Notas iniciais
Boa noite!! Então maioria de vocês sabem por que estou aqui, mas vou explicar ainda assim. Bem, teve aquela votação pelo o site do E! em que Olicity estava enfrentando outro aí, estávamos perdendo e tentando incentivar (E um pouco desesperada com o resultado) Eu falei que caso Olicity virasse o jogo e ganhasse eu estaria postando um capítulo no dia seguinte ao fim da votação, e que vocês escolheriam através de enquete qual seria. Bem, perdemos, mas eu reconheço o esforço dos que conheço, pela enquete a fic postada hoje seria REDENÇÃO, mas como perdemos e esse na verdade é um prêmio de consolação a escolha foi minha, então aqui estou com LFF. Eu quero dedicar o capítulo de hoje a Iza, minha amiga a quem estou devendo uma one de aniversário, eu sinto muito, eu sinto mesmo por não ter postado sua one. Mas você sabe o que vem acontecendo comigo e por que eu não estado animada para escrever, ainda assim eu espero que este capítulo esteja altura de uma pequena substituição e espero que você goste. Love U. Boa leitura.

Entrei no bar apenas pela necessidade de sair das ruas escuras de Gotham.

Eu vivi por muito tempo no Glades, um lugar sombrio e sem esperança, eu estava acostumada a cenários frios, desprovido de qualquer calor e alegria, lugares onde o silêncio é preenchido por nada além da sensação sufocante que era o medo, mas de alguma forma Gotham parecia ainda mais sombria do que o lugar de onde vim. O que era por si só revelador e desanimador.

Caminhei ignorando os olhares atentos que eu atraia e após observar rapidamente minhas opções resolvi sentar ao lado da figura feminina e solitária e que mais se assimilava a “confiável”. Eu não queria impulsionar uma conversa, tudo o que eu queria era evitar sentar ao lado de qualquer um dos homens que me lançaram olhares cheios de desejos e evitar por alguns momentos as ruas lá fora e a sensação de que eu não tinha para onde, ou o quê voltar. Droga, isso quase me fez desejar uma bebida. Tão logo sentei diante do balcão um homem de aparência simpática que contrastava com sua clientela me dirigiu um pequeno sorriso.

— Do que você precisa meu anjo? — Resolvi segurar minha língua ferina que nos últimos dias voltou a assumir minhas respostas sarcásticas e me limitei a lhe dar um breve aceno.

— Água está bom. — Exibiu um olhar exasperado, afinal o pesadelo de um bartender é alguém entrar no seu bar e pedir água.

— Sério? — Perguntou sem humor, dei de ombros não dando importância ao seu ar ofendido.

— Estou tomando remédios. — Menti. — Não é bom misturar. — Ele soltou um suspiro resignado e virou- se se afastando.

— Água. — Escutei a voz feminina repetir em tom debochado. Virei-me parcialmente a encarando, um sorriso divertido dominava seu rosto, ela me avaliava como se eu tivesse vindo de outro mundo. — Você entra em um bar, um pouco barra pesada até, e pede água — Inclinou a cabeça como se tentasse me desvendar.

— Estou com sede. — Murmurei dando de ombros. Bufou. Ela realmente bufou. Uma reação tão Helena que por um momento me perdi sentindo o pesar que nunca ia embora.

— Eu consigo imaginar que há uma história ai. — Falou apoiando-se no balcão. Sua atitude desinibida e falante parecia vir da bebida quase acabada em sua frente, eu podia imaginar que antes daquela houve muitas outras, o homem que ao que parecia tinha ignorado meu pedido voltou a encher seu copo com o liquido transparente com rodelas de limão dentro de seu copo, a atenção feminina imediatamente voltou-se para a bebida forte, e em um gesto rápido ela a tomou de vez, seus olhos voltaram a se concentrar em mim. E continuou a falar como se nunca tivesse se interrompido. — Eu posso apontar uma boa quantidade de lugares onde você poderia comprar sua água, lugares mais limpos e respeitados, mas você preferiu se isolar aqui, você parece o ideal de inocência que todo homem sonha, cabelos loiros e tudo, tanto que meu amigo Marc aqui tão logo te viu te chamou de anjo, cliché, mas válido. — Deu de ombros. — A imagem perfeita da inocência em um lugar cheio de depravação. Só que você sequer piscou com a imagem das duas mulheres se agarrando contra a parede da porta que entrou, quase me fez acreditar que não tinha visto, o homem nojento e barbudo fez gestos obscenos enquanto você passava por ele e o rapaz que deve ter acabado de transar com a loira que saiu irritada quase te comeu com os olhos, sem falar no casal do canto, onde a mulher estava masturbando o namorado com a proteção ridícula da mesa e ele entretanto não tirou os olhos de você. Você viu tudo isso, mas nada trouxe sequer um olhar perplexo, o que me diz que o anjo no mínimo já fez uma visita ao inferno.

