Loop
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Na sala de aula eu fiquei observando a figura de Paulo — sentado a duas cadeiras na minha frente, da fila ao lado -, tentando encontrar motivos para desconfiar do mesmo, de forma um tanto instintiva.
O garoto estava relaxado, parecia melhor, embora ainda precisasse de um lenço ou outro para seu nariz. Suspirei e voltei a atenção para meu caderno. Com um lápis na mão eu comecei a desenhar formas aleatórias.
Parei de rabiscar quando fiquei satisfeita com o resultado, e praticamente não prestei atenção na aula. Bem, ainda era a segunda semana, eu estava sem saco, e poderia estudar mais tarde, afinal ainda tinha pouco conteúdo, dava para recuperar.
Fiquei o resto do horario de aulas inteiro pensando no que tinha acontecido até agora. Na forma como a minha mãe tinha reagido, no sentido de alerta que eu sentia desde então, em suas palavras...
Demorei um tempo para reconhecer aquelas frases, mas me eram intensamente familiares. Após vasculhar em minhas lembranças, lembrei-me de Shakespeare, e como minha mãe costumava ler seus livros e citar suas falas.
Minha mãe é uma artista, ela já participou da costrução de cenário de várias peças, já fez reconstrução de pinturas e estátuas, e sempre esteve em contato com o romantismo antigo. Seus livros favoritos incluiam quase todos os livros de Shakespeare, e a frase que bateu de frente com os pensamentos em minha mente foi: O inferno está vazio e todos os demônios estão aqui.
Que combinava perfeitamente com o aviso de minha mãe para não confiar nos outros.
Eu olhei para os lados lentamente e todos pareciam estar tranquilos e prestando atenção na aula, ou mexendo no celular, dormindo e fazendo coisas que adolescentes costumam fazer nas aulas.
Não tinha nada de suspeito acontecendo, o que me fez me sentir como uma louca. Mas minha mente continuava tentando encontrar respostas que eu não conseguia alcançar.
— Nós precisamos sair... — Alexandra disse assim que as aulas acabaram. — Nos divertir um pouco, extravasar... — Ela disse em tom tranquilo.
Olhei para minha amiga e notei que ela olhava para mim com um pouco de esperança. Bem... Não posso dizer que aproveitei bem as férias com meus amigos, afinal Alê viajou e eu fiquei ocupada com as brigas e conflitos familiares, sair realmente me faria bem, eu preciso esquecer um pouco os problemas e colocar minha mente em ordem...
— Para onde você pensa em ir? — Perguntei.
— Eu não sei... — Disse.
— Bem, a gente poderia fazer um picnic na casa de alguém. — Já sabíamos quem esse alguém era. — Ou até acampar no meio da floresta, sei lá, algum canto legal. — Paulo deu a sugestão.
— Não vou pro meio dos matos, nem pensar, vai que aparece algum bicho escroto pulando em mim. — Alê disse, fazendo uma careta de nojo.
— Então está combinado na minha casa. — Falei. — Meu pai vai ficar no hospital com a minha mãe ou dormindo na casa dos meus avós, por ser mais perto do hospital, eu e Lucas ficaremos sozinhos em casa durante esse tempo, só resta la.
— Seu irmão vai estar lá? — Alexandra olhou para mim, pensou um pouco, mordeu o lábio e fez um biquinho. — Droga, eu queria beber...
— Você pode beber no meu quarto, ele não vai poder reclamar, além disso meu irmão tem uma dívida comigo desde o mês passado, não vai contar pra ninguém. — Eu disse.
Ela pareceu ficar mais aliviada enquanto Paulo coçou a nuca.
— Okay, eu vou conversar sobre isso com a minha mãe hoje... Quando nos encontramos? — Ele perguntou.
Dei de ombros, qualquer dia estava ótimo para mim.
— Sexta então, assim você poderá visitar sua mãe durante a semana e teremos mais tempo de ficarmos juntos e nos divertirmos. — Alexandra disse.
— Tudo bem. — Falei e ouvi meu irmão me chamar na saída da escola. — Preciso ir. — Falei. — A gente se vê amanhã.
