Lost

6 Capítulo 6


Notas iniciais
Não dei conta do plot. Nenhuma novidade até aqui, né? Postando no desespero só porque não terei tempo para voltar aqui nas próximas semanas. Boa leitura.

A cama estava vazia e o equipo, cuidadosamente desconectado da bomba, foi deixado enrolado sobre o leito. Merda! Kurt torceu o pescoço insatisfeito. Por que Jane tinha que ser tão imprevisível? Dormia pesado quando ele deixou o quarto minutos atrás.

Seus olhos correram para a porta do banheiro. Estava fechada. Nenhum som vinha de lá. Mas fazia parte do protocolo verificar antes de vasculhar o resto do bunker.

Agiu como um agente federal. Colocou o que tinha nas mãos sobre a cama. Aproximou-se da porta do banheiro pé ante pé. Colocou a mão lentamente na maçaneta e a virou devagar. Estava destravada, mas um sinal de que Jane deveria estar ali. Abriu e entrou.

A imagem dela se materializou na sua frente como num sonho. Foram tantos nos últimos meses. A banheira vitoriana contribuía para a interpretação surreal do cenário. Disposta ao fundo, era pouco funcional, um detalhe que só Patterson explicaria. Ou evitaria explicar já que o bunker também servia de refúgio para ela e Lincoln.

Jane estava dentro dela, de costas para ele. Braços apoiados nas laterais. A tatuagem com seu nome lhe afrontando. Ela virou a cabeça lentamente. Não parecia surpresa nem incomodada com sua presença.

— Bom dia. Achei que não se incomodariam se eu tomasse um banho. Estava precisando disso.

— Você está bem? – questionou esquecendo-se da boa educação que exigia ser recíproco ao cumprimento.

Ela puxou o ar como se absorvesse os cuidados presentes nas palavras deles. Quase sorriu e sacodiu levemente a cabeça confirmando.

— Sim. Estou. – e fez menção de sair da banheira, mas recuou fechando os olhos e cravando os dedos na borda.

Com dois passos, Kurt se colocou ao seu lado.

— Precisa de ajuda? – disse se abaixando e colocando a mão sobre a dela em prontidão.

Seus olhos se encontraram e ficaram presos ali. Jane deu um breve suspiro sem encontrar a resposta.

— Às vezes não parece real, não é? – ele se surpreendeu falando.

— É... imagine pra mim com esse cérebro podre.

— Ainda parecerá apetitoso para um zumbi. – brincou, trazendo para a conversa o que ele amava ver na TV e sempre despertava queixas dela.

— Bem, então ainda sirvo pra alguma coisa. – e sorriu sem jeito.

— Se dez porcento da humanidade tivesse um cérebro zicado e funcionante como o seu, a humanidade daria saltos tecnológicos anualmente. – e estendeu a mão, roçando o indicador na fonte dela. – Se lembra dos últimos acontecimentos?

Ela fechou os olhos por alguns segundos desfrutando da sensação que o toque dele despertava.

— Eu me lembro de ter conseguido a substância que faltava para mais um acerto na fórmula do antídoto. Depois me lembro de acordar aqui, de ter confrontado Patterson usando o suporte da medicação como arma, da conversa que tivemos, você chegando e me carregando de volta ao quarto... – e fez uma breve pausa puxando o ar. – Não me lembro do nosso encontro no meu esconderijo. Sinto muito, Kurt.

— Sem problemas.

As mãos dela alcançaram as dele e apertaram:

— Precisamos conversar. Mas tenho que sair dessa banheira antes. – falou já flexionando e apoiando as pernas o que visivelmente trouxe uma nova onda de dor. – Droga! Vou ter que puncionar isso pra me manter em pé...

— Vamos fazer melhor: remover esse abcesso de vez. Pronta pra se levantar? No três. Um, dois... três! – e puxou para cima com uma facilidade surpreendente.

Uma vez que o corpo de Jane ficou fora d’água, Kurt puxou rapidamente a toalha a envolvendo. Depois a ajudou a sair da banheira, ficando em prontidão ao seu lado enquanto ela se secava. Era esse tipo de cuidado que a fazia se derreter por ele. Mesmo sendo casados e tantas vezes terem compartilhado momentos em total nudez, ele não a deixaria descoberta na sua frente naquela situação. Colocaria o conforto e segurança dela em primeiro lugar.

