Lost
19 Apenas dormir
Notas iniciais
– Ela... Ela está morta? – eu perguntei depois de uns prováveis quinze minutos. E meu braço continuava a sangrar.
– Não... Não, Emma. Eu chequei o pulso. Está desacordada. Eu vou prendê-la, caso acorde. – Ele se levantou e com as cordas que antes me prendiam, agora ele a amarrava. Deixou-a recostada na parede. Ele tinha ódio dela, sim, mas ele não era cruel. E fez apenas isso. – Emma – ele sussurrou perto do meu ouvido, sua voz repleta de dor. Encostou sua cabeça em meu ombro. – Meu Deus. Por que, Emma?!
– Não... Brian... Shhhh... – pedi.
– Preciso ligar para a polícia. Você está sangrando demais. É perigoso desmaiar. – É perigoso que todo o sangue se esvaia do meu corpo, Wood. Ri com o pensamento e ele me olhou confuso. – Devíamos sair desse porão.
– Devíamos. Mas acho... Acho melhor não... – respondi, pensando nas inúmeras fotos que haviam na sala e me fariam desabar.
As lágrimas foram bloqueadas por todo esse tempo. Mas eu precisava de uma forma de deixar que meu alívio e desespero vazassem de dentro de mim. Era perigoso... Sabe o que era perigoso? Que eu explodisse. Ele pegou minha mão e olhou para ela abismado, depois para mim, esperando uma resposta. Passou seus dedos pelas palavras e isso doía.
– O quê... – começou.
– Não é óbvio? – disse, apontando com a cabeça para a Jane inconsciente. – Eu estou ficando meio tonta, Brian, sério...
Fraqueza. Toda a fraqueza que eu odiava. Ela tomava conta de mim e era inevitável. Suspirei e recostei-me em seu ombro como no dia anterior. E pensar que tudo isso tinha acontecido em um intervalo tão pequeno de tempo. Brian ligava para a polícia. Algumas lágrimas rolaram por minhas bochechas e molharam seu casaco. Daqui a pouco eu acabarei dormindo, eu sei. Eu preciso de você antes de dormir. Porque às vezes a gente não sabe quando vai acordar.
Minha barriga roncava agora. Acho que ele ouviu. Mas havia muito tempo que eu não comia. Que horas eram? Cutuquei-o e ele se virou pra mim e consegui ver o horário no celular.
– Brian – eu disse.
– Emma... – Ele suspirou e me abraçou e senti que ia começar a falar um monte de coisas sobre como morreu de preocupação, como estava tenso e tudo mais. Sei que é verdade, mas não quero ouvir isso.
– Não, não – neguei. – Vamos falar de coisas legais, tudo bem?
– Que coisas legais? – ele perguntou.
– Diga de novo porque gosta de mim. Eu preciso rir. Ainda não me conformo, sério mesmo.
– Essas baboseiras do coração não é o cérebro quem controla – ele respondeu sorrindo. – E eu...
– Nnnão – murmurei. – Eu te amo. E eu vou fazer esse discurso ridículo antes de eu desmaiar de fome. Eu te amo e é tão estranho dizer isso, mas não passa da verdade. E eu, Emma Audrey Harrison, não sei lidar com os sentimentos. Eu sou a pessoa mais problemática e contraditória que você nunca mais irá conhecer. E eu não tenho certeza de quase nada nesse mundo, sério, menos disso. E como eu não poderia amar alguém que faz uma maluquice dessas?! – Dei um tapinha em seu braço e me ajoelhei.
E beijei-o com toda a voracidade que pude. Toda a voracidade que uma garota que perdeu 15 ou 20% do sangue do corpo consegue. Sua mão em minha cintura, a minha em sua nuca. Foi bastante longo, foi bastante entorpecente. Minha fantasia se tornou meio que real. Eu estava flutuando novamente. Agora meio cansada, em separei-me com um sorriso no rosto. Nossos rostos ainda estavam bastante próximos e ouvia sua respiração. Eu fiquei assim por mais cinco minutos e me sentei.
