Lost

7 Capítulo 7


Notas iniciais
Planejei tantos acontecimentos para esse capítulo... Mas vocês terão que se contentar com o diálogo do casal. Boa leitura.

Kurt se recostou a parede do elevador enquanto esperava a chegada. Trilhões de coisas o inquietavam. Era como reviver os tempos de FBI tentando resolver um caso que parecia sem saída. Aquela sensação de pressão o assaltava. Foram tantos anos buscando uma pista capaz fazer o quebra-cabeças se juntar num sentido e, se falhasse, vidas se perderiam. Felizmente, ele conseguiu ter êxito na maioria absoluta dos casos que assumiu. Caso contrário, teria deixado seu cargo muito antes de ser chutado para fora.

E aqui estava ele: dados lançados sobre a mesa num jogo que não conhecia as regras. Família, amigos... Kurt sempre achou que isso não era pra ele. Sentia-se extremamente desconfortável quando tentava tecer laços nesse universo. Sem contar que, ao contrário do sucesso que obteve como agente especial do FBI, o fracasso rondava seu desempenho na vida familiar. Ele foi um filho que odiava seus pais. Como irmão, se intrometeu na vida amorosa de Sarah o que a fez se afastar dele. Sentia-se ausente como pai e nem sabia mensurar que espécie de marido foi depois da forma como tudo terminou com Jane. Pior ainda, não terminou. Ela estava viva, ironicamente a alguns metros abaixo dele, entretanto ainda não sabia como agir ou o que fazer.

A sensação de pressão aumentou. Não havia vidas em risco agora. Quer dizer, ainda precisavam do antídoto para salvar Jane, mas ele tinha fé que conseguiriam. Ou teria se habituado a ter a vida dela sempre na linha desde que se conheceram? A forma como Zapata colocou a situação carregava uma lógica consistente apesar de mórbida. A grande questão é que Jane estava no fundo, muito abaixo de onde ele sempre acreditou que estavam, e talvez fosse incapaz de subir à tona sozinha.

Mas como ajudá-la? Jane sempre parecia tão senhora de si, de suas escolhas. Firme, resiliente, determinada. Por mais que ele soubesse que havia 1% da verdade que ela omitiu de todos, era tentador aceitar as coisas nos termos dela, deixar que sua esposa arcasse com as consequências de suas escolhas. Se ele fizesse isso, ela sucumbiria lá embaixo. Não! Eles sucumbiriam lá embaixo porque desde que a perdeu era cada vez mais difícil subir à tona para respirar.

O elevador parou e a porta abriu. Ele caminhou para fora e pelo corredor ciente de que segundos o separavam de uma das decisões mais importantes de sua vida. A pressão parecia devorá-lo. Os sentimentos cresciam a sua volta de forma assustadora: amor, decepção, raiva, medo... Ele não podia falhar. Merda! Trocar de lugar com o refém de um psicopata parecia melhor que isso! Qualquer droga de missão no FBI era melhor que isso, afinal era em campo que ele se sentia mais confortável consigo mesmo e com sua vida.

A porta do quarto hospitalar estava entreaberta deixando que ele visualizasse a silhueta de Jane sentada na cama. Um flashback o arrastou de volta ao passado: a porta se abrindo, ela sentada na mesa de interrogatório com um misto de exigência e súplica no olhar. “Sou o agente especial Kurt Weller, o responsável pelo seu caso”. Ele e Jane. O agente especial e a vítima que depois se mostrou ser uma terrorista. Lados opostos, mas uma mesma moeda. E os dois funcionavam tão bem juntos em campo ou num interrogatório.

Ele raramente falhava como um agente do FBI. Então, se não podia falhar agora, era assim que entraria naquele quarto: ele era o responsável por aquele caso. Vítima e culpada, ele teria que usar todas as suas habilidades se quisesse ter êxito para lidar com sua esposa.