— Tasha já chegou com a médica. Estarão aqui embaixo em breve. Foi por isso que subi. Ela me pareceu bastante competente e confiável.

Ela assentiu enquanto se secava. Não gostava da ideia de envolver mais pessoas nisso, mas se seus amigos e Kurt confiavam nessa médica, aceitaria a ajuda. Apoiando-se no marido, caminhou devagar de volta ao quarto. Lá, vestiu a camisola hospitalar que estava sobre a cama.

— Patterson pensa em tudo. – refletiu em voz alta enquanto se vestia.

— Ela é incrível.

— Mas a banheira vitoriana ainda me assusta um pouco. – confessou.

— Deve ser uma aquisição recente. Ela deixou escapar que tem usado muito esse bunker com Lincoln.

— Quem é Lincoln?

— Aquele sobrinho nerd do Weitz que passou por treinamento no SIOC quando você era Remi.

— O que tem cara de astro de cinema?

Kurt franziu a testa nada feliz com a referência.

— O cara não é tão bonito assim.

— Não, não é. – ela mentiu olhando para o chão e tentando conter o riso. – Bom para Patterson ter encontrado alguém. Ela merece ser feliz. Quando eu estava morrendo, vi todos nós reunidos numa cabana no Colorado. Patterson fazia parte de um trisal com Rich e Boston. É, eu não estava nada bem.

— Alucinou com a gente no Colorado?

Antes que Jane pudesse responder, a porta do quarto se abriu e três mulheres entraram.

— Bom dia! – Tasha cumprimentou sorridente já vindo em direção a Jane e a capturando num abraço. – É muito bom te ver viva de novo, Jane!

— É muito bom ver você também, Tasha.

— Trouxe alguém muito especial pra cuidar de você. Essa é a Dra. Carla Izabel Peres, uma excelente médica. – e apontou para a mulher baixa, de pele morena, longos cabelos lisos e olhos grandes.

A médica estendeu a mão e cumprimentou Jane. Não foi muito além do bom dia em inglês. Parecia um pouco assustada, oscilando entre tentar sorrir para a paciente, observar seu corpo tatuado e sondar o estranho local onde estavam.

— Carla é cubana e viveu uma história bastante singular. Foi para o Brasil num programa de ajuda mútua entre os dois países, mas fugiu de lá para a Venezuela, entrando ilegalmente mais tarde aqui nos EUA. Ela esperava conseguir ser reconhecida como refugiada, mas não deu certo. Hoje se mantém atendendo outros imigrantes ilegais. Ah, já ia me esquecendo de um detalhe importante, Carla é neurocirurgiã. Isso vai nos ajudar bastante no seu caso. E me deve muitos favores. Eu disse a ela que você também é uma refugiada que não conseguiu asilo político e que tem trauma de hospitais. Também contei sobre a tiro que levou e das condições em que removemos a bala. Tente sorrir pra ela, Jane. Essa sua cara fechada é intimidadora demais, sabia?

Acatando o pedido da latina, Jane colocou um sorriso falso no rosto.

— Isso foi pior ainda. – Patterson disse se aproximando. – Está parecendo uma psicopata agora. Só relaxe. Você está segura e estará livre desse abcesso em pouco tempo. Vamos, deite-se na cama para que Carla possa examiná-la.

Jane se sentiu aliviada por não precisar sorrir mais. Apressou-se em alcançar a mão de Kurt como apoio pra subir na maca e se deitar.

A médica foi rápida. Perguntou sobre os equipamentos necessários. Calçou as luvas e máscara aproximando-se de Jane para verificar a real situação do abcesso.

— Tasha, diga a ela que não precisa me anestesiar se isso retardar minha locomoção por algum tempo. – Jane exigiu.

— Você está segura aqui, Jane. Não precisará sair pelo tempo que for necessário. – a loira lembrou apertando suavemente a mão da amiga.

Jane suspirou e fez menção de argumentar, mas foi Carla quem falou primeiro.

— Está bastante inflamado. Tal vez la anestesia no quita completamente el dolor. (Está bem inflamado. Talvez a anestesia não tire totalmente a dor.)

— Hágalo de todos modos, doctor. Hazla lo más cómoda posible. (Faça mesmo assim, doutora. Deixe-a o mais confortável o possível). — Zapata insistiu.

