Looking For Felicity
8 Capítulo 07
Notas iniciais
FELICITY SMOAK
Mantive meus olhos fixos através do vidro sem na verdade assimilar de fato o cenário através da janela. Oliver guiava o carro através das ruas de Starling City enquanto permanecia em silêncio. Eu podia sentir seu olhar em mim alternando entre se concentrar no tráfego e analisar minha reação ao voltar para a cidade que uma vez foi meu lar.
Era estranho.
Eu passei por mais coisas ruins do que boas nesta cidade.
No Glades.
E ainda assim, eu ainda podia sentir que este havia sido o único lugar que eu realmente poderia chamar de lar. O sentimento não foi embora, não sumiu com o tempo. Para o bem, ou para o mal, esta era minha cidade. Não importava quão assustador este retorno era.
— Felicity? – Direcionei meus olhos e pensamentos para Oliver que me encarava com preocupação. Agora que eu estava de volta, agora que eu havia ultrapassado novamente essa linha, só havia uma coisa que eu desejava fazer com urgência.
— Eu quero ver meu irmão. – Murmurei antes que ele pudesse murmurar a usual frase “Você está bem?”. Talvez eu tenha escondido por muito tempo quão desesperada e ansiosa eu estava por esse reencontro. Por que Oliver a primeiro momento me encarou surpreso e só então assentiu concordando. Eu podia entender sua surpresa, eu não só não entrei em contato com Roy por todos esses meses que estive ausente, como também evitei fazer perguntas relacionadas a ele, por menores que fossem.
Talvez Oliver ainda não tivesse percebido o quanto eu sou capaz de ocultar minhas emoções para evitar ser machucada demais. Ou ele só apenas ignorou por completo esse laço estreito entre mim e Roy depois que eu fui embora. Eu sabia que Oliver não gostava de Roy e ainda sim, eu tinha certeza que meu irmão podia contar com ele, mas ao mesmo tempo eu também era ciente que isso não significava que uma profunda amizade havia sido criada através disso. Agora eu só podia imaginar quão tensa estava a relação dos dois. Se é que eu podia chamar isso de relação.
— Ele já deve estar nos esperando no nosso apartamento com os outros. – Murmurou parando em um sinal. Tomei alguns segundos antes de encara-lo um pouco confusa.
— Outros? – Murmurei quando na verdade a questão que eu queria levantar era “Nosso?”. Mas saiu tão naturalmente de sua boca que eu não ousei ofendê-lo com tal pergunta. A culpa era minha, eu nunca encarei o apartamento de Oliver como algo nosso. As circunstâncias que me fizeram mudar para o seu apartamento não foram as que um casal normal enfrenta antes de tomar uma decisão assim. Há um planejamento antes, um questionamento, prós e contras, compatibilidade e amor.
Mas eu estava fugindo de Ivo.
Então por mais que não devesse, por mais contraditório que fosse a casa que eu conhecia como minha, não era seu apartamento. Era o apartamento pequeno no Glades que foi palco para algumas das piores noites de minha vida. Eu não estava sendo insensível, ou ignorando nossos sentimentos, tudo o que fez para mim. Eu apenas ainda me sentia como alguém que não pertencia a lugar nenhum.
— Sim. – Murmurou franzindo o cenho. – Thea, Tommy e Sara. – Murmurou preocupado. – Eu pensei que seria bom ver rostos conhecidos quando chegasse a cidade, eu errei? Você precisa de um pouco de tempo? – Questionou aflito. – Eu a estou pressionando.
— Não. – Neguei rapidamente. – É claro que não, eu estou mais do que ansiosa por encontrar os outros. Eu só... Não é isso. –Concluí vagamente.
— Felicity se você se sentir acuada, tudo bem. – Murmurou voltando a acelerar, sua mão segurou a minha por alguns momentos, meus dedos entrelaçando aos seus. – Eu faço uma ligação e eles estarão fora antes mesmo que eu desligue. – Prometeu.
— Não. – Meneei a cabeça em negativa. – Já os magoei demais. – Murmurei baixinho. – E eu realmente quero vê-los, eu senti saudades, Oliver, de cada um. – Ele me encarou indeciso. – Eu não preciso de mais tempo. Eu quero vê-los.
— Se você quiser nos deixar em algum hotel antes é totalmente compreensível. – Caitlin murmurou atrás de nós. A encarei por cima do ombro. Sua voz saia sonolenta por que ela ainda estava grogue da viagem, Caitlin não se dava bem com aviões pelo o que parecia. Tão logo sentou em sua poltrona ela tomou um remédio e apagou usando o ombro de Ronnie como travesseiro. Justo como ela fazia agora. Ronnie por sua vez veio toda a viagem acordado e tagarela.