— Você é observadora assim mesmo estando bêbada? — Perguntei incrédula. Ela franziu o cenho parecendo ofendida.

— Eu não estou bêbada. — Negou. Ergui uma sobrancelha enquanto encarava o copo a sua frente, talvez ela fosse muito resistente. Ela sorriu como se tivesse rindo de uma piada interna e voltou a chamar Marc. Ele se aproximou de imediato e eu engoli a vontade de repreendê-lo por nunca ter trazido minha água. — Marc, sirva minha amiga com o mesmo que o meu, sim?! — Abri minha boca pensando em protestar, mas ele já despejava o líquido em um copo pequeno que com destreza colocou em minha frente, eu não bebia, nunca, eu queria estar em pleno controle do meu corpo, ou pelo menos dos meus sentidos, por que com a vida que eu tinha antes não era bom estar vulnerável, mas a mulher me lançou um olhar desafiante. A última vez que bebi eu estava acompanhando Ray Palmer, o bilionário encantador que tinha um código de conduta, e o que me levou a beber? Ciúmes. Não dele, mas do meu ex-namorado, que não era meu namorado na época, mas que agia como se fosse.

Eu geralmente não respondia a olhares desafiadores, mas algo por trás do seu sorriso me fez fechar os olhos brevemente e levar à bebida a boca, com o intuito de descer o líquido pela garganta rapidamente. Mas pisquei incrédula quando para minha surpresa eu senti apenas o frescor da água descendo e não a ardência típica de uma bebida alcoólica. Ela sorriu diante meu olhar perplexo e deu de ombros, seus olhos perdendo o brilho animado. — Talvez você não seja a única a ter visitado o inferno afinal.

— Então por que...

— Por que eu estou aqui? — Sugeriu com um sorriso. — Digamos que eu seja uma caça talentos. — Franzi o cenho com sua piada interna, mas optei por deixar minhas desconfianças quietas no momento, seu olhar, entretanto não escondia que me avaliava com curiosidade. — E você? O que você está procurando?

— Eu não sei. – Confessei. – Eu tenho muito que procurar, mas ainda estou na fase em que eu queria apenas apertar a porra do botão foda-se.

— Do que você precisa? – Perguntou-me soando condescendente. Pensei por uns instantes em sua pergunta. Do que eu precisava? Eu precisava de segurança, tranquilidade, eu precisava do meu único porto seguro mesmo no meio de um completo caos, eu precisava de Oliver Queen. Mas contrariando o meu real desejo, falei a coisa mais prática que precisava e era acessível no momento.

— Um emprego. – Dei de ombros. Seu sorriso se ampliou. — Ok. Desconhecida, agora você está me assustando. – A alertei. – Por que você parece que tem algo para mim, e estamos em um local decadente, você também disse que era uma caça talentos, que eu imediatamente traduzi como cafetina, então... Eu não estou seguindo por esse caminho. – Murmurei. Não novamente. — Eu não estou seguindo por qualquer caminho onde eu precise tirar minhas roupas em troca de dinheiro. – Seu sorriso caiu e seu semblante ficou sério.

— Eu não sou uma cafetina. – Falou ofendida. – Mas eu estava procurando por alguém que não se importasse em tirar as roupas... – Confessou. – Eu sou striper. – Deu de ombros.

— Eu realmente não quero ir por esse caminho. – Meneei a cabeça em negativa, minha frase trazendo um olhar azedo ao seu rosto e me apressei a explicar. – Eu não estou te julgando, pode ter certeza que não, mas eu não posso.

— E como garçonete? – Sugeriu. – Eu posso te colocar servindo, não precisará tirar a roupa ou qualquer coisa do tipo...

— Com servir mesas eu posso lidar. – Assenti, mas mordi meu lábio hesitante sobre a situação. – Eu não acho que você me diria, mas este lugar não é do tipo abusivo, certo?

— Não há programa lá. – Foi direito ao ponto. – Todas as garotas conhecem as regras também, se alguém trabalha com isso, tem que ser longe e não levar seus problemas para dentro. É uma casa de divertimento, para homens, ou quem quiser na verdade, mas sexo não está entre o que oferecemos.

— Você é dona do lugar? – Perguntei arrancando uma risada sua.

— Não. — Negou efetivamente. – Mas confesso que às vezes eu mesma caio na armadilha de achar que sim. Então, você está disposta a trocar um lugar decadente por outro? Por que por mais que não vendemos sexo, não controlamos os tipos de caras que entram. Você estará protegida, mas poderá ver e ouvir coisas das quais não vai gostar.

Eu poderia fazer isso? Para onde eu ia o abuso, violência, as noites que passei sendo uma prostituta, a percepção de agora ser uma assassina... Tudo isso me acompanhava. A sensação de estar suja nunca desapareceu, e agora não era apenas meu corpo, minhas mãos estavam sujas de sangue agora, o que me fazia ter pesadelos.