Assim que apontou na porta, ela olhou para ele e quase esboçou um sorriso. Então, rapidamente, sua expressão migrou para resignação, obviamente na defensiva, esperando que partisse dele o tom que a conversa teria. Ela era astuta, ele sabia.

— Trouxe seu café. – ele disse mais seco do que pretendia. E já foi colocando a bandeja sobre o colo dela na cama.

— Obrigada, Kurt. – a gratidão na voz dela era autêntica. – Mas...

— Não se preocupe, é tudo vegano.

A força da resposta rápida dele não escondia seu lado protetor. Isso causou um impacto nela. Há tanto tempo ela estava só. Há tanto tempo não sabia o que era receber o cuidado e o carinho de outra pessoa. E houve alguém lá por ela além de Kurt? Jane sabia que não.

— Tenho certeza que sim. Você sempre foi bastante cuidadoso com a minha escolha alimentar. Acho que mais do que eu mesma nos últimos meses. A questão é que eu não estou...

— Você deixou de ser vegana nos últimos meses? – ele parecia chocado.

— Tentei manter sempre que possível... Meu aparelho digestivo reagiu mais chocado que você agora. – ela tentou dar a conversa um tom mais descontraído.

— Escolhas... Bem, agora você pode voltar totalmente ao veganismo. Ou, se preferir, subo e trago algo diferente, qualquer coisa que quiser. Você pode ainda escolher não comer nada e passar o dia em cima dessa cama já que a Dra. Carla foi clara: só poderá se levantar depois de se alimentar.

Jane levantou as sobrancelhas se dando conta de que rejeitar aquela refeição não seria possível.

— O que tem nessa bandeja está ótimo. – disse levantando a bandeira da rendição.

Kurt puxou uma cadeira e se sentou cruzando os braços observando a forma como ela puxava o ar enquanto passava geleia na panqueca.

— E Bethany, como está? – disse olhando diretamente pra ele.

— Está bem. – Kurt respondeu a encarando. – Jane, por favor, morda isso.

Ela assentiu e mordeu a pequena panqueca que tinha nas mãos. Mastigou poucas vezes e engoliu. A falta de apetite e a tensão tornavam aquilo difícil apesar do gosto ser realmente muito bom.

— Vocês têm se divertido muito juntos? Já construíram um castelo de panquecas?

Ele não respondeu. Continuou a encarando, a espera de que abocanhasse outro pedaço da panqueca. Jane compreendeu e tentou parecer natural olhando de volta à espera de resposta.

— Bethany pode ser um pouco mais... difícil quando está numa rotina com escola, balé e alimentação saudável. Um pouco, só um pouquinho teimosa. Talvez seja algo que ela herdou da Allie, não sei.

Um sorriso autêntico se formou no rosto de Jane pela primeira vez naquela manhã. Era óbvio que a pequena Bethany herdara tudo de bom de seu pai. E esse relato sobre sua teimosia era outra dessas heranças que aqueciam seu coração ao pensar na enteada. Ainda sorrindo, continuou:

— Bem, ela tinha que ter alguma característica da mãe, não é mesmo?

Sem nem relutar, deu outra mordida na panqueca. Isso não passou despercebido por Kurt, que resolveu prolongar o relato, algo que não estava em seu objetivo inicial.

— Ela prefere qualquer bolacha ou bolo que venha em pacote às minhas panquecas ou ovos mexidos. E isso não parece incomodar Allie. E tem o tal do Leo...

— Leo? – questionou dando outra mordida.

— Um garoto, filho da vizinha. Ele é uns três anos mais velho que ela, mas Bethany adora estar com ele. O moleque é viciado em TV e jogos eletrônicos, excesso de tela para a idade dele e pior ainda para Bee. Allie não enxerga isso. Aliás, você sabia que ela fuma?

— Allie fuma? Nunca a vi com cigarro ou qualquer cheiro parecido. Você tem certeza disso?