— Hazlo sin anestesia. Yo aguanto. – foi a vez de Jane defender seu lado.

— Não! – Kurt, Tasha e Patterson disseram juntos.

Ela bufou descontente. Em seguida, olhou para Kurt:

— Se quiser aguardar lá fora, tudo bem. As coisas podem ficar desagradáveis por aqui.

— Minha presença te incomoda? – ele indagou rápido e sem rodeios.

— Não, não. Eu... você não tem que passar por isso, Kurt.

— Se minha presença não te incomoda, vou ficar. – foi firme e, puxando uma cadeira, sentou-se na cabeceira dela roçando os polegares nas laterais da sua cabeça.

O procedimento foi rápido. E a anestesia fez mais efeito do que Jane esperava. Uma vez ou outra sentiu dores que pareceram bem suportáveis ainda mais com Kurt ali, tão próximo a ela, beijando seus cabelos e dizendo coisas totalmente aleatórias para distraí-la.

— Listo. Hecho. Ahora toca descansar y descansar. Puede continuar con el mismo antibiótico durante siete días. Pronto estará como nueva. (Pronto. Está feito. Agora é repouso e descanso. Pode continuar com o mesmo antibiotico por sete dias. Logo estará como nova.)

— Tudo terminado. Agora tem alguém que precisa descansar. E você entendeu tudo que eu sei, Jane. Relaxe e tente dormir um pouco. – Zapata falou enquanto acariciava levemente o braço da amiga.

— Eu adorei essa experiência de fazer uma cirurgia em Jane com uma médica competente presente. Super aprovo que sejam assim todos os procedimentos médicos de agora em diante. – Patterson tratou de dizer.

— Ah, você não foi tão mal assim quando retirou a bala. Só deixou escorregar uma vez. – Jane relembrou com uma expressão divertida no rosto.

— Ai, não me lembra dessa parte! Maldita pinça! Mas o pior com certeza era a cara de luto com que a Tasha olhava pra mim.

— Que cara você queria que eu fizesse? Ela estava sangrando demais e não tinha nem mais cor. Naquele momento eu estava apostando todas as minhas fichas que Rich não retornaria a tempo com o sangue para a transfusão.

— Interessante esses detalhes. Quando cheguei, vocês só me disseram que tinham extraído a bala sem maiores complicações. – Weller não parecia feliz com aquilo.

Patterson respondeu, decidindo ser bem objetiva:

— Quando você retornou ainda estava sob efeito das drogas que Ivy usou. Jane estava bem e essa era a única informação relevante naquele momento.

— A esposa é sua, Kurt. Você que lute pra saber os detalhes da boca dela. – a latina completou tentando trazer um tom descontraído pra a conversa – Bem, já que tudo está bem, vou levar a Carla para casa. Quem ficará de olho na Elena pra mim?

— Terá que ser trabalho de equipe. Podemos deixá-la próximo de nós enquanto damos continuidade ao abastecimento do banco de dados. Kurt terá que me ajudar. O tempo urge!

Os amigos se despediram de Jane e se dispersaram. Entretanto, meia hora depois estavam novamente reunidos no laboratório de Patterson, focados em colocar todas as informações que tinham no que a loira chamava de Cure Alert.

Eram silenciosos enquanto trabalhavam, atenções redobradas para evitar falhas. Até mesmo Elena parecia compreender e dormia tranquilamente sem incomodá-los. Quando Jane entrou nem foi percebida de imediato. A visão periférica de Kurt acusou a intrusa.

— O que você está fazendo aqui? Não deveria estar fora da cama. – falou já se levantando e caminhando até ela.

— Estou bem.

Jane estava completamente vestida. Usava a mesma roupa do dia anterior.

— Não, não está! Vai comprometer toda cirurgia andando por aí assim. Dra. Carla disse que deveríamos te manter pelo menos duas horas em repouso. – Zapata foi firme.

— Nem tenho como agradecer tudo que fizeram por mim até aqui, Tasha. Fiquei na cama todo o tempo que pude suportar. Mas precisamos conversar. Vocês precisam saber o que aconteceu.

Kurt bufou. Pegou uma cadeira com rodinhas e levou até ela.

— Sente-se!

