Lorena
12 Dissolução
Notas iniciais
– Isso é pra te ensinar a nunca mais mexer com meus filhos. Toma!
A mãe adotiva de Lorena começou a surrá-la com um cinto. A adolescente começou a gemer baixinho, enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto e seu lábio inferior tremia. O pior não era a dor, pois essa teria que parar um dia. O pior mesmo era a injustiça. De nada adiantou contar a verdade, que não fora ela que atacara os irmãos adotivos, que ela nem ao menos estivera ali naquela hora. Que fora uma outra pessoa, desconhecida, que nem falava português.
Não, isso era totalmente irrelevante. Se havia algo errado naquela casa, só uma pessoa deveria pagar o pato. Só uma pessoa deveria ser castigada. Nem é preciso dizer quem seria essa pessoa. Lorena até tentara entender o motivo para tanto ódio. Não havia nenhum. Era puro sadismo e desprezo por um outro ser humano, que era indefeso e totalmente a mercê de alguém mais poderoso.
Glauco e Gláucia estavam na sala. Eles se escoraram na parede e contemplavam o martírio de Lorena, como quem assiste um drama na TV. E esta era a novela preferida deles. Glauco mais que supervalorizou seu machucado no punho, que até conseguiu uma tipóia. Gláucia não teve a mesma sorte, pois o médico da clínica não autorizou uma tomografia do seu crâneo, dizendo ele que ela não tinha nada. A mãe dela jurou processá-lo por erro médico.
– E quando meu marido chegar, Lorena, eu vou contar tudo para ele, e vou exigir que ele te dê outra surra. Pode estar certa disso. — A matrona vociferou na cara de Lorena.
– Quando o papai chega, mamãe? — Gláucia perguntou.
– Em uma semana. Aí então Dona Lorena poderá treinar seu espanhol com ele. Do jeito que meu marido detesta estrangeiros, ele vai bater nessa pilantra dobrado, só por ela se atrever a falar enrolado nessa casa. — A mulher cuspiu.
– Deveríamos devolvê-la para o orfanato. O fato dela ter atacado a gente é um bom motivo, não é não? — Glauco se manifestou.
– E perder a chance de corrigir essa piranha como se deve? Não, isso seria bom demais pra ela. Primeiro ela vai me pagar o novo e o velho. Vai comer o pão que o diabo amassou, aí então, e somente depois que ela passar pelas mãos de seu pai, que iremos devolver essa sirigaita pro depósito de gente.
Lorena escutava tudo aquilo quieta, com os olhos baixos e as mãos arriadas ao longo do corpo, sem tentar se defender, pois isso tinha o poder de aumentar a ira de sua mãe adotiva. Esperou que a sessão de tortura acabasse. Isso veio logo mais, quando lhe mandaram esfregar o chão da cozinha. Ela obedeceu calada.
Depois que ela preparou o almoço e lavou as louças, mandaram-na lavar os banheiros. Pela nova lei daquela casa, não tinha direito a refeições, sujeitando-na a surrupiar alimentos escondidos, em pouca quantidade, para que não dessem pela falta. E então a mandaram esfregar os muros da frente da casa, na falta de outra tarefa mais pesada para lhe impingirem.
Ao chegar nos muros externos, Lorena simplesmente largou tudo e saiu correndo sem rumo. Lágrimas lhe escorriam pelo rosto e ela soluçava. As pessoas estranharam aquela adolescente correndo e chorando pelas ruas, mas ninguém a parou ou procurou ajudá-la. Correu por dois kilometros e teria corrido mais, se tivesse um destino certo. Procurou se orientar e seguir a via expressa dos ônibus. Só havia um lugar que ela chamava de lar, e foi pra lá que ela foi.
Muito longe dali, o SETI captou sinais estranhos vindo do espaço sideral. O Hubble remeteu imagens estranhas para a Terra. E os satélites de comunicação atravessaram um período de silêncio em suas transmissões. Aparentemente tudo voltou o normal após algumas horas, e ninguém reclamou da falha, pois o que os olhos não vêm o coração não sente.
O planeta Terra recebeu a visita de alguns estrangeiros. Eles vieram silenciosamente, encobertos por nuvens, sem barulho e sem grandes alterações no clima ou no magnetismo da Terra. Não bateram na porta ao entrar, nem pediram licença para sair. Não julgavam ser necessário convite ou permissão especial para aqui entrar e fazer o que quisessem. Na verdade até consideravam um privilégio termos desperto sua atenção e interesse.
Não almejavam os grandes centros urbanos, ou mesmo os grandes líderes da Terra. Queriam apenas bagunçar um pouco os quintais das casas, e se divertir com os minúsculos seres que aqui viviam. Ou ao menos era assim que parecia. Poderiam ser comparados a uma nuvem de gafanhotos ou a um bando de gaivotas à beira do mar. O fato é que não estávamos preparados para eles.
As primeiras casas a serem atingidas pelo fenômeno estavam no Brasil. Elas simplesmente ficavam sem energia elétrica. Depois uma espécie de zumbido no limiar do som irritava os humanos e animais da casa. Os moradores se retiravam de casa às cegas, pois ficar com os olhos e boca aberta doía. Alguns mais misericordiosos se lembravam de seus bichos, mas não eram todos.
A seguir, todos os objetos da casa pareciam perder seu peso, e a gravidade parecia perder seu efeito. As coisas simplesmente flutuavam como se estivessem fervendo, mas não havia calor nesse fenômeno. E então, os objetos começavam a dissolver, como um comprimido efervescente em copo de água. Tudo virava pó em menos de uma hora. Ou assim parecia.
Lorena estava escondida na escola há já três dias. Ninguém se lembrou de procurá-la lá, e ainda havia dez dias pela frente, até começarem as aulas de novo. Ela atacou as máquinas de venda de salgadinhos e bebia água dos bebedouros. Dormia no fundo das salas, após fazer uma barricada com as carteiras escolares. Procurava não fazer barulho à noite, pois este era o único horário em que havia vigias na escola.
Ela viveu relativamente em paz naqueles três dias. E então na manhã do quarto dia tudo aconteceu. A escola ficou às escuras com a interrupção da energia. Lorena acordou com um zumbido estranho. Ela não conseguia abrir os olhos e a boca, pois o zumbido tornava seus olhos e dentes doloridos. Ela sabia que havia algo errado e que precisava sair dali.
Ela andou às cegas, tateando no escuro, com a visão borrada, tentando chegar à porta dos fundos, que a levaria ao quintal de uma outra casa. Isso era difícil pois a escola era enorme. Então os objetos que a cercavam começaram a flutuar ao redor dela. Com a visão borrada ela viu um bebedouro elétrico suspenso no ar, e até um armário pesado que ficava no canto da parede virar de ponta cabeça, para se fixar no teto. Isso a espantou.
Os objetos em volta de Lorena começaram a se desfazer no ar, e até as estruturas de metal e alvenaria da escola começaram a se dissolver lentamente. Foi com absoluto terror que ela deixou de sentir o chão sob seus pés. Seu corpo começou a ascender, enquanto ela era banhada pela claridade da manhã, pois o teto da escola não existia mais.
Então, em um segundo tudo se congelou. E Lorena desapareceu.
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