E assim dei tchau para eles e fui andando até meu irmão.
Pegamos as nossas bicicletas juntos e fomos para casa.
— Ei... — Falei durante o caminho. — O Paulo e a Alexandra vão passar la em casa essa sexta, se quiser convidar o Renan fique a vontade. — Ele me olhou curioso.
— O que voês vão fazer?
— Diversão. — Falei e olhei para ele. — Fala sério a gente precisa muito disso. — Disse e ele confirmou.
— Sim... Eu não aguento mais ter que ficar sozinho com você, sinto como se fosse enlouquecer. — Disse, o que me fez querer chutar sua bicicleta.
— Cala a boca. — Falei. — Eu sou um anjo maravilhoso.
Ele riu com isso, uma mistura engraçada de diversão com deboche.
Continuamos pedalando até chegarmos em uma ponte, a ponte cruzava o único rio que passava por entre a cidade, um rio pequeno, mas fundo, e cujo a ponte não tinha nem 500 metros.
Olhei para o lado e logo eu e meu irmão estávamos jogando as bicicletas no chão e correndo para o mesmo ponto.
Uma garota, de pele morena, com sarnas, um longo cabelo negro e encaracolado, estava prestes a pular.
Nós pratiamente a seguramos ao mesmo tempo.
Eu e meu irmão não demos espaço para que a garota se debatesse e a puxamos de volta para a ponte. A mesma, muito surpresa, começou a nos bater e a fazer barulhos estranhos. Mas nós a seguramos até que ela parasse.
Quando a situação ficou mais fácil de ser controlada, nós a empurramos para longe da beirada da ponte, meu irmão se ajustou e a flanqueou, não lhe dando espaço para correr.
Ela nos olhou com uma mistura de confusão, frustração, raiva, decepção, tudo ao mesmo tempo e então começou a falar... A falar com as mãos.
Olhei para meu irmão confusa e o mesmo cometeu a burrada de perguntar quem era ela, mas é claro, a garota não falou, na verdade ela nem ouvia. Sua mão continuou sinalizando coisas que eu não conseguia compreender, uma surda, libras, eu realmente não sabia lidar com uma suicida, quanto mais falar com uma que não me escutasse.
Suspirei e olhei para o meu irmão.
— O que a gente faz? — Tive que me mover rápido para não deixa-la correr para a beirada novamente.
Meu irmão teve uma ideia e levantou os braços, eu fiz o mesmo enquanto olhava para a garota. Ela parecia ser ao menos um pouco mais nova do que eu. Tinha as roupas bem gastas, os olhos cheios de lágrimas, a pele bem cuidada apesar das manchas do sol.
Tentei aparentar o mais indefesa possível, não queria machucá-la, não queria deixar que a mesma entrasse em desespero.
A garota olhou para mim antes de cair sobre os joelhos e começar a chorar. Eu me aproximei, ainda dando espaço entre nós, me agachei e lhe ofereci a mão. Falar com a minha voz não adiantaria, então tentei falar com o corpo. Mostrar que eu estava ali e que me importava, caso o contrário teria ficado parada a vendo se jogar.
Ela pegou a minha mão, demostrando o desespero por afeto, e meu coração apertou.
Afaguei seus cabelos enquanto olhava para meu irmão.
— Não podemos abandona-la. — Falei.
— Podemos ligar para a polícia. — Ele disse.
— Algo me diz que isso vai piorar a situação, ela não precisa ser presa, precisa de apoio. — Falei.
— Eu ainda acho que devemos ligar para a polícia. — Ele cruzou os braços e olhou para mim com cara feia.
— Nós podemos chamar a polícia depois de acalmarmos a situação. — Eu o repreendi e a garota se moveu para me abraçar, o corpo dela tremendo, o choro aumentando, mesmo que não falasse eu sabia que ela precisava de ajuda, que estava no fundo do poço.
— Okay. — Ele falou, olhando para nós e se agachando para cumprimentar a novata.
Ela pareceu me apertar mais quando ele se aproximou, mas não reagiu quando ele tocou o topo de sua cabeça uma vez antes de se levantar e buscar as nossas bicicletas.
