper bruscamente o contato. De outra forma, não seria capaz de fazê-lo. E se afastou, fingindo vasculhar papéis sobre a mesa enquanto disse:

— Eu não te contei que aluguei nosso apartamento. – e só então ousou olhar pra ela.

Merda! Ela estava fixando o nada, sobrecarregada e triste. Mesmo assim, balbuciou a resposta:

— Bom...

— Jane... – ele falou o nome dela numa tentativa de se justificar.

— Não precisa dizer nada, Kurt. Está tudo bem. Eu entendo. Sei que a realidade vem de repente tão cheia de dor e mágoa. Você o direito a ter o tempo que precisar...

— Eu não preciso de tempo. Não estou mais magoado com você. E quero isso tanto quanto você. Mas estou preocupado. Você ainda está doente. – e segurou a mão dela.

Ela sorriu triste.

— Morrendo é a palavra certa. Podemos não ter outra chance... – olhou para ele suplicante.

Ele segurou o rosto dela entre as mãos.

— Não pense assim. Temos muito tempo pela frente. Mas precisamos agir com cautela agora. Pelo menos por hoje.

— Eu não sei se posso esperar mais, Kurt. Não sei...

— Eu sei que deve ser muito difícil. Mas você suportou todos esses meses. O que fazia?

— Imaginava que estava com você, me lembrava do que sentia quando você me envolvia nos seus braços, do seu cheiro, do som do seu batimento cardíaco quando eu descansava a cabeça no seu peito.

Imediatamente, ele a puxou para seus braços, conduzindo sua cabeça para seu peito.

— É real agora. Eu estou aqui. Então, será mais fácil dessa vez. – e beijou os cabelos dela.

Nesse momento, o celular de Kurt tocou sobre a mesa. Ele se apressou em desligar ao ver o nome no visor.

— É do meu novo trabalho. Precisam de algumas orientações, preciso responder. Volto logo. – e saiu apressado deixando Jane confusa.

Ele passou rapidamente no quarto hospitalar, pegou desenhos de Jane e subiu.

Se ajeitou, respirou fundo e abriu a porta.

— Finalmente! Achei que você não abriria mais. – a garota estava irritada.

— Oi, Avery. Eu estava ocupado. Como me encontrou aqui?

Os dois se entreolharam, num estranhamento mútuo. Era o primeiro encontro desde a “morte” de Jane. E nenhum deles sabia realmente o que dizer.

— Você me chamou, não está lembrado? Disse que precisávamos conversar.

— Pensei que marcaríamos em algum outro lugar. – ele disse esfregando o pescoço aflito.

— Eu mandei várias mensagens desde que cheguei, mas você não respondeu nenhuma. Então, liguei para a Patterson que disse que você estava aqui. Posso entrar ou você está com alguma outra mulher e ficará estranho se encontrar com a filha da ex para falar do corpo dela?

— Não existe outra mulher, Avery. Por favor, entre. – deu passagem a ela.

A garota deixou a mochila e o casaco no hall de entrada e foram até a sala onde ele pediu que se sentasse. Kurt não sabia exatamente o ia dizer. Sabia que a presença da garota complicaria as coisas de qualquer forma. Se arrependia amargamente por tê-la chamado. Temia pela forma como Jane reagiria à presença da filha. Temia pela forma como Avery encararia as coisas.

— Desculpe te fazer vir até aqui. As coisas não têm sido fáceis.

— É, não tem sido fácil mesmo. Mas o que você descobriu?

— Não descobri nada. Eu queria falar sobre outro assunto. Precisava te entregar algo. – mentiu.

— Droga. Eu já devia ter me conformado. Nunca vamos encontrá-la. Não deve nem existir mais um corpo.

Ver a tristeza da garota era comovente. Nos últimos meses, ele realmente não pensou que Avery poderia estar sentindo a perda de Jane tanto quanto ele. As duas tiveram pouco tempo de contato. A garota era arredia, Jane não se sentia confortável para forçar a aproximação. Agora ele viu que estava enganado. Avery perdeu toda a família que tinha com a morte da mãe biológica.

— Acho que o que encontrei vai te ajudar a lidar com tudo que aconteceu. – ele falou apresentando a ela o desenho que Jane havia feito traçando a linha do tempo da vida da garota.

