Looking For Felicity
9 Capítulo 08
Notas iniciais
FELICITY SMOAK
Observei os raios de sol iluminarem vagamente o quarto, através da fresta das cortinas. Atrás de mim Oliver dormia calmamente, de uma forma serena. Eu sabia mesmo não o encarando que seu semblante era tranquilo. Eu me perguntava por quanto tempo tudo isso iria durar. Eu sabia que não era certo estar ao seu lado já imaginado o pior, mas era impossível para mim, apenas ignorar a razão pela qual eu havia ido embora. Sim, eu falei que enfrentaríamos isso juntos, mas não quer dizer que eu não temia o que estava por vir, eu sabia que não seria fácil, se tudo acabasse bem no final, tudo valeria a pena. A questão era:
Tudo vai acabar bem?
Virei-me em seu abraço, afastando-me minimamente apenas para poder encara-lo. Ele era tão... Perfeito. Não que amar ele me cegasse completamente para todos os defeitos que Oliver tinha, eu conhecia seus defeitos, eu os odiava e mesmo assim o amava. Eu acho que no final era disso que se tratava amar alguém. Era reconhecer que uma pessoa podia ser perfeita para você, mesmo estando coberta de imperfeições. E agora, eu podia compreender melhor aquela conversa que uma vez tive com Sara quando ela ainda estava se recuperando de ter levado uma bala por mim. Oliver e eu erámos perfeitos um para o outro. E para ser sincera, estar sem ele me parecia mais uma lembrança cruel.
Ergui meus dedos e delicadamente sombreei a linha de sua mandíbula. Delineei os contornos de seu rosto, sua testa e quando meu polegar traçou seus lábios, os olhos de Oliver se abriram, lindos, ainda sonolentos me encaravam como se não houvesse nada mais importante. O sorriso que veio tão rapidamente aos seus lábios não fez nada mais que encher meu coração de felicidade.
— Bom dia. – Murmurei não podendo conter um sorriso em resposta ao seu.
— Bom dia, amor. – Respondeu movendo-se sobre meu corpo seus lábios encontrando seu próprio caminho até os meus. Isso possivelmente era a minha definição de paraíso, ou era para ser, mas um grito feminino nos interrompeu bruscamente. Fazendo com que seus olhos se abrissem completamente, o sono indo embora de vez ao reconhecer a voz de sua irmã. Com urgência Oliver saiu da cama e tão assustada quanto ele o segui apenas me certificando de ajeitar sua grande camisa que cobria meu corpo, parei chocando-me com suas costas e ficando nas pontas dos pés para encarar por cima do seu ombro Thea Queen enrolada em uma toalha branca, a cor pálida contrastando completamente com a do seu rosto que estava incrivelmente vermelho, apenas quando Ronnie saiu do banheiro alguns segundos depois dela foi que compreendi o que havia acontecido.
Oliver definitivamente ia surtar.
— O que diabos está acontecendo aqui? – Oliver soltou enquanto dava um passo em direção a Ronnie. Em uma reação automática o abracei pela cintura impedindo-o de avançar em um dos meus melhores amigos.
Por que Ronnie precisava ser tão idiota às vezes?
O encarei com um olhar acusador. Thea parecia incapaz de encarar Ronnie nos olhos ou qualquer um de nós na verdade. Ronnie se limitou a erguer as mãos como se pedisse calma.
— Eu estava apenas tomando um banho. – Murmurou com seu melhor ar de inocente. – Caitlin está usando o outro banheiro.
— Eu devia ter batido antes. – Thea murmurou rapidamente seu rosto ainda repleto de vergonha.
— Você devia. – Ronnie assentiu apenas para provoca-la.
— Também não seja um estúpido sobre isso. – Thea retrucou.
— Não brigue comigo, eu sou a vítima aqui. – Reagiu indignado.
— Vítima? – Thea repetiu descrente, eu pude notar mais uma vez Oliver ameaçando ir em sua direção, o segurei com mais força.
— Você poderia ter entrado com planos sórdidos. – Ronnie continuou, ignorando completamente a bomba humana em meus braços.
— Certo. – Thea assentiu se aproximando dele o desafiando. – Por que eu definitivamente queria tirar sua inocência.
— Eu sou apenas um homem que estava no chuveiro quando foi abordado pela princesinha Queen. – Deu de ombros.
— Não me chame assim. – Murmurou entredentes.
— Querida...
— Nem disso. – O cortou.
— Minha casa virou uma fodida república. – Oliver meneou a cabeça ao mesmo tempo em que eu encostava minha cabeça em suas costas escondendo um sorriso divertido.
— Para ser honesto, essa é a primeira vez que uma garota grita ao me ver nu. – Ronnie murmurou cruzando os braços sobre seu peito desnudo, o que de imediato atraiu a atenção de Thea até lá, ela logo desviou ao perceber o sorriso cretino de Ronnie em resposta. – Os gritos usualmente vêm com o que eu faço depois. E são bem mais...
— Ronnie!!! – O cortei.
— Eu só estou dizendo, não foi muito bom para meu ego. – Sorriu.
— Eu não acho que seu ego precise ser elevado. – Thea retrucou.
— Thea não há um banheiro em seu quarto? – Oliver perguntou desconfiado.
— Eu costumava usar esse. – Deu de ombros. Ela em seguida voltou a encarar Ronnie. – Eu suponho que deva pedir desculpas, por não ter batido antes, por tê-lo visto... – Respirou fundo e meneou a cabeça. — Em fim, por ter apenas...
— Querida, você entrou e me viu completamente nu. – Ronnie piscou. – Não se preocupe com isso, eu não sou um garoto tímido, e se te faz sentir melhor Oliver e Felicity também já me viram nu. – Deu de ombros passando por Oliver e batendo em seu ombro com camaradagem que irritou profundamente Oliver. – Ao mesmo tempo. – Completou antes de entrar no quarto que dividia com Caitlin e fechar a porta atrás de si.
Soltando Oliver encarei Thea que nos olhava com desconfiança e certo ultraje, demorou apenas alguns segundos para eu perceber que ela ainda estava lidando com a última frase de Ronnie.
— Ele é um idiota que ama se exibir. – Murmurei sabendo que isso bastava para explicar. Ela assentiu.
— É uma pena que o que ele tem para exibir seja interessante. — Thea soltou no exato momento em que Caitlin saía do quarto seus olhos concentrados no seu celular, ainda sem nos encarar e como se tivesse participado de toda conversa ela retrucou.
— Interessante, depois que conheci seu irmão, sempre os achei um pouco parecidos. – Disse com fingida naturalidade. – Mas posso estar enganada. — Thea fez uma careta em resposta. E eu sufoquei uma risada, eu sabia que se eu dissesse que concordava, Thea não seria a única Queen ultrajada com a comparação. Oliver soltou um som baixo em protesto, enquanto Thea ainda meneava a cabeça em negação.
— Jesus não! – Thea meneou a cabeça em negação. – Definitivamente não. – Acrescentou nos dando as costas e voltando para o banheiro. – Urgh. – Soltou realmente estremecendo diante a imagem mental, antes de fechar a porta atrás de si. Caitlin finalmente ergueu a cabeça, um sorriso de raposa em seus lábios.