— Praticamente sim. Ela e Connor fumam charutos para celebrar certas conquistas como a promoção dele.

— Então, era uma ocasião específica.

— Eu não sei. Pode haver outras celebrações em outros dias. A questão é a referência. A ideia de Bethany ver a mãe fumando me incomoda bastante.

— Bethany estava presente?

— Não. Eles estavam fumando no deck do quintal depois que ela já estava dormindo. Mas e se minha filha acordasse e fosse até ali em busca da mãe? Você faria isso? Fumaria num dia em que Bethany estivesse conosco?

— Não, você sabe que não fumo nem por um motivo celebrativo.

— Então, isso aconteceu um pouco antes do casal sugerir gentilmente que eu precisava de uma casa, um espaço que fosse meu.

Jane apertou os lábios sentindo seu coração se despedaçar por ele. Como ela queria poder ter estado ao lado do marido naquele momento para abraça-lo e apoiá-lo.

— Oh, Kurt, eu sinto muito que você tenha passado por isso.

— Não sinta. Arrumei um canto pra mim e criamos uma rotina de guarda compartilhada. Mas o mais complicado foi descobrir que se Allie e Connor estiverem numa festa e Bethany acordar no meio da noite chamando pelos dois, eles não vão voltar. Tenho que resolver a situação sozinho.

Jane respirou fundo, segurou a bandeja e fez menção de colocá-la na mesa de cabeceira. Kurt se adiantou e segurou o objeto.

— Você não comeu quase nada.

— Eu termino daqui a pouco. Só quero conversar com você sem que isso esteja aqui.

Mesmo contrariado, ele acatou e depois se sentou na borda da cama onde ela indicou. Jane segurou as mãos dele:

— O Colorado definitivamente não é um paraíso. Mas ainda assim deve ser muito melhor do que os raros momentos tão distantes da rotina real que você tinha com Bethany enquanto morávamos aqui em NYC e trabalhávamos para o FBI. E muito melhor ainda do que estar totalmente separado dela como nos tempos que ficamos refugiados no bunker.

— Mas parece que sou chato demais para estar por perto sempre. – disse entre dentes sem olhar para ela.

— Você não é chato. Só é um pai mais preocupado e protetor. E toda garotinha precisa disso, não é mesmo?

Ele torceu o pescoço demonstrando não concordar totalmente com ela. Jane prosseguiu:

— Você estava passando por um momento muito difícil. Perdeu o emprego ao qual se dedicou durante toda uma vida. E ainda perdeu pessoas que amava. Não seja duro consigo mesmo. Estava tentando encontrar seu novo lugar na vida de Bethany. Quando a vida da gente muda completamente é preciso um bom tempo para se adaptar. Tenho certeza de que, em outro contexto, você teria sido mais compreensivo com Allie também. Afinal, ela não fez nada de errado. Não há problema se ela fumar longe de Bethany para comemorar com o marido. E ela sabia que a pequena estava muito bem cuidada e protegida com você. Retornar da festa para atender a uma teimosia de Bee podia fazer mais mal que bem a ela. Tudo isso que você está me contando só reforça o quanto precisam de você por lá. Assim, quando Allie falhar, e toda mãe ou pai vai falhar em algum momento, Bethany ainda terá você para mostrar o que é certo. Até mesmo Leo precisa de você. Ensine o amigo de sua filha a se divertir longe das telas. A amizade deles me lembrou você e Taylor. Pense em quantas possibilidades de momentos inesquecíveis os dois podem ter se levá-los para acampar, para escalar árvores ou para pular em poças de barro.

— Quando você fala, tudo parece tão mais simples e fácil de ser colocado nos trilhos.

— Esse é o seu sonho Kurt. Você tem direito a viver tudo isso. Não deixe que nada nem ninguém te afaste do que pode te fazer feliz. Nem mesmo se essa pessoa for você mesmo. Nem mesmo eu. Volte para o Colorado e seja esse pai maravilhoso que está sendo.