— Sou eu... – falou correndo os dedos pelo traçado. – Quando ela fez isso? E como conseguiu as fotos para me desenhar em todas essas fases da infância e adolescência?

— Ela não precisou de fotos, Avery. Jane recuperou a memória. Durante toda a sua vida, ela te acompanhou para saber se estava bem.

Avery respirou fundo tentando conter as lágrimas.

— Mas não me contou isso enquanto estava viva.

— Ela queria te contar, Avery. Pessoalmente e não numa ligação telefônica. Mas tivemos problemas sérios.

— E eu fiquei em segundo plano de novo. Não, deve ter sido terceiro ou quarto plano. Bem depois daquele em que ela morria e eu ficava sozinha.

— Tenho certeza que ela não pensou que você ficaria sozinha. Contava comigo para estar lá por você sempre. Fui eu que falhei por não saber lidar com a morte dela, Avery. Também senti raiva dela e me fechei para o mundo, até para você, tentando provar que Jane estava errada e que eu não podia continuar sem ela. Se quer culpar alguém, culpe a mim. Vamos fazer tudo diferente a partir de agora. Vou buscar meu casaco pra te levar até um hotel. Podemos comer algo no caminho. Você deve estar com fome. Assim conversamos mais e isso vai ajudar nós dois.

Ele disse tudo num ímpeto, sem raciocinar direito. Só pensou em afastá-la da casa protegendo Jane de fortes emoções e estresse. Seria melhor que Avery se afastasse agora. Assim que conseguissem o antídoto e Jane estivesse curada, iriam atrás da garota e ele assumiria toda a culpa pela omissão da verdade naquele momento.

Kurt mal saiu e Ana chegou a sala vindo do bunker a sua procura.

— Kurt... – e se deparou com Avery. – Oi. Você é?

A garota ficou em pé rapidamente, irritada. Então, como ela havia considerado numa hipótese que pareceu pouco relevante, havia outra mulher na vida de Kurt. Outra mulher não, era praticamente uma garota, com idade próxima a dela. Não conseguiu evitar o sentimento de traição que a tomou, mesmo sabendo que a mãe estava morta e que ele tinha o direito de continuar.

— Avery. Sou filha da Jane. – disse afrontosa.

— Uau! – Ana ficou extasiada e a abraçou. – Seja bem-vinda! Eu sou Ana Montes. Eu fui uma das tatuagens da sua mãe. Aquela da coruja. Não sabia que tinham te chamado. Por isso, Kurt estava demorando. Subi para procurá-lo e ele deve ter descido falar com ela. Nossa, você deve estar louca para descer até o bunker. Quer que eu te leve até lá?

Avery não entendeu nada, mas a existência de bunker subterrâneo despertou sua desconfiança e curiosidade.

— Eu quero descer sim. Você pode me levar?

— Claro! Venha, é por aqui. – e Ana foi guiando-a pela casa. – As coisas ficaram bem preocupantes no início, mas agora estão sob controle. Kurt te contou que tiramos a Jane dos túneis do metrô numa mala? Irônico, não é mesmo?

— Acho que ele esqueceu de me contar esse detalhe. – Avery tentou articular as palavras com firmeza, mas seu coração parecia que ia sair pela boca. Era do corpo de Jane que aquela garota estava falando? – Porque colocaram ela em outra mala?

— Por segurança. Não sabíamos exatamente quem estava atrás de Jane. Nem sabemos ainda. E já que ela estava dormindo e a mala era bem grande, achei viável. Quando reuni o team: Kurt, Patterson e Zapata, jamais imaginei que seria Jane por trás dos incidentes ligados as tatuagens tentando conseguir um antídoto para o ZIP. Então, tudo virou uma loucura. Kurt a encontrou, ela estava mal, teve uma crise de DEC. Acompanhei tudo pelos comunicadores, mas o desespero na voz dele era imenso

— DEC?

— Ele esqueceu de te contar isso também? Resumindo: fortes emoções e estresse acentuado aceleram o processo de envenenamento da Jane provocando convulsões e alucinações. Quanto mais tranquila ela estiver, melhor. Mas estamos bem perto do antídoto agora. Patterson foi se encontrar com um pesquisador europeu essa tarde. Voltará com as respostas que precisamos para fechar as lacunas. Daí bastará conseguirmos as substâncias certas, sintetizar o antídoto e pronto! Ela continuará vivíssima.