— Agora ela não está mais pensando nele nu. – Ergui uma sobrancelha, incerta se ficava preocupada ou apenas divertida com o que parecia ser uma onda de ciúmes. – Bom dia casal. – Murmurou passando por nós. – E Oliver? – Parou fazendo com que ele a encarasse com dúvida. – Você é bem vindo a continuar desfilando por aí sem camisa. – Piscou antes de voltar a se afastar.
— Ela realmente piscou para mim? – Perguntou aturdido.
— Quem a culparia? – Perguntei voltando a abraça-lo.
— Você realmente não liga para todo aquele flerte? – Havia a sombra de um sorriso ali, ainda que ele se esforçasse para parecer chateado.
— Ela não flertou com você Oliver. – Neguei sincera. – Ronnie é a figura masculina mais próxima de Caitlin, se você notar bem, ele entrou apenas de toalha e ela saiu quase imediatamente... Para se deparar com você. – Esclareci sério. – Ela não se sente bem com esse tipo de exposição, e proximidade, eu ainda não sei os detalhes, mas só posso imaginar o porquê. Ela brincou por que essa foi à maneira que ela teve de sair de uma situação desconfortável.
Ele voltou a encarar a direção que Caitlin havia tomado, e após alguns segundos em que se limitou a ficar apenas em silêncio, ele murmurou:
— Ela está sempre sorrindo. – Observou.
— Ela é melhor nisso do que eu. – Dei de ombros. Ele suspirou com pesar.
—Eu odeio isso. – Confessou. – Eu odeio tudo o que pelo o que vocês duas passaram. Tudo o que muitas outras ainda passam. – Não respondi a isso. Não havia o que responder, aprendi a não remoer ou questionar o que acontecia na minha vida, comigo, com outras pessoas, com pessoas que amo. Existem pessoas boas, e pessoas ruins, às vezes coisas ruins aconteciam com pessoas boas e ponto. Por que colocar uma interrogação em algo que não seria respondido, ou cuja resposta não me satisfaria?
Encarei o rosto de Oliver e o vi carregado de preocupação, tão diferente de como estava quando acordou. Soltando meu próprio suspiro enlacei seu pescoço e o puxei para mim. Meus lábios encostando-se aos seus levemente, uma pequena e doce pressão, antes de ele empurrar sua língua contra a minha levando o beijo um pouco mais além.
— Eu pensei que eles estavam em quartos separados. – Lembrou-se. – Não foi assim?
— Sim. – Concordei. – Mas acho que os quartos não eram perto o suficiente.
— Eles não moravam em apartamentos diferentes? – Insistiu. Dei de ombros.
— É uma nova cidade. – Expliquei. – eles estão tentando encontrar seu ritmo novamente, não tente entende-los Oliver, seria como pedir que tentassem nos entender.
— Verdade. – Concordou apertando minha cintura e curvando-me levemente em mais um beijo. Quando se afastou seu rosto parecia mais tranquilo, seus dedos passearam pelo meu rosto levemente, seu olhar parecendo perdido em meus lábios.
— Por que não voltamos para o quarto e fingimos que nada disso aconteceu? – Sugeri. – Eu adoraria voltar de onde paramos.
— Isso soa como uma ótima ideia. – Respondeu com um sorriso, seu corpo empurrando o meu pelo corredor sem me soltar. Ontem à noite não fizemos nada além de dormir um nos braços do outro. Apenas apreciando a calmaria antes da tempestade, por que sabíamos que tinha uma tempestade por vir. Oliver poderia parecer incrédulo quanto ao que eu disse sobre Sebastian ser seu irmão, mas ele levava a sério todo o restante, nossa experiência com Ivo nos dizia de que não demoraria muito e algo iria acontecer. Então quando ele me levou para o quarto, pode-se dizer que ainda estávamos seguindo a linha de aproveitar o máximo possível todo e qualquer momento de paz.
As semanas seguintes passaram de forma similar, com visitas ocasionais de Roy, Sara e Tommy e com as constantes provocações entre Ronnie e Thea. Eu não pude deixar de notar certa distância de Caitlin em reação à aproximação dos dois, mas ao mesmo tempo também observei que enquanto Thea gostava de flertar e provocar Ronnie, sua real atenção estava em Roy que ao contrário do que eu esperava, se mantinha afastado da Queen mais nova. Quando comentei o possível interesse de sua irmã em meu irmão com Oliver, ele apenas deu de ombros, não parecendo se importar com isso. Disse que havia notado, mas que Roy parecia interessado apenas em ser seu amigo, quando mudei o foco para Ronnie, Oliver mais uma vez deu de ombros, disse que a única razão pela qual Ronnie flertava com Thea, era por que ambos não iam levar isso à diante, e que ele percebia que o idiota do meu amigo (Palavras dele, não minhas) só tinha olhos para Caitlin.
A cada dia que passava eu ficava mais tensa e Oliver podia notar. Não era apenas a possibilidade de algo acontecer que me deixava com os nervos à flor da pele. Era a demora. Eu não tinha dúvida de que Sebastian já sabia que eu estava na cidade, eu suspeitava de que ele sabia no momento que passei pela placa de bem vindos, seu jogo estava me matando e a resolução de Oliver em me manter presa naquele apartamento provavelmente ia mata-lo. As únicas vezes que saí foi por insistência de Caitlin que bateu de frente com Oliver, ela afirmou que jamais teria apoiado minha volta se soubesse que isso me transformaria em uma prisioneira. Quando saí foi deixando um Oliver irritado e inquieto para trás e mal pude sair do carro enquanto Caitlin ia para mais uma “entrevista de emprego”. Ronnie sempre nos acompanhava, assim como Diggle, mas o primeiro também tinha em mente que estava em busca de uma forma de sustento. Mais de uma vez o vi lançar um olhar preocupado a Caitlin, pois eles não estavam acostumados a viver a custa de ninguém. Eu era ciente que a situação toda os incomodava.
— Felicity? – Suspirei ao escutar a voz de Oliver atrás de mim. Eu encarava os transeuntes através da janela, e me sentia particularmente em um estado de humor não muito bom. – Felicity? – Repetiu agora mais perto.
— Você não devia estar no Verdant agora? – Perguntei sem me virar. Eu não queria ter soado tão ríspida, mas não foi algo que consegui evitar.
— Eu estou indo. – Murmurou parando ao meu lado. Não pude fazer outra coisa senão encara-lo. – Eu não iria antes de me despedir. – Murmurou contido. Era como se temesse provocar alguma reação negativa. Oliver estava ciente que eu estava à borda de uma explosão. – Eu não gosto de vê-la assim, Felicity. – Admitiu.
— Eu não gosto de ficar assim. – Retruquei.
— O que você quer que eu faça? – Perguntou. – Eu quero fazer algo, eu estou tentando fazer algo. – Murmurou mais sério.