Ela obedeceu. Sabia que não conseguiria convencê-los de que tinha plenas condições de se manter em pé. Foi seu erro. Imediatamente Kurt girou a cadeira e começou a levá-la de volta ao quarto hospitalar. Tasha e Patterson se levantaram o acompanhando.

— Não, Kurt! Eu estou falando sério. Tenho condições de conduzir essa conversa.

— No quarto e na cama ou nada. – ele foi firme.

As amigas mantinham posturas eretas uma de cada lado da cadeira, mostrando que concordavam com Weller. Jane bufou e se rendeu, deixando-se conduzir.

Já no quarto, Kurt a levou até a cama hospitalar que ficava do lado oposto do cômodo. Era maior e mais confortável que a maca. Ajudou Jane a se levantar da cadeira e a sentar-se na beira da cama. Então, abaixando-se começou a desamarrar suas botas.

— Como foi que você calçou isso? – rosnou muito descontente. – É melhor nem me dizer. – deduziu levando as mãos ao cós da calça dela depois de terminar. – E vamos, pelo menos, desabotoar isso.

Após ajudar Jane a colocar as pernas sobre a cama, Kurt se sentou ao contrário na cadeira que tinha usado para trazê-la ao quarto, debruçando-se sobre o encosto. Patterson ergueu a cabeceira da cama, oferecendo apoio às costas da amiga dessa forma aquela posição não exigiria esforço sobre a cirurgia recém suturada. Ela e Tasha pegaram cadeiras. O bebê conforto de Elena foi colocado na mesa lateral, bem próximo a elas.

Jane aguardou todos se acomodarem. Então, respirou fundo e começou.

— Como já sabem, o ZIP provoca uma série de alterações quando atinge o sistema neurológico. Nem todas são negativas. Meu cérebro conseguiu resgatar informações que não tinham sido captadas de forma consciente além de estabelecer redes de ligações que seriam impossíveis sem o ZIP. Descobri isso enquanto tomava a segunda dose do antídoto, numa alucinação com Borden. Então, resolvi interromper o tratamento para conseguir parar Ivy Sander. Tomei essa decisão sozinha porque sabia que não aceitariam os riscos. Durante todo o dia, enquanto ajudava vocês nas investigações, realidade e alucinações se alternavam ao meu redor. Quando apaguei na Times Square isso não parou. As alucinações continuaram mesmo comigo desacordada. Vi nosso retorno ao SIOC, conversei com Kurt na sala de interrogatórios... tudo isso se mesclando com a dor de cabeça, a falta de ar. Enfim... – e puxou o ar – não é uma experiência agradável.

— Onde e quando você acordou, Jane? Como descobriu que tinha sido dada como morta? – Zapata foi direto ao ponto.

— No começo eu só ouvia vozes estranhas sem decifrar as palavras. Não conseguia me conectar com meu corpo para me mover nem nada do tipo. De repente, entre um apagão e outro, eu acordei. A mesa gelada de alumínio, os gavetões refrigerados, eu completamente nua... foi fácil deduzir que era um necrotério e que eu tinha sido considerada morta. Mas estavam infundindo alguma coisa no meu organismo. Já tinham feito esse intracath e a bomba continuava girando. Tentei me sentar e ver o que estava escrito no frasco. Identifiquei as substâncias que Patterson mencionou ter usado no antídoto. Deduzi que estavam tentando preservar meu sistema neurológico para pesquisas. Os instrumentos cirúrgicos na mesa lateral indicavam que pretendiam pegar o que queriam em breve. A bomba apitou o final da infusão e meus instintos gritaram que eu estava em perigo. Havia outros frascos na mesa. Peguei todos e me escondi num armário de produtos de limpeza. Deixei a porta dos fundos entreaberta para simular uma fuga por ali. Quando eles voltaram, já comentaram que meu corpo tinha sido roubado e deixaram o local iniciando o resgate. Vesti um macacão que encontrei ali para tentar deixar o prédio. Percebi que estava no NYO. Na minha cabeça, diversos diálogos ganhavam vida de forma muito real deixando claro que as três agências disputavam quem ficaria comigo. Assim, eu sabia que não estaria segura ali, não sabia se poderia confiar na nova equipe da Gregoryan. Decidi entrar no sistema de ventilação, um caminho mais seguro e que não seria investigado já que um cadáver não é capaz de rastejar pelos dutos. Acabei adormecendo ali e só deixei o prédio no dia seguinte. O resto, vocês já sabem. Eu tentei superar as falhas do antídoto pra conseguir uma cura e usei os segredos das tatuagens para levantar o dinheiro e os equipamentos necessários para isso.

