Lost
14 Uma última dança
Notas iniciais
Brian andou pesquisando. Ele me deixou trancada – o que não era nada – e foi a uma escola onde, há muito tempo atrás, minha tal tia tinha concluído o colegial. Eu estava achando aquilo tudo inútil, já expressei minha opinião sobre isso. Mas eu vou deixa-lo acreditar que é capaz de me salvar de tudo isso, afinal. Quem sabe o poder da fé nos salve.
É exaustivo pensar em quando ou como vai morrer. Em quando a morte baterá a sua porta lhe chamando pra partir. Eu só queria esquecer aquilo. Eu sabia o único método para isso. Mas eu não quero ser atirada ou parecer uma completa babaca. Não é visível que meu corpo grita “Ei, largue isso! Um dia a morte chegará de um jeito ou de outro. Mas se você não tomar uma atitude não me beijará, sabe?”. Eu queria pegar aquela miniatura de adaga e furar meu próprio olho. Oh, não, eu não posso estar me apaixonando.
Droga, droga, droga, droga e droga. Por que eu sou tão contraditória? E idiota, boba, fria? Por que eu não posso compreender minimamente os meus próprios sentimentos? Eu suspirava de frustação sempre que esses pensamentos vagavam por minha mente. Ceder. Eu deveria ceder. Uma última paixão antes do beijo da morte. E ele seria – e eu ri ao pensar nisso – a Julieta, porque não se aguentaria e enfiaria a adaga fedida a chulé em seu peito. Mas que droga eu estava pensando? Eu preciso de gente estalando dedos na minha cara pra parar de uma vez com essas baboseiras. Brian não morrerá por mim. Ele deveria ser frio. E se ele fosse frio tudo seria mais fácil pra mim porque seria para ele. As coisas nem sempre são como desejamos que fossemos. Na realidade, eu nem desejo isso. O fato de ele ter algum sentimento dentro de si é motivo suficiente pra me atrair.
No dia primeiro de fevereiro e eu não queria sair da cama. Que dia da semana era? Será que dessa vez ia acontecer algo menos entediante? Ah, eu queria me enterrar na neve e congelar. Toc-toc-toc. Esperei que Brian se pronunciasse. Vai que não é ele.
– Tudo bem? Hoje é sexta. Levante-se! – falou animadinho. Gemi enfezada esperando que ele fosse embora e me cobri até a cabeça. – Em... – Eu odiava quando ele falava meu nome desse jeito. E por quê? Eu odeio admitir que eu me derreto um pouquinho. Droga. Eu odeio pensar nisso.
– O que tem hoje? É só mais um dia! Estou com sono... – resmunguei.
– É só mais um dia, blá blá blá. Você não deveria querer viver mais um dia assim, sem nada de significante. – Eu encarei a porta fingindo que era ele. Como ele leu minha mente? Eu me levantei protestante e irritada. Ele me irrita demais. Quase não resisti ao impulso de socar a porta. Eu já soquei, dói muito. – Alguns caras da faculdade iam dar uma festa... Eles me convidaram...
– E daí?
– E daí que eu odeio essas festas – respondeu, me fazendo arquear uma sobrancelha. – E eu fiquei me perguntando se não devíamos fazer algo interessante. – Eu cruzei os braços, desconfiada. Isso terminantemente não me soava boa coisa. Mas ele não tinha malícia na voz, por isso relevei. – Junk food, música e qualquer coisa pouco entediante.
– Eu acho que qualquer coisa com você é entediante. – E completei em minha mente “Mentira. Se torna bem interessante, principalmente quando estamos a uma distância pequena”.
– Até mesmo se eu dançar? – ele perguntou rindo.
– Oh, Deus, não dance! Por favor! Não me torture! – falei rindo e ele me encarou bravo. Entrelacei meus dedos aos seus e ele deu de ombro. – É, comida me animou... Quem sabe...