— Desde quando você se envolveu nisso, Ana?

— Conheci Jane no início de 2016. Desde então ela meio que cuida de mim. Acredite, eu sou mais que capaz de me cuidar sozinha. Mas ela me vigia de longe, aparece de vez em quando, liga do nada e se oferece pra ajudar quando estou com problemas. Daquele jeito esquisito dela, sabe? Ai, me desculpa, ela é sua mãe. Eu não devia ter falado assim.

— Não, tudo bem. Eu queria saber mesmo era sobre essa coisa da mala. Tem oito meses que você a tirou do metrô, é isso?

— Oito meses? Não, tem só dois dias. Jane aguentou a barra todo esse tempo sozinha. Queria conseguir o antídoto antes de voltar para os amigos e família. Tasha disse que é típico da Jane tentar fazer tudo sozinha só pra que nós não corrêssemos o risco de perdê-la duas vezes.

— Típico até demais. – a garota desabafou.

— Nossa sede de operações é aqui. – Ana indicou a porta e já entrou entusiasmada. – Trouxe uma surpresa pra você, Jane.

Jane estava sentada numa das mesas, revendo as equações de Patterson. Olhou na direção delas sorrindo, querendo ser simpática. Mas quando seus olhos encontraram Avery, o sorriso desapareceu e ela empalideceu.

A garota também não encontrou palavras. O máximo que conseguiu fazer foi dar alguns passos a frente estreitando a distância com a mãe. Jane sabia que devia começar. Inferno, ela devia muito mais que isso. Devia tudo. Sua conta sempre estava no vermelho quando se tratava da filha. Puxou o ar para ter forças:

— Avery, eu...

Antes que ela pudesse continuar, Avery se lançou sobre ela, a envolvendo num abraço desesperado. Ainda em choque, Jane retribuiu, seu lado racional desmoronando diante da possibilidade de ter a filha entre os braços, sentir seu cheiro novamente, afagar seus cabelos.

— Está tudo bem. – sussurrou tentando confortar a garota.

Avery se afastou só o suficiente para encarar a mãe. Sorrindo, mesmo com lágrimas molhando seu rosto, disse:

— Não, não está. Mas está muito melhor que há algumas horas e ficará ótimo em breve. Vamos cuidar disso, não é mesmo?

— Avery, eu realmente sinto muito por tudo isso...

— Não! Nós não vamos falar sobre isso. Não agora. Vamos focar em encontrar esse antídoto porque... Por Deus, Jane, você faz falta, sabia? Muito falta.

— É muito bom ouvir isso, Avery. – falou limpando as lágrimas da filha. – Eu também senti muito a sua falta. Há quase vinte e dois anos, tem sido assim.

Avery voltou a abraçá-la por um breve momento. Então, pegou a mão de Jane para continuar:

— Eu preciso acomodar minha bagagem e comer alguma coisa. Mas será rápido. Posso fazer isso enquanto você me dá os detalhes do que precisamos para o antídoto. Aprendi a fazer várias coisas ao mesmo tempo na faculdade. Aquilo chega a ser quase tão insano quanto sua vida, sabia?

— Não tenho grandes novidades sobre o antídoto. Parece que já te contaram tudo. Você pode subir e se acomodar com calma. E descanse o tempo que for necessário. Não vou a lugar algum, eu juro!

— Vou querer ouvir tudo de você mesmo assim. Vamos. – e voltou a puxar a mão da mãe que não se moveu.

— Eu não subo. – Jane disse apressada. – Eles estão me caçando, Avery.

— E qual a novidade nisso? Você sempre está sendo caçada ou caçando alguém, não é mesmo? E essa casa é uma verdadeira fortaleza: afastada, com muros que mais parecem muralhas, sistema de segurança por todo o canto. É seguro lá em cima. E acho que vai levar algum tempo para eu conseguir me afastar de você, então, Jane Doe, terá que me acompanhar.

Foi impossível não ceder. Jane deixou a filha puxá-la pelo corredor. Logo encontraram Kurt que vinha a passos largos, visivelmente nervoso. O rosto dele se transfigurou em tensão ao ver as duas.

