Lost
1 Prólogo
Notas iniciais
Lá estava a pequena Emma. Seu cabelo loiro escuro meio curtinho, sua cara manchada de tinta a guache. Ela se envolvia muito quando pintava aquelas revistas de colorir infantis. Era meio reclusa, não brincava muito com as outras crianças. Era de seu próprio gênio. Mas tinha uma amiga, que logo depois foi adotada, deixando-a sozinha.
De vez em quando alguém ia incomoda-la ou tentar puxar assunto, mas logo se distanciava. Brian sempre tentava provoca-la, escondendo a verdadeira vontade de ser amigo dela. Era dois anos mais velho. Ela apenas tirava os olhos da revista, olhava apaticamente para ele e voltava a pintar com giz de cera. Ela nunca deu bola para ele, sempre discutiam.
E quanto mais Emma envelhecia, mais diminuíam suas chances de ser adotada. Ela realmente não tinha muita esperança. O plano era sair dali e tentar construir uma vida. Provavelmente não faria faculdade, senão como iria trabalhar para se manter? Iria arranjar um emprego qualquer, talvez quando conseguisse deixar a poupança relativamente cheia pensasse nisso. Hoje ela conversou com a diretora do Lar, pedindo para procurar um emprego. Já tinha dezesseis, quem sabe arranjasse algo em uma lojinha ou sei lá. Ela precisava pensar no futuro. Ela não poderia morar no Lar Adotivo para sempre.
Estava mais feliz do que de costume. Esperançosa, quem sabe. Finalmente ia sair dali. Talvez conseguisse se dar bem na vida. O tempo estava frio, era 24 de outubro, já era outono. Uma das estações preferidas dela. Distraída, pisou na faixa para atravessar a rua sem olhar para o semáforo.
BUM!
Todo o cenário mudara. Uma garota estirada no chão, sangue em seu casaco, em sua perna, braço... Uma aglomeração de gente, uma ambulância vindo rápido, policiais... Um motorista que havia fugido. Por um momento ela se sentia fora de si, meio confusa, não sentia absolutamente nada. Então a dor começou a corroer seus ossos, perfurar sua cabeça, a pior dor que sentia, ela não resistiu a ficar consciente.
– Parece que a Srta. Harrison está acordando, doutor – ouviu alguém dizer. A voz ecoava ao longe, tão distante. – Devemos fazer uma bateria de exames nela, correto? Para ver se poderá receber alta...
– Ela é menor de idade. Os pais dela virão busca-la? – perguntou um homem de voz grave. Então ouviu-se sussurros, mas ela não conseguiu entender. Via um borrão branco diante de seus olhos, e quando não via mais tudo embaçado, percebeu que estava em um quarto de hospital. Seu corpo doía agora, lentamente.
– Parece que alguém veio aqui e disse que ela pode se... virar sozinha. Parente. Devemos liberá-la?
– Receio que liberar alguém no estado dela seja inconcebível, mas se ela decidir assim... Ligaremos para o tal parente.
– Srta. Harrison? – disse a enfermeira aos pés da cama de Emma quando ela abriu totalmente os olhos. – Precisamos fazer alguns exames para ver se você pode ser liberada.
Exames... Liberada... Estado dela... De que todos estavam falando? Não compreendia. Foi levada para fazer uma bateria de exames. Mas não prestava atenção em nada. Procurava suas memórias, saber o que lhe acontecera, porque estava ali, o que fizera antes de ir parar no hospital. Mas nada vinha à sua mente, como se alguém tivesse feito backup em sua memória. Só veio a sua cabeça o flash de um carro em alta-velocidade.
A enfermeira, o doutor e uma psicóloga pelo que parece lhe explicavam o que havia acontecido, mas não guardara absolutamente nada a não ser poucas palavras. Coma; 24 de outubro (ela havia ido parar ali); acidente; amnésia; lesão na cabeça. Perguntaram se ela queria ir, e confusa, fez que sim com a cabeça, mesmo não tendo a menor ideia de para onde ir.
Vagando sem rumo por aquelas ruas, sentou-se em um banco. Havia vestido umas peças de roupa que lhe deram. A roupa do corpo no dia do tal acidente. Uns tênis velho, jeans, uma camiseta bege e um cardigã comprido e velho num tom rosa-antigo desbotado. Ela percebeu uma mancha de sangue no cotovelo que tentara ser tirada a todo custo e alguns pequenos rasgos.