– Ah, – continuou. – pelo que parece a Liv vem aqui. – Eu suspirei. Era tão complicado ser tão fria com alguém que anteriormente fora sua melhor amiga. Mas não me lembro muito bem dela e de nossa amizade.
Ela veio aqui de tarde e Brian saiu. Nós tivemos uma conversa agradável. Ela me fazia suspirar e me lembrava de mais coisas que deixavam pairar no ar certa nostalgia. Ela era muito meiga, com certeza. Me lembrava uma atriz fofa e lunática de algum filme que vi com Brian... E então eu comentei sobre Brian e sobre a festa que não iria e sua proposta. Ela me olhou de um jeito meio constrangedor e começou a rir feito besta. Ela disse se eu não gostaria de me arrumar.
– Quê? – perguntei confusa e rindo. – Isso não é tipo, sei lá, um encontro. É...?
– Eu presumo que seja – respondeu baixinho. – Eu poderia te ajudar... Acho que você não tem nada aqui pra isso, obviamente.
– É, sei lá – respondi insegura com a ideia. Eu não acho que devo curtir me arrumar pra alguém. Mas diante de tudo eu cedi mais uma vez para a minúscula parte sentimental em meu coração, uma reles bomba de sangue. Eu resolvi embarcar nessa última dança.
...
Foi uma tarde agradável até ela começar a ter ideias. E no final de tudo isso eu estava ridiculamente empetecada. Brian tinha saído, ele disse que ia num McDonalds. Eu fiquei me olhando no espelho. Era tão estranho. Tinha batom de verdade borrado na minha bochecha. Mas não era sangue. Sequer era vermelho, eu não ia deixa-la exagerar. Ela conseguiu domar meu cabelo em uma trança de ladinho e esse vestido vermelho de alças médias. Era bonitinho, normal, mas bonitinho. Nada exagerado.
Eu fiquei brincando com a trança até ele chegar. Eu estava realmente nervosa. Tão boba. Minha mão suava. Por que eu aceitei aquilo? Era ridículo. E ao mesmo tempo eu pensava “oh, pare de ser boba, você aceitou dançar essa dança!”. E então eu comecei a rir feito boba e coloquei pra tocar uma música bem lenta e fingi dançar com um par invisível. Eu estava bem concentrada rodopiando pela minúscula sala e rindo de mim mesma quando ouvi a porta se abrir e caí, derrubando o iPod.
– AI. MEU. DEUS. WOOD – berrei.
Ele largou as coisas no chão e começou a rir da minha cara. Eu estava ali, caída de bunda no chão – e agora que reparei, me arrumei porque estava de vestido – e ele ria da minha cara. E pior ainda, ele me pegou dançando como boba. Ainda rindo como um palhaço ele me deu sua mão pra que eu me levantasse. Eu olhava para ele semicerrando bem os olhos para demonstrar minha irritação. E quando eu já estava em pé ele ainda continuava segurando minha mão gelada de suor – e a sua gelada porque estava frio lá fora. Eu tentei fugir daquele transe e olhei para o chão.
– Hm... comida... – sussurrei. Ele revirou os olhos e riu.
Estávamos ali no sofá ouvindo o som de uma música baixinha e comendo comidas não-saudáveis. E de vez em quando ele tirava sarro de mim por eu ser muito desajeitada. Me safei por pouco de manchar o vestido com refrigerante e depois com ketchup.
– Você está a fim de ouvir piadas? – ele perguntou tentando um ar de engraçado que foi ridículo. MAS, por ser ridículo, e por ser ele, tornou-se engraçado, e segurei-me para não rir.
– NÃO, Sr. Wood – rebati e ele arqueou uma sobrancelha. Típico. – A não ser que você queira que eu esfregue fast-food na sua cara.
– Deus do céu – ele disse rindo. – Eu compro a comida e você ainda quer esfrega-la na minha cara? Você é demais pra mim! Se passar no noticiário que um jovem morreu porque uma garota esfregou hambúrguer no seu rosto até asfixia-lo, bom, sinta-se culpada.
