Lost

13 Inutilidades


Notas iniciais
- Bom, eu acho que esse capítulo deve estar meio tedioso, desculpe. E declarar que o capítulo é tedioso inicialmente deve ser algo tão babaca a se fazer, mas convenhamos à sinceridade. Mas o próximo vai ser fofo, e depois finalmente algo acontecerá. Ouçam com Team (LORDE), porque sei lá, é legal.

Estava decidido. Assim que possível iríamos atrás de informações que, não sei, de certa forma poderia nos ajudar. O ponto principal era: quem era a engraçadinha? Eu sei, é muito deprimente eu tentar lidar com isso de forma cômica, mas – e isso pode até soar repetitivo, mas é o melhor adjetivo para descrevê-la – essa mulher é completamente ridícula.

Esperamos até a próxima segunda chegar. Nossa (posso chamar assim?) relação estava monotonamente normal. Bom, ora éramos legais um com o outro, ora brigávamos. Uma coisa meio instável, mas ele já tinha me dito, eu era extremamente encrenqueira por natureza. Talvez eu não gostasse de Brian no passado por ele ser irritantemente persistente ou coisa do tipo. Todo esse senso protetor dele me deixa ao mesmo tempo alegre e impotente. E a impotência me vence. Odeio me sentir fraca.

Em alguns momentos em ficava encarando seus lábios sem que ele percebesse, e quando este percebia, eu ficava vermelha igual um pimentão – eu sei que é extremamente infantil, ainda mais pensando em tudo o que estava acontecendo, mas eu ficava. Por muitas vezes eu quase não resistia à tentação de beijá-lo. Era tão necessário! Uma dor excruciante de necessidade batucava em meu peito. Mas eu resisti, por mais difícil que fosse.

...

– Em... – ele chamou baixinho à porta, esticando o “m” e eu tenho certeza que havia um sorriso idiota em sua cara. – Tá legal, você tem que acordar. Nós vamos procurar as informações. Primeiro no hospital que é mais perto, depois pegaremos um ônibus até o orfanato.

– Ai, se manca, Brian – retruquei, me levantando arrastadamente. – Você me chama assim como se fôssemos fazer algo de fato interessante. Por que não berra logo que temos que sair?

– Você é tão idiota – respondeu gargalhando. Dei uma risada falsa e procurei algo para vestir. Na verdade a tática era vestir todas as peças que tenho, parecendo muito mais larga do que realmente sou. – Seria legal se ela nos deixasse em paz. – E suspirou, e eu sabia que isso significava algo... Hm... Mas até parece que eu largaria tudo e viveria com ele se isso acontecesse, apesar de a ideia ser extremamente tentadora.

– Nos – sussurrei com o mesmo tom distante. – Se você não fosse tão sensível teria me ignorado e não haveria água sanitária na caixa de suco! – berrei. Mais uma das pegadinhas estúpidas dela. Brian quase bebeu água sanitária, é surpreendente. Começo a desconfiar que ela tenha feito algum curso para ninjas amadores. – Você poderia até namorar uma garota bonita e metida à intelectual e provavelmente menos problemática do que eu. Ela também cursaria arquitetura, vocês se casariam e construiriam a própria casa, felizes da vida. – Dei uma risada e abri a porta.

– Não ia ser tão interessante.

– Você considera desinteressante ter um mínimo de certeza de que não vai morrer aos 19? – perguntei, confusa, o encarando. Estávamos perto demais um do outro.

– Considero desinteressante imaginar uma vida sem você – sussurrou, sorrindo. Revirei os olhos e ele me abraçou.

– Francamente, Wood. Eu ainda não sei o que vê em mim. – Comentários autodepreciativos era um hobbie, eu descobri.

– Por que ver? – perguntou e nos beijamos ali, em um momento completamente aleatório da minha vida. E todas as preocupações se esvaiam quando nossos lábios se uniam, era incrível. E eu sentia, não sei por que sentia isso, que ele me amava quando me beijava. Amor. Amor...?

A nossa situação era indefinidamente complicada. Eu estava morando temporariamente com ele até que ninguém mais quisesse me matar. Ele era caidinho por mim quando era mais novo. Eu era irritante com ele. E ainda sou, digo, somos. E nós nos beijamos de vez em quando. E é como se fosse uma droga, porque se eu estou irritada, assim que o beijo é como se eu flutuasse com fadinhas na Lua. Era meio alucinante e bobo. Mas simplesmente incrível. E nós nunca nos preocupamos com o que éramos. Era uma amizade com um quê de algo mais? Estávamos enrolados, quem sabe. Ah, não faço a mínima ideia, eu não acho que seja necessário qualquer tipo de nomenclatura. Ele se afastou de mim, contra a própria vontade, senti. Então entrou no quarto e se sentou.

– Tá, mas eu estive pensando... Não acho bom você ser reconhecível – ele disse, procurando alguma coisa em seu guarda-roupa.

– Do que está falando? – perguntei, confusa.

– Nem eu nem você. Que tal um disfarce? – Ele pegou óculos escuros e jogou pra mim.

– Óculos escuros? Tá de brincadeira? Estamos no inverno. – Devolvi balançando a cabeça e rindo.

