Lost
18 Sangrando
Notas iniciais
Um baque me acordou das ilusões.
– Ah, só vim conversar – anunciou. Droga. Estava começando a ter esperanças. Malditas as esperanças ilusórias. Estava com uma caixa e um sanduíche na mão, comendo refinadamente. – Está sangrando? Você queria adiantar o trabalho? – Seu tom era cínico, mas não quando disse isso: — Estraga prazeres... – Eu fiz um movimento e consegui tirar o pano da minha boca, que caiu em meu pescoço. Ia quebrar minha regra.
– Por... que... – estava falando meio ofegantemente, cansada. Cerrei os dentes e a mirei com ódio novamente. – Não. Me. Deixa. Em. Paz?!
– Pare de ser mal educada, não grite com sua tia! Eu te deixarei, querida. Nunca ouviu a expressão “Descanse em paz”? Estou sendo até boazinha. Poderia fazer esse jogo pra sempre. Mas eu vou te dar paz, relaxe, apressada.
– Que droga é esta? – perguntei apontando com a cabeça para a caixa.
– Umas fotos minhas com sua mãe. E muitas delas, claro. Egocêntrica. Sempre o centro das atenções. Tome. – Ela jogou para perto de mim. Só consegui ver, com as mãos atadas, uma foto em cima. Uma garota de uns quinze anos sorridente com um namorado bonitinho. Ela tentava colocar o braço no ombro da irmã que aparentava ter vinte. Esta tinha olhos negros preenchidos com raiva. Nenhum sorriso. Transparecia ódio. – Já pensou em tatuagens?
– Do que está falando?! – perguntei, sem compreender.
Ela pegou a pequena adaga que tinha tomado de mim e começou a desenhar em minha mão com ela. Estava entorpecida com tudo, mas agora aquilo doía. E ao final pude ver escrito “EMMA AMA BRIAN EM SEU TÚMULO”.
– Ele acharia um amor, se pudesse ver, creio eu. – Sangue escorria das costas de minha mão. Vamos logo, pensei. Acabe com isso. – Não. Tudo a seu tempo. – Ela sorriu.
Respirei fundo e senti o sangue escorrer por meu braço. Fechei os olhos e desejei sangrar até morrer.
*NARRAÇÃO: BRIAN*
Peguei o carro da minha tia sem dar explicações decentes. Ela emprestou a contragosto e sem entender porcaria nenhuma. Me disse pra dirigir devagar que estava sem seguro. Mas eu não iria dirigir devagar, não tia. Uma maneira de achar ela. Queria uma maneira. Eu perguntei a um funcionário do prédio se sabia me dizer se a viu. Ele disse que sim. Que ela estava chorando e começou a andar e andar. Andar e andar... Provavelmente seguiu linha reta. Eu comecei a seguir em linha reta por muito tempo. Já estava em uma autoestrada. Ela não poderia ter andado até aqui, será?
Freei bruscamente quando um carro quase colidiu comigo. O que ela estaria fazendo aqui? Por que a tia dela estaria por aqui? Eu tenho certeza que ela está com Emma, isso me deixa irado só de pensar. Por favor, não a mate ainda. Não a mate antes que eu possa tentar impedir. Encostei o carro e sai. Comecei a esmurrar o ar. Ali naquele ponto da estrada havia uns fiapos rosa e alguns fios de cabelo. Putz, ninguém passa por aqui. Senão isso já deveria estar enroscado em pneus. Fios de cabelo cor-de-caramelo. Fiapos rosa. Meio do nada.
Entrei no carro e peguei o celular. Qual era mesmo o nome da mulher? Jane Hill. Será que por meio desse nome conseguiria achar alguma informação sobre os pais de Emma? Fui pesquisando e pesquisando até encontrar uma foto em que tinha a mulher do desenho de Emma e das fotos junto com uma outra carrancuda de cabelos vermelhos e maltratados e olhos quase negros. Ela estava com um vestido preto e nenhum sorriso para a fotografia. A descrição dizia “Jane Hill na festa de sua irmã, pianista bastante reconhecida, Sharon Harrison”. Harrison! Sharon Harrison!