— Por que não nos procurou, Jane? – Kurt questionou estreitando os olhos enquanto coçava a barba.

— Tasha estava grávida, então achei que ela deveria ficar fora disso. Tentei contato com Patterson, mas não tive sucesso.

— Ela me contou isso ontem. Jane usou o WizzardVille, mas eu não consegui perceber que se tratava dela. – a loira lamentou.

— E quanto a mim, Jane? Por que não me procurou?

— Você deixou a cidade no dia seguinte.

— Telefones celulares ou convencionais, e-mail, redes sociais, apps. Estamos na era da comunicação em tempo real. A distância não é mais um problema. – ele contra-argumentou.

Jane olhou de relance para ele. Seu olhar estava gélido e firme como a voz. Buscando focar em algum ponto a sua frente, prosseguiu:

— Se fui alvo de disputa entre as agências estando morta, não podia confiar que me deixariam viva e livre por aí. Você era um alvo óbvio daqueles que estavam me caçando. Devia estar sendo monitorado. Além disso, precisava resolver o envenenamento por ZIP. Achei que daria conta. Como disse, meu cérebro parece fazer ligações que não fazia antes. Decidi que encontraria a cura primeiro e só depois procuraria você. Calculei que seria rápido. Dias talvez... – e dirigiu-se a Tasha – Pode cuidar dela agora. Era só isso que eu tinha a dizer.

A latina esticou o pescoço para observar melhor a filha. Elena dormia tranquilamente. Jane continuou.

— Sei que estão decepcionados. Tomei muitas decisões ruins sozinhas. Desde o meu plano terrorista até me trancar naquela sala com ZIP. Então, achei justo deixar vocês afastados dos problemas que causei a mim mesma. Se quiserem que eu vá embora e continue tentando como estava fazendo, eu entendo perfeitamente. – fechando os olhos, apoiou os dedos da mão direita na testa parecendo incomodada.

Kurt saltou da cadeira nitidamente descontente. Torceu o pescoço e saiu sem dizer nada.

— Por favor, se puder acalmá-la lá fora. – Jane repetiu dirigindo-se a latina.

Patterson e Tasha se entreolharam. Elena continuava dormindo. Mesmo assim, as duas se levantaram. Tasha pegou o bebê conforto da filha e disse:

— Acostume-se a nos incluir nos seus planos daqui pra frente porque não vamos deixá-la terminar isso sozinha. – e saiu. Ficou aguardando Patterson do lado de fora do quarto.

A loira aproximou-se da amiga e apertou os lábios buscando as palavras adequadas.

— Tasha tirou as palavras da minha boca. Você ainda é parte dessa equipe e não vamos desistir enquanto houver qualquer possibilidade mínima no horizonte. Descanse agora. Você finalmente está onde deveria ter ficado esse tempo todo. – e se virou para deixar o quarto.

— Patterson! – Jane a chamou de volta

— Sim.

— Se puder conversar com ele. Acalmá-lo um pouco. Ele...

— Vou tentar. Mas você sabe como ele costuma se fechar quando está irritado assim. Nesses momentos, só uma pessoa consegue transpor os muros de Kurt Weller: você, Jane. Então, ele vai voltar. Prepare-se.

Jane sacodiu a cabeça concordando.

Patterson saiu deixando-a só com seus pensamentos. Pelo corredor, a conversa com Tasha foi curta:

— Ela estava alucinando com o choro da Elena, não estava? – a latina perguntou.

— Preciso considerar essa variável. É a terceira vez que acontece desde que a encontramos. E nem mesmo o antídoto em nível sérico está conseguindo conter isso. Vou entrar em contato com o Dr. Johansen novamente. Algo me diz que não temos muito tempo pela frente.

— Faça isso. Vou subir alimentar e trocar Elena. Ana deve chegar em breve. O melhor é tomarmos um café da manhã reforçado para pegar firme no banco de dados depois.