– Eu acho que devo ter alguma coisa comestível no meu bolso – ele comentou, vasculhando o bolso do jeans. Tirou de lá uma barrinha de chocolate com caramelo e me entregou. – Come. Eu não aguento mais ouvir sua barriga roncar, parece um leão – ele disse rindo. Eu o beijei rapidamente mais uma vez e comi.
– Quando acha que ela acordará? – perguntei.
– Provavelmente bem rápido... Deve ter batido feio a cabeça, mas já, já ela acorda. E você também enfiou aquele treco no pé dela, né. – Ele olhou pra mim. – Esperta.
– Esperta nada – rebati. – Fui uma fraca. E só esperava a morte, Brian. Só aguardava sentada. Claro, não havia nada que eu pudesse fazer, mas se houvesse eu também não tentaria. Quase me conformei. E fiquei igual uma franguinha no chão com meus machucados sangrando e reprimindo o choro e o medo. E pensando em você. Eu odeio tanto isso.
– O quê? Pensar em mim? – ele perguntou meio triste. Meneei a cabeça para dizer que não.
– Não ter feito nada – respondi baixinho. – Precisar de... Tá, independentemente eu preciso de você. Mas ser essa dama indefesa. Eu não sou isso. – Fiz uma careta.
– Ah, cala a boca, todos ficariam como você. Uma chave de braço de uma magricela não supera um tiro, tá legal? – Ele passou seus dedos pela minha bochecha tirando um minúsculo caquinho que ali havia e limpando o sangue. E sorriu. – Por que você foi embora? Por que adiantou tudo isso?
– Porque sou idiota, Brian. Ainda não reparou? – Ele revirou os olhos. – Eu sou a maior idiota do mundo todo e quando vi aquela cena eu não aguentei.
– Então você realmente gosta de mim – ele comentou, mas não esperou que eu prestasse atenção.
– Você duvidava? – Eu desviei o olhar. É claro que sim. Eu dava tantos motivos para dúvidas surgirem.
– Não mais – respondeu acariciando minha mão.
– Hm... Conhece alguma piada? – perguntei, querendo mudar de assunto. A polícia demorava tanto.
– Eu sou naturalmente engraçado, cof cof. – Ele começou a rir. – Mentira mais fajuta essa. Não conheço não. Eu faço faculdade, não fico pesquisando Blogs de Piadas Toscas.
– Ui – desdenhei rindo.
– Hmm... Pensando aqui. Qual o nome do elefante que não tem nenhuma significância no mundo?
– Quê? Que bobeira, sei lá – respondi dando uma risadinha boba só de olhar pra cara dele.
– Irrelefante! Ahá! Eu te disse, sou naaaaturalmente engraçado! – Eu tentei me manter séria pra transmitir o quão idiota foi a piada, mas eu que tinha pedido, afinal. Eu comecei a dar uma risada falsa e ele olhou-me com os olhos cinzentos arregalados.
Eu pus a mão debaixo do nariz, e ele sangrava. Vi que Jane se remexia, estava acordando. A minha fraqueza havia aumentado. Eu não conseguia mais me manter acordada. Ele me deitou em seu colo porque o chão ainda estava cheio daqueles cacos. Eu fui fechando os olhos que pesavam pra caramba. Fiz um gesto com o dedo pedindo que ele se aproximasse. O beijei calmamente, era tudo o que meu organismo permitia. Espero que ele não sinta gosto de sangue nesse beijo. Minha visão já estava embaçada.
– Fala alguma... alguma coisa... legal... – eu pedi. Eu só iria dormir. E ele só iria me desejar boa noite.
– Em... Seu nome é a coisa mais legal desse mundo. E o que eu sinto por você não é só um sentimento irrelefante. – Ele deu uma risadinha sem graça que se desmanchou quando eu fechei totalmente os olhos. Muito, muito longe eu ouvia som de sirenes. – Apenas durma – suplicou.
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