— Não é bem o que você pode ou não fazer. – Falei. – A bola não está com nós, não mais. Já fizemos a jogada ousada, eu voltei. Eu voltei e estou aqui, trancada nesse apartamento, vivendo com medo. É como se Ivo não estivesse morto. – Murmurei frustrada. – Eu devia ter aceitado fugir com você. – Meneei a cabeça. – Uma passada em Vegas talvez. — Soltei sem prestar realmente atenção ao que eu dizia.
— Não. – Negou me surpreendendo. – Não assim. – Estreitei meus olhos ao notar a irritação em sua voz e forcei-me a encara-lo. – Não é assim que será nosso casamento.
— Eu não...
— Eu sei. – Assentiu.
— Desculpe. – Suspirei. – Eu não queria descontar em você. Mas eu estou cansada Oliver. Não era para ser assim. Você não ajuda, me mantendo presa aqui. – O notei baixar a cabeça. – Eu quero sair, eu nunca tive um encontro, nem mesmo com você. Eu nunca saí com os amigos, uma parada boba em um bar. Nunca. Mesmo em Gotham eu não me permiti isso. Eu sempre estou na defensiva. Voltar devia significar mudança. Eu voltei e eu sequer visitei Helena ainda. – Murmurei finalmente dando vazão a minha mágoa. – Seu túmulo. Eu quero ir até lá.
— Eu sei. – Respirou fundo. – Eu entendo que esteja inquieta. E eu sei que você só não havia me enfrentado ainda por minha causa. Por que você sabe que pensar em ter você lá fora, com Sebastian podendo ir em sua busca me deixa aterrorizado, pelo o que passamos com Ivo. Eu sei que você tem sido paciente. – Sua mão alcançou a minha, olhando-me com pesar, me deu um sorriso triste. – E eu sei que jamais posso confundir o que disse agora com um pedido. Você está decidida a ir. Então eu não vou tentar convence-la do contrário, só vou pedir que tenha cuidado e que...
— Esteja sempre com Diggle. – Completei sabendo que nisso concordávamos. Ele puxou-me para seus braços e deixei-me ser envolvida por eles. Amando seu calor, adorando seu perfume.
— Eu estou levando Ronnie comigo. – Falou de repente. Afastei-me o encarando com surpresa.
— Ele finalmente aceitou trabalhar no Verdant? – Perguntei confusa.
— Eu preciso dele para mais tarde. – Começou hesitante. – Mas ele parece estar pronto para trabalhar lá sim, a única razão que o fazia negar era Caitlin. – Deu de ombros. Eu estava bem ciente disso. Ronnie queria trabalhar junto a Caity, por que sua prioridade sempre seria protegê-la, mas Caitlin estava acostumada a ser uma stripper. E a não ser que Oliver fizesse algumas mudanças, o Verdant não tinha nada a oferecer a ela.
— O que você vai fazer mais tarde? – Perguntei desconfiada com o que disse. Em sua expressão eu podia dizer que não gostaria do que ele iria dizer, e que ele sabia disso.
— Eu tenho uma reunião com o Sr. Prefeito. – Admitiu. O encarei incrédula e sem saber ao certo como começar meu protesto. – Eu vou encontrar Sebastian Blood.
— Inferno, não. – Neguei. Ele me encarou sem paciência.
— Esperar não é uma opção que quero manter. – Elevou a voz quando eu me afastei dele andando pela sala. A mera ideia de um encontro dos dois me deixando agitada. – Você não acha que eu também estou cansado? – Indagou deixando a irritação tingir sua voz.
— Oliver, não. – Repeti virando-me para encara-lo.
— Como você quer que as coisas se ajeitem então? – Perguntou erguendo uma mão. – Eu não posso continuar te vendo aqui irritadiça e melancólica. Você não acha que eu não quero te levar para um encontro? Eu quero isso. Eu quero mais contato com meu filho também. Nós já sabemos o que ele tem a usar contra nós, e ele ainda não usou, ele quer que eu vá até ele. Precisamos nos sentar e colocar as cartas na mesa. É um jogo de poder Felicity, e eu não posso fazer nada sem saber de que jogo estamos falando. Esse homem tem poder sobre meu filho, sobre você. E se eu não fizer nada, sobre mim. Eu preciso fazer algo.
— Oliver... – Comecei meu protesto falho.
— Ivo nunca me viu como adversário. – Murmurou se aproximando. – Sempre foi sobre você, com Sebastian é diferente, apenas eu posso enfrenta-lo. Eu preciso fazer isso. A única razão por ter esperando tanto desde sua volta, foi por que o desgraçado sumiu do mapa. Apenas hoje pude ter acesso a ele. E pude literalmente marcar uma reunião com ele.
— E isso não te incomoda? – Perguntei frustrada. – Que seja ele que esteja permitindo isto? Não percebe o que isso significa? – Perguntei enquanto meneava a cabeça. — Que podemos ir longe o tanto quanto ele permita.
— Eu vou fazer isso. – Murmurou teimosamente. – Eu vou encontra-lo. E eu posso ir mais longe do que ele mesmo espera, isso é diferente do que foi com Ivo, por que Ivo nunca atuou no meu meio.
— O que isso significa? – Perguntei com cenho franzido.
— Que um prefeito tem muito a perder. – Murmurou dando de ombros.
— Oliver o que me garante que você não vai começar essa conversa o esmurrando? – Perguntei cruzando meus braços. Ele sorriu divertido com o que eu disse. Não era engraçado. Existia uma possibilidade real de isso acontecer, na verdade era bem certo que Oliver cabeça quente Queen ia acabar agredindo ninguém menos que o prefeito de Starling City.
— Ronnie. – Respondeu fazendo com que eu suspirasse em derrota. – O quê?
— O mais certo é que Ronnie segure Sebastian enquanto você o agride. – Neguei. – Leve
Tommy. – Disse em um impulso, surpreendendo a nós dois.
— Eu agradeço a confiança. – Virei-me para encarar Ronnie que descia as escadas, seu semblante indo contra seu tom chateado, como sempre ele sorria. Parecia divertido com tudo isso. – Para ser honesto eu adoraria fazer exatamente o que você disse, mas já fui alertado que não posso agredir o Sr. Idiota.
— Sr. Prefeito. – O corrigi.
— Como eu disse. – Sorriu ainda mais.
— Deus. – Meneei a cabeça e voltei a encarar Oliver. – Leve Tommy. – Insisti, então mudei de ideia. — Melhor, me leve.
— Não. – Três vozes disseram juntas, olhei para a porta para encarar ninguém menos que Tommy me encarando. – E eu já vou junto. – Sorriu.
— Vai? – Perguntei surpresa. Sim eu havia dado a ideia de Oliver o levar, mas com toda nossa história, eu não pensei que Tommy estaria se envolvendo. Eu gostava de Tommy, eu podia ver o homem por quem Sara se apaixonou e aquele que sempre foi o melhor amigo de Oliver. Cada pequeno contato que eu tinha com ele nos últimos dias me mostrava isso. Mas uma parte minha, sempre consideraria que para Tommy, eu nunca deixaria de ser a garota que entrou na vida do seu melhor amigo e fodeu tudo. A razão pela qual sua noiva foi ao hospital após levar um tiro. Uma prostituta qualquer com quem ele havia dormido. Eu era uma ligação que ele nunca pensou que voltaria para assombra-lo.