O que irritou muito Oliver.
O que divertiu muito Ronnie e fez com ele falasse ainda mais.
O que significa que eu passei toda a viagem acalmando as duas crianças. E eles nem estavam sentados na mesma fileira.
Oliver sorriu animado diante da possiblidade de deixar os dois em um hotel antes, mas seu sorriso morreu quando o encarei meneando a cabeça em negativa. Caitlin e Ronnie me ofereceram abrigo quando eu estava em Gotham, uma família. Eles vieram por mim, por que os laços que nos uniram mesmo em tão pouco tempo, eram muito fortes. Eu sabia que era pedir demais a Oliver, mas eu não poderia abandonar meus amigos. Oliver suspirou parecendo cansado. — Será um prazer recebê-los em minha casa, Caitlin. – Oliver murmurou entredentes.
— Você está mentindo. – Ronnie murmurou deixando de encarar a janela. Parecia fascinado com a visão da nova cidade. – Mas agradecemos a hospitalidade, Ollie. – Sorriu.
— Não me chame de Ollie. – Oliver falou murmurou em tom irritado o encarando através do espelho retrovisor.
— Eu gosto. – O sorriso de Ronnie se fez maior. – É fofo, e infantil. E ótimo para crianças mimadas, e parece exatamente como você. – Completou sem nunca deixar seu sorriso esvair. Segurei um suspiro. Ronnie era irritante e ainda assim divertido ao mesmo tempo. O problema era enquanto eu conseguia ver essas duas facetas, Oliver se fixava em apenas uma.
— Você está me irritando propositalmente? – Oliver indagou incrédulo.
— Nunca. – Ronnie retrucou ficando sério, parecendo até mesmo indignado. Até que seu sorriso voltou e ele completou. – Ollie.
— Ronnie... – Murmurei em advertência.
— Está bem. – Rendeu-se. – Mas eu posso apostar que já te chamaram assim antes.
— Chegamos!! – Oliver murmurou parecendo extremamente contente em sair do carro e não ter que lidar com Ronnie em um ambiente fechado. Franzi o cenho apenas agora realmente prestando atenção ao redor. Observei que Oliver guiava o carro para uma garagem subterrânea parando apenas brevemente até que a entrada fosse liberada. Estava tão distraída que eu nenhum momento percebi que não havíamos ido para seu bairro.
— Você vai me explicar? – Perguntei quando desligou o carro, notei de esguelha que Diggle se aproximava.
— Eu acho que esse é um bom momento para dizer que nos mudamos. — Murmurou sucinto.
— O que havia de errado com o antigo apartamento? – Perguntei ainda surpresa.
— Esse é mais seguro. – Murmurou simplesmente antes de abrir a porta e sair.
— Felicity, seu namorado é muito sério. – Ronnie murmurou enquanto cutucava o ombro de Caitlin fazendo com que ela se endireitasse e se preparasse para sair do carro também. Eu tinha certeza que se Caitlin estivesse mais alerta e com mais ânimo, ela estaria puxando sua orelha agora, mas ela estava cansada o bastante apenas para revirar os olhos. Eu em contra partida me neguei a lhe dar uma reposta, apenas abri a porta e sai para o ar frio da noite. Contornei o carro pegando o momento em que Oliver entregava a chave a Diggle e batia em suas costas em um cumprimento.
Eu não pude evitar adiantar meus passos e surpreendê-lo em um efusivo abraço carinhoso. Sua rigidez deixou claro que estava chocado com minha reação. Quando ele passou a ser minha sombra sempre se manteve formal e ainda assim atencioso, era um bom homem e sábio. Mesmo que se mostrasse distante, havia um laço entre empregado e patrão, feito este através de confiança e por algumas vezes eu testei isso.
— O meti em problemas de novo? – Perguntei o soltando.
— Eu ainda estou aqui, não estou? – Sorriu me tranquilizando. – É melhor vocês subirem logo, estão todos ansiosos. Sua irmã não para de andar de um lado para o outro e Roy... – Ele me encarou por alguns segundos notando minha inquietação. – O garoto sente sua falta. – Não havia repreensão, apenas estava constatando um fato. – Vão, eu subirei com as malas de vocês... Quem são eles? – Diggle murmurou ao notar o casal que se aproximou. Seu olhar avaliador dançou de um para o outro. Ao que parece Oliver não havia atualizado da minha chegada com visitantes. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa Oliver se voltou para meus amigos.
