Lost
4 De repente alguém quer me matar
Notas iniciais
Naquele mesmo instante, minhas pernas bambas demais para se levantar, fiz um esforço e andei apressadamente para o quarto. Não me importei com aquela carta estúpida. Deixei-a no sofá. Eu precisava ficar sozinha e pensar. Todas as preocupações vindo à tona, eu não podia ficar perto de Brian para que ele me visse explodir.
– Onde vai? — perguntou.
– Para o quarto, onde mais? — respondi irritada, um tremor na voz. Ele se levantou e me deu o travesseiro.
– Boa noite — sussurrou. Era óbvio que eu estaria preocupada, e como. Mas eu não deixava transparecer tanto quanto ele. Ao chegar na porta do quarto, vi-o lendo de novo aquele pedaço de papel e passando a mão pelos cabelos várias vezes.
Entrei no quarto. A chave na fechadura. Girei-a, trancando-me. Tirei a calça jeans — mesmo que ela estivesse bastante folgada — e o casaco. Eu me sentiria estranha deitada na cama daquele cara, mas eu acho que havia preocupações maiores no momento. Apaguei a luz e cobri-me com a coberta de lã.
Eu realmente pensava que já tinha descoberto tudo que precisava? Achava que ser órfã era a coisa mais chocante que alguém poderia me dizer? Então alguma suposta tia que quer brincar de "vou-te-pegar-e-te-matar-sobrinha" comigo me deixa essa carta contando seus planos contra mim e que... matou meus pais?
Eu poderia estar me preocupando principalmente com isso, ou com o fato de ela querer me matar. Mas a palavra "tia" martelava em minha cabeça. Tia? Das memórias que gradativamente vinham à minha mente, com certeza saber da existência de uma tia nunca viria. Mais estranho que descobrir que você é órfã de uma hora para outra, mais estranho do que só saber que tem uma tia quando está perto de completar dezessete anos é saber que ela matou seus pais e quer te matar.
E durante horas meus pensamentos não cessavam. Porque aquilo era demais para minha cabeça. Mais do que eu podia aguentar. Ela fizera tudo aquilo por dinheiro? Não. Naquelas palavras eu vi uma ótima psicopata. Ela quer jogar... jogar comigo? Isso não me deixa exatamente aflita, me dá ânsia de vômito.
Durante um tempo ouvia as indagações de Brian para o vento na sala. Aquilo o afetara tanto quanto à mim. Eu ainda não compreendo o porquê de ele se importar tanto. Éramos no máximo colegas, conhecidos, que conviveram no mesmo ambiente — mas não em confraternização — por muito tempo. Eu queria chorar, queria chorar por tudo o que descobrira naquele dia. Mas as lágrimas não saíam. O desespero tendia a ficar dentro de mim, me corroer... Aquilo era muito pior. Foi o dia mais longo da minha vida, mesmo que eu não me lembre dos outros.
...
Eu acordei com uma brecha de claridade entrando pela cortina. Eu não queria me levantar. Eu queria ficar na cama para sempre, me afundar nela. Mas eu me levantei mesmo assim e me vesti. Destranquei a porta e fui para a sala. Wood não estava lá. Procurei um relógio...
– 01:26... — Já era quase uma e meia da tarde. Não me surpreendo de ter acordado à essa hora já que minha mente não deixou-me dormir ontem. Fui até a cozinha e encontrei um bilhete na geladeira.
"Boa tarde (provavelmente) Emma. Eu tive que ir para a faculdade, eu não podia faltar hoje mesmo... Tem torradas e café em cima da mesa. Você pode almoçar uns sanduíches naturais que tem na geladeira. Não saia daí. Por favor. Estarei de volta logo.
Brian."
Eu mordisquei uma torrada sem vontade e tomei o café frio. Eu tentei distrair-me ao máximo bisbilhotando as coisas pela casa ou procurando algo que prestasse na televisão. Mas eu precisava naquele momento que Brian estivesse ali. Precisava falar com ele sobre tudo isso, sobre o que fazer. Eu precisava falar com alguém antes que minha cabeça me fizesse saltar da janela.
Algumas horas depois ele chegou, para aliviar minha ansiedade.
– Precisamos conversar — dissemos em uníssono.
Depois que deixou as coisas ele se sentou apreensivo ao meu lado, com as mãos aparentemente suadas.
– Você tem alguma ideia do que é aquilo? — perguntei.
– Não — respondeu sério. — Quem sabe seja alguma brincadeira de mal gosto...
– Não mesmo. — Minha voz estava bastante convicta. — O acidente... forjado.
– Mas por que essa sua tal tia faria isso com você?
– Prestou alguma atenção naquela carta? — perguntei rispidamente, o que fez ele ficar muito chateado, notei em seus olhos. — Dinheiro, rancor de alguma coisa, um ódio meio inexplicável... Ela... Matou meus pais — disse com a voz embargada.
– O que pretende fazer? — Ele estava quebrando alguns lápis que ficavam em um pote em cima da mesa de centro. Eu peguei a mão dele fazendo-o largar os lápis, a fim de acalma-lo.
– Eu não sei — sussurrei, o olhar perdido. — O que eu posso fazer?!
Eu tinha ponderado voltar para esse tal orfanato antes de ler aquela coisa. Afinal, eu não poderia ficar ali para sempre. Talvez voltasse já hoje. Era a única escolha, pelo visto. Mas com alguém querendo me matar? Provavelmente forjaria qualquer coisa para me pegar. Eu poderia pisar fora daquele lugar e ser pega, e então me mataria... Eu senti determinação nas palavras dela. Mas o que faria então? São questões demais... demais...
– Você tem que ficar. — Agora estava menos cabisbaixo, mais determinado. — Você vai ficar. Ela está por aí te espionando e compondo planos para te matar. Temo que seja mais fácil se voltar para o orfanato.
– E por que eu estaria mais segura aqui?
– Confie em mim — sussurrou.
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