Kurt imediatamente puxou suas mãos das dela e ficou em pé, se afastando da cama.

— “Volte para o Colorado.” Então, todo esse discurso foi para isso? Estranho você defender que sou um cara incrível, mas me querer afastado de você, não acha?

— Kurt, não é isso...

— Então, é o que, Jane? Ajude-me a entender.

Ela respirou fundo. Geralmente evitava expor cem por cento da verdade. Tudo que pudesse ser omitido para evitar causar mais dor, ficava de fora de seus argumentos. Mas ela sabia que agora precisava sem sincera.

— Eu não posso mais ser um obstáculo a sua felicidade, Kurt. Nós já tentamos inúmeras vezes e sempre algo novo acontece comigo te separando de Bethany. Continuar adiando isso pode te levar para o Colorado tarde demais. Ela é tão pequena. Precisa de você. Além disso, qual a vantagem em continuar por aqui? Patterson e esse tal cientista farão todo o trabalho necessário para encontrar a cura. Ou não. A verdade é que ao final dessa jornada eu posso simplesmente morrer novamente. Você terá perdido momentos preciosos ao lado de sua filha por nada, Kurt. Eu sou adulta e estou colhendo o fruto das minhas escolhas. Escolha muitas vezes erradas. Não faça como eu. Volte para o Colorado.

— Talvez eu volte. Mas antes, preciso que me conte algumas coisas.

— Estou aqui. Pergunte o que quiser.

— Você disse que alucinou com o Colorado. O que viu exatamente?

— Era um jantar numa cabana no Colorado, nosso novo lar. Todos estavam lá. Patterson formava um trisal com Rich e Boston. Tasha estava com Elena. Allie estava sentada ao seu lado e Bethany no seu colo. Bill Nye ensinava ciência para nossos filhos. Tínhamos adotados três crianças. Tinham em torno de dez anos. Então, você conversava comigo e... me fazia perceber que aquilo tudo era apenas uma alucinação, mas pelo menos eu teria visto isso antes de morrer.

— Kurt, o chato agindo de novo.

— Não! Você é a pessoa em quem mais confio. Sempre foi sincero comigo e me ajudou a enxergar a verdade. Não me deixaria morrer enganada.

— E qual foi a sensação de estarmos vivendo essa nova vida no Colorado?

— Bem, tudo parecia no seu devido lugar. Você estava ao lado de Allie criando Bethany. Tínhamos tirado aquelas crianças do orfanato e dado uma família a elas. Vocês pareciam bem e felizes.

— Você estava feliz?

Um breve silêncio se instalou.

— Bem, eu senti que finalmente tinha feito a escolha certa. Vocês estavam bem. Isso é muito importante para mim.

— Não foi isso que eu perguntei, Jane. Vou repetir: você estava feliz lá no Colorado, ao meu lado?

— Acho que era o único final feliz possível para mim se eu sobrevivesse ao ZIP na Times Square.

Kurt deixou o corpo cair na cadeira, apoiou os cotovelos nos joelhos e colocou a cabeça entre as mãos coçando freneticamente os cabelos insatisfeito.

“– Agora você conseguiu tirar ele do sério, Sis.” A voz de Roman soou ao lado dela, tornando tudo ainda mais difícil.

— Vocês estavam bem. Era o máximo do que eu poderia desejar... – ela insistiu tentando acabar com o que incomodava ele.

Ele parou e ficou olhando para o nada.

— Você disse que quando acordou no necrotério ouviu pessoas conversando sobre extrair seu sistema nervoso antes de entregar seu corpo para o sepultamento. Reconheceu a voz de alguma delas? Saberia dizer quem era?

— Kurt, isso não nos ajudará em nada...

— Então, posso presumir que reconheceu as vozes. Quem era, Jane? E por que não relatou isso desde o começo?