Todos os dias.

Eu mal dormia os temendo. Eu sempre via Ivo, do outro lado da arma, diferente daquela noite, éramos apenas nós dois, ele estava a centímetros de distância, muito pouca, tão pouca que meu coração disparava de medo, ele repetia as mesmas palavras, dizia que eu não conseguiria, às vezes seu discurso mudava um pouco, mas sempre continuava me desafiando, em meus pesadelos eu não conseguia atirar nele. De alguma forma eu me via sem a arma, esta aparecendo em sua mão, e eu estava em sua mira, em meus pesadelos Ivo ganhava. Em meus pesadelos eu morria. Mas então eu acordava e descobria que eu estava sozinha, e no meio da penumbra eu olhava para minhas mãos trementes e por alguns segundos, pequenos que sejam eu vejo sangue nelas, o que é estranho, por que eu nunca cheguei a tocar em Ivo naquela noite.

Eu estava fugindo mais do que Sebastian Blood, eu estava fugindo de mim mesma. Mas não importa o quão longe eu fosse eu nunca escapei da sensação sufocante de estar me perdendo, então no final não importava se eu fosse trabalhar em um lugar cheio de bêbados sedentos por sexo, por que mesmo em meio a um lugar completamente diferente, mesmo estando em um lugar limpo, puro, eu sentia que eu o estava contaminando.

Havia sonhos também.

Eram raros e todos com Oliver, neles eu jogava tudo para o alto, eu ia até ele e o encontrava, ele me recebia de braços abertos, me abraçava e dizia que tudo ficaria bem, que ele estava lá por mim e que não nos separaríamos mais. Ele dizia que me amava. Eu nunca acordava bem depois, não importava se era pesadelo ou sonho. Por que enquanto de um eu acordava gritando, no outro eu acordava chorando. A única semelhança era que em ambos eu acordava chamando por seu nome.

Pisquei focalizando o rosto da garota de pela clara e cabelos castanhos. Ela percebeu que eu estava em meu próprio mundo agora e não me interrompeu, seus olhos me encaravam solidários e eu me questionei o que teria acontecido para fazê-la tão sensível a alguém como eu dessa forma.

— Eu sou Felicity. – Murmurei a surpreendendo. Dei de ombros. – Suponho que se vou trabalhar com ou para você, não sei ao certo, você deva saber meu nome. – Ela sorriu abertamente com a notícia.

— E eu sou Caitlin. – Ergueu-se do banco ajustando a alça de sua pequena bolsa em seu ombro. – E eu acredito que talvez possamos nos chamar de amigas um dia. – Não respondi a isso. Eu tive apenas duas amigas, e de algum jeito eu falhei com as duas, afinal uma eu abandonei e a outra... Bem, a outra está morta. Eu não queria falhar com Cailtin também. – Não se preocupe. – Murmurou notando meu olhar receoso. – Eu disse um dia, não hoje. – Venha comigo. – Pediu já andando em minha frente.

— Espere... – Pedi encarando o balcão, mas o bartender estava de costas envolto em suas próprias atividades.

— Não se preocupe. – Volteia encara-la. – As despesas são por conta de Marc. – Piscou. Dei de ombros e acompanhei até a saída sentindo uma pontada de culpa, ele não havia sido o melhor bartender, mas ainda assim eu me sentia mal.

— Para onde vamos? – Perguntei andando com passos apressados tentando acompanha-la.

— Conhecer seu novo emprego. – Respondeu. – Você vai conhecer o Dr. Wells e...

— Quem é essa? – Uma voz masculina perguntou fazendo com que eu me agitasse e tropeçasse quando um homem surgiu do beco e se posicionou ao lado de Caitlin. Ela não se assustou, nem piscou diante de sua presença o que me fez crer que ela o conhecia.

— Essa é a nova garota. – Falou lhe dirigindo um olhar amargo e parando. – Você não pode ficar assustando as novas garotas.

— É divertido. – Deu de ombros me dirigindo um sorriso de criança. – Desculpe.

— Não o desculpe. – Caitlin falou rapidamente, antes de voltar sua atenção ao moreno. – Não é divertido. O faz parecer um idiota, o que você é, mas elas não precisam saber disso até serem contratadas.

— Ela vai para o palco? – Perguntou me avaliando agora com interesse masculino. Eu era muito ciente de que estavam falando comigo como se eu fosse uma incapaz, e não pudesse falar por mim mesma, mas no momento eu estava apenas avaliando a relação dos dois.

— Segure a baba amigo, ela não é para você. – Caitlin murmurou recebendo um olhar debochado dele. – E ela vai apenas atender mesas.

