Lorene
3 18 de Dezembro
Notas iniciais
Foi mais como um impulso, mas eu não exatamente me arrependo por ele. Me aproximei mais de Lorene e segurei sua mão, firme. Lorene não fez nenhum comentário sobre isso, mas eu senti que estava tensa no começo. Com o tempo, ela foi se soltando e acabou relaxando um pouco. O passeio foi mais divertido do que eu esperava, mostrando que sua presença continuava agradável como sempre. Claro, sempre foram até que as brigas começassem. Mas não naquele dia, o que tornou o passeio melhor do que deveria. Foi ruim em alguns aspectos, como, por exemplo, o fato de eu não ter parado de olhar para ela e sempre reparar novos detalhes sobre Lorene que passavam despercebidos. O jeito como ela mexia os dedos o tempo todo. O jeito como o sol batia em seu cabelo, deixando-o quase dourado. O jeito como o mar refletia nos olhos verdes dela, deixando-os azuis por alguns momentos. O som de sua voz, um pouco rouca, mas ainda assim melodiosa. O jeito como ela se empolgava ao falar de um assunto de que gostava. Eu estava reparando em mais detalhes do que eu devia. Mais do que eu jamais havia reparado em Rachel até então. E eu não conseguia sentir que aquilo estava errado.
-Os filhotes da Meg vão nascer por volta da semana que vem — ela sorriu, olhando diretamente para mim. Eu não entendi de início, mas depois percebi que ela notou que eu estivera observando-a desde a ponta da praia. Meg era a labradora amarela de Lorene, que eu havia ajudado no parto, anos antes. Eu costumava dizer que ela era minha filha, eu lembrei. Que coisa mais estúpida para se dizer, não me admira que eu venha tentando a tanto custo apagar esse Leo do passado. Ele era patético.
-Ótimo — respondi, tentando ser indiferente. Lorene parecia levemente irritada com a minha apatia.
-Você realmente mudou, Léo — ela apontou, cabisbaixa.
-Todo mundo muda. Você também — rebati.
-A gente muda de hábitos, de gostos. Não se muda o que você é. O que está aqui — ela apontou para o meu peito
-Vai falar de sentimentos outra vez? — perguntei, mais seco do que devia.
-Eles não importam mais pra você, não é Leo?
-Importam. Mas eu não preciso expor eles, você só sente.
-Qual foi a última vez que você disse "eu te amo" para alguém? — ela parou de caminhar e ficou me encarando.
-Tem muito tempo — respondi, sincero. Fazia muito tempo que eu não parava para pensar nisso também. Eu achei que ela iria começar a brigar comigo ou tentar me dar uma de suas grandes lições de moral, mas, ao invés disso, Lorene riu. Sua risada foi dez vezes pior do que uma lição de moral.
-Tente lembrar. — ela insistiu. Eu sabia qual tinha sido a última vez, eu só não queria ter de admitir o que ela já sabia.
-Quando eu terminei com você — respondi, por fim, cansado daquele silêncio todo. Lorene não esperava por aquela resposta, porque ficou desorientada por algum tempo, abrindo e fechando a boca diversas vezes sem, no entanto, dizer nada.
-Bem, você... deve saber o que está fazendo com a sua vida. — ela falou, sem olhar direito pra mim. Eu não respondi nada, apenas voltei a caminhar e ela fez o mesmo, colocando as mãos nos bolsos do colete.
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