— É irrelevante, Kurt. Revelar isso não trará qualquer vantagem.

— Então, simplesmente me diga quem é. – Kurt insistiu olhando disfarçadamente para a tela do outro lado da sala que monitorava os efeitos do ZIP sobre ela vendo a linha oscilando com mais intensidade.

“– Diz pra ele, Sis. O cara quer saber. Eu não sei por que você o protege tanto assim.”

Ela respirou fundo, insatisfeita e desconfortável.

— A voz masculina não reconheci. A outra voz era Nas.

— Nas?! E você não julgou importante que eu soubesse disso? Não acha estranho que ela tenha decidido fazer isso sem me consultar?

— Ela é sua amiga e uma grande aliada, Kurt. Eu já estava morta, não faria qualquer diferença pra você receber meu corpo com ou sem o cérebro e a medula espinhal. Você sequer notaria a diferença. Mas podia ser valioso para a segurança do país. Você já estava sofrendo demais. Nas devia estar tentando poupá-lo de mais um problema trazido por mim.

— Então, você pode me poupar, Nas pode me poupar, mas eu não tenho o direito de poupar você dos experimentos do governo nem mesmo depois de morta? Eu não tenho do direito de dar um enterro digno para o corpo intacto da minha esposa que deu a vida pra salvar milhares de pessoas? Eu sou mesmo muito chato.

— Kurt...

— Não. Eu só tenho mais uma pergunta, Jane. Então, tudo isso termina. Você diz me conhecer tão bem. Diz que sou cuidadoso e protetor com as pessoas que amo. Parece confiar totalmente na minha capacidade de ser um bom pai para Bethany por isso. Se realmente acredita em tudo isso, por que você não me procurou assim que deixou aquele necrotério?

Ela mordeu levemente o lábio superior nervosa. Puxou todo o ar que podia. E começou calmamente:

— Acho que eu estava confusa. Ainda não tinha sentido todo o efeito do antídoto. Minha cabeça doía, estava difícil controlar minha temperatura corporal. A presença de Nas ali me assustou, me fez ver as agências de segurança como inimigos em potencial. Eu só pensei em sair do prédio o quanto antes.

Kurt se levantou e empurrou a cadeira nervoso.

— Mas você não saiu, Jane. Você entrou na porra do duto de ventilação e ficou lá até o dia seguinte. Com dor, com medo, com frio, mas não me procurou. Não pensou que eu te protegeria de Nas e das agências de segurança?

Kurt queria manter seus olhos sobre ela, mas não suportou. Virando-se de costas, acabou se deparando com o monitor no qual as linhas oscilavam bastante agora.

— Kurt, eu... eu não sei me justificar. Essa é a questão. Eu faço escolhas erradas. As piores, com certeza. E acabo machucando as pessoas que estão em volta de mim. Acredite, quando eu olho para trás existe uma montanha delas me assombrando. Eu não valho a pena como você imagina. É por isso que aquela alucinação do Colorado é o mais perto de um final feliz possível pra mim. Ali eu tinha feito uma escolha certa: deixar você junto a Bethany. Minha única escolha certa. Então, Kurt, por favor, volte para o Colorado. Fique com sua filhinha e construa um final feliz pra vocês dois. Não me deixe estragar isso.

As palavras dela começaram a abatê-lo, mas de repente se tornaram leves como uma pluma. Ele se virou para ela com lágrimas nos olhos e um sorriso no rosto. Venceu a curta distância que os separava em dois passos.

Foi tudo tão rápido que Jane não se deu conta dos detalhes. Só percebeu ele lá, perto demais, a aquecendo como se formasse uma redoma protetora ao seu redor. Ele colocou as mãos dela em seu peito para sentir seu coração que pulsava forte. Depois uma das mãos dele estava acariciando seus cabelos enquanto ele sussurrava:

— Um castelo de panquecas no Colorado não é único final feliz possível para mim, Jane. Eu preciso de mais. Preciso que você esteja ao meu lado. Lembra quando me disse na Times Square que você trazia o caos? Não é verdade. Você o dissipa. Porque um castelo de panquecas por representar verdadeiras muralhas entre eu e minha filha. Muralhas que só você sabe me fazer derrubar.