— Eu preciso evitar que meu melhor amigo cometa alguma idiotice. – Deu de ombros se aproximando.
— Onde está Sara? – Questionei olhando por cima de seu ombro, como se esperasse que ela entrasse também.
— Sua mãe a sequestrou, algo sobre o casamento, eu desliguei minha mente quando começaram a falar sobre distribuição de mesas. – Meneei a cabeça ficando divertida com sua óbvia aflição. – Não se preocupe Felicity, eu estou indo para manter tudo civilizado. E para mostrar a Sebastian o quanto de apoio Oliver tem. Sebastian é inteligente. Ele não pode fazer nada do que ele ameaçou fazer quando a fez ir embora. Não sem entregar a si mesmo. – Seu semblante ficou mais sério quando se aproximou um pouco mais, seu tom diminuindo. — Você deveria ter vindo a nós, teríamos o enfrentado desde cedo. – Suspirei sabendo que em parte ele estava certo. Seus olhos se voltaram para Oliver. – Você vai primeiro para o Verdant, certo? – Oliver se limitou a assentir em resposta. – Ok, então eu vou passar na empresa antes, te encontro depois.
— Está bem. – Oliver concordou. Então hesitou antes de prosseguir. – Tommy, se for muito...
— Eu estou indo junto. – O interrompeu, seu tom mostrando que nada o faria mudar de ideia. . Então voltou a me encarar. – Vai dar tudo certo. – Prometeu.
— Ok. Eu deixo os três mosqueteiros irem. – Murmurei os fazendo sorrir. – Mas tomem cuidado. – Pedi. Tommy assentiu apertando meu ombro de leve antes de se afastar. – Obrigada Tommy.
— Ei, eu estou indo também. – Ronnie lembrou.
— Por que você é um intrometido. – O acusei.
— Eu fui convidado! – Protestou.
— Oh, por favor, você deve ter escutado atrás da porta. – Ronnie me encarou com olhos estreitos e expressão fechada.
— Como ousa...
— Ronnie. – O cortei. Sabia que não passava de teatro.
— Estava entreaberta. – Esclareceu dando-se por vencido. Meneei a cabeça incerta se saberia lidar com a dor de cabeça que teria todo o momento em que os três estivessem fora. Eu não estaria mais preocupada com Oliver apenas, havia Ronnie, o rapaz de sorriso fácil que a contragosto conquistou meu coração e minha amizade, e havia Tommy, quem era tão importante para Oliver, Sara e aos poucos, para mim.
Senti minha mão ser envolvida por outra, e percebi que por um momento eu havia me desligado. Olhei para os olhos carregados de preocupação de Oliver e levei minha mão até se ombro antes de puxa-lo para um abraço.
— É apenas uma reunião Felicity. – Murmurou embora me apertasse fortemente contra si, como assim como eu, não quisesse soltar. Apenas uma reunião. Eu não disse em voz alta, mas antes havia sido apenas uma reunião. Antes de partir eu havia tido apenas uma reunião com Sebastian, uma conversa carregada de tensão, mas disfarçada com seu papo casual, como se de fato estivéssemos discutindo sobre projetos, e números, ganhos e perdas. – Quando eu voltar mais tarde, você irá perceber que esta foi uma boa ideia.
— Eu quero que você se lembre disso. – Murmurei me afastando apenas o suficiente para encara-lo. – Essa é sua única obrigação Oliver Queen, volte para mim. – Sua resposta veio acompanhada de um sorriso.
— Eu acho que já podemos definir que se há uma certeza nessa vida, minha vida. É que eu sempre vou voltar para você. – Murmurou antes de me beijar delicadamente.
— Sempre foi assim? – Escutei Ronnie perguntar a Tommy. Afastei-me de Oliver lembrando-me de que não estávamos a sós. – Esse drama?
— Você não tem ideia. – Tommy retrucou segurando a porta do elevador. O fuzilei com o olhar. – Eu disse alguma mentira? – Provocou-me. Eu poderia ter lhe respondido algo, mas o sorriso de Tommy me fez perder um pouco de minha compostura. Por um instante me vi retribuindo de maneira natural aquele sorriso. Era a primeira vez que recebia um sorriso seu tão aberto e sincero. Admirada com ato perdi o momento em que Caitlin desceu as escadas com pressa.
— Segure a porta para mim, coisa quente. – A encarei surpresa, e podia perceber que o mesmo passava com Tommy que manteve a porta aberta. Sem nenhuma palavra a mais ela me deu um aceno de adeus e passou por baixo de seu braço que ainda segurava a porta. Ronnie me encarou confuso. Tommy que ainda encarava a direção que ela havia saído nos deu um breve olhar antes de segui-la, logo as portas do elevador se fecharam.
— Para onde ela está indo? – Perguntei a Ronnie. Ele deu de ombros parecendo realmente não saber a resposta. – Você não vai segui-la? – O questionei agora preocupada com o fato de tudo o que tenha feito ter sido colocar as mãos no bolso e encarar o chão, seu bom humor havia ido embora.
— Não estamos mais em Gotham. – Respondeu prontamente. – Ela pediu por espaço, estou lhe dando. – Respirei fundo ficando cada vez mais preocupada com aqueles dois. – Não se preocupe. Eu sempre sei o que está passando na cabeça de Caity. Ela só está um pouco desconfortável com toda situação após nos mudarmos. Mas logo estaremos como antes. – Prometeu-me embora para mim não tenha soado com tanta convicção.
Percebendo que não havia me convencido optou por mudar de assunto, voltando a se concentrar em Oliver e seus planos.
— Então? – Murmurou trazendo um sorriso ao seu rosto. – Quando saímos, Ollie? – Oliver revirou os olhos diante a insistência em chama-lo pelo infame apelido.
— Agora. – Oliver respondeu vindo até mim. – Como eu disse, nós vamos ao Verdant e...
— E então vão encontrar Sebastian. – Completei sem ânimo. – Oliver, eu sei que posso estar soando chata e insegura, e talvez um pouco sem fé em vocês, mas você tem certeza que quer fazer isso? – Perguntei levando minhas mãos até seu pescoço, meu polegar acariciando levemente seu rosto. Tentei não deixar minha preocupação tão na borda, mas era impossível. – Eu tenho a sensação que essa é uma péssima, péssima ideia. Por favor, não vá. – Pedi.
— Eu não queria que você fosse até Ivo. – Lembrou-me. – Tudo gritava em mim, para não deixa-la ir. Mas eu respeitei sua decisão, e mesmo que essa não seja exatamente a mesma situação, eu preciso que você confie em mim. Preciso que me deixe fazer isso por você, por nós. Por nosso futuro juntos.
— Oliver...
— Tudo o que eu quero é uma pausa. – Soltou cansado. – Nós não temos uma fodida pausa, sempre surge algo, eu estou cansado disso. Dessa vez, por favor, confie em mim.
Baixei minha cabeça incapaz de encontrar seus olhos com os meus. Eu sabia do que isso se tratava, eu fui embora, eu não confiei nele para tentar resolver isso antes. Ele precisava fazer algo.