Quando a garota se acalmou mais nós finalmente conseguimos ir, ela acabou indo na minha bicicleta e seu peso era relativamente leve para um ser humano da nossa faixa etária, mesmo assim tive que parar para descansar uma vez, eu realmente não sou acostumada com exercícios.
Chegamos em casa e corremos para um computador, digitei a frase "Você sabe ler e escrever?" e ela fez uma cara de quem lutava para entender antes de assentir com a abeça e puxar o teclado para si.
Eu entender pouco. Ela digitou. Entender libras.
Eu assenti e ela continuou digitando.
Por quê me parar?
Puxei o teclado para mim e olhei para meu irmão.
— Eu não sei. — Ele disse, parecendo ansioso.
Nós vimos você, não podíamos te deixar morrer. Digitei. Por quê se jogar? O que fazia lá?
Ela definitivamente não conseguia entender muito bem da escrita, fazia a mesma cara que eu quando tenho que ler um texto em espanhol. Mesmo sendo uma língua familiar, para mim ainda era extremamente complicado. Após quase um minuto ela puxou o teclado para si, pareceu pensar um pouco antes de digitar.
Eu não aguentar. Mundo ir e voltar sem parar, pessoas sem percerber, eu agonizar.
Franzi a testa e olhei para meu irmão.
Ele pareceu mais alerta agora e olhou para mim com um olhar de cúmplice. Nós dois ouvimos o que a minha mãe disse, e nós dois sabemos o peso do que ela nos dizia. Mas então Lucas negou com a cabeça e disse:
— Ela está louca, não é a toa que quer se matar. — Mas havia mais confusão em sua voz, e uma tentativa de auto defesa explicita.
Eu não sabia o que dizer, não sabia como reagir, então apenas perguntei.
Ir e voltar? Como você sabe?
Ela suspirou ao ler e colocou as mãos entre a cabeça antes de começar a chorar, estava visivelmente angustiada. Pegou o teclado em um movimento rápido e digitou: Eu morrer, o tempo todo, família não importar.
Franzi o cenho e olhei novamente para meu irmão.
— Ótimo, sabemos que ela tem família. — Ele disse. — Anda, tenta descobrir quem são, eu não aguento mais essa história.
— Certo... — Falei. — Você pode buscar um copo dágua para ela? — Disse.
Ele assentiu, parecendo feliz em deixar o lugar.
Meu coração bateu mais rápido e peguei as mãos da garota para chamar sua atenção. Ela ainda chorava e soluçava, mas olhou para mim. Apontei para o computador e comecei a digitar.
Eu quero saber mais. Quando voltar para casa diga que encontrou uma amiga, invente uma desculpa, eu irei aprender o que posso de Libras, se puder me ensine, mas preciso saber. Meu nome é Lara, eu vou ser sua amiga, me preocupo com você, mesmo sem te conhecer direito, se você quiser e puder, por favor me ajude. Irei apagar essa mensagem assim que você ler, me passe o número de alguém de sua família, se eles puderem ouvir...
A garota leu tudo um pouco mais rápido do que das outras vezes, talvez notando a minha urgência. Acho que entendeu o principal, pois seus olhos se arregalaram e ela assentiu.
Apaguei a mensagem, já ouvindo os passos do meu irmão e quando ele chegou a tela estava limpa, mas minha consciencia bastante pesada. Eu odeio mentir, principalmente para o Lucas. Claro que brigamos de vez em quando, mas ele é meu maior confidente já tem algum tempo, esconder aquilo dele me custaria bastante.
Irmão – Manuel (85) 9xxxx-xxxx
Olhei para o número na tela e corri para buscar meu celular.
— Ela me deu o contato do irmão! — Gritei, enquanto Lucas entregava a água para ela. Digitei o número com uma pressa absurda e esperei até que alguém atendesse.
— Pois não? — A voz do outro lado falou.
Era uma voz masculina, meio grossa, porém elegante. Eu abri a boca, mas demorei alguns segundos para poder realmente falar algo. Me amaldiçoando por não ter pensado antes eu acabei falando a primeira coisa que me veio.