“– Agora eu acho que você surtou de vez, Sis. Isso tudo só pode ser mais uma alucinação louca.”

Jane não duvidava mais de que vivia imersa na loucura. Tudo aquilo era confuso demais. E, se sua loucura era sua única certeza, não havia porque esconder nada de ninguém.

— Kurt, por favor, eu estou tão confusa agora. Você ouviu o que eu disse?

— Cada palavra. E ainda prestei atenção a sua respiração, aos momentos em que desviou o olhar. Você foi perfeita. Enganaria o melhor dos polígrafos. Mas você não pode me enganar, Srta. Briggs. Porque eu sou um ótimo agente do FBI e também te amo demais. – a seu rosto foi inundado por aquele sorriso torto que a encantava.

Jane olhava pra ele perplexa, olhar vagando por seu rosto a procura de respostas. Instintivamente, sua mão alcançou o rosto dele, tocando de leve as dobras de seu sorriso sobre a barba espessa.

— Você me disse tudo que eu precisava ouvir pra entender o que está acontecendo. Sua única falha foi deixar algo escapar antes do interrogatório começar. – falou a puxando para mais perto – Assim que entrei com a bandeja de café da manhã, você perguntou por Bethany e mencionou um castelo de panquecas no Colorado como a projeção de um sonho.

— Mas você sempre amou fazer panquecas com Bethany. Falava disso repetidas vezes enquanto estávamos no bunker.

— Falei demais dessas panquecas com Bethany. Tanto que, na sua alucinação de um final feliz bastava que eu estivesse com Bethany nos braços ao lado de Allie. Mas em momento algum no bunker eu mencionei um castelo de panquecas. A grande questão nisso tudo é que me dei conta de que você ama Bethany tanto quando eu.

— É claro que eu a amo. É sua filha, Kurt.

— E quanto a mim? Você me ama, Jane?

Ela expirou inconformada. Não conseguia processar essa pergunta.

— É óbvio que sim. Talvez eu não saiba amar do jeito que você precisa ser amado. Talvez minhas escolhas te deixem confuso quanto a isso, mas, por Deus, Kurt, eu te amo mais que tudo.

Ele voltou a sorrir e rompeu de vez o espaço que os separava roçando seus lábios nos dela. Um toque, dois. No terceiro, os lábios dele exigiram mais pedindo permissão para transformar o que era só uma brincadeira em algo muito maior.

Jane estranhava tudo aquilo, a forma como Kurt mudara da água pro vinho, como garantiu ter descoberto seus segredos e ainda assim a tratava com tanto amor e carinho sendo que ela só esperava que ele reagisse com mais decepção. Era como estar vivendo a melhor de todas as alucinações estar nos braços dele de novo, sentindo seu calor envolvê-la. E, já que ela não via lógica alguma no que estava acontecendo, por que não se entregar aquele beijo? Então, se deixou entregar por completo, derretendo-se contra os lábios dele, deixando suas línguas brincarem juntas enquanto enlaçava o pescoço do marido. Ah, como era perfeito! O sabor, a paz, a certeza. Era como reencontrar o paraíso. Lento, calmo, semeando promessas sem conseguir impedir que a vontade de mais os envolvesse. Talvez por isso, Kurt tenha interrompido o beijo e se afastado, não sem antes puxar seu lábio inferior com os seus.

