Lost
5 Eu fico
Notas iniciais
Não seria para sempre, mas no momento, eu não poderia partir. Poderiam estar me esperando na porta, uma arma apontada para o meu coração, e adeus vida. E eu não queria isso. Eu mal a vivi. Principalmente agora que me lembro tão vagamente daquilo que já passei.
Eu ficaria ali com ele, ele me lembraria de algumas coisas. E passado alguns dias apenas, eu já estava me sentindo sufocada e extremamente frustrada. Eu não fazia nada de realmente relevante. Então uma ideia que devia ter passado na minha cabeça na hora mas incrivelmente não passou surge em minha mente. Me levanto subitamente e Brian faz cara de confusão.
– A polícia — murmurei.
– Polícia? — questionou.
– É claro... A polícia. Se alguém quer te matar você chama a polícia, ignorante! — Abri a porta do apartamento e me postei para sair. — Como não pensei nisso? — Ele agarrou meu braço, me impedindo de continuar.
– Você nem sabe onde fica a polícia! — E depois que ele disse isso eu parei de tentar me soltar. Era verdade... eu não sabia. Então, olhando para a cara dele, aquele momento estranho aonde ele está agarrado ao meu braço, vi o queixo dele cair. Seus olhos focavam algo atrás de mim. — ENTRA AGORA.
– O que foi?! — Eu tentei olhar para trás pra ver o que o tinha assustado, mas ele me puxou e bateu a porta.
– Olha — disse bruscamente me entregando um simples post-it verde. Havia nele as seguintes palavras rabiscadas:
"Você não seria burra o suficiente para chamar a polícia, não, sobrinha? Já prenderam há muito tempo assaltantes que supostamente mataram seus pais. E ninguém acreditaria se você fosse até lá com essa tola prova de que sou uma assassina e estou atrás de você. Pense bem.
P.S. Você acaso sabe quem sou?"
– Ah... Deus — Quando caí em mim eu já devia estar há alguns minutos parada amassando aquele bilhete. Wood me cutucava sem parar tentando acordar-me do transe. — Ela sabe onde estou. Brian, ela sabe onde estou. Eu... Eu realmente não... Por que essa ideia ridícula foi passar pela minha cabeça? É óbvio que ninguém acreditaria em mim se eu chegasse com aquela porcaria à polícia. Até eu não acreditava muito, até agora. Droga, Emma, droga.
– Se acalma — ele tentou, de modo falho, me acalmar. Eu caminhei até o sofá para me sentar.
– Brian — falei depois de alguns minutos. — Ela deve saber de você. Ela pode querer te matar também. Você não pode se envolver com isso. Eu tenho que aceitar os fatos... Se for pra morrer assim, vai acontecer. Eu tenho que deixar o destino agir.
– Não, eu aposto que o destino não seria cruel o suficiente pra que você morra nas mãos dela — consolou-me, colocando uma mão no meu ombro.
– NÃO — berrei. Com um pulo me levantei do sofá e fui atrás da bolsa. Coloquei-a no ombro e já ia correr em direção à porta para sair daquele lugar quando Brian se postou na minha frente, impedindo que eu abrisse a porta. — Quer fazer o favor de sair da frente?! Droga, garoto!
– Não. — A voz dele soava muito calma e vi um brilho nostálgico em seus olhos frios. — Como... antigamente. — Ele sorriu fraquinho. — Você não vai se entregar de braços abertos pra morte, Em. Se ela for te matar, você vai tentar se esquivar. E ela terá mais um obstáculo: eu.
Vencida por ele, que provavelmente eu não conseguiria tirar nunca da frente da porta, fiquei ali, imóvel e sem ação por muito tempo. Apenas encarando seus olhos tristes. Suspirei e voltei lentamente para o quarto, uma única lágrima escorrendo por minha face. Eu sentia, mesmo sem ver, que havia um sorriso ainda fraco em seu rosto, feliz por ter-me vencido, triste pelas circunstâncias.
...
– E então você correu atrás do Luke, nisso você tinha oito anos e ele ia fazer 11... Deu-lhe um soco na bochecha, tomou de volta sua revistinha e seu ursinho remendado e vitoriosa sorriu, dizendo "SÃO TODOS UNS BABACAS. EU NÃO MEREÇO...". Saiu andando com seu ar petulante de superioridade. Todos começaram a te insultar e te chamar de doida enquanto o Luke tentava conter o choro, mas eu ria, porque era divertido ver como uma menininha tão diminuta conseguia ser tão durona. — Ele estava me contando sobre tudo que lembrava da infância. Eu comecei a rir, com lágrimas nos olhos. Era tão bom me esquecer do que acontecia por alguns momentos. Era até estranho ter lembranças da sua infância contadas por outro, mas era divertido. Deixava-o falar e falar e eu apenas ria, dizendo "E o que mais?".
Passei dias assim, feliz, me lembrando de coisas, me esquecendo de outras. Mas quando estava só o frio me isolava no quarto, cheia de pensamentos e indagações que eu não sabia como achar as respostas.
Quando eu tentava me distrair a única coisa que me vinha à cabeça era Brian, e pensar nele me era muito estranho mesmo. Quer dizer, no momento ele era a única coisa na minha vida. A situação dele era tão indefinida. Ele era um amigo? Já podia chama-lo assim? Meu coração me diz que esse é um título que deve ser usado raramente para pessoas que realmente valham a pena. Mas ele era o único a quem tinha, e penso que sem ele eu estaria desolada, eu... Eu estaria até morta, pra variar. Seja por um tiro ou porque eu não soube pra onde ir e acabei morrendo de fome ou frio.
Ele era com certeza um amigo. Ele se preocupava tanto. E quando ele contava aquelas histórias eu sentia uma pontinha de paixão platônica de infância naquilo tudo, o que me deixava meio constrangida. Mas é óbvio que ele já superou tudo isso. Ele foi embora daquele lugar faz uns dois ou três anos, nem deveria pensar em mim. Se ele tem namorada? Quem sabe. Ele nunca me falou de uma e ninguém nunca veio aqui. Mas ele era um tanto atraente e acho difícil que não. Isso é meio repugnante. Apesar de estar me distraindo, quis afastar isso da cabeça. Ele é um amigo. Um amigo bom para situações desesperadas. E essa é uma. E eu não devo pensar nessas tolices agora, por mais que isso fosse me deixar mais calma (ou não, e eu tendo a dizer que não me deixaria).
Com um sorriso no rosto olhei o desenho que eu tinha colado na parede do lado da cama. Aqueles olhos pintados com aquarela de um azul celeste brilhavam como olhos reais. E seu brilho dizia "Fique calma, tudo ficará bem. Não se preocupe." Confie... Com esses pensamentos aconcheguei-me na cama e dormi, o tempo cada vez mais frio. Eu não teria pesadelos.
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