Lost
12 Pregando peças
Notas iniciais
O episódio anterior tinha me deixado com uma baita enxaqueca. Eu deixei o casaco estampado com sangue alheio caído no chão. Toda a vez que pensava nele me dava uma tremenda vontade de chorar. Interpretando a mente psicopata da mulher, só podia supor que o casaco era o que minha mãe usara quando morreu. E ela o recolheu e o guardou por quatorze anos como se fosse um souvenir?! A cada dia que passava eu tinha mais raiva e nojo e principalmente, incompreensão, pensando nela. O que leva alguém a fazer esse tipo de coisa?
Eu fiquei rodeando a sala por muito tempo, deixando Brian ali sentado, completamente inquieto. Ao olhar para ele eu queria fugir. Era cedo demais para falar em amor, mas eu gostava muito mesmo dele. E tudo o que ele estava passando era culpa minha. Ele pode se dar mal na faculdade pelo elevado número de faltas dele ultimamente. Ele pode morrer. Mas acho que, do jeito que ele é idiotamente sensível, iria ser pior para ele se eu morresse do que se ele próprio partisse dessa pra melhor. E apesar de me irritar, é isso o que mais amo nele.
– Brian – chamei, angustiada. – Tem algum remédio pra dor de cabeça aqui?! – Uma dor tão forte, talvez uma enxaqueca, fazia parecer pra mim que meu crânio iria se comprimir até que meu cérebro escorresse pelos olhos. Ele assentiu e se levantou para procurar. Voltou em um instante com um pote de comprimidos.
– Como está? – perguntou. Eu o fuzilei com os olhos. Eu não tinha mente pra ser sarcástica agora, mas em outra lançaria “Oh! Demais! Vamos dançar por aí porque estou muito bem”. Abri o pote de comprimidos e estranhei. Alguma coisa me dizia que esse remédio não deveria ser... daquele jeito. – Que é? – perguntou se aproximando. Tomou o potinho das minhas mãos examinando-o. Fez o ato estranho de cheirá-lo e jogou alguns na mão. – Isso não é... Os comprimidos que eu compr... Isso aqui é...
– É o quê? – questionei irritada.
– Se eu não estiver maluco, isso aqui é veneno de rato – respondeu com os olhos semicerrados. Veneno de rato em um pote de remédio é algo bem estranho para se ter, correto? – Mas... Eu nunca comprei veneno de rato.
– Ah, droga – resmunguei. – Ela tá me deixando maluca, Brian, é sério – falei com um tom de voz muito enraivecido apontando para ele e me sentei, as mãos na testa tentando me acalmar pra ver se a dor melhorava. – Tem mais alguma coisa?! – supliquei, meus olhos ardendo.
– Vou arranjar, acalme-se.
Qual era a dela? Éramos calouros numa faculdade e ela a veterana? Pregar peças ridículas em mim até chegar a hora? Era isso o que pretendia? Dei uma risada de desgosto, ela com certeza era uma assassina da ralé, de um nível tão baixo que os outros assassinos em um Clube dos Psicopatas Anônimos se sentariam longe dela se soubessem. Ah, como eu estou morrendo de medo. Querendo me fazer engolir veneno! Qual a próxima titia? Vai substituir nozes por amendoins?
– Ei – Brian chamou minha atenção, acordando-me de meus devaneios. Me entregou comprimidos e um copo d’água. – O que você acha que ela pretende com essa baboseira?
– Não sei – sussurrei. Então, como se houvessem câmeras ali, fiz uma expressão neutra e falei para o ar: — Vai ver está se preparando para o teste de admissão da escola de palhaços!
– Hm, Em... – Então percebi que estava com um tom meio maluco na voz. Não, eu não sou a maluca aqui. Chacoalhei a cabeça com o objetivo de voltar à normalidade. – Essas minhas pesquisas não vão valer de nada mesmo, temos que arranjar outro jeito de saber quem ela é. Se não soubermos ao menos disso, não podemos chegar a nada.
– Nada – repeti em um tom distante. – E qual a finalidade de chegar a algum lugar? Isso vai nos ajudar em quê? É como essa faquinha boba contra uma arma de fogo. – Toquei meu calcanhar para me certificar de que estava ali. Guardava-a na meia, mesmo que às vezes me cortasse.
– Se eu soubesse o nome de, sei lá, sua mãe, poderíamos chegar até ela, não? Se estivermos um passo à frente... – Eu estava com os cotovelos nos joelhos e a cabeça apoiada nas mãos. Uma cara de quem está no mundo da lua. Brian só tentava ajudar, mas suas tagarelices me incomodavam. O remédio ainda não estava sendo completamente eficiente.
– Tá, Brian, tá – concordei, colocando a mão em seu ombro. Ele bufou e se jogou no sofá. Mordi os lábios, chateada. Por que eu não podia ter problemas de adolescente normal? Por que não podia ficar me preocupando com paixões platônicas ou com coisas do tipo “Não consigo tirá-lo da cabeça!”. Pensar nisso o tempo todo para algumas deve ser um tormento, eu sei. Mas eu preferia estar nessa situação deprimente á isto aqui. – Ah, caramba... – murmurei. Os meus neurônios estavam voltando ao funcionamento. A dor de cabeça não me deixava raciocinar bem. – Como pude ser tão estúpida? Eu devia ter pensado nisso logo quando descobrimos a carta! – Então eu me lembrei de que provavelmente ela estava ouvindo tudo que falávamos. Como? Não faço a mínima ideia. Vai ver ela tinha sido espiã nos EUA em um passado não muito distante. O fato é que ela já tinha entrado ali. O pacote, a foto, os bilhetes, o veneno. – Vamos... Para algum lugar!
– Quê? – perguntou meio avoado, mas em alguns segundos compreendeu e pegamos algumas coisas para sairmos. Podia estar mais fácil de ser pega lá fora, mas que se dane, ela me pegará de qualquer jeito se eu não agir.
Fomos então para um parque não muito distante. O playgrond estava vazio, nenhum sinal de criança. Estava muito frio, a neve caía com intensidade. Eu tinha colocado praticamente todas as roupas que Brian me tinha arranjado para sair. Sentamo-nos em um banco próximo a árvores e eu abri a boca para me explicar:
– O hospital. O lar. – Brian fez cara de incompreensão por um minuto, tentando raciocinar. Como era lento! Eu ia explicar o que queria dizer, porém ele se pôs a falar:
– Talvez o orfanato tenha alguma informação, se não da sua tia, dos seus pais. E seus pais... Eles podem me levar à achar algo sobre ela. Mas o que tem o hospital?
– Quando eu acordei, Brian, ainda meio atordoada, ouvi eles cochichando que um parente tinha ido lá e me liberado! Um parente! É claro que é ela, acho que não devo ter mais parentes. – Ele concordou com a cabeça, pensativo.
– Mas por que ela não te buscou e te levou para a morte naquele dia? Teria sido mais fácil – indagou.
– Ah, Brian. Pessoas como ela são difíceis de compreender, não? Ela queria se divertir. É isso o que ela está fazendo.
– Temos que ir a esses lugares... Logo. Precisamos fazer algo, precisamos.
– E sobre ela no seu apartamento, Brian? – perguntei, aflita. – O que acha que deve ser feito?
– Deveríamos sair... Deveríamos. Mas pra onde? Eu não... Mas ela... Isso está me deixando tão irritado! – Ele apertou os olhos e eu olhei para o lado, vento cortante em meu rosto. Ele estava assim, era tudo culpa minha. Se eu tivesse ficado como uma pessoa consciente faria quando um suposto estranho te oferece ajuda estaria tudo bem. Eu estaria morta. Mortos não se preocupam. Ele seguiria sua vida normalmente e daqui há uns dez anos, já casado e talvez com filhos, ele nem se lembraria que um dia gostou de uma garota chamada Emma.
– Ei – falei carinhosamente. – Eu sei que é difícil, mas relaxa. É por isso que ela está fazendo todo esse caso! Perturbar-nos, mexer com nossos sentimentos. É o joguinho dela, Brian. Jogue, não se deixe abater.
– Claro, Emma... Mas é que essa perspectiva de te perder, de te ver sofrendo, sendo torturada... Eu já sonhei com isso, sabia? – Frio como estava, não sabia que era possível que meu rosto ficasse vermelho. Ele se importava tanto que chegava a ser irritante, mas, era possível que eu gostasse de algo que me irritava?! Que confuso. Eu desviei o olhar porque estava constrangida. Que bobeira nessa situação. – Eu não vou te perder. Nós daremos um jeito. Combate corpo a corpo? Veremos quem manda melhor! Eu ou a velhota – ele brincou e eu comecei a rir. Triste risada.
Nos levantamos sem dizer nada e seguimos abraçados, confortando-nos da angústia e do frio. Pensando de forma ingênua eu diria “O que ele é pra mim?”. Pensando profundamente, ele era tudo, ele era a única coisa. E só dessa forma eu podia esquecer tudo.
...
– Acho que vou tomar um banho quente – falei para Brian. Ele concordou com a cabeça e eu peguei as coisas e fui para o banheiro.
Quando terminei peguei um potinho de creme pra passar no cabelo – Brian tinha me dito que era da prima dele, que ele tinha pego pra mim. Ficou meio irritado com a ideia de ser um cara que se importava tanto com o cabelo. Ele não precisava se importar. Estava perfeito assim. Peguei um punhado desatenta e achei a textura super estranha. Quando olhei para a minha mão não havia creme pra cabelos e sim vidro granulado. Tentei me livrar de todos os caquinhos dificilmente. Quando terminei ainda devia haver uma dezena de cacos melhores e imperceptíveis e minha mão doía. Ela estava sangrando muito. Lavei-a e observei a água vermelha correr para o ralo.
Quando saí do banheiro acenei para Wood, que ergueu uma sobrancelha e andou em direção a mim. Ele viu o pote com vidro granulado e cruzou os braços, parecendo ridiculamente indignado. Ridiculamente mesmo. Eu também estava. Que coisa mais ridícula era essa? Entrava aqui enquanto dormia e trocava coisas normais por coisas que poderiam nos matar ou nos fazer sangrar? Ela era doentiamente ridícula.
– Eu espero que o restante dos meus antepassados não sejam doidos como ela – comentei com uma ironia triste.
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