Enquanto Tasha subia para o térreo da casa, Elena começou a choramingar no bebê conforto. Ela era um reloginho quando se tratava de comida. E não suportava uma fralda suja. Habituada a conciliar necessidades e lugares, a mamãe optou por ir direto à cozinha. Entrou de supetão flagrando Kurt ao telefone.

— Me procure no endereço que te enviei. E venha rápido. Quero deixar NYC ainda amanhã.

Ele desligou rápido ao ver a amiga entrando. Voltou para o fogão. A mesa já estava posta com diversos alimentos: frutas picadas, sucos e leite. Agora parecia empenhado em fazer muitas panquecas e omelete com bacon ou qualquer outra coisa que lhe permitisse descarregar a raiva no batedor.

Tasha se acomodou no banco lateral, à beira da janela. Elena seguia resmungando. A mãe a colocou sobre o trocador após estendê-lo ali.

— Shshshsh, paciência, Elena. Primeiro a fralda, depois o tetê.

Mas a bebê parecia não ter gostado da ordem escolhida para suprir suas necessidades.

Finalizada a troca de fraldas, Tasha caminhou com a filha nos braços para o balcão perto de Kurt. Os resmungos da pequena já estavam evoluindo para o choro.

— Precisa que eu saia para você ficar mais à vontade e amamentá-la? – ele questionou.

Zapata sacou a mamadeira da bolsa e balançou na frente dele:

— Pode ficar aqui. A mamadeira não tem nada de constrangedor. Queria amamentá-la por mais tempo, mas é complicado conciliar isso e meu trabalho na CIA. Acabei cedendo às fórmulas.

— Se o que te manteve na CIA foi encontrar Jane, já pode procurar um outro emprego que te deixe com mais tempo livre para Elena.

— Quero deixar a CIA, mas ainda é cedo para pensar nisso. Posso ser útil por lá até Jane estar curada e livre de perseguições.

— Alguns momentos não voltam, Tasha.

— Eu sei, Kurt. É por isso que estou aqui.

Um breve silêncio se seguiu.

— Olha, eu sei que isso não é da minha conta, mas ouvi o final de sua conversa ao telefone. – a latina falou com determinação. – Sei que está decepcionado e bravo com Jane. E sei que afogar as mágoas nos braços, ou melhor, no meio das pernas de outra mulher é tentador. Só vou te pedir uma coisa: se essa mulher for a Nas, deixe todas nós fora disso.

Kurt colocou o omelete no prato sorrindo de forma sarcástica.

— Não era Nas. Fique sossegada.

Nesse momento, a tela do celular dele acendeu indicando que havia recebido uma mensagem. Como o aparelho estava sobre o balcão ao lado de Tasha ela viu de quem se tratava.

— Você não fez isso!

Kurt não respondeu. Pegou o aparelho e colocou no bolso.

— Isso é um absurdo, Kurt. É jogo baixo! – se levantou inconformada colocando a filha para arrotar.

Ele a ignorou. Voltou para o fogão e começou a fritar as panquecas.

— Não dê as costas para mim quando estou falando com você, Weller!

— Estou tentando terminar de preparar o café da manhã, Tasha. Só isso. Alguém nessa casa precisa dar atenção as coisas que realmente importam e fazem diferença. O resto é inútil já que ela insiste em repetir os mesmos erros do passado.

— É bom que você tenha tocado nesse ponto: erros do passado. Vou te lembrar de alguns dos nossos. Quando Jane voltou do black site nós dois estávamos muito bravos e decepcionados com ela, se lembra? Estávamos no corredor, eu estava disposta a deixar a equipe e você tentava me convencer que infiltrar Jane era nossa melhor chance de vingar Mayfair. Então você disse que não estava feliz com a presença dela, que sequer suportava ficar na mesma sala que ela. E Jane ouviu tudo. Ela tinha vindo atrás de nós porque Patterson estava nos chamando.

Kurt desligou o fogo, recostou na bancada e cruzou os braços.

— Eu fui ao céu quando vi Jane ali, ouvindo o que você estava dizendo. Deu pra ver nos olhos dela o quanto aquilo a machucou. E nada poderia me deixar mais satisfeita. Eu queria vê-la sangrando. Mas você ficou arrasado. Não queria que ela ouvisse aquilo porque não era o que você sentia realmente. Lá no fundo, queria acreditar nela. Queria se entregar a paixão que sentia. Eu mudei, Kurt. Nada que machuque Jane vai me deixar bem agora. Mesmo que ela tenha mentido em tudo que nos disse hoje.