— Uma pena. – Ele murmurou para mim. – As duas coisas que ela falou.

— Quem é você? – Perguntei erguendo uma sobrancelha.

— Interessada? – Perguntou com um sorriso de satisfação.

— Eu pessoalmente gostaria de saber o nome do cara de quem vou chutar as bolas. – O encarei sem vacilar. O bastardo apenas ampliou ainda mais seu sorriso.

— Eu gostei de você. – Assentiu e encarou Caitlin. – Eu gostei dela, podemos ficar com ela?

— Isso é o Dr. Wells que vai dizer. – Caitlin falou o encarando divertida. – Mas eu tenho quase certeza que sim. – Ela voltou a me encarar. – Este é Ronnie. Minha sombra.

— Ela quis dizer futuro marido. – Ele falou sem se abalar, Caitlin sequer se perturbou com sua declaração, ela apenas me lançou um olhar genuinamente confuso, mas que eu sabia ser falso.

— Felicity, pode-se se casar com um cadáver?

— Eu quase tenho certeza que não. – Murmurei.

— Só estando morta. – Falou retornando seu olhar para Ronnie.

— Que seja, vamos levar a nova garota ou não? – Ronnie perguntou voltando a andar.

— A nova garota tem uma pergunta. – Murmurei erguendo uma mão, fazendo com que eles parassem. – Dr. Wells?

— Nosso chefe. – Ronnie explicou com ambas as mãos elevadas em um “E dai?”.

Doutor Wells. – Murmurei dando ênfase na primeira palavra.

— Oh. – Caitlin murmurou entendendo. – Ele costumava ser médico antes de perder a esposa, se entregar ao álcool e as stripers. – Explicou mexendo a mão de forma displicente. – Não se preocupe, ele vai gostar de você.

— Eu tenho certeza que prefiro que ele não goste. – Murmurei antes que pudesse frear minha língua. Mas verdade seja dita, foi por ter a atenção de um “chefe” que eu acabei aqui. Se chegaram a perceber algo de errado por trás do que eu disse, nenhum dos dois comentou, Caitlin apenas me lançou um olhar divertido antes de acrescentar que Wells era apesar de tudo, uma boa pessoa.

Eu devia esperar alguma brincadeira vinda dos dois. Eu era a novata, eu devia ter imaginado, o que eles se esqueceram de avisar foram sobre as condições do dono do clube. Caitlin me guiou a um clube de aparência bem medíocre, odor de cigarro e álcool invadindo meus sentidos no momento em que pisei nele, quando me guiaram até o escritório do proprietário ela me empurrou porta adentro e murmurou rapidamente que eu não ficasse o encarando fixamente. Não assimilei o porquê até que Dr. Wells como parecia ele gostar de ser chamado mesmo após não exercer mais a profissão, havia perdido a mobilidade das pernas no mesmo acidente de carro em que perdeu sua mulher.

É claro que eu fiquei o encarando fixamente.

Quando ele perguntou o porquê, me limitei a dizer que não se pede que alguém ignore algo e espere que essa pessoa vá seguir o que foi dito. Ele riu, o que me surpreendeu, ele não me pressionou por mais informações do que eu estava disposta a dar, chegou a insistir que eu fosse uma das stripers, mas eu não voltei atrás em minha decisão. Ao perceber que eu não estaria mudando de ideia, ele acatou minha decisão e disse que amanhã quando eu chegasse mais cedo, ele estaria me apresentando às outras garotas, foi firme em dizer que não aceita visitas de namorados por que eles tendiam a ser ciumentos, mesmo para as garçonetes, e que o clube não aceitava que nenhuma garota fosse abordada sem seu consentimento, que no geral os clientes estavam cientes disso, mas que de qualquer forma Ronnie e os outros rapazes estavam por aí para intervir.

Foi então que eu descobri que Ronnie era na verdade um segurança e que foi isso que Caitlin quis dizer quando o chamou de sombra, mas por algum motivo eu tinha a impressão que a de hoje a noite não foi por ordens de Wells. Só quando voltei a sair do escritório que assimilei o cenário, as garotas tirando suas roupas, as lap dances e garçonetes desfilando com saias curtas e tops que diziam “Você pode olhar, mas não tocar”. Não era o cenário que eu me imaginei quando senti nos primeiros minutos a sensação de liberdade que veio após matar Ivo.

Quando foi que aconteceu o que eu esperava?