— Eu sei que já disse uma vez. – Murmurei finalmente o encarando. – E eu sei que na primeira vez que o disse foi de forma amargurada, ressentida, apenas uma maneira de dizer “cai fora”, eu não te conhecia na época, eu ainda não te amava. – Ele estreitou os olhos, tentando compreender onde eu queria chegar. — Então, embora as palavras sejam as mesmas de antes, entenda que quando eu digo isso agora, é em um contexto completamente diferente, mas Oliver... Eu não preciso que você seja meu herói. Eu não quero. Não se isso te coloca em uma posição que Sebastian Blood possa tirar vantagem.
— Felicity...
— Eu não estou te impedindo de ir. – O cortei. – Eu só estou pedindo que tenha cuidado, não confie e não acredite em nada que Sebastian possa dizer. – Ele assentiu concordando. – Ok. Vá. – Murmurei o soltando, ou eu seria incapaz de deixa-lo partir. – Eu vou aproveitar e visitar... O túmulo de Helena. – Ele me deu um sorriso triste antes de se inclinar para me beijar levemente.
— Nós vamos ficar bem. – Ronnie murmurou me encarando com um sorriso reconfortante.
— Eu sei. – Menti enquanto os via partir.
Caminhei até a cozinha apenas para ter uma ação e olhei em volta. Eu raramente cozinhava aqui, Oliver sempre tinha alguém deixando tudo pronto, e em algumas vezes ele me surpreendeu ao cuidar muito bem de tudo e fazer um jantar até mesmo melhor do que eu fazia. Nunca gostei muito de cozinhar, a verdade era que eu sabia apenas o necessário e mais de uma vez me vi comendo algo no Big Belly, aqui, no entanto, eu ainda não tinha parado para tentar nada. Agitada e incapaz de me manter quieta por mais que tentasse, resolvi dispensar a comida pronta e fazer algo enquanto esperava Thea chegar com Diggle.
— Isso está cheirando bem. – Acordei de meus pensamentos enquanto fechava o forno e me virava para encarar Roy.
— Todo mundo tem livre acesso aqui? – Perguntei lembrando-me que nada havia denunciado a chegada de Tommy também.
— Ok, eu esperava uma recepção um pouco mais calorosa. – Murmurou seu sorriso se esvaindo.
— Desculpe. – Sussurrei indo até ele e o abraçando. – Estou um pouco ausente hoje. – Confessei.
— Isso tem algo a ver com Oliver e sua turma fazendo uma visitinha ao prefeito? – Perguntou se sentado em frente à bancada e me puxando junto consigo. Sentei em um banco em frente a ele e apoiei meu queixo sobre minha mão aberta, meus dedos dando pequenas e leves batidas em meu rosto.
— Então você sabia. – Murmurei.
— Não faça bico. – Ralhou encostando seu indicador em minha testa. – E nem fique tão preocupada. Eu só sei por que ele me contou tem pouco tempo, quando chegou no Verdant. – Informou-me. – Diggle vai se atrasar, ele não queria você sozinha aqui, ele não descarta a possibilidade de ser uma armadilha, então ele quer que eu a leve ao cemitério. Ele preferia que fosse Diggle, mas no momento eu sou a melhor opção. Seria melhor irmos antes que escurecesse. – Concluiu ficando em pé.
— Tentando compreender como o cemitério é mais seguro para mim. – Falei desligando tudo. Eu estava apenas brincando.
— Ambos sabemos que mesmo na morte, Helena jamais deixaria alguém chegar perto de você. – Brincou. Soava errado, fazer piada sobre isso, mas não pude evitar sorrir, por que era o tipo de piada que Helena estaria fazendo.
— Como você vai me levar? – Perguntei o seguindo até a saída. – Vamos a pé? – Ele me encarou como se agora fosse eu que tivesse feito uma piada de muito mau gosto.
— Oliver me mandou pegar essas aqui. – Falou erguendo as chaves de um dos carros de Oliver, eu não entendia muito bem de modelos de carro, mas sabia que qualquer um traria esse sorriso idiota no rosto de Roy. Eu nem sabia para que Oliver tinha mais de um carro, ele só podia dirigir um por vez, para que ter outro? Nunca fiz essa pergunta por que eu quase tinha certeza que seria recebida com um olhar magoado. Garotos, nunca se pode zombar de seus brinquedinhos. – Pronta?
— Quando você tirou sua carteira? – Perguntei entrando no elevador. Roy se encostou no fundo, um sorriso maroto em seu rosto era minha resposta. – Roy Harper, você tem carteira, certo? – Insisti. O bastardo esperou o elevador para até verbalizar sua resposta.
— Não se preocupe. – É claro que a frase teve o efeito contrário em mim. — Eu sei dirigir melhor do que muita gente que tem carteira. – Respondeu. – Agora. – Corrigiu-se. — Mas não conte ao seu namorado que eu não tenho, ou nunca mais ele vai me deixar chegar perto de um de seus bebês. – Falou saindo em minha frente. – Ou de você. – Completou abrindo a porta do carro para mim. – E eu gosto de ficar perto da minha irmã.
— Então eu aconselho você a tirar a maldita carteira. – O repreendi. – Logo.
— Entendido. – Fez continência, e não importava o quanto eu ficasse irritada com ele, eu logo estava sorrindo com sua brincadeira. O caminho até o cemitério foi rápido, em parte por que Roy preencheu cada momento de silêncio, não me deixando pensar muito nos três homens tentando bancar meus heróis.
Quando por fim parei em frente ao túmulo, Roy disse que ia se manter um pouco afastado. Ele disse que este não era um momento a ser compartilhado, mesmo por ele. Eu não disse nada para mantê-lo comigo, por que eu sabia que ele estava certo. Então apenas o observei se afastar antes de me concentrar novamente na lápide com seu nome. A frase abaixo chamando minha atenção pela primeira vez.
“Estimada noiva e amiga”
— “Estimada amiga” – Li a frase. – Eu realmente estava fora de mim, não é mesmo? – Sacudi minha cabeça prometendo a mim mesma que mudaria isso o mais breve possível, ou havia chances reais de Helena surgir do além apenas para me atormentar por ter cagado até mesmo sua morte. – Dessa vez eu não tenho nada a dizer, eu só sentia sua falta. Eu sempre sinto. – Dei de ombros. – Então desculpe se hoje eu vou apenas ficar aqui em silêncio. Nós duas sabemos que até o silêncio funcionava conosco. Principalmente o silêncio. – Murmurei me abaixando para sentar sobre a grama e fazendo o que eu havia prometido. Ficando em silêncio.
CAITLIN SNOW
Entrei no bar segurando um suspiro de aborrecimento.
Mais uma busca sem resultado.
O que uma garota precisava para encontrar um clube de strippers decente? Não é como seu eu estivesse sendo muito exigente. Só queria algo parecido com o que eu, Ronnie e Felicity, tínhamos em Gotham. Meneei a cabeça percebendo a real razão da minha aflição. Talvez a frase certa fosse “Eu queria que jamais tivéssemos saído de Gotham”.