— Diggle estes são Caitlin e Ronnie. – Murmurou não podendo conter seu desagrado ao dizer o nome do segundo. – Eles ficarão conosco por um tempo, são amigos de Felicity.
— Prazer. – Ronnie murmurou apertando sua mão com firmeza. – Você trabalha para Ollie? – As sobrancelhas de Diggle se juntaram ao escutar o apelido íntimo dito de um estranho.
— Eu trabalho para o Sr. Queen, sim. – Respondeu cortês. Adiantou-se para Caitlin que sorriu educada. – Sejam bem vindos a cidade. – Eles agradeceram em um uníssono. E Diggle se apressou a rondar o carro. Oliver buscou minha mão enquanto éramos seguidos pelos dois que mantiveram seus passos mais lentos absorvendo cada detalhe. Até pararmos em frente ao elevador privativo.
— Eu notei que você era rico. – Ronnie murmurou olhando seu reflexo nas paredes espelhadas do elevador. – Mas de alguma forma eu havia esquecido isso no caminho para cá.
— Eu sou dono de alguns empreendimentos. – Oliver deu de ombros. – Herdei uma certa fortuna, uma empresa e vários investimentos. Eu os multipliquei.
— E você fala isso como se tivesse nos dizendo o menu do café da manhã. – Ronnie comentou erguendo uma sobrancelha.
— Não seja idiota. – Oliver murmurou o encarando apenas brevemente. – Eu não tenho ideia do que será o café da manhã. — Escondi meu sorriso no ombro de Oliver. Geralmente sua riqueza me incomodava, apenas por que mostrava quão diferente somos. Mas no apartamento de Oliver por mais luxuoso que fosse eu não via tanta riqueza assim, eu sequer me lembrava de uma presença constante de uma empregada. Havia alguém que vinha cuidar da limpeza alguns dias da semana, e eu desconhecia quem era responsável por lavar e passar suas roupas, mas não havia um exército ou algo parecido.
E ele não era o riquinho mimado como estava tentando soar para Ronnie.
A leveza do momento foi embora quando as portas do elevador finalmente se abriram, minha apreensão que havia ido embora no momento em que Ronnie havia começado a provocar Oliver veio com força quando encarei as quatro pessoas em pé perto do enorme sofá. Só então me dei conta que esta havia sido a intenção de Ronnie todo o momento, suas brigas constantes com Oliver haviam me distraído dos temores que essa reunião trazia. Entrei com passos hesitantes com Oliver me guiando. Eu podia sentir o calor de sua mão aberta em minha coluna, mas minha atenção total estava nos rostos que me encaravam com certa cautela. Encaravam-me como se fosse um animal assustado prestes a sair correndo ao menor movimento. Atrás de mim escutei Ronnie murmurar para Caitlin.
— É um reencontro, ou um velório? – Sua pergunta deve ter sido respondida com um olhar seco, pois ele não disse mais nada depois. O silêncio tenso e perturbador durou apenas alguns momentos mais até que Thea Queen, bendita seja, resolveu quebra-lo.
— Eu estava aqui pensando quem eu teria que empurrar para receber um abraço da minha cunhada fugitiva. – Suspirou. Olhou para o trio ao seu lado. – Vocês são patéticos. – Completou antes de avançar e me abraçar com uma força surpreendente. Não éramos amigas, para ser sincera tivemos o pior começo de uma relação entre cunhadas, ou meras conhecidas. E eu devo ter complicado bastante sua vida após ter fugido antes de toda a confusão do dia que matei Ivo, mas senti sinceridade em seu abraço. Eu tenho certeza que nem tudo o que ela pensou de mim ou até mesmo disse enquanto eu estive fora, foram flores. Eu havia magoado seu irmão, traído sua confiança ao ir embora, mesmo que sua relação com Oliver não tenha sido ótima, ela estava lentamente encaminhando-se para isso. O que significa que ela tinha razões sim para não me receber de braços abertos aqui, mas ela não fez isso. Ela me abraçou e murmurou em meu ouvido que já não era sem tempo, quando recuou seu sorriso era tão sincero quanto seu abraço. – Eu espero que você não torne a nos dar tanto trabalho Felicity Smoak.