— Já encontrei sua esposa e estou levando-a para um jantar lá em cima. Será que você poderia providenciar alguma comida pra nós? Faz realmente muito tempo que não temos um jantar em família. Também preciso saber qual será o meu quarto. Mas tem que ser ao lado do de vocês, é claro.

— Estou ficando aqui embaixo. – Jane lembrou.

— Existem quarto aqui embaixo?

— Acomodações com camas como no exército. – Kurt esclareceu.

— Não mesmo. Podem esquecer. Vamos ficar lá em cima. Temos que investir em quantidade e qualidade do tempo que passamos juntos.

O casal se entreolhou concordando que era melhor concordar com a garota. No elevador, Avery não parou de falar:

— E essa tal de Ana Montes? Amiguinha estranha, hein? “Encontrei a Jane, salvei a Jane. A Jane cuidou de mim.” Que convencida.

— Ana é muito inteligente e prestativa. Você vai gostar se der uma chance. Ela não tem família, não tem mais ninguém.

— Eu também fiquei sem ninguém quando você... – e voltou a abraçar a mãe. – Então, me deixa ter um pouco de ciúmes da Ana agora. Prometo tentar me aproximar dela depois.

Jane sorriu e retribuiu o abraçou da filha, olhando para Kurt por um breve momento.

Lá em cima, as duas foram para o quarto que seria de Avery, acomodar a bagagem enquanto Kurt pedia o jantar. Depois se sentaram na cozinha. Tasha e Ana se juntaram a eles. Comeram e conversaram quase como uma família normal.

As latinas voltaram ao laboratório após o jantar. Queria dar privacidade aos três. Patterson ainda não tinha retornado. Em certo momento, Jane foi ao banheiro. Avery aproveitou a oportunidade imediatamente:

— Olha, eu tô tentando ser muito compreensiva com tudo que aconteceu hoje e com você, só que essa não é bem a minha vibe. Sei que eu e ela não somos um exemplo de relação mãe e filha. E sim, muitas vezes, eu tentei uma aproximação através de você só porque eu queria atingi-la. A coisa dela ter me dado pra adoção não estava bem resolvida pra mim. Muita coisa entre eu e ela ainda não está bem resolvida. Mas Jane é a única família que eu tenho. E eu achava que ela estava segura com você, que a protegeria até dela mesma. E você a deixou morrer, Kurt! Colocou a vida dela em risco hoje de novo me trazendo até aqui.

— Eu não me orgulho do que fiz. Deixei as emoções tomarem conta de mim da forma errada. O preço que paguei foi muito alto. A conta custou boa parte da minha sanidade. Mas se tem algo que aprendi com Jane é não desistir. Todos estamos tendo uma segunda chance com Jane, e eu não vou falhar, Avery. Você verá.

— É melhor mesmo. Porque eu também não vou falhar. Vou estar muito mais perto dessa vez, lutando por espaço na vida dela. Esse lugar é meu por direito. Então, coloque isso em todos os seus planos de futuro, porque estarei lá.

— Isso fará muito bem à Jane. Sempre a vi como indestrutível, como se não houvesse o que ela não pudesse superar. Só nos últimos dias me dei conta do quanto estava enganado. Ela é tão frágil quanto qualquer um de nós e tem um enorme ponto fraco que é você. Perder você a feriu de uma forma que nenhum dos outros horrores que ela viveu foi capaz de fazer. O estrago foi tão grande que ela não sabe lidar com o que sente nem sabe agir quando se trata de você. Eu devia ter ajudado Jane com isso.

— Se nós dois fizermos nossa parte, o final pode ser diferente dessa vez.

— Um final feliz para todos nós.

Jane retornou e voltaram a uma conversa mais casual dentro das perspectivas inusitadas deles. Quando a garota decidiu descansar, Kurt desceu com Jane para pegarem algumas coisas no quarto hospitalar e se instalarem de vez na casa. Lá, ele observou os dados armazenados da DEC:

— Isso é bom. Pensei que a chegada de Avery te deixaria a beira de uma nova crise, mas as oscilações foram pequenas. O efeito do antídoto está mais potente.

— Podemos conversar sobre isso?