Mas não era justo.
Não era justo com Felicity e Oliver.
E não vinha sendo justo com Ronnie também.
Fui eu quem sugeriu vir com Felicity, e eu não chegava realmente a me arrepender do ato. Eu estava acostumada com mudanças, eu vivia de mudanças, de fugir do meu passado. Eu entedia como era importante para Felicity parar de fugir e ficar com quem ela amava, com sua família. Então, a frustação que eu sentia nesse momento, era apenas por que eu não estava acostumada a não ter algo com o que me ocupar, mesmo sendo apenas uma stripper.
— Você só vai sentar aí e suspirar ou vai pedir algo docinho? – O barman perguntou parando em minha frente, ele mal me encarava, sua atenção já voltada aos outros clientes, preocupado com possíveis pedidos. Abri minha boca para responder que era exatamente isso que eu ia fazer quando senti sua aproximação, olhei diretamente para seu grande corpo parado ao meu lado, meus olhos apenas passeando por seus cabelos escuros até fixar minha atenção em seu rosto, já conhecido por mim.
— Duas cervejas. – Murmurou sentando ao meu lado lançando um olhar arredio para o homem mais velho. Meneei minha cabeça, cansada de sua atitude protetora. Ele entendeu errado meu ato por que me encarou diretamente. – Você não precisa beber se não quiser, apenas não fique em um bar sem pedir nada. É patético.
— Então, você decidiu parar de me seguir nas sombras e entrar aqui para me aborrecer. – Murmurei irritada. – Eu pensei que você e Oliver iam bancar os machos alfas ou coisa do tipo, Sr. Merlyn.
— Eu não sou mais “Coisa quente”? – Perguntou fingindo mágoa. – Eu estou magoado.
— Eu... – Comecei, mas fui interrompida pela bebida que foi colocada em minha frente com certa brusquidão. Respingos atingindo minha blusa. Tommy Merlyn lançou um olhar azedo ao barman.
— Vamos nos manter educados, sim? – Seu tom baixo recebendo um aceno em resposta afirmativa de imediato. Logo sua atenção voltou para mim, dessa vez acompanhada de um sorriso. – Você dizia? – Meneei a cabeça, divertida com a rápida transformação.
— Eu apenas o chamei de coisa quente, por que eu não conseguia me lembrar do seu nome na hora. – Dei de ombros enquanto esclarecia isso.
— Oh, isso é rude Caitlin. – Murmurou levando sua cerveja a boca.
— Por que você me seguiu, Sr. Merlyn? – Perguntei confusa. Minha unha arranhando o balcão desgastado. Não deixando de notar sua ênfase ao dizer meu nome.
— Por que você continua me chamando de Sr. Merlyn? – Desviou minha pergunta com outra.
— A outra opção é Sr. Noivo. – Respondi com um sorriso esperto. Ele revirou os olhos com meu claro alerta.
— Você pode me chamar de Tommy, Sara não liga. – Disse sem se alterar. – E eu prefiro Tommy. Sr. Merlyn é meu pai, e você odiaria meu pai, eu odeio. – Murmurou como se falasse que odiava o frio.
— Problemas com o pai. – Murmurei tentada a segurar a maldita cerveja só em pronunciar a frase seguinte. – Eu tive também.
— Mesmo? – Indagou me encarando com cuidadoso interesse. Como eu não disse nada mais ele pareceu perceber que esse não era um terreno que estaria explorando. – Meu pai é o tipo idiota, traidor, mesquinho e ignorante, ele era incapaz de amar alguém fora minha mãe. Ela morreu e com ela sua capacidade de sentir qualquer bom sentimento, qualquer um que o fizesse mais humano, mesmo para seu filho, mas eu não acho que seja nada muito impactante, que tenha me traumatizado. – Concluiu deixando-me perceber que ele estava comparando sua experiência com a minha, decidindo que eu havia passado por mais, ainda que ele não soubesse o quê.
— Meu pai era um idiota, mesquinho e muitas outras coisas que eu não quero me lembrar no momento. – Falei lhe dando um pouco de mim, já que ele havia feito o mesmo. – Ele não só não se importava com a filha, como às vezes ele parecia esquecer que tinha uma.
— Soa como um idiota completo. – Assentiu.
— Ele era. – Concordei.
— Era? Ele morreu? – Questionou.
— Quando você vai me dizer por que me seguiu? – Perguntei temendo o rumo que ele estava seguindo e ansiosa para desviar. Eu jamais voltaria a pensar naqueles dias novamente. Eu fugi de tudo aquilo, e uma conversa com o Thomas Merlyn não ia me levar de volta. Eu me negava. Eu mal havia notado esse homem até hoje, quando ficamos naquele elevador, no mais absoluto silêncio. Ele havia se encostado contra a parede lateral e fingia olhar o painel, mas eu podia sentir que na verdade ele me encarava, me avaliava, como se buscasse me entender, e era estranho.
Eu nunca havia falado com ele, não mais o que se diz quando você encontra o amigo de seu anfitrião na casa que você é hospede. Sempre que ele chegava eu estava saindo, então basicamente eram cumprimentos vagos. Hoje eu soltei a primeira coisa que veio em minha mente quando ele entrava no elevador, por que eu realmente havia esquecido seu nome por alguns meros segundos, segundos esses que serviu para me constranger. Eu jamais deveria tê-lo chamado assim, podia ter passado a ideia errada, já que ele estava aqui. Ele também esteve em cada lugar que fui desde que eu saí do apartamento de Oliver. Eu suponho que não era para eu notar que ele me seguia, mas além de ser muito ruim se escondendo, eu era muito boa em notar esse tipo de coisa.
Eu precisava ser.
No começo eu tinha ficado assustada, mas quando o vi através do reflexo de uma janela, afastar um cara de quem que eu já havia dispensado o convite de uma rapidinha no beco, eu contive um sorriso. Tommy Merlyn estava me protegendo, e embora fosse adorável, era também confuso. Por que eu nunca falei com ele, eu falei com sua noiva. Sua linda, carismática e simpática noiva.
O observei evitar a pergunta mais uma vez, dessa vez optando por tomar mais alguns goles de sua cerveja, tomando tempo para si. Alguma coisa me dizia que ele mesmo não sabia o por que. Talvez sua demora em responder.
— Então? – Insisti. – Olhe se você achou que eu estava flertando com você...
— Não seja idiota. – Cortou-me. O encarei indignada. – Perdão, eu nunca havia chamado uma garota de idiota, eu juro. – Merda, o comportamento de menino arrependido também era adorável.
— Eu não quero saber se você já chamou uma garota de idiota antes, e o fato de ser sua primeira na verdade é ainda mais insultante. – Falei fazendo com que ele sorrisse em resposta. – Não sorria, não é engraçado. Eu estou brigando com você, não contando uma piada, meu ponto é: Nunca mais me chame de idiota.
— Certo. – Assentiu. – E meu ponto é: A ideia de achar que você estava flertando comigo é idiota. Você é amiga de Felicity, assim como Sara, minha noiva. Eu posso dizer que Felicity escolhe bem seus amigos, você jamais daria em cima de alguém que já está comprometido.
