Lost
2 Um estranho, algumas memórias
Notas iniciais
Eu resolvi seguir o caminho até a casa do tal Brian em silêncio. Diferente de antes, ele não forçou uma conversa. Morava em um apartamento pequeno e agradável, mas um tanto bagunçado. Me sentei no sofá enquanto ele trocava de roupa. Aquilo me deixava o mais desconfortável possível, mais que quando, do nada, acordei naquele hospital. É claro, eu tinha aceitado a 'estada' na casa de um estranho. Quem é que faz isso?
Enquanto eu me preocupava com as possibilidades de ele ser um psicopata ou um aproveitador que por intuição me chamou de Emma, lembrava também do jeito que ele me olhou, do jeito que se preocupou. Só sendo um ótimo ator e dissimuladíssimo para mentir tão bem. Ele é bom, ele é bom – tentava me convencer. Acho que era o medo. Mesmo que não me lembrasse, eu devia o conhecer. O que ele foi na minha vida, eu não faço ideia. Isso começou a me incomodar.
– Olá — disse, me despertando das preocupações. Estava vestido de moletom e meio despreocupado. — Está se sentindo bem?
Por um tempo pensei. "Mentir ou não mentir? Eis a questão." Eu não estava realmente com vontade de mentir sobre isso, e acho que ele saberia se eu mentisse.
– Não — disse com a voz rouca.
– Quer falar sobre isso? — Simplesmente repeti a resposta. — Então vou resolver algumas coisas... Fique aí. Ligue a TV. À vontade.
– Tanto faz — rosnei.
Ele saiu do apartamento e eu tentei cochilar um pouco, sem muito sucesso. Liguei a TV, passando e passando de canais à todo o instante. Resolvi ver se tinha mais alguma coisa de interesse na minha bolsa. Achei um celular meio antigo conectado à fones de ouvido. Uma pulseira com pingentes que pareciam pérolas e olhei de relance para um papel. Devia ser qualquer porcaria, lixo quem sabe.
Em cima da mesinha da televisão havia alguns porta-retratos. Peguei um com um número meio grande de crianças. Vi um sorridente de cabelos pretos totalmente bagunçados e olhos acinzentados. Acho que era Brian. Num cantinho a minha atenção foi chamada. Havia uma garotinha miúda de cabelos loiros com alguns cachos nas pontas, um sorriso sem graça de lado e olhos claros. Passou pela minha cabeça que fosse eu...
Que é isso? — murmurei ao ver um jornal. Uma matéria sobre um acidente de carro estava com um pequeno destaque no canto da primeira página. Ia começar a ler quando ouvi a porta se abrir. Me assustei ligeiramente.
– O quê? — falou Brian, deixando cair uma mochila e tomando o jornal de minhas mãos. — Não...
– Me devolve isso aqui! — exclamei.
– Ahm... Não... Eu te explico... Te explico o que está aí.
– Mas que droga! Está escondendo o quê?
– Senta — mandou. Encarei-o com os olhos semicerrados cheios de raiva. Sentei-me.
Então ele começou a me contar uma história estranha sobre um orfanato, uma garotinha que gostava de colorir e era quieta até demais, um acidente, o coma, e agora...
– Quer dizer que... Sou órfã? — perguntei meio confusa, a cabeça doendo. Ele fez que sim com a cabeça.
– Nós somos. Quer dizer, eu era. Agora uma tia cuida de mim, mas resolvi morar sozinho aqui por causa da faculdade. Ela nunca soube da minha existência até eu ter quase dezoito anos, o que é chato, eu poderia ter tido uma família... Mas acho que deveria ter passado todo esse tempo lá mesmo. — Deu um sorriso tímido.
– Do que é que está falando? — Minha mente não conseguia processar. Ele se levantou e pegou o porta-retrato que tinha visto um tempinho antes.
– É você, e esse, eu. — Apontou para os rostos que tinha reparado. É. Então... Éramos do mesmo orfanato? Foi um baque meio grande, uma hora não saber nada sobre minha história, e agora alguém chegar dizendo que eu era... hm... órfã.
Ele abriu o porta retrato e junto com a foto saiu um papel dobrado. Ele o abriu. Um desenho de uma mulher sorrindo amavelmente. Minha intuição dizia que era uma mãe. Não sei exatamente qual mas... Era. Ele me estendeu a mão para entregar o desenho.
– Foi você quem fez. Ele era especial, não sei como não deu falta. Eu meio que... — Riu sem graça. — Surrupiei de você quando eu tinha 14 anos.
– Ah, claro. — Eu estava sem saber o que responder. Aquilo tudo era meio chocante, meio estranho. Foram apenas algumas explicações, mas isso mudava tudo. Me lembrei subitamente de algo. — Por que não queria me contar de onde me conhecia?
– É... — Minha barriga roncou nesse instante. — Está com fome, não? — Se levantou. — Vou esquentar uma lasanha.
Fiquei sentada tentando, agora que já sabia o básico, me lembrar de mais alguma coisa. Essa sensação da perda de memória era horrível. Mas quando eu vi comida de verdade pela primeira vez em muito tempo eu só me concentrei nela. Brian comia no outro extremo do sofá assistindo à um filme.
Mas havia muito, muito mais que eu não sabia.
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