— A questão é que Jane não mentiu, Tasha. Tudo que ela disse era verdade.

— Ela é capaz de enganar até mesmo um polígrafo, não se lembra?

— Claro que me lembro. E ela me contou como fazia isso: dizendo a verdade. Em alguns casos, noventa e nove porcento dela. Jane foi treinada para ser totalmente fria com relação a verdade. E foi assim hoje. Ela simplesmente não nos contou que estava viva para nos poupar. – e socou levemente a bancada.

— E esse não é um bom motivo?

— Se isso é um bom motivo? Eu desci ao fundo do poço com a morte dela. Eu vivi o que é tocar a lama lá embaixo. Jane podia ter mudado tudo isso num piscar de olhos. Mas o que ela fez? Escolheu me deixar lá!

— Ninguém vai ao fundo do poço quando perde alguém que ama, Weller. Seria muito brando se fosse assim. A gente conhece o fundo do oceano, com a pressão da água te esmagando por todos os lados. Eu estive lá. E achei que não teria forças para voltar à tona. Mas Elena me fez subir de volta. Foi por isso que você foi para o Colorado. Precisava de Bethany. É por isso que quer fugir para lá de novo.

— Elena e Bethany merecem o melhor de nós. Tem coisas que só um filho consegue fazer pelos pais.

— É verdade. Elas merecem. São crianças, incapazes de enxergar a maldade do mundo. Abertas a amar e serem amadas. Adultos não são assim. Adultos decepcionados e com raiva podem ferir mais que ajudar. Deixe Jane decidir o momento certo para contar a verdade a Avery. Tudo entre elas é tão frágil.

— Talvez ela dê ouvidos a filha. Talvez ...

— Kurt, o fundo do oceano é onde Jane está agora. Quando eu penso em tudo que aconteceu, fica tão claro isso. E ela quer subir, está tentando desesperadamente subir. Mas ela não vai conseguir porque já está lá embaixo há muito tempo. As pedras e a lama estão prendendo seus pés. É tudo tão horrível e assustador que ela não deseja compartilhar isso com ninguém, nem mesmo conosco. E fica tentando nos mandar de volta à tona.

Ela caminhou com a filha até o bebê conforto e a acomodou ali. Fez um prato e começou a comer enquanto acariciava seus pezinhos. Continuou:

— Eu sobrevivi a morte de Reade por Elena. Mas não acho que sobreviveria se a perdesse. Fico pensando em quantas vezes Jane perdeu Avery. – e riu entre dentes decepcionada – Nunca conversei sobre isso com ela. Será que Avery foi a única gestação de Jane? Bela amiga eu sou!

Kurt começou uma busca frenética abrindo e fechando as portas dos armários. Quando encontrou a bandeja, montou a refeição com raiva. Leite de amêndoas. Algumas panquecas que estavam separadas das demais. Geleia de morango. Chips de maçã. Banana e uvas.

— Vou desmarcar com Avery. Ela provavelmente nem conseguiria embarcar hoje. E já que você é a campeã que venceu essa batalha, que tal descer lá e alimentar sua amiga teimosa.

Elena que já estava resmungando começou a ficar mais irritada.

— Não posso. O dever materno me chama. A fera é toda sua.

Kurt pegou a bandeja irritado e caminhou em direção a porta. Cruzou com Patterson que vinha chegando.

— Ei, como você está? Mais calmo?

— Não. Sinto-me descendo ao fundo do oceano para tentar soltar alguém que está preso lá e vai tentar me empurrar de volta à tona.

— Essa analogia chega a ser poética. – a loira disse admirada. – Olha, pense que voltar à tona de vez em quando é importante para respirar antes de uma nova tentativa.

— Tente um boca-a-boca. Talvez a convença assim. – Zapata falou da cozinha com a boca cheia.

Notas finais
Alguém aí mais decepcionado com a Jane do que o próprio Kurt? Prometo que a mega conversa do casal virá no próximo capítulo. Dedico esse capítulo a minha amiga e xará Carla Izabel. Muita luz e paz pra você na terra do tio Sam. Estão gostando? Quais as teorias agora? Compartilhem suas ideias comigo, por favor! Muito obrigada pela leitura.