Voltei a ver Caitlin novamente em um visual completamente diferente, ela estava seminua, e usava maquiagem pesada, ela me encarou sinalizando para que eu a esperasse por ela. Eu queria voltar a minha hospedaria, queria tomar um banho no banheiro incrivelmente pequeno, e me deitar na cama que cheirava a pó, mas eu não sabia nada sobre o lugar em que eu ia trabalhar e certamente Caitlin era a única garota que me pareceu amigável até o momento, então eu a esperei, assisti seu número e vi os homens babarem pela garota com ar gentil, mas que havia se transformado completamente quando subiu ao palco. Ela dominou ali, eu tenho certeza que todos ali viram apenas a dança sensual, o sorriso provocativo e os movimentos deliberadamente sexys, eu vi seu rosto por trás da maquiagem, vi o exato momento em que seu sorriso quebrou, tão brevemente que tenho certeza ninguém mais percebeu. Eu percebi imediatamente que Caitlin Snow não era nada mais do que Felicity Smoak ou Helena Bertinelli. Ela era nada mais do que uma garota que escondia o que realmente sentia atrás de um sorriso quebrado.

— Ei! – Cumprimentou-me quando o lugar estava praticamente vazio, exceto por uma ou outra garota que se ocupava de ajeitar as mesas, guardar copos e afins. – Você esperou. – Comentou admirada.

— Eu achei que poderia ser importante. – Murmurei desconfiada, pensando que ter ficado poderia ter sido uma perda de tempo. Eu estava com sono e faminta.

— Oh. – Piscou notando um pouco de minha hesitação. – Na verdade é que tenho a impressão de que você é nova na cidade.

— O que me denunciou? – Brinquei.

— Você entrando no bar do Marc para beber água. – Riu. – Mas em fim, eu sei que você deve estar desconfiada de tudo e de todos e que provavelmente não deveria andar por essas ruas deserta sozinha, eu achei que Ronnie podia leva-la para casa.

— Eu acho que não. – Neguei rapidamente. Eu não conhecia direito ele, e apesar de parecer alguém decente, não se vivia da forma que vivi e confia nos sorrisos e aparências.

— Ele vai te proteger, Felicity. E não o contrário. – Murmurou séria.

— Eu estou hospedada em um lugar não muito longe daqui. – Dei de ombros. – Está tudo bem. – Minha resposta fez com que ela ficasse ainda mais séria.

— Você está hospedada pelas redondezas? – Repetiu fazendo com que eu me sentisse estúpida. – Não consigo imaginar um lugar por perto que não seja uma boca de fumo. – Ela não estava de todo errada, eu estava hospedada há poucos dias e evitava o máximo à volta para casa.

— Eu não tenho dinheiro para um Palace Hotel, sabe...

— Venha comigo. – Chamou-me. – Conosco na verdade. – Completou quando Ronnie parou ao seu lado. – Somos vizinhos de porta – Explicou dando de ombros. – A porta dele literalmente fica em frente a minha. Eu tenho um quarto vago, nunca pensei que o usaria, mas agora parece ser uma boa hora. Nós podemos dividir as despesas. – Concluiu.

— Você mal me conhece. – Falei surpresa. – Você não deveria estar me chamando para morar consigo.

— Confie em mim quando digo que sou tão desconfiada quanto você... – Murmurou sorrindo.

— Ela é. – Ronnie concordou.

— Mas eu sei reconhecer quando estou potencialmente em perigo. – Acrescentou. – Você não é um perigo para mim, Felicity. Desde que você não seja uma assassina a procura de um abrigo. – Acrescentou em tom de brincadeira. Eu forcei um sorriso, seu comentário me pegando de surpresa, mas novamente, se ela percebeu algo não comentou. – E então?

— Eu ainda preciso pegar minhas coisas e pagar à diária. – Murmurei cedendo. – E eu acho que é uma boa hora para avisar a vocês que eu me apresentei ao seu patrão como Megan. – Ronnie me encarou confuso.

— Megan? – Repetiu incrédulo.

— É meu segundo nome, eu não o estou engando. – Falei rapidamente. – Eu só gostaria que aqui vocês me chamassem assim. – Por alguma razão eu queria separar a Felicity de Oliver e Roy da Megan que continua repetindo seus erros.

— Tudo bem. – Caitlin murmurou me acalmando. – Não estamos aqui para julgar.

— Ok. – Assenti. – Acho melhor eu ir pegar minhas coisas.

— Ronnie... Nós podemos ir com você. – Se corrigiu. – Sempre vamos juntos de qualquer forma.

— Você realmente não precisa fazer isso. – Murmurei ainda hesitante.

—Não preciso. – Concordou. – Mas ainda assim irei. – Concluiu não me dando opção se não aceitar a companhia dos dois.

As três semanas seguintes me revelaram que Caitlin Snow apenas aparentava ser calma e frágil, sua personalidade era forte e por mais que eu soubesse que havia mais por trás de seu sorriso, ela sempre estava bem extrovertida e envolvia todos com seu bom humor. Dividir o apartamento com ela era bem prático, e o trabalho no clube não era tão estressante, havia algumas mãos bobas, mas nada que eu não pudesse controlar e as meninas eram mais do que corpos seminus dançando, cada uma tinha sua própria história de como havia chegado lá e de alguma forma todas elas veneravam seu patrão. Minha rotina consistia em trabalhar até madrugada, dormir a tarde e chegar ao clube antes do anoitecer, a fim de garantir que tudo estivesse limpo e em ordem. Eu fazia de tudo um pouco, exceto é claro ser uma striper, Selina a atual estrela da noite do clube era simpática e tirava algum de seu tempo para me ensinar a fazer algumas bebidas já que ela começou no como bartender e que Carrie a atual, não esconde que não gosta de mim.