— Sinto muito. – Murmurei triste e sinceramente. Os próximos braços não me deram conforto a princípio. O abraço em si foi desajeitado e tenso. Tommy Merlyn era o melhor amigo de Oliver e namorado de Sara, mas também foi uma vez um dos caras para quem me prostituí. Eu queria agir com naturalidade em sua presença, mas não era assim tão fácil. E nem para ele, mesmo não se lembrando da noite em questão, o fato dele ter participado do meu passado dessa forma, de ter dormido com a garota do seu amigo o deixava desconfortável, arrependido e inquieto em minha presença. Então seu abraço foi rápido, educado e acompanhado de boas vindas usuais. Ele se afastou com um sorriso forçado e encaminhou-se para o balcão para se servir de uma bebida.
— Ele não está bem em seu ambiente. – Sara murmurou encarando o namorado por cima do meu ombro. Assenti concordando, houve uma breve hesitação antes de trombarmos uma contra a outra em um abraço que só poderia ser descrito como emocional. Fechei meus olhos absorvendo de seu carinho. – Eu ainda estou magoada.
— Eu sei. – Murmurei a apertando ainda mais. – Desculpe.
— Você nos abandonou. – Acusou-me sem no entanto se afastar. – Somos sua família Felicity, não damos as costas a nossa família.
— Eu pensei que estava fazendo o contrário. – Confessei com a voz embargada.
— Bem, na próxima vez que estiver pensando em algo do tipo, venha conversar comigo antes. – Murmurou recuando. – Eu sou boa em chutar ideias idiotas. – Sorri sabendo que ela estava sendo sincera. Sua mão segurou a minha em um aperto antes de liberar o caminho para Roy. Tomei ar observando seu rosto com medo de sua reação.
— Roy. – Murmurei finalmente permitindo que minha voz se quebrasse e quentes lágrimas escorressem por meu rosto. Sua mão puxou a minha com força e logo fui envolvida pelo calor dos seus braços, apoiei meu queixo em seu ombro enquanto fechava meus olhos e sentia seu cheiro, levei uma mão até os cabelos curtos e os acariciei lembrando-me de fazer isso quando ele era apenas uma criança, eu era apenas dois anos mais velha que Roy e ainda assim não era para minha mãe que ele corria quando tinha pesadelos, era orgulhoso demais para admitir que tinha medo. Ele vinha até mim, as vezes sentava-se no chão apoiando suas costas contra a cama de madeira e dizia que ficaria lá apenas alguns minutos, eu acariciava seus cabelos e antes mesmo que percebesse ele estava dormindo. Não queria acorda-lo e tirar da posição que se encontrava, temia que o ato o impedisse de dormir novamente, então apenas o observava por alguns momentos até que eu mesma caia no sono. Na manhã seguinte Roy não estava mais lá. Minha mãe nunca sabia dos pesadelos e eu nunca comentava nada.
Minha lealdade sempre foi para Roy, e a sua para mim.
Temi que minha partida tivesse o afastado de mim, não apenas fisicamente, mas emocionalmente, mas os braços que me envolviam não pareciam querer soltar. Pisquei surpreendida quando ele murmurou um “desculpe”, tão baixo que por um milésimo de segundo achei ter imaginado. Eu sabia que ele carregava o peso da culpa, pelo tempo que passei sendo uma escrava de Ivo. Uma prostituta para tantos, por ter me oferecido no lugar de sua dívida, por tê-lo protegido. Eu só esperava que ele não se culpasse também por eu ter deixado a cidade, essa assim como todas as outras havia sido uma decisão minha, e apenas eu poderia ser responsável por ela.
Quando demostrei minha intenção de solta-lo, ele demorou uns segundos mais a ceder, a deixar-me ir. Continuei segurando seus braços enquanto me limitava a observar seu rosto. Meneei a cabeça em uma negativa firme.
— Não me peça desculpas. – Pedi.
— Nunca mais faça algo assim de novo. – Pediu. – Nunca mais suma. Caso se sinta acuada, pressionada, fale conosco. – Murmurou. – Eu estava morto de preocupação Lis, eu não sabia onde estava, se estava bem. Eu estava com medo. – Confessou. – Medo por você. Mesmo distantes tínhamos nossas ligações. – Continuou, se referia a quando era ele que estava afastando da cidade, era ele o fugitivo. Fugindo das garras de Ivo, sem imaginar que o interesse de Ivo era em mim. – Você nunca ligou para mim, eu esperei. Eu esperei todos os dias por uma ligação, eu só queria saber se você estava bem. – Confidenciou.
Culpa me assolou quando me dei conta mais uma vez, que o único momento em que arrisquei fazer uma chamada, não foi para Roy. Como se ouvisse a algum chamado meu, a mão de Oliver envolveu meu ombro, seu conforto vindo de um gesto tão pequeno. Ele olhou por sobre o ombro, fazendo-me perceber que Caitlin e Ronnie permaneciam parados no mesmo local, e que agora recebiam olhares curiosos sobre si.