– Vou me sentir. Demais – respondi rindo. Eu acabei apoiando um cotovelo no sofá quando me desequilibrei e fiquei inclinada demais para ele. Zona de perigo. O meu cérebro dizia a todo o instante “ZONA DE PERIGO ZONA DE PERIGO ZONA DE PERIGO”. – Bri... an... – sussurrei, perdida no cinza dos seus olhos. E você diria “Cinza? Cinca é uma cor tão sem graça. Cor de fumaça. Cor de asfalto. Cor de nada.” Mas era a minha cor favorita, afinal. Era a cor dos olhos dele. Um dia eu me puno por ser tão melosa. Mas agora eu estava ocupada demais beijando-o.
A minha mão em sua nuca. E ele estava com uma mão em minhas costas enquanto tentava deixar o refrigerante no chão sem derrama-lo com a outra. E dessa vez era diferente. Não era tão calmo nem uma droga que me fazia flutuar. Ele era intenso demais. Intenso como se amanhã fosse meu último dia. Intenso como se eu nunca mais fosse ver aqueles lábios. Eu comecei a passar a minha mão por seus cabelos. Eu já estava meio cansada, sem fôlego. Meu cérebro gritava enquanto uma sirene tocava “ZONA DE PERIGO ZONA DE PERIGO ZONA DE PERIGO”. E então, lentamente e a contragosto eu me separei dele. E seus olhos me perguntavam “Por quê?” e eu respondi sem abrir a boca “Zona de perigo”. Eu me levantei e fiquei olhando para ele com minhas bochechas ardendo e ao mesmo tempo com vontade de suspirar como menininha apaixonada. A noite estava sendo legal.
– Você disse que... que foi convidado para uma festa... – Ele fez um sinal para que eu prosseguisse. – E dançam em festas.
– Isso é um convite, Srta. Harrison? – perguntou ele intrigado. Eu mostrei a língua para ele e ele se levantou. Estava bem em frente a mim, os ombros curvados para que não houvesse grande diferença de tamanho. – Tudo bem por mim.
– Só cale a boca – mandei.
Ele pegou minhas mãos. A playlist de músicas lentas continuava a rodar em um volume agradável. Quando eu fiz um movimento eu bati o tornozelo na mesa de centro e resmunguei. Meus braços em seus ombros. Uma distância pequena separava nossos corpos. Seus olhos sorriam. Meus lábios sorriam. Eu... Ah... Emma!... E mal nos mexíamos.
– Ahm, Brian – disse depois de alguns minutos de silêncio. – É uma boa hora pra dizer... qualquer coisa que queira dizer... Se quiser... – Eu estava tão insegura, gaguejando a todo o instante. Ele parou. – Eu sinto que pode ser a última oportunidade.
– Então... hm... Tá... – Ele também estava extremamente nervoso. – Em. Eu... sempre.... Você... Você me odiava... Talvez ainda me odeie... – Eu balancei a cabeça rindo. – Sempre gostei de você. E nunca consegui esquecer. Tão idiota. Eu nem sei o porquê de gostar de você, você nunca ligou pra mim. Mas não é algo que você controle. E quando entrei na faculdade e aquelas garotas davam em cima de mim eu pensava em você, mesmo tanto tempo tendo se passado. Mesmo que fosse coisa boba. E agora eu sinto que isso se expandiu.
– Brian – cortei-o. – Tudo bem. Não precisa mais de blá blá blá. Estou a fim de fazer outras coisas. – Ele sorriu pra mim e entendeu o recado. E então nos beijamos. E essa é a última coisa que me lembro de ter feito. No dia seguinte eu acordei no sofá com a luz fraca do sol em meu rosto. Lixo no chão. Eu tinha adormecido no sofá de novo. Estava deitada em seu ombro. Uma dor nas costas excruciante. Mas eu só pensava em como tudo tinha sido tão mar-de-rosas. Sem nenhuma interrupção. Só eu e meus sentimentos descontrolados. Só eu e ele.
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