— O-Oi... — Meu nevorsismo era evidente. — Me chamo Lara, sou amiga da... — Percebi que nem sabia o nome dela. — Sua irmã. — Completei. — E ela passou um tempo aqui em casa depois da minha aula, me pediu para te ligar para buscá-la.
— Sei... — Ele não pareceu acreditar muito em mim. — Me dê seu endereço, eu estou indo.
Falei meu endereço e pedi para que meu irmão esperasse comigo e a garota na sala. Curioso do jeito que meu irmão é ele passou os minutos tentando aprender o alfabeto em libras com ela, e acabou se divertindo bastante.
— Olha Lara! O "e" parece uma pata de macaco! — Ele disse rindo e mostrando para mim.
Comecei a tentar também, afinal eu prometi que aprenderia libras para poder falar melhor com ela.
Acabei aprendendo como fazer meu nome e aprendi também que a garota se chamava Asha Yui. Um nome de origem Hindi, o que combinava com sua aparência. Provavelmente uma descendente de árabes ou ciganos.
Ficamos repetindo o alfabeto de surdos por um tempo até que eu ouvisse a campainha tocar.
Fui abrir a porta e vi dois homens do lado de fora. Ao analizar melhor percebi que um era tão velho quanto eu e o outro devia ser uns 3 anos mais velho do que nós.
Asha olhou para mim e viu os irmãos do lado de fora. Ela fez um aceno com a mão para meu irmão antes de se levantar e vir falar comigo. Eu a puxei e a abracei em um tom protetor, e ela enrolou os braços na minha cintura como se entendesse e agradecesse.
Olhei para seus irmãos, eu definitivamente não confiava neles. Afinal, que tipo de família ignora o sofrimento de uma garota como aquela? Talvez fosse meu instinto maternal despertando, mas eu definitivamente não gostava da ideia de ver alguém cometendo suicídio e dizendo que a família não importava. O que eu interpretei como "eles não se importam".
Ela andou até os irmãos e o irmão mais novo colocou a mão no ombro dela e lhe deu um beijo na bochecha enquanto o mais velho apenas se encostou na parede e bocejou.
Olhei para o mais novo.
Ele tinha a pele parda, meio queimada do sol. O cabelo negro e bagunçado, uma barba meio grande e desleixada, que parecia ter crescido além do ponto, mostrando também que a parte mais volumosa era no bigode e queixo, como um cavanhaque que ele tinha preguiça de manter. Os olhos eram em um tom de café. Ele tbm usava uma camisa com uma mulher com rosto de caveira segurando os próprios peitos e uma bermuda que não combinava em nada, além de chinelos.
Seu visual inteiro gritava: Desleixo.
— Obrigado por cuidar da nossa irmã. — Ele disse, e percebi pela voz que tinha sido ele a atender o telefone. — Eu e o Edu já estávamos ficando preocupado.
Ele engrossou um pouco a voz quando falou do outro irmão que apenas soltou um "Ah é" o que o fez suspirar e voltar sua atenção para mim.
Sorriu um pouco e acenou com a mão antes de começar a ir embora.
Eu fiquei lá, observando eles irem, sem entender muito bem como reagir. Foi só isso? Pisquei algumas vezes, por algum motivo eu esperava mais. Por exemplo um "desde quando vocês são amigas" ou "onde aprendeu libras?", ou até um "eu espero que vocês saiam mais juntas", mas sério, foi só isso?
Okay então.
Fechei a porta e olhei para meu irmão.
— Quer assistir alguma coisa? — Perguntei.
— Tudo menos romance. — Ele disse.
***
A semana passou voando.
Eu comecei a estudar libras, e ignorava totalmente as matérias da escola no estilo "Ah quando as férias estiverem perto eu estudo", o clássico deixar para última hora. A internet facilitava a minha vida de forma belissima, com vídeos me ensinando o básico da cultura surda. Porém eu logo percebi que ainda iria precisar da boa e velha escrita se eu quisesse ter uma conversa de verdade com Asha.
Não falei para meus amigos o que tinha acontecido, apenas falei que tinha visto uma família de surdos no hospital um dia e fiquei curiosa com a cultura deles. Argh, eu odeio mentir, mas minha cabeça gritava que era necessário.