— Você deveria estar dormindo. – Escutei a voz de Caitlin soar atrás de mim. Havíamos chegado há algum tempo, mas em vez de dormir eu estava sentada diante a janela olhando para baixo, não havia um movimento para me distrair, apenas meus pensamentos.

— Você também. – Murmurei quando ela parou sentando em minha frente.

— O que aconteceu? – Perguntou preocupada.

— Nada na verdade. – Murmurei. – Eu só estou tentando me acostumar ainda. – Apesar de que ela provavelmente não entenderia esse meu último comentário.

— Você fala muito pouco sobre si. – Murmurou. – E eu respeito isso, por que eu mesma não revelo muito de mim.

— Mas...

— Mas há certas coisas que uma garota não pode ignorar de sua colega de apartamento. – Murmurou hesitante. – Principalmente quando elas dividem o mesmo banheiro.

— Você viu o teste. – Murmurei surpresa, eu havia ficado tão absorta que não me livrei da caixa.

— Desculpe. – Murmurou rapidamente. – Eu não queria me intrometer, mas...

— Eu não estou grávida. – Falei a interrompendo. Eu havia comprando o teste ontem à tarde e obtive coragem apenas quando chegamos hoje. Por que dessa vez eu não tinha Helena do outro lado da linha, dessa vez eu tive que fazer isso sozinha, eu estava assustada diante a perspectiva de um filho, ainda mais um filho de Oliver, o homem a quem amei e abandonei, então, eu estava assustada como o inferno. Eu realmente não queria estar grávida, mas quando o resultado deu negativo alívio não foi à única emoção que me sobressaltou.

— Você queria estar grávida? – Caitlin me sondou.

— Não. – Murmurei sem hesitar.

— Então por que você está chorando? – Perguntou me surpreendendo. Incrédula eu levei uma mão ao rosto e senti meus dedos molhados, me apressei a enxugar as lágrimas e observei Caitlin menear a cabeça. – Saber que este não é o momento não significa que você não queira.

— Não é isso. – Suspirei. – É complicado.

— É sobre quem seria o pai? – Perguntou. – É sobre Oliver? – Abri meus olhos surpresa com o que disse, eu nunca falei sobre Oliver com ela. Como ela...

— Você tem pesadelos. – Explicou. – Geralmente não me incomodam, mas outra noite os gritos foram muito altos e pensei em te acordar, mas você se acalmou sozinha e após um tempo você chamou por ele.

— Ele não faz mais parte da minha vida. – Limitei-me a dizer.

— Você o amava? – Perguntou direta.

— Sim. – Falei sem me preocupar em mentir.

— Você ainda o ama? – Retornou a questionar.

— Sim. – Murmurei dessa vez desviando meu olhar do seu e encarando a janela. Eu queria que essa conversa mudasse de curso. Que sua atenção se desviasse de mim e dos meus sentimentos, mas eu podia senti-la me encarar atentamente, me observando.

— Você não acha que deixará de ama-lo um dia. – O que me chamou atenção em sua frase, era que dessa vez não se tratava de uma pergunta, ela não mais me sondava, ela havia chegado a uma resolução, mas ainda que essa não tenha sido uma pergunta, eu me vi a respondendo, sem, no entanto voltar a encara-la.

— Não. – Seguiu alguns momentos em que ficamos em silêncio, um silêncio bem vindo, que não nos incomodou. Até o momento em que eu resolvi rompê-lo. – Você ama Ronnie assim. – Foi à vez de ela me encarar surpresa. Eu vinha sendo uma observadora silenciosa, e era muito claro que os dois sentiam-se terrivelmente atraídos entre si e muito além da atração havia um sentimento profundo, e que era mútuo. Ela não negou, mas também não se atreveu a confirmar, apesar disso eu tomei como um sim. – Por que vocês dois não estão juntos? Para mim está claro que ele a ama também.

— Por que você não está com Oliver? – Retrucou.

— É complicado. – Repeti apressadamente. – Mas ele não está aqui, como Ronnie está, ninguém fora você o impede de ficar com ele.