Então começamos a tentar nos disfarçar, o que eu achei a coisa mais boba do mundo, mas foi divertido, apesar de tudo. Fiz um coque e coloquei o gorro, escondendo quase todo o meu cabelo. Ele arranjou uns óculos e colocou. Também enterrou no rosto um gorro bobo demais para um cara de 19 anos. Ele passou um de seus dedos longos na minha bochecha. Ergui uma sobrancelha, encarando, fingindo irritação.

– Que é? – resmunguei.

– Você borrou o batom... – respondeu. Eu semicerrei os olhos pra ele, confusa.

– Que batom? – Nos entreolhamos.

...

– Tá, o que nós faremos quando chegarmos lá? – perguntei enquanto caminhávamos até o hospital.

– Hm, você tenta não parecer você – começou. – Não que eles vão se lembrar nem nada. Mas tenta. Desde agora se possível.

– Não parecer eu? – questionei. – É quase a coisa mais idiota que você já falou hoje.

– E qual é a mais? – perguntou. Dei de ombros. Tudo o que ele falava era idiota.

Então nós entramos no hospital e eu fiquei atrás de Brian fingindo estar distraída. Ele perguntou sobre uma “Emma Audrey Harrison” que esteve internada faz alguns poucos meses ali. A moça estranhou ele ter interesse em uma moça que esteve internada ali há tanto tempo, ainda mais porque ele já sabia que ela não estava internada. Ele perguntou se algum parente havia me visitado, e novamente a pergunta pareceu sem nexo pra atendente. Mas ela deu um nome e um telefone pra ele e saímos dali.

– Tá. Mas isso não pode significar nada. – Ele me passou o papel. – Jane Hill. Ela pode ter mentido. Mas nós vemos isso depois. Agora... ônibus!

– Jane é um nome tão comum e legalzinho pra ela. Acho que Babaca Hill combinaria mais, mas os meus avôs não deviam saber que ela seria essa retardada quando ela nasceu – comentei.

Passei a viagem de ônibus ouvindo música quieta, observando a cidade. Nós chegamos até um lugar que se destaca por ser infantilmente colorido. O lar adotivo. Entramos e Brian chegou até uma mesinha onde uma moça estava sentada. Quem sabe uma secretária, eu não me recordo como isso aqui funciona.

– Oi – ele disse. A secretária olhou para ele por cima dos óculos e sorriu. Era uma mulher de, sei lá, meia-idade. – Amelia! Como vai?

– Ah, oi, Brian! Quanto tempo. Está crescido... – Ela se levantou e o abraçou, sorrindo. Ela era bem bonita. No máximo 35. – Quem é? Sua namorada?

Notei que ele ficou meio estático por meio minuto, sem saber o que responder. Então ele afirmou com a cabeça lentamente, optando por mentir. Ele colocou o braço no meu ombro e deu uma risadinha tosca, e eu desejei cobrir meu rosto com aquele gorro.

– Sempre pensei que aquela Emma iria ceder aos seus encantos um dia! – Deu uma risadinha, mas logo mudou sua expressão para tristeza e suspirou. – Você soube? Ela sofreu um acidente! – Era muito estranha a sensação de ter pessoas falando de você e você estar ali fingindo que, hm, não é você. Estranho...

– Eu soube. Na verdade era sobre isso que eu vim falar. – Ele se sentou e ela ergueu uma sobrancelha. – É... A amiga dela, a Liv, perguntou, e eu vim aqui saber pra falar pra ela. Alguma notícia?

– Não muitas... Só sabe-se que ela foi levada para um hospital e pelo que parece, bom, dizem boatos, está com sua tia. Ficamos muito preocupados, eu fui até o hospital, mas me dispensaram. Não sabíamos que ela tinha uma tia! Pelo que parece ela se internou em uma clínica com depressão na Austrália quando sua irmã e cunhado morreram... Coitada. – Nesse momento eu fiquei com tanta raiva que soquei um armário que estava ali perto e ela olhou para mim e perguntou formalmente: — Algum problema? – Apenas neguei com a cabeça.

– Sabe o nome dessa tia? E o nome dos... dos pais falecidos da Emma? – Ela estranhou novamente. Por que ele queria tantas informações? Por que Olivia iria querer saber o nome dos falecidos pais de Emma? No que isso iria ajudar? Deveria estar se perguntando.

– Tá legal. O nome dos pais dela eram James e Sharon Harrison. E a tia... Bom, eles me disseram que se chamava Jane Hill. – Então ela não mentiu. Por que estava facilitando tudo? Ele se levantou e apertou a mão dela.

– É, acho que está tudo bem. Se tiver mais notícias me fala... Liv está preocupada! – Ela acenou com desconfiança para ele e ele me puxou para fora. – Jane Hill. Precisamos achar a localização dessa Jane Hill. Ou qualquer coisa que nos leve a ela.

– Eu não estou entendendo onde quer chegar, Wood – reclamei. – Ela é uma ninja. De que adianta chegar nela? Em que isso vai ajudar?

– Olha, eu não faço a mínima ideia. Mas qualquer coisa é melhor que enterrar a bunda no sofá e esperar ela te matar, ok? – Cruzei os braços, ainda achando tudo aquilo completamente inútil.