— Decididamente esse foi um beijo de uma mulher apaixonada por seu marido. E não é o agente do FBI que está falando agora. – e piscou para ela que revirou os olhos e sorriu. – Você me ama tanto que omitiu, no relato que fez mais cedo, ter reconhecido a voz de Nas no necrotério. Queria manter a minha amizade com ela mesmo após ela tomar decisões a seu respeito com as quais eu não concordaria. Você acha que eu poderia retomar o relacionamento com ela e ser feliz assim. Estou certo?

Jane suspirou e apertou os lábios desviando o olhar. Kurt não aguardou que ela respondesse. Deu um beijo em sua testa demonstrando que sua intenção não era acusá-la e continuou:

— A outra omissão, aquele 1% que faltou no seu primeiro relato, foi não dizer que a primeira coisa que você fez ao acordar naquele necrotério foi me procurar. E você sabia exatamente onde me encontrar: na sala ao lado porque eu não sairia de perto de você. Pra não arriscar, usou o sistema de ventilação. Seria certeiro e sem obstáculos indesejáveis pelo caminho já que não podia confiar em mais ninguém além de mim naquele prédio. Mas você alcançou a sala no exato momento em que Allie chegou com Bethany. Você ouviu a conversa que tive com minha filha, prometendo que eu ia ficar bem e ser feliz ao lado dela no Colorado. E foi ali, naquele momento que eu disse que construiria um castelo inteiro de panquecas. E, pra tornar isso real, para que eu fosse para o Colorado e cumprisse minha promessa, você não me chamou.

Jane estremeceu e seus olhos se encheram de lágrimas. Kurt segurou seu rosto entre as mãos e pediu:

— Ei, por favor, olhe pra mim.

— Garantir que você dois possam ficar juntos é importante pra mim, Kurt. Muito importante. Eu precisava fazer a escolha certa.

— Eu entendo o que você fez e porque você fez. Talvez eu tivesse feito a mesma coisa se estivesse em seu lugar. Mas eu preciso que você me escute: não foi a escolha certa pra nenhum de nós. Todas as vezes que você fez essa escolha, não foi bom. Se trancar naquela sala com ZIP não foi bom. Não nos contar que não tinha tomado o antídoto não foi bom. Eu preciso que você entenda que eu e Bethany teríamos ficado muito melhor se você tivesse estourado aquela grade e saltado no meio da sala do necrotério quase matando todos nós de susto.

— Eu não sei se eu posso...

— Claro que pode. Eu não conheço ninguém que tenha sido capaz de tantas formas de superação física e emocional quanto você. Mas eu entendo que deva ser difícil, muito difícil. Talvez leve tempo para aprender. Mas você chega lá. E pode ser que precise de ajuda. É para isso que eu estou aqui. É por isso que não vou voltar para o Colorado.

— Não! Você tem que repensar isso. Bethany precisa de você.

— Eu já me decidi. Vou ficar aqui. Você precisa mais de mim do que ela agora. Eu só não posso cuidar de você sozinho. Preciso que Roman me ajude. Ele está aqui, não está?

“– Pronto, não faltava mais nada. Agora ele quer me colocar no meio do rolo. Tá mais pirado que você, Sis.”

— Mas... mas... Roman é só uma alucinação, Kurt. – ela falou com a respiração ofegante.

— Eu sei que é. Assim como sei que ele é muito, muito importante pra você. Eu não posso vê-lo nem falar com ele, mas você pode fazer essa ponte entre nós. Acho que nossa família precisa disso. Não quero que você carregue o peso dos desentendimentos que aconteceram entre eu e ele.

Os olhos de Jane migraram para Roman que agora ocupava a cadeira onde Kurt estivera sentado, uma perna cruzada sobre a outra.

“– Tô fora. Pode esquecer. E não me olhe com essa cara, Sis!”

Kurt observava as reações dela. Por um lado, seu coração se quebrava ao ver que ela realmente estava alucinando com o irmão o que a deixava a beira da morte. Por outro, uma nova esperança nascia carregando o desejo de fazer tudo do jeito certo dessa vez.