— Claro. – ele se prontificou olhando para ela.

— Kurt, sei que pareço fria diante das minhas escolhas e reações. Eu realmente queria conseguir fazer tudo diferente. Sei que sofreram a minha perda. Mas eu realmente achava que ficariam bem sem mim. De qualquer forma, eu não pensei que causaria uma dor tão grande ao ponto de você trazer Avery até aqui pra me fazer entender isso. É o tipo de coisa que eu achava que você jamais faria depois do que aconteceu em Berlim. Então, eu realmente sinto muito por ter te causado tanta dor. – e baixou o olhar.

— Ei. – ele a puxou enlaçando sua cintura e colocando a mão dela em seu peito. – Não se desculpe porque eu tenho sido um idiota desde que perdi você. Fui eu a fazer tudo errado te culpando. Trazer Avery aqui um algo pior ainda. Se quiser gritar comigo ou me expulsar daqui, vou entender.

— Gritar e te expulsar? Tudo bem, você ter surtado e se tornado um viúvo revoltado. – e sorriu tímida – Eu mesma não consigo superar a morte de Roman. E muito menos com a adoção de Avery. Além disso, ela está aqui, me abraçou, disse que sentiu minha falta. Você me perguntou sobre o que seria um final feliz pra mim. Algo assim, eu nem ousaria desejar e está acontecendo. Eu devo ser realmente uma pessoa horrível porque tudo o que eu passei nos últimos meses parece um preço baixo demais diante do que ganhei hoje com ela. E isso é tão errado.

Kurt a abraçou e aninhou em seu peito.

— Ela é sua filha. Adulta, durona e teimosa como você. O que dificulta muito a jornada para vocês duas. Ainda assim, não é errado estar feliz por ter conseguido uma aproximação com Avery. Perder a memória e recuperá-la te deixou muito obcecada com o que é certo ou errado. Nem sempre o certo é o que nos faz feliz. O que teria sido o certo para mim: casar com Allie e criarmos Bethany juntos? Ou me casar com uma ex-terrorista que tentou destruir as agências de segurança desse país? Eu sei a resposta. Acho que precisamos conversar mais sobre as “coisas erradas” que você sente vontade de fazer. Porque parece que que é ali que está nosso final feliz.

Nesse momento, os comunicadores anunciaram que Patterson estava chegando e teriam uma reunião urgente na sala da casa. Kurt e Jane se apressaram em subir. Chegando lá foram surpreendidos com o quanto todos estava nervosos. Zapata, Lincoln e Patterson tinham as armas apontadas. Ana segurava Elena e tentava conter Avery.

— Deixem-me só meia hora com ele. – a voz de Zapata soou misturando sarcasmo e raiva enquanto se erguia como uma barreira de proteção entre os recém-chegados e as meninas. Ela não percebeu que o casal tinha chegado.

— Só podia ser você metido nisso! – Avery disparou do outro lado.

Jane segurou o braço de Kurt com força, a respiração pesada.

— Estou alucinando novamente. Falamos cedo demais sobre os efeitos do antídoto.

— Dessa vez não é alucinação, Jane. Por favor, respire e tente se acalmar.

— Kurt, vamos levá-lo para baixo. Tenho uma cela da qual ele não vai conseguir escapar lá. – Patterson tentou parecer calma, mas estava bem confusa.

— Esperem! – Lincoln se pronunciou. – Foi a coisa mais louca da minha vida descobrir que Jane está viva. Quando a Patterson me contou, eu... Uau! Bem, ela subiu naquele trem e desarmou as bombas quando eu era apenas um estagiário no NYO, então o que é escapar da morte, não é mesmo? Mas será que alguém pode me explicar por que estamos prendendo o cientista que fomos encontrar para finalizar esse antídoto?

— Esse não é o Dr. Johansen. É meu irmão. Olá, Roman.

Notas finais
Muito obrigada a todos que continuam comigo, lendo essa história. Se tiver 10 comentários, eu continuo. Hahahahaha Calma, gente, sou pé no chão. Mas comentários realmente fazem a diferença, instigam a vontade de escrever e mostrar se suas teorias estavam certas ou erradas. Compartilhem comigo suas impressões desse capítulo e fanfiquem também. Adoro isso. Bjs.