Lost
3 Uma carta
Notas iniciais
Ele não disse nada, mas aposto como aquela lasanha fora comprada no mercado e feita no microondas há pelo menos dois dias. Não é que ela estivesse completamente ruim, mas acho que meu estômago não recebia comida sólida há tempos, e quando a lasanha chegou até ele não quis ficar.
– Com licença — resmunguei enquanto tapava a boca e procurava a porta do banheiro, lutando contra a ânsia de vômito.
– Está tudo bem?! — gritou lá da sala. Não dava pra responder. Depois que tudo se acalmou, respondi:
– Ér... Desculpe por isso, tá legal?
Pior do que vomitar é vomitar na casa do estranho que você conhece remotamente — desconhecido devido à uma amnésia — quando está ficando por lá. Depois que consegui arrumar tudinho bochechei com uma coisa de menta que achei no armário. Tentei parecer o melhor possível e voltei lentamente para a sala.
– Desculpa mesmo — repeti.
– Tá me pedindo desculpas por eu te fazer vomitar? — perguntou com uma risadinha tosca. — Sempre estranha, você...
– Então eu sou estranha? — Arqueei uma das sobrancelhas. — Pode me arrumar água? — Ele acenou com a cabeça e foi até a cozinha.
Me afastei um pouco e fiquei brincando com os dedos depois que bebi a água. Depois peguei o desenho e comecei a observá-lo. Havia uma data, pelo que parece eu devia ter uns 11 anos. Bom, me parecia um desenho ótimo para alguém dessa idade. Eu devia gostar bastante disso mesmo. Mas não entendi minha própria interpretação do desenho. Aquela mulher de cabelos vermelhos e sardas, os olhos dos mesmos tons que os meus... Ela poderia ser qualquer uma. Por que eu achava isto?
– É, você era meio estranha — intrometeu-se, tirando-me de meus questionamentos na mente. — Você nunca falava nada comigo, quase nunca. Mas você me olhava de um jeito que parecia que se tivesse um super poder de fuzilar alguém com os olhos, eu não teria sobrevivido uma década. — Eu dei uma risadinha. — Eu nunca entendi o porquê disso.
– Hm, sim. Até te explicaria, mas eu mesma não entendo. — Ele se remexeu no sofá. — Eu que estou estranha, é?
– Ah... Falando em estranha. — Ele se levantou e pegou no chão perto da porta a mochila que vinha trazendo quando voltou. — Eu fui até a casa da minha tia. Pedi à minha prima algumas roupas emprestadas, e foi meio difícil ela aceitar sem fazer qualquer interrogatório estranho ou constrangedor. Mas você não pode dormir com isso, então... Se não se importa.
– Tudo bem — concordei. Ele me jogou a mochila. — Se quiser tomar banho, sei lá... — Eu o olhei meio irritada, não sei explicar o porquê. Ele passava as mãos pelos cabelos negros. — Onde vou dormir, afinal? Pode ser aqui e... — Ele me interrompeu.
– Não, não. Eu durmo aqui. Acho que vai ser melhor, você deve preferir. Pode dormir no meu quarto. Vou arrumar a cama agora. — E saiu da minha vista.
Eu não conseguia decidir se isso era bom ou ruim. Bom pelo fato de que — ainda temendo que ele fosse um aproveitador — ele se levantasse de madrugada e me vendo dormindo ali no sofá tentasse qualquer coisa. Mas ruim porque eu estaria dormindo no quarto dele, na cama dele... A minha memória diz "Sim, você o conhece". Mas eu me pergunto "Quanto?". Eu o conhecer não é realmente segurança de nada e... Eu... Eu realmente não sei porque me preocupo tanto, mas então me lembro de diversos, muitos motivos mesmo. Tentei relaxar e ver o lado bom "Você se tranca no quarto e ele não poderá fazer nada".
Peguei o desenho que tinha deixado em cima do sofá e abri a bolsa para guardá-lo. Meus dedos tocaram uma folha espessa de papel. Eu pensava que era qualquer papel inútil, mas recibos ou notas fiscais não tem essa espessura, pelo menos não me recordo. Quem sabe fosse algum resultado de exame do hospital. Mas ninguém me dera nada, eles não poderiam ter aberto a minha bolsa sem permissão. Tirei-a dali e deixei a bolsa de lado.
– "Para Emma Audrey Harrison, sobrinha querida..." — li em voz baixa, e então tirei os olhos do papel. Sobrinha...? Como assim sobrinha? — BRIAN — chamei.
– Que foi? — disse correndo preocupado, um travesseiro sem fronha na mão. Eu o chamei e ele se sentou ao meu lado.
"Para Emma Audrey Harrison, sobrinha querida..." — li em voz alta para Brian, que estava meio tenso ao meu lado, sabe-se lá o motivo. Abri a folha que estava dobrada. — Pelo que diz eu tenho uma tia. Mas como assim uma tia? Se eu tivesse uma tia não teria ficado no orfanato...
– Bom, eu... — começou.
– "Eu prevejo uma expressão de surpresa em seu rosto. Agora mesmo. Oh, eu tenho uma tia. Quem é essa tia? Deve-se perguntar. Eu não tenho parentes, eu moro no orfanato! Bom, você tem querida, você realmente tem. Deixe-me explicar tudo, deve estar tão confusa.
"Vou ser bastante objetiva. Eu matei seus pais. Isso mesmo. Matei-os. — Quando li isso, não pude evitar, minha voz falhou. Tentei ser forte e continuar a leitura. — E você, eu me esqueci de você. Sobreviveu. O que é uma droga, você estragou tudo. Eu conseguiria a pequena fortuna de minha irmã e seu pai se não fosse por você. Eles pegaram você, levaram para aquele ridículo Lar Adotivo. E com seus pais mortos, a herança passou à você. Iria ter acesso à ela quando completasse dezoito anos.
"Se não fosse por isso, a herança seria minha, a única família dela. Seria toda minha. Mas você me atrapalhou muito, tenha consciência disso. Tive que esperar quinze anos para atacar novamente. Você sempre estava tão bem protegida naquele maldito orfanato, e quando saiam... E eu nunca te peguei sozinha. Nunca tive a oportunidade. Até que, quinze anos depois, meu assistente teve a ideia de forjar esse acidente. E era para você ter morrido. Mas você é realmente muito persistente, garota. Novamente escapou. Mas não escapará de novo. Não saberá quando, onde ou como. Mas anote isso: irei saber onde está. E você não terá escapatória pela terceira vez.
"Acho que essa explicaçãozinha está de bom tamanho, só para clarear sua mente. Você nunca soube, aquela diretora boba sempre lhe escondeu a verdade. Foi um erro, não foi? Depois de todos esses anos, não é mais só pelo dinheiro. Sabe, tudo é muito divertido. Será bem divertido. Caberá à você saber se jogará isto.
P.S. Eu te vi no hospital. Está tão bonita... Lembra sua mãe."
Eu realmente pensava que nada poderia piorar. Que eu realmente sabia o suficiente...? Estava enganada, completamente.
Fale com o autor