Voltei a pagina inicial do Google e digitei “Sharon Harrison”. Havia várias coisas sobre ela, principalmente a carreira de pianista. E sobre sua morte – cometida por assaltantes, dizia o site. Procurei por seu endereço. Era por ali. ERA POR ALI!
...
Uma casa com enormes portões e um terreno mais enorme ainda. Bem afastado. Perfeito para assassinar alguém sem incômodo. Ela tinha que estar aqui. Tinha que estar.
Era a minha única esperança.
Regressei e deixei o carro da minha tia há uma distância segura em um acostamento. Cheguei até o portão. Havia um carro ali. Uma luz ligada. Não acho que era pra ter alguém ali. O portão estava trancado. Tentei dar um jeito mas nada. E escalar não era uma opção considerando que ele tinha uns 3m de altura. Comecei a tacar uma pedra enorme no cadeado e depois de uns cinco minutos tentando continuamente algo eu consegui que o portão se abrisse.
Como acha-la sem encontrar Jane primeiro? Eu precisava de algo pra tacar na cabeça dela no caso de necessidade. Voltei e peguei a pedra e tentei. Poderia ser o fim de nós dois, eu tinha uma pedra. Mas que fosse dos dois, não só dela.
*ENCERRADO*
– Tá, tá – ela cuspiu as palavras com aspereza em mim. – Eu odeio ter de fazer a sua vontade, mas está se tornando entediante. Eu perguntei no fórum o que seria bem divertido mesmo, mas devem estar matando mais alguém, porque não houveram respostas. Eu não sei mais o que fazer pra incrementar isso aqui. Que seja.
Então ela pegou a arma e a apontou para mim. Ela acabaria com o meu tormento de vez. Que não doa, por favor. Que seja rápido. Que Brian também sofra de amnésia, que ele nunca mais se lembre de mim. Meus olhos estavam fechados, apertados. Resolvi abri-los para que ela soubesse que em momento algum tive medo. Um outro baque. Um pedaço de pedra enorme caiu no chão. Ela soltou o gatilho e a bala perfurou a parede a poucos centímetros de minha orelha. E aquilo me deixou totalmente tonta. Permiti-me deixar a cabeça cair no chão e fiquei piscando, olhando as manchinhas de sangue fresco na madeira velha e carcomida.
– EMMA! – eu ouvi uma voz tão familiar berrar.
Com os olhos entreabertos pude ver Brian encostado à parede. Ela o mirava. Ele não é seu alvo! NÃO É SEU ALVO! Vire esta droga desta arma! – Mas eu estava fraca demais para gritar. Ah, a fraqueza. Mais um tiro. Meu braço estava sangrando mais ainda agora. Mas não me importei. Arrastei-me para tentar pegar a adaga. Sem que ela visse, eu a cravei em seu pé, perfurando a meia-calça. Ela urrou de dor. Foi bem profundo. Brian caiu perto de mim e começou a tentar fazer cessar o sangue desesperadamente. Eu sorri porque eu o via. E queria que ele fosse a última coisa que eu visse.
– Emma... Emma... – ele repetia com a voz embargada.
Eu amo quando ele fala meu nome. É uma das minhas coisas favoritas no mundo.
Jane retirou a adaga do pé e jogou no chão. Outrora prata, agora ela era vermelha. Ela começou a recuar, a arma ainda mirando-nos. Um sorriso insano em seus lábios. O mais insano de todos.
– NÃO MESMO, SHARON! NÃO MESMO! – Estava delirando. Chamava-me de Sharon. – VOCÊ NÃO VAI SE SAFAR DESSA VEZ. O MUNDO NÃO GIRA A SEU REDOR. AGORA EU CONSEGUIREI O QUE QUERO.
Ela apertou o gatilho, mas uma pedra a atrapalhou novamente. Ela caiu no chão e bateu com força a cabeça no pedaço de concreto. Brian me abraçou tentando proteger-me com o corpo, mas o tiro acertou a parede novamente. Sangue escorria da testa dela. Sangue escorria do meu braço, mão, um pouquinho na testa. Ele estava me abraçando com muita força, mas eu não ligava que aquilo causasse uma dor imensamente horrível em meu braço. Nós não conseguíamos falar. E não tinha nada a ser dito, afinal.
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