Caitlin parecia pouco cômoda e Ronnie estranhamente quieto, percebi que temiam não serem aceitos, sorri para Caitlin tentando anima-la e caminhei para o seu lado.
— Estes são Caitlin e Ronnie. – Murmurei encarando a todos. – Eles são meus amigos. – Acrescentei. – Nos últimos meses estive dividindo um apartamento com Caitlin, Ronnie era nosso vizinho também.
— Embora ele goste de pensar que mora conosco. – Caitlin acrescentou.
— Eu moro. — Ronnie a encarou erguendo uma sobrancelha. – Meu apartamento podia ser apenas considerado um anexo do de vocês. – Brincou.
— Nós trabalhávamos juntos. – Adicionei enquanto me encaminhava para sentar ao lado de Sara que havia se sentado no sofá e nos observava atenta. Eu sabia que cada um deles estava mais do que curioso para saber como foram os últimos meses para mim. Onde eu estive, com o que trabalhei. Talvez cogitassem, embora jamais falariam alto, se eu havia voltado a me prostituir. – Em Gotham.
— O que você faz? – Thea perguntou a Caitlin que havia se aproximado e apoiado seu braços no encosto do sofá. Ronnie estava logo atrás de si, seu olhar atento a ela. Cailtin abriu um enorme sorriso, em nenhum momento hesitando ou tendo vergonha ao responder.
— Eu era uma Stripper. – Murmurou simplesmente.
— Oh. – Foi tudo o que Thea pode responder. Senti-me mal pela súbita onda de silêncio que se arrastou após isso. Encarei Caitlin lhe lançando um olhar de que eu esperava ser encorajamento. Eu não podia culpar ou julgar a reação da maioria ali, eu só esperava que eles também não a julgassem. Ela sorriu e piscou para mim, indicando que isso não a aborrecia. Afinal essa era Caitlin Snow, ela estava acostumada a ter olhares sobre si, ela sabia lidar com uma plateia.
— Eu era segurança lá. – Ronnie murmurou mudando o foco para si. Havia adiantado um passo ficando lado a lado de Caitlin.
— Você disse que trabalhava com eles. – Sara murmurou confusa. – Você também era uma...
—Oh não. – Caitlin interveio. – Por mais que Dr. Wells e eu insistisse tanto, Lis não queria ceder quanto a isso, ela não era stripper, apenas uma garçonete. O que de certa forma foi bom, por que se Oliver perdeu a cabeça a vendo se despir para os outros uma vez, imagino o que poderia ter acontecido se ela fosse uma. Comentou trocando olhares divertidos com Ronnie.
— Como? — Roy murmurou atônito. – Se despindo?
— Eu acho que não precisamos entrar em detalhes sobre isso. – Oliver murmurou incomodado. Eu tinha que admitir que essa não foi uma boa escolha de assunto.
— Agora se sente envergonhado por ter me batido? – Ronnie perguntou com um sorriso. Oliver o encarou sem humor.
—Ollie te bateu? – Tommy perguntou boquiaberto. O sorriso de Ronnie se expandiu ao notar o apelido, ele encarou Oliver que percebeu de imediato o que se passava em seu sorriso provocador.
— Sim. – Murmurou assentindo o maldito sorriso não saindo de seu rosto. – Ollie me bateu.
— Por que você parece feliz com isso? – Thea perguntou divertida.
— Não é bem sobre isso. – Caitlin interveio.
— Ele é um idiota. – Oliver murmurou em tom baixo, ou ao menos ele pensou que era, o encarei repreendendo com um olhar, ele apenas deu de ombros.
— Ele me bateu também. – Tommy murmurou se aproximando. – Tommy Merlyn. – Murmurou estendendo sua mão para um cumprimento. Encarei incrédula junto a Sara os dois trocarem um sorriso de camaradagem.
Sério? Isso era tudo o que se precisava para formar uma amizade? Talvez eu devesse deixar Oliver socar Roy afinal.
— Ele faz muito isso? – Ronnie perguntou franzindo o cenho. Tommy pareceu analisar como responder a isso, mas se limitou a dar de ombros não querendo entrar no motivo de ter acontecido.
— Se despindo? – Roy repetiu ainda atônito.
— Eu estava substituindo uma amiga. – Murmurei embora não tivesse certeza se era assim Selina me chamaria. Amiga. