Lorena

13 A paciente 143


Notas iniciais
"- Me diga uma última coisa - disse Harry. - Isso é real? Ou esteve acontecendo apenas em minha mente? Dumbledore lhe deu um grande sorriso, e sua voz pareceu alta e forte aos ouvidos de Harry, embora a névoa clara estivesse baixando e ocultando seu vulto. - Claro que está acontecendo em sua mente, Harry, mas por que isso significaria que não é real?" Harry Potter e as Relíquias da Morte por J. K. Rowling

Duas enfermeiras em uniformes brancos conversavam sobre suas rotinas diárias e sobre os doentes sob seus cuidados.


– A Paciente 143 deu muito trabalho ultimamente. Seu estado têm piorado muito. — Disse a primeira enfermeira.


– O Dr. Devlin até aumentou a dose de Phenytoin que ela já tomava. — Disse a segunda enfermeira.


– É, mas não adiantou muito. Antigamente isso se resolvia com terapia de eletrochoque, mas hoje em dia é visto como uma aberração.


– Não vamos agora ensinar o ofício aos novos médicos. — Falou rispidamente a segunda enfermeira.


A outra enfermeira levantou as mãos em sinal de rendição.


– Não está mais aqui quem falou.


– Pois é! Não é porque esta idosa foi abandonada pela família e é agora responsabilidade do estado, que podemos sair por aí dando eletrochoque a torto e a direito. — A segunda enfermeira falou enfaticamente.


– Tudo bem, Eunice. Só estava comentando os tempos passados. Quem sou eu para passar por cima dos outros e decidir o destino desta paciente? Deixe como está. Deixe-a ficar neste estado catatônico. Quem sabe se ela não está em outro mundo, onde é mais feliz e amada pela família? Deus me livre ficar na situação em que ela está.


– Quem sabe fosse você no lugar dela, um médico mais antigo já estaria te dando eletrochoque. — A enfermeira Eunice falou com um sorriso irônico.


– Credo em cruz, Eunice. Que bicho te mordeu, hein? — A primeira enfermeira se afastou com raiva. Ela sabia que mais cedo ou mais tarde, a enfermeira Eunice iria procura-la para pedir desculpas, aí então voltariam a ser as antigas parceiras de longas décadas naquele hospital.


Longe dali, em seu quartinho de hospital, a paciente 143, Lorena Cross sonhava. Seu olhar estava perdido em outro mundo. Suas mãos encarquilhadas e cadavéricas se crisparam agarrando o lençol de sua cama. Seus lábios se retesaram, fazendo com que seus dentes batessem produzindo um barulho característico, como se ela estivesse com frio.


Um dos funcionários do hospital passou por sua porta e deu uma olhadela. Ele demorou alguns segundos para perceber que algo estava errado. Resolveu procurar a enfermeira do setor. Após algum tempo a encontrou.


– Ei, senhora! Aquela paciente do quarto azul está mal. — Ele comunicou.


– É? Todos aqui estão mal, Senhor ... — Ela procurou o crachá dele. — Senhor Ramires. O que o senhor viu deve ser o motivo pelo qual ela está aqui. Não devia mais se impressionar com isso.


– Eu sei que todo mundo aqui está doente, eu não sou idiota. Estou apenas dizendo que aquela paciente está ... pior. Ela esta se debatendo e toda trêmula, como um diapasão. — O homem explicou.


A enfermeira escutou tudo, e resolveu a contragosto que deveria dar o crédito da dúvida para aquele homem, e portanto ela foi ver a paciente. Ao chegar a sua porta, ela se alarmou. Diligente, ela pegou seu pager e acionou código amarelo. Voltou ao seu setor rapidamente e apanhou um kit já preparado em um armário.


O funcionário ficou parado observando tudo. O quarto da paciente 143 então se converteu em foco de atenção daquela ala, como se fosse o pote de ouro para onde as cores do arco-íris convergiam. Logo a situação foi resolvida e tudo voltou ao normal, como se apenas um contratempo tivesse ocorrido naquela rotina de cuidados de pessoas quase mortas.


Mais tarde, o médico do plantão chegou. Ele foi informado dos acontecimentos recentes, e de como o estado da paciente 143 havia se deteriorado. Ele folheou seu prontuário e reavaliou seus exames de escaneamento do crâneo. Glioblastoma. Um diagnóstico simples, com um tratamento simples, segundo sua opinião, mas a paciente percorrera uma via crucis comum a muitos pacientes idosos, pobres e abandonados pela família. Ela agora estava além de possibilidade de tratamento.


Estava ali para ser tratada de seus sintomas, com cuidados de enfermagem para se alimentar, para cuidar de suas necessidades fisiológicas, para ficar confortável e não sofrer muito. Ela tinha direito a um pouco de dignidade na hora da morte. Não havia nada mais a ser feito.


Ela não tinha família. Sem descendentes ou parentes distantes. Se fosse rica haveria ao menos um ou outro parente interesseiro atrás dos espólios da morta. Talvez fosse melhor assim, mas era uma forma solitária de morrer. A sensação de abandono e desvalia era horrível. Não ter ninguém para chorar sua morte tirava um pouco do brilho de sua passagem pelo planeta Terra.


Ele foi até ela. Tomou seus sinais vitais. Não era muito o que ele estava fazendo, quase um nada diante do tanto que sua competência e habilidade o permitiriam realizar, e outra pessoa já havia feito isso antes pela paciente, mas era também uma forma de interagir com ela. Sua pele engelhada, seus olhos verdes, baços e sem vida, seus dedos deformados com nódulos nas juntas, seus ossos saltando no corpo magro, de alguém que passara fome e sede por muito tempo. Ele acariciou seus cabelos e desejou que seus sonhos fossem calmos e felizes. Então foi embora.


Lorena Cross estava distante. Estava em um quartinho com bonecas de plástico, mas este ambiente parecia opressivo e amedrontador. Fugiu dali correndo e foi para outro lugar, onde o clima era quente e a luz do sol era tão intensa que todas as coisas tinham as cores bem destacadas e com uma aura dourada recobrindo tudo. infelizmente havia também discos voadores se acumulando no céu, e isso também não era muito acolhedor. Ela resolveu ir para outro lugar.


O próximo mundo que ela visitou era muito bonito. O dia ensolarado era eterno e o céu ... Oh, o céu era uma aquarela deslumbrante de cores. Se o céu resolvesse chover, aquelas cores banhariam o mundo em technicolor. Era magnífico. infelizmente as pessoas naquela cidade estavam se matando. Ela não gostou de ficar ali. Por isso procurou outro lugar.


Sua próxima parada foi em um lugar branco. Todo branco. E frio. Demorou algum tempo e muito frio para perceber que aquilo era neve. O frio era tanto que ela pensou que fosse virar um picolé, ou um cubo de gelo. Resolveu que ali também não estava legal. Decidiu partir novamente.


Seu próximo local de fuga não era melhor do que os outros. Estava deitada em um leito de hospital, com cheiro de antisséptico e remédios. Havia monitores ligados ao seu corpo através de fios, e agulhas espetadas em seu braço. Teve vontade de gritar. Não fora dali que ela fugira da primeira vez? Por que afinal não havia um local onde ela poderia ser feliz? Onde ela poderia se refugiar afinal de contas?


Ela sentiu a convulsão se aproximando, seu corpo tremendo, seus esfincteres relaxando e uma aura prateada recobrindo todo o mundo ao redor de si. Estava na hora de partir novamente. Talvez se ela voltasse mais ainda no tempo, quando fazia essas viagens, ela poderia retornar para aquele lugar mágico e maravilhoso chamado Princeton, onde ela era amiga e afilhada de ninguém mais nem menos do que Albert Einstein.


Por que não? Então ela se foi.