— Tantas palavras e nenhuma delas respondem minha pergunta. – Retruquei. – Se você não vai me di...
— Você estava só. – Soltou de repente. – Você pode não ter me notado muito, mas eu notei você. – Pisquei surpresa com o que disse. Por ter chamado sua atenção. – Não da forma errada. – Apressou-se em explicar. – Por razões pessoais, às vezes... Maioria das vezes na verdade, eu não me sinto bem perto de Oliver e Felicity, mas Oliver é meu melhor amigo, e Felicity é uma boa pessoa, e Sara ama eles dois, então eu não posso apenas evita-los. – Deu de ombros. – Então, quando eu estou lá eu presto atenção em tudo, exceto eles, e eu prestei atenção em você. Você sempre está saindo, o que me diz que lá também não é um lugar que você queira ficar por muito tempo, como hoje, mas diferente de hoje, você nunca esteve só. Seu namorado...
— Ele não é meu namorado. – O interrompi.
— Mas ele quer ser. – Falou voltando a encarar sua cerveja. – Em fim, eu te segui por que você estava sozinha, e aqui pode não ser Gotham, mas Felicity pode te dizer o quanto Starling City pode ser perigosa.
— Ela me disse. – Assenti. – Ela me disse para ficar longe do Glades nessa minha busca por emprego. Ela me disse várias coisas, inclusive a razão por que você fica todo incomodado perto dela e de Oliver. – Falei o surpreendendo. – Você dois...
— Sim. – Interrompeu-me.
— Por que isso te incomoda tanto? – Perguntei virando-me para ele. – Foi antes de qualquer história entre eles dois, entre você e sua noiva...
— A questão não é essa. – Negou firmemente.
— É por que ela não foi uma transa aleatória? Alguém que você conheceu em uma boate? — Continuei o pressionando. – Por ter pagado por sexo? Por Felicity ter sido uma prostituta... – Sondei.
— Sexo é para ser divertido. – Falou parecendo perdido. – É para ser algo despretensioso, um acordo mútuo entre duas pessoas que se sentem a vontade com o corpo uma da outra, que deseja isso. Eu não me lembro de nada daquela noite, eu estava bêbado, eu não estou dizendo que nunca fiquei bêbado antes, ou que nunca tinha dormido com uma prostituta, mas eu sempre, sempre faço questão de ter certeza que aquilo é o que a garota quer. – Respirou fundo. – Eu não tenho essa certeza com Felicity, e a história dela? Eu não consigo lidar com o fato de que na história de Felicity, eu posso ser um dos seus vilões. Eu perguntei a ela, mas ela diz que não foi nada demais, outro cliente qualquer, eu me sentiria melhor, se eu não soubesse que por trás de cada encontro de Felicity ela na verdade desejou ter dito não.
— Mas ela não disse. – Falei entendendo seu conflito. – Ela era uma prostituta, e muitas vezes ela não querer, não importa, por que ela consente. Isso é uma merda, mas é a verdade. Pessoas não entende a diferença entre consentir o acesso ao seu corpo ou não quando se tem uma profissão em que você vende seu corpo, que diferença isso faz quando ela ganha dinheiro assim não é? – Meneei a cabeça. – Ela não disse não Tommy, por que por um longo tempo já não importava para ela, por que o dinheiro importava e por que ela era pressionada a isso, mas Tommy? Eu não o conheço muito bem, mas de alguma forma, talvez por que você passou as últimas horas me protegendo nas sombras, de alguma forma eu sei, que você é o tipo de cara que teria parado se ela tivesse dito não, bêbado ou não. Felicity sabe disso também. Ela não se sente bem perto de você, mas sabe por quê? Por que ela sabe que você se sente incomodado perto dela. Você não se lembra de nada, mas não está permitindo que Felicity esqueça.
— Eu não queria deixa-la...
— Eu sei. – Falei lhe estendendo minha cerveja ao perceber que já havia acabado a sua. – Então, apenas relaxe ok? – Pedi tentando fazer o clima mais leve. — Eles estão juntos, se amam e não tem espaço para sua culpa nesse relacionamento. Você é o melhor amigo de Oliver e eu tenho certeza que Felicity lhe respeita muito, ela gosta de você e se importa com você, ela já conheceu vilão o suficiente para saber que você não é um deles. – Sorri. – Sua cerveja está quente. – Apontei.
— Apenas por que não era minha. – Sorriu de volta. – Coisa quente.
— Eu não acho que sua noiva concordaria com isso. – Falei. Ele meneou a cabeça com um sorriso triste.
— Sara não é do tipo que tem ciúmes. – Falou simplesmente. Por alguns momentos ficamos em silêncio. Eu me perdi tentando compreender sua fr5ase, por que ele parecia tão chateado com isso. Geralmente não isso que homens querem? Uma mulher que não fique com ciúmes. – Cailtin?
— Sim? – Perguntei curiosa com seu chamado.
— Obrigado. – Murmurou sério. – Por me escutar.
— Obrigada por me escoltar. – Dei de ombros, não achando que o que eu fiz foi lá grande coisa, eu apenas falei o óbvio.
— Eu estava te seguindo. – Corrigiu-me.
— Estava. – Sorri.
— Você me percebeu de imediato. – Meneou a cabeça divertido. – Devo ter parecido ridículo. — Não pude evitar ri ao me lembrar.
— Estava. – Repeti.
— Por que você está indo nesses lugares? – Questionou-me.
— Eu sou uma stripper. – Dei de ombros. – É nesses lugares que trabalho.
— Não precisa ser assim. – Encarou-me me analisando. — Só por que você era uma stripper, não significa que você tenha continuar sendo uma.
— Não tente me salvar. – O alertei. – Eu não preciso, hoje foi adorável, mas eu sei lidar com isso, e ser stripper? É o que gosto de fazer.
— Você realmente gosta disso? – Perguntou descrente. – Ter homens lhe olhando com cobiça, homens que provavelmente vão se masturbar pensando em você? – O encarei surpresa por não ter medido palavras, parecia que Tommy Merlyn estava confortável em falar comigo, de verdade. – Eu não entendo.
— Não é que eu goste de ser a fantasia erótica de alguém. – Neguei. – Não é que eu queira isso. É sobre controle. Esse é meu corpo. – Murmurei fazendo que no ato e sem que ele percebesse, ou se contivesse seus olhos passassem por meu corpo. – Eu gosto do fato de que sou eu a tirar as roupas, até onde eu queira ir. Eu posso mostrar o quanto eu quiser a quem eu quiser, quantos quiser e não fazer nada sobre isso. Só eu, sem ter que fazer...
— Sexo. – Franziu o cenho. Sua mão segurou a minha, o calor me surpreendendo. Eu não era tocada por outro homem fora Ronnie, em anos. – Caitlin, o que diabos aconteceu com você? – Questionou-me fazendo com que eu perdesse a voz e o raciocínio. Ronnie já havia me perguntando isso e de certa forma ele sabia, não de tudo, mas de grande parte. O suficiente. Abri minha boca incerta do que diria, mas seu celular tocou fazendo com que nós dois pulássemos surpresos. Sua mão soltou a minha e ele logo levou o celular a orelha. Permiti-me distanciar da conversa, mas tive o suficiente para perceber que se tratava de Oliver, ao que parecia já estava na hora do confronto com Sr. Idiota. – Eu preciso ir. – Falou após alguns momentos em silêncio. A tensão ainda era presente por que ele sabia o que eu estava prestes a lhe contar, ao menos a parte mais básica, a que dava para se deduzir. – Eu vou te colocar num táxi, então me encontrarei com Oliver.
— Eu prefiro ir com você. – Falei o surpreendendo. – Provavelmente, não vai ter ninguém no apartamento e eu não tenho mais lugar para ir hoje à noite.
— Eu preferia te manter longe de tudo isso. – Confessou.
— Eu prometo ficar no carro. – Falei com sinceridade. – E depois eu posso voltar com Ronnie.
— Está bem. – Cedeu. – Mas fique atenta, fique no carro e qualquer coisa ligue para um de nós, eu vou lhe passar meu número. — Deixou algumas notas sobre o balcão e aguardou que tomasse sua frente suas mãos guiando-me levemente, nenhum toque invasivo. Apenas quando parou segurando a porta do carona aberta, foi que voltou a falar, me parando no ato de entrar. – Eu gostei de conversar com você hoje, deixou-me mais tranquilo, há muito tempo não tenho esse tipo de tranquilidade, então, eu peço que se um dia você sentir que realmente precisa de alguém que a escute, alguém de fora, eu estou aqui. Eu posso te escutar. Eu quero.
— Obrigada. – Assenti. – Eu posso dizer mesmo. – Sorri. Dei-me conta que Tommy Merlyn havia feito algo que só Ronnie e Felicity tinham conseguido até então, desde o momento em que o vi no reflexo daquela janela quebrada, ele tinha me feito sorrir, sorriso verdadeiros, sem disfarce.
Eu gostei disso.
FELICITY SMOAK
— O que você acha de comprarmos uma pizza? – Roy perguntou conduzindo o carro através das ruas.
— Depois daquele tanto de comida que eu fiz? – Perguntei o encarando com aborrecimento. – Roy Harper você vai comer tudo aquilo nem que eu tenha que forçar garganta abaixo.
— Desculpe, eu tinha esquecido. – Murmurou desviando o seu olhar de volta para as ruas. – Ou tentei. – Completou ranzinza. O encarei surpresa.
— Você disse que o cheiro estava bom! – Protestei.
— Eu menti. Você parecia triste. – Deu de ombros.
— Eu não cozinho mal. – Falei em tom firme.
— Não. – Concordou. – Mas certamente deixou algo queimar hoje.
— Está bem, você ganha sua pizza. – Concordei. – Mas antes passe em uma farmácia. Eu preciso de algo para dor de cabeça. – Ele me encarou preocupado.
— Você parecia bem. – Murmurou apreensivo.
— Eu estou preocupada. – Suspirei. – E isso literalmente me dá dor de cabeça, então seja um bom irmão e desça do carro e compre algo para mim, certo? – Pedi. Ele assentiu concordando.
— Tem uma perto da pizzaria que tenho em mente. – O encarei incerta.
— Não é nada no Galdes, espero. – Murmurei em alerta.
— Há limites que posso ultrapassar com Oliver, e esse não é um deles. – Negou. — Eu jamais lhe levaria para o Glades, e não é só por Oliver. – Por um longo momento ficou em silêncio apenas atento às ruas novamente, tornou a falar apenas quando paramos. Suspirou enquanto parava o carro na vaga mais perto. – Eu não a quero por lá Lis.
— Eu sei. – Assenti.
— Eu volto logo. – Prometeu tirando o cinto. – Qual é o que você é alérgica mesmo? – Perguntou voltando-se para mim.
— Quer saber, esqueça, eu mesma vou. – Falei tirando meu cinto, ele colocou as mãos em cima me impedindo. – O quê?
— Não. Você fica. – Ordenou. – Eu só me dizer o nome, pelo amor de Deus.
— Você sempre esquecia. – Lembrei. — Ás vezes eu pensava que você queria me matar. – Falei terminando de me soltar. – Por que eu sempre digo qual, mas você sempre dá um jeito de trazer ele, mesmo que misturado com outro.
— Então eu vou junto. – Falou abrindo a porta.
— Roy, pare. – Pedi. A contra gosto ele voltou a fechar a porta. — Não seja como Oliver, eu estou em uma farmácia aleatória, não é perigoso. Será mais rápido se você ficar aqui, e parar de me atrasar, mantenha o carro ligado e logo estaremos indo pegar sua maldita pizza. Eu juro que às vezes vocês garotos me deixam louca. – Resmunguei abrindo a porta, ainda o observei se ajeitar emburrado enquanto meneava a cabeça, não pude evitar sorrir com essa cena. – Eu prometo que não demoro. — Falei mais calma, o encarando através da janela.
Entrei na farmácia ainda com um sorriso no rosto e aproveitei para pegar remédios o suficiente para não ter que fazer uma segunda viagem nem tão cedo, e já que estava aqui por que não levar mais camisinhas? Eu podia imaginar o olhar que isso colocaria na cara de Roy, divertida com a ideia passei tudo, já estava pagando quando mais coisas atraíram minha atenção no balcão. Acrescentando mais esses itens fui até o freezer e peguei um refrigerante, meneando a cabeça e deixando a ideia de lado paguei por tudo, mas lançando um olhar através das portas grandes de vidro, encarei o carro de Roy mais longe, ainda demoraria chegar em casa e eu continuaria preocupada, então voltei a encarar o balconista.
— Será que eu poderia usar seu banheiro? – Perguntei com um sorriso. Ele assentiu e sem demora me apontou a direção, nos fundos. Não me demorei muito, apenas o tempo necessário, minha cabeça cheia demais com Oliver e o encontro com Sebastian para me deixar pensar em qualquer outra coisa. O banheiro pequeno estava me sufocando, e o fato da pia ser do lado de fora era um inconivente. Encarei minhas mãos enquanto as lavava, percebendo tardiamente os leves tremores, respirei fundo me controlando, peguei o papel toalha e me encarei no pequeno espelho, meu coração disparando quando vi a figura masculina refletida no espelho, seu sorriso me aterrorizando. Eu sabia que deveria ter gritado, como qualquer outra pessoa faria, mas a surpresa, o medo, me manteve incapaz de fazer qualquer protesto.
— Você deveria estar morto. – Falei em um fio de voz.
— Esse sempre foi o plano. – Murmurou segundos antes de sua mão cobrir a minha boca com um pano. Finalmente encontrei energia para protestar, para debater, mas aqueles segundos de hesitação foram tudo o que ele precisou, eu fui tola, fui manejável, meus esforços não era nada para ele, não demorou muito e logo eu pude sentir lentamente minha mente se esvair. Em poucos segundos abracei a inconsciência, ciente de que ela seria preferível ao que quer que viesse depois. Eu sabia que quando eu acordasse, a partir dali, apenas a definição de inferno caberia.
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