Sua barriga roncou alto. Devia ter sido subalimentada nesse período em que esteve em coma. Correu os olhos pela rua, localizando um pequeno café. Abriu a bolsa para ver se tinha algum trocado. A primeira coisa que tirou dela foi uma carteira de identidade. A foto era dela. Uma garota de pele clara e algumas poucas sardas no rosto, cabelos loiro-escuro compridos e os olhos claros. “Emma Audrey Harrison”, leu. Então este era seu nome. E estranhou o pensamento completamente maluco de não saber o próprio nome. Nascida em Londres, 13 de dezembro de 1997. Encontrou dentro da carteira uns poucos trocados e entrou no café.
– Um cappuccino, por favor – pediu à atendente. A moça informou-lhe o preço e ela pagou. Sentou-se em uma mesa afastada e ficou esperando a bebida não ser capaz de lhe queimar a garganta.
Olhou para o lado. Um garoto a observava, mas desviou o olhar vendo que ela tinha notado. Tomou um gole do cappuccino, que desceu lentamente por sua garganta. Notou que uma lágrima escorrera por seu rosto. Ela não tinha parado para pensar. Estava tentando puxar lembranças do passado de sua mente, coisa no qual falhara. O que iria fazer depois que saísse dali?! Ela... ela tinha pais? Achava que não, pelos cochichos que ouvira, por toda aquela tensão. Então onde morava? Por que ninguém foi busca-la? Ela estava sozinha. Perdida. Ela mal sabia se encaminhar nas ruas de Londres. E não se lembrava da própria história.
Sem reparar, ela estava aos soluços, enquanto tudo lhe passava pela cabeça. Viu, entre as lágrimas, a atendente encará-la com as sobrancelhas arqueadas. Limpou as lágrimas dos olhos e olhou para o lado. Ele ainda a observava. Agora se levantou, estava se aproximando de sua mesa. E ela ficou olhando para ele, com um pouco de receio.
– Emma? – perguntou, surpreso. – Emma, o que houve?
Como ele sabia quem ela era? Ela o conhecia, mas não sabia? O que ele queria? Ele sentou-se na mesa sem convite.
– Eu soube do que aconteceu... Hm... Você não se lembra de mim, lembra? – perguntou.
– Ér, ahm, parece que estou com amnésia – respondeu confusa, limpando o rosto. Seus olhos ainda lacrimejavam.
– Brian. Brian Wood – se apresentou. – Eu era... – E receoso, parou. Continuou: — Um colega. Eu, quer dizer, me disseram... Sobre o acidente que você sofreu. Amnésia?! – Estava preocupado. A menina balançou a cabeça, ainda estranhando a conversa com o estranho que na verdade, ela conhecia vagamente. – E eles deixaram você sair sozinha? Você é menor, não? – Confirmou novamente com a cabeça. – Alguém deveria... Eles não...
– Eu realmente te conheço? – perguntou desconfiada.
– Sim, não muito, mas sim. Você tem para onde ir?
– Não – respondeu controlando a voz.
– Ande, vamos – chamou. Ele se levantou, mas ela ainda estava sentada. Não iria acompanhar esse cara que ela nem sabe quem é, suposto conhecido, mas poderia ser um psicopata! Ele ainda a esperava. – Você não tem para onde ir, tem? Eu te arranjo um lugar para ficar.
– Eu não vou com você. – Dessa vez o tom de voz dela era mais áspero e confiante. – Mesmo... Mesmo que eu tenha o conhecido.
– Tá, então fique aí e durma na rua nesse tempo frio – retrucou.
– Hm, que dia é hoje? – A pergunta não tinha nada a ver com o contexto da conversa, mas ela não sabia, e precisava saber.
– 31 de novembro.
– Ah, meu Deus – sussurrou. Passara-se muito tempo desde que ela tinha chegado no hospital. Ficou todo esse tempo em coma?!
– Você precisa de ajuda. Eu posso te ajudar.
E apesar de se negar, era realmente verdade. Se ele realmente a conhecia, poderia dizer alguma coisa sobre quem era ou sobre seu passado que a ajudasse. Ela agora tinha tantas lacunas para completar em seu passado que se agarraria a qualquer coisa que lhe desse respostas. E ela não poderia dormir na rua. Ela não sabia para onde ir. Terminou de beber o que restara do cappuccino e se levantou, andando atrás do rapaz. Era loucura, mas tudo não parecia fazer sentido mesmo.
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