— Eu acho que isso não vai dar certo, Kurt. Roman... Bem, ele não gosta muito de você e não vai colaborar.

— Talvez ele só precise de tempo para se acostumar com a ideia. – e, se levantando, pegou a bandeja e colocou de volta no colo de Jane. Depois ocupou a cama ao seu lado, a envolvendo com um braço e oferecendo seu peito de apoio. – Podemos tentar convencê-lo enquanto você termina seu café.

“– Deixe o idiota tentar. Isso vai ser divertido!”

— Roman! – Jane o repreendeu perdendo a noção por um momento. – ai, me desculpe.

— Não precisa se desculpar. O que ele disse?

— Te chamou de... idiota.

— É, ele não sabe brincar.

— Olha, Kurt, você não precisa mesmo fazer isso.

— Mas eu quero porque eu não vou desistir de você, Jane. Se, pra te ajudar, precisamos de Roman, mais cedo ou mais tarde ele terá que ceder. – e colocou uma uva na boca de Jane – Além disso, teve época em que nós dois estávamos quase nos entendendo. Ele era bem bacana comigo quando eu levava cerveja até sua cela na divisão zero.

— Você fez isso? – os olhos dela brilharam. Então, se voltou para Roman – Esse tipo de coisa você não me conta, não é?

Kurt imediatamente estreitou os braços ao redor dela e beijou seus cabelos. Teria que se acostumar com as alucinações de Jane.

“– Contar pra quê? Como se você já não revirasse os olhinhos o bastante pra esse babaca aí! Além disso, sou só uma alucinação sua, esqueceu? Só sei do que você sabe.”

Jane revirou os olhos:

— Ele disse que já sou apaixonada demais por você sem saber sobre esses detalhes. E depois me lembrou que é só uma alucinação, então só lembra do que eu sei. E ele tem razão com relação a isso. Eu não estou entendendo sua estratégia, Kurt.

— Só estou tentando transformar nosso limão numa limonada. Estamos numa luta contra a morte, Jane. Quero saber mais sobre vocês dois porque assim posso te ajudar não deixar a memória de Roman morrer na nossa família. Minha teoria é que isso, por agora, pode nos ajudar a minimizar a DEC. Sempre fomos melhores juntos. Se Roman se juntar ao team, nossas chances de superar todos esses problemas são maiores. A longo prazo vai nos ajudar a lidar com seu passado, para descobrirmos juntos como será nosso final feliz.

Ela suspirou com os olhos se enchendo de lágrimas.

— Não sei como te agradecer por isso, Kurt.

— Então, não me agradeça. Só fique comigo e vamos caminhar juntos. Eu estive lá, depois da linha, no Colorado, sem você e não foi nada bom. Entenda que eu preciso estar com você pra ser feliz. E também quero um pouco desse café da manhã. – finalizou levantando apenas uma das sobrancelhas.

— Só o café da manhã? Hmmm eu ia te oferecer muito mais. – ela disse levantando os olhos com falsa inocência.

Kurt colou os lábios no pescoço dela e começou a distribuir pequenos beijos enquanto falava:

— Eu... vou... começar... com o... café da manhã. E cobro... o resto... depois... da liberação... da doutora Carla. De preferência... sem o Roman... por perto.

“– Eu também prefiro não estar por perto! Eca!”

— Roman acaba de concordar com você nessa parte, Kurt.

— Eu disse que nós dois íamos acabar nos entendendo.

Os dois trocaram um beijo profundo e calmo. Depois retomaram o café da manhã. Kurt chamou Roman para a conversa diversas vezes, tentando trazer lembranças boas do passado de Jane.

Notas finais
Vou ser direta: gostaram? Gente, não está fácil encontrar tempo e inspiração para escrever. Então, se puderem interagir comigo a respeito dessa história, será uma ótima forma de incentivo. Críticas construtivas são bem vindas. Muito obrigada pela leitura.