Lost
15 Pego carona com a morte
Notas iniciais
Eu acordei tão feliz, suspirando. Até ignorei a enorme dor nas minhas costas por ter dormido parcialmente sentada. Eu só me lembrava de ter uma noite feliz, dos lábios de Wood — e isso me deixou meio sem graça, mesmo sabendo que ninguém leria meus pensamentos — e de hambúrgueres. Ele estava quase caindo no chão e eu ri. Minha barriga roncava. Passava de meio-dia. Procurei ver algo para comer mas o armário estava vazio. Então resolvi vasculhar, com uma pontinha de esperança, minha bolsa, para ver se havia dinheiro. Consegui achar algumas coisinhas e vesti um moletom e jeans pra sair. Eu sei que não deveria. Mas dane-se. Agora eu não estava me sentindo preocupada.
Eu me lembrava de ter algum lugar bem próximo dali que vendia comida. Mas eu não conseguia achar em lugar nenhum. Eu fiquei rodando por tanto tempo que perdi a conta. Queria ter um relógio. Eu acabei chegando no parque que fomos uns dias antes. Estava morrendo de fome e meio exausta por caminhar tanto. Com um pouco de frio. Eu fiquei ali sentada por mais muitos minutos que perdi a conta. Apenas respirando o ar frio que batia em meu rosto. O sol mudava de posição. Minha barriga roncava. Eu odeio não saber aonde estou. Será que conseguiria voltar para o apartamento?
Então achei uma padaria e comprei algo para levar. Fiquei rodando e rodando até me encontrar na porta do apartamento. Entrei no elevador — e ele era velho, o que me dava um pouco de medo. Cliquei no número 4. Começou a subir. Parou. E não saiu mais do lugar. E então minha respiração começou a ficar ofegante. As luzes haviam se apagado. Eu devia ter ido de escada. Droga. Eu odeio esse elevador. Odeio. Comecei a socá-lo e socá-lo mas não iria adiantar. Então escorreguei e me sentei. A cabeça nos joelhos de frustração. Por que tudo caminhava para o desastre hoje? Droga. Já deviam ter consertado isso. Fiquei com um aperto na garganta pensando se o ar acabaria naquele cubículo de metal. Tentei controlar a respiração para que ele acabasse menos rápido. Depois de três minutos ele voltou a funcionar e suspirei aliviada.
Entrei no apartamento animada e com uma gota de suor escorrendo por minha testa. Comecei a falar:
– Ei, Brian, comprei bolinhos... — Caminhei e os deixei na cozinha e continuei a falar: — Sei que está de tarde, mas podemos comer com chá, sei lá... Hm, Brian? — perguntei, vendo que ele ainda dormia. Ele estava deitado agora e com a roupa mais amassada ainda. Reparei em seu casaco jogado no chão e uma marca de batom em seu pescoço. Eu não fiz isso. Não mesmo... Era vermelho...
Ao tentar abrir a porta do banheiro notei que estava trancada. Logo então alguém saiu dela. Uma garota alta, magra e com os cabelos loiros claros bagunçados. Sua maquiagem borrada e a roupa — a pouca que usava — toda amassada. Ela me encarou, confusa.
– Você... quem é... — tentei perguntar, incrédula.
– Eu quem pergunto, ora — retrucou. — O que está fazendo aqui? Ah, meu Deus, Brian não pode... você... — Ela me olhou com nojo. — ARGH! — Ela correu para pegar no chão da sala um jeans e vestiu um casaco, ainda enojada. Eu é quem deveria estar.
Quem era ela? Ódio e tristeza se misturavam fazendo meus olhos arderem. Ele não tinha namorada! Não é?! Eu nunca a vi aqui. Afinal... Que droga é esta? Como é que ele ficou com essa garota em tão pouco tempo? Eu não fiquei três horas fora daqui e já me deparo com uma namoradinha nova? Mas que droga! Ela saiu batendo a porta mas Brian continuou a roncar naquele maldito sofá. Como ele pôde? O ódio falou mais alto e quando caí em mim estava tacando as coisas na minha bolsa. Tirei aquelas roupas que ele me emprestou e peguei as minhas. Não sei o que faria. Mas eu precisava sair daqui. Sair daqui antes que eu começasse a chorar.
Quando já estava de saída joguei no chão o iPod que ele havia me dado e aquela camiseta. Peguei um pedaço de papel e escrevi com letras maiúsculas "ADEUS" e coloquei na geladeira. Bati a porta mas a droga do garoto não acordou. Ótimo. Quando ele se desse conta do que havia acontecido estaria bem longe e não poderia me achar. Eu comecei a vagar pelas ruas de Londres totalmente sem rumo, guiada pelos meus sentimentos de raiva. Lágrimas teimavam em encher meus olhos. Eu andava tanto mas estava anestesiada pela raiva, novamente a raiva. E minhas pernas mal doíam. Quando me dei conta estava em um lugar com cara de cidade pequena. Acho que estava andando no meio de uma autoestrada. Ouvi uma buzina atrás de mim. Me virei e me deparei com um carro preto. O vidro foi abaixado. Uma mulher de óculos escuros e com ar de superioridade abriu a boca para falar, com um sorriso estranho no rosto. Tinha um pressentimento muito mal com relação a isso.
– Querida — ela começou e meu coração bateu forte. Eu já havia ouvido aquela voz. — Não sabe que não pode andar no meio da rua? — Ela deu um risinho. — Está com cara de fome. E tristeza.... Que há? Venha. Entre. Te ajudarei. Precisa colocar roupas mais quentes, está frio. — Eu continuei calada e inerte. Meu coração batia muito forte mas tentei não demonstrar o desespero. Eu precisava me descongelar e correr. "CORRA, EMMA, CORRA!" eu pensava, mas parece que as mensagens não chegavam às pernas. — Entre. Entre e venha que a titia Jane vai cuidar de você. E você deveria obedecer, sabe que não tem escolha. — Quando a minha visão voltou ao foco reparei no revólver que ela apontava. Eu estava prestes a desabar. — Vamos logo! Não gosto de esperar. — A falsa doçura em sua voz me assustava e me deixava com enjoo.
Com as pernas trêmulas eu entrei no banco de trás, ainda tentando controlar a respiração. Ainda tentando não surtar. E parecer forte. Ela deu um risinho insinuando vitória e começou a dirigir sem pressa.
– Demorou tanto pra que você pudesse ter uma tarde com a titia. Mas finalmente chegou. Era pra ser assim... Oh... Mas tia Jane estava com saudades. — Ela passava a mão que não estava no volante no revólver. Eu cerrei os dentes. — Você prepará chá, não é, Charles? — ela perguntou para um cara sentado no banco do passageiro. Aquele cara. — Enfim... E o namoradinho, Emma, como está? — Ela deu uma gargalhada sarcástica e voltou a prestar atenção na estrada.
Fale com o autor