— Quem a impede de ficar Oliver? – Perguntou franzindo o cenho. Não respondi, era um desses momentos em que eu me negava a revelar mais de mim. Percebendo que não receberia uma resposta minha ela se limitou a curvar os ombros. – Você sabe tão bem quanto eu que não é por que duas pessoas se amam, que elas terminam juntas. – Suspirei diante do que ela disse e meu pensamento voltou-se para a verdade impregnada em suas palavras. – Felicity? – Chamou-me hesitante. Ela e Ronnie haviam cumprido o meu pedido, no clube eles se limitavam a me chamar de Megan, mas fora dele, eles nunca me chamavam assim, era sempre Felicity, era como se entendessem, ainda que eu não houvesse dito nada, que Megan não é realmente quem eu quero ser.

— Sim?

— Você já sentiu que só em estar ao lado de uma pessoa você é capaz de contamina-la?- A natureza de sua pergunta me pegou desprevenida. Se eu já havia me sentido assim? Eu havia perdido a conta das vezes que havia me sentido assim, não pude negar uma resposta a essa pergunta, mas também não pude expressa-la em voz alta. Então eu apenas assenti. — Já se sentiu quebrada demais para trazer a felicidade a alguém? – Voltei a assentir. – Eu imaginei que sim, é preciso ser uma para reconhecer a outra. – Suspirou. — Eu me sinto assim. Todos os dias. E é por isso que não posso ficar com ele.

— É uma merda.

— Sim. – Concordou se erguendo. – Mas lembre-se que não importa quão quebrada estamos por dentro, não podemos demonstrar isso por fora. E é por isso que precisamos do nosso sono de beleza. – Piscou antes de se afastar. – Não demore lamentando o que perdeu Smoak. – Gritou sem se dá o trabalho de se virar. – Ainda há muito que conquistar.

Sorri a observando, por que eu não via uma alma quebrada ali, eu via alguém se reconstruindo. Eu não sabia como ou o porquê dela precisar fazer isso, mas eu tenho certeza que era nela que eu queria me espelhar.

Dia após dia, semana após semana eu me deixei envolver com esses novos rostos, até que se completou um, dois, três meses, quatro meses que eu havia deixado Starling City. Eu ainda tinha pesadelos, eu ainda sentia sua falta, não só dele, mas de Sara, Roy, Diggle e Thea. Mas sufoquei esses sentimentos e me permiti seguir em frente, ou ao menos como Caitlin falou, fingir que assim eu fazia.

— Por que você tem sempre que vir mais cedo? – Escutei Ronnie reclamar atrás de mim.

— Por que você sempre tem que me acompanhar? – Perguntei virando-me para ele e encarando seu olhar carrancudo.

— Eu só estou dizendo que somos criaturas noturnas. – Murmurou parando em minha frente e abrindo os braços. – Somos vampiros, Smoak. O dia é nosso para dormir.

— Eu não durmo muito. – Retruquei. Ele suspirou e passou seu braço por cima dos meus ombros. Congelei. Como sempre acontecia quando ela fazia algum contado físico comigo. Não era como se eu não confiasse em Ronnie. Ele e Caitlin haviam se tornado amigos, mesmo eu hesitando em chama-los assim, mas apesar de tudo seus abraços ainda me surpreendiam, e eu não podia lutar contra vontade de me afastar.

— Garota, você precisa se divertir. – Murmurou apertando meu ombro. Contei alguns segundos antes de me afastar. Ele me lançou um olhar aborrecido e tirou a caixa que continha copos de meus braços, só após coloca-la sobre o balcão ele voltou a me encarar. Cruzando seus braços assumiu ar sério. – Você precisa parar com isso.

— Isso o quê? – Perguntei tentando ignorar a vontade de pedir desculpas.

— Somos amigos, Felicity. – Olhei ao redor preocupada com alguém o escutando me chamar assim, mas não havia ninguém. – Amigos se abraçam, se tocam, brincam entre si.

— Eu...

— Olhe. – Pediu segurando minhas mãos e me aproximando mais de si. – Eu a estou tocando, eu vejo essa garota linda em minha frente, e ainda assim eu não quero transar com ela. – Pisquei diante o rumo de sua conversa. – Você é linda, e com toda certeza está acostumada com os homens a desejando, é normal, mas eu quero ser seu amigo, eu já me considero assim, todo o dia eu invado o apartamento de vocês e roubo a sua comida, vocês entram no meu e assistimos filmes juntos. Eu te acompanho por que me preocupo com você e por que gosto de sua companhia. Assim como faço com Caity, quando vou busca-la mais tarde. Eu posso afirmar que você não está acostumada com um amigo, um homem sendo seu amigo e querendo apenas isso, mas você não precisa se preocupar comigo. Eu quero apenas ser seu amigo e mesmo que não quisesse eu sou homem o bastante para aceitar um “não” como resposta.

— Desculpe. – Murmurei quando ele parou de falar e realmente me sentindo culpada.

— Eu não quis te fazer se sentir culpada. – Bateu um dedo no meu ombro. – Mas eu aceito isso.