Depois das aulas a semana não me deu folga alguma. Passei terça, quarta e quinta indo para o hospital com meu irmão. Minha mãe não dava sinal de melhoras. Os médicos encontraram alguns problemas em seu cérebro e fígado, problemas que eles não conseguiam explicar. Quando minha mãe acordava ela começava a gritar e a convulcionar, o que os obrigavam a deixa-la quase sempre sedada.
Meu pai estava arrasado e quase não falava.
— É minha culpa... — Ele disse uma vez.
— Não pai... Ninguém poderia ter percebido, ela estava bem, todos nós sabemos. — Falei o abraçando e tentando acalma-lo, mas ele parecia distante e eu não gostava daquilo nem um pouco.
Na noite de quinta consegui arranjar coragem para pedir qualquer contato de Asha com seu irmão e logo ele me enviou o número dela, dizendo que podíamos conversar por mensagem. Tive que inventar uma desculpa de que estava com um celular novo e que havia perdido o número, mas meu deus como eu tinha quase certeza de que ele não acreditou em mim.
— Lucas... Você sabia que existem três famílias de surdos aqui? Grandes por sinal... — Eu disse, dando uma olhada no google e me informando. — Onde diabos eles se escondem? Eu juro que nunca os vi antes.
— Eu acho que vi um deles trabalhando no mercado uma vez, mas foi bem rápido... — Disse. — Nossa, são mais invisíveis do que os nerds da minha sala.
Okay, eu agora me sentia uma idiota por nunca ter percebido isso antes. Vivemos em uma cidade pequena, é natural conhecermos muita gente e eu jurava que conhecia muito mais da metade dessa cidade. Só que perder três famílias inteiras, surdas ainda, me deixou surpresa. Não lembro nem de vê-los conversando com sinais nas ruas.
Aquilo só me deixou ainda mais focada para aprender a língua, e quando eu precisava tirar alguma dúvida com Asha a mesma me ajudava de forma bem paciente, com videos improvisados que ela mesma fazia.
Acabei me apegando mais a ela.
No entanto a sexta-feira logo chegou e eu tinha prometido que esqueceria meus problemas junto com meus amigos por um tempo. Nos encontramos depois da aula e fomos os três no carro da Alexandra. Ela parecia nervosa ao volante, porém eu decidi ficar calada.
Sinceramente eu não tinha saco para soializar agora, mas já tinha prometido para eles e não podia voltar atrás.
Passamos um tempo apenas conversando, com a Alexandra indo até a cozinha e fazendo um lanche completo para nós. Devo admitir que a comida me acalmou muito mais do que eu esperava.
Ficamos mais animados e ai partimos para meu quarto, onde abrimos uma garrafa de vodka e eu até experimentei um pouco. Tinha gosto – e cheiro — de removedor de esmalte.
Deixei que os dois terminassem com tudo e ai enxemos um colchão de ar na sala. Ficamos deitados em frente a televisão, assistindo o filme Cegonhas. Percebi que os dois estavam bêbados quando começaram a rir de qualquer coisa tipo literalmente qualquer coisa.
Meu irmão ficou filmando eles enquanto eu saí de casa para colocar o lixo para fora.
— Ah.. — Ouvi um barulho e me assustei, ao olhar na rua percebi que Daniel passava segurando um saco de pão, com um cigarro na boca. Me encarando meio surpreso.
Não pude deixar de ficar surpresa também e de novo aquele arrepio correu em meu corpo. Fechei os olhos e quando voltei a abri-los ele ainda estava la.
— Hm... Posso ajudar? — Perguntei confusa, de repente percebendo as roupas que eu usava.
Eu estava usando meu pijama cinza de panda com uma calça moletom rosa. O cabelo assanhado, meu halito com cheiro de alcool e sem nenhum tipo de maquiagem. Credo, eu parecia uma mendiga encarando um deus grego.
Ele limpou a garganta antes de dizer.
— Sua amiga me convidou hoje de manhã. — Ele disse.
Pera, ele disse o que?
OII???
— Ah... — Foi a unica coisa que saiu da minha boca.
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