— Obrigada. – Murmurei lhe dando um sorriso. – Por ser meu amigo.

— Tem mais uma coisa. – Murmurou soltando minha mão e mexendo no bolso de sua jaqueta de couro. – Isso é um celular. – Entregou-me.

— Eu sei o que é um celular Ronnie. – Falei lhe lançando um olhar sujo.

— Eu só quis ter certeza disso. – Sorriu.

— Por que você está me entregando seu celular? – Perguntei enquanto de forma automática deslizava meu polegar pela tela e acessava o menu.

— Não é meu. – Negou rapidamente. – Esse celular era de Caitlin, ela vive trocando o dela, ela notou que você não tem um e pensou que talvez seria por que você está economizando. Esse celular agora é seu. – O encarei surpresa.

— Eu não quero. – Falei tentando lhe devolver, mas ele se afastou erguendo as mãos em uma atitude infantil. Uma das primeiras coisas que fiz foi me livrar do meu celular. –Não é por que estou guardando dinheiro que não tenho celular. – Murmurei enquanto o rodeava tentando lhe entregar, mas ele persistia em se negar a pegar. – Eu não tenho para quem ligar. — Murmurei em tom baixo. Ele parou abruptamente e seus olhos me encararam com pesar, ele voltou a segurar minha mão por cima do celular, mas ainda assim sem pega-lo.

— Por alguma razão eu não acredito nisso. – Falou me deixando atônita. – De qualquer forma, agora você tem. Você tem dois para quem ligar. Você ainda precisa de um celular. E este é seu, recebi ordens de entrega, não posso aceitar devolução. – Murmurou antes de beijar minha testa e se afastar.

Encarei o celular em minhas mãos como se fosse uma arma engatilhada, você acha que não irá usa-la até que esta está em sua mão. Eu conseguiria resistir?

POV OLIVER

Eu estava atrasado.

A chuva se aderia ao meu terno enquanto eu subia as escadas do antigo prédio com pressa. Eu havia passado o dia com Connor e todo o momento eu me concentrei em não perder a reunião de hoje, mas ainda assim eu consegui ficar atrasado. Hoje era um dos poucos dias em que Diggle não me acompanhava, então tive que dirigir por conta própria, eu não ligava para isso, eu gostava de dirigir. Exceto quando eu estava atrasado.

Como hoje.

— Ollie. – Thea falou antes mesmo que eu a alcançasse. – Você está atrasado. – Sorri segurando uma resposta mordaz ao seu comentário óbvio. – Lembre-se, hoje é a primeira de muitas outras reuniões.

— Onde está meu advogado? – Perguntei alisando meu casaco tentando em vão ocultar as machas molhadas.

— Lá dentro. – Falou aborrecida. – Tentando contornar a vadia. – Lancei um olhar divertido a ela. – Vamos! – Apressou-me segurando meu braço, mas recuei um passo quando sentir meu celular vibrar. Tirei-o de dentro do bolso interno e observei a tela com cenho franzido.

— Quem é? — Thea perguntou impaciente.

— Número desconhecido. – Murmurei ainda observando a tela.

— Deixei-o. – Voltou a me puxar. – Não pode ser mais importante que isso. – Eu provavelmente concordaria com ela, mas por alguma razão me vi erguendo um dedo. – Me dê um minuto. – Pedi me afastando e deixando-a bufando com exasperada impaciência. Ainda intrigado levei o celular ao ouvido. – Alô? – Murmurei observando o tráfego através das imponentes janelas. – Alô? – Repeti quando não obtive resposta. – Eu posso escutar sua respiração. Quem fala? — Perguntei cada vez mais desconfiado. Minha própria respiração se alterou quando a mera ideia chegou a minha mente, mais esperança do que qualquer outra coisa. Esperança de após quatro meses eu finalmente teria alguma noticia sua. – Felicity? — Fechei meus olhos esperando uma resposta ou que a ligação simplesmente fosse interrompida, deixando-me saber que não era ela, mas nada mais do que um engano. Só que a ligação não foi interrompida, nem ninguém disse nada, então eu soube que era ela. Que por alguma razão, justamente hoje, ela havia ligado, e ainda apegado a essa pequena conexão e temendo que ela a qualquer momento desligasse murmurei as palavras seguintes. – Eu ainda procuro por você. — Respirei fundo antes de finalizar. – Eu ainda amo você.

Eu sabia que ela desligaria logo após isso, mas ainda assim foi uma decepção quando aconteceu, mas quando ergui minha cabeça e virei-me encontrando o olhar de Thea, eu sorria.

— Você está pronto agora? – Thea perguntou com certa ironia. – Eu pensava que você estava ansioso para se separar.

— Agora mais do que nunca.

Notas finais
Espero que tenham gostado e me deixem saber o que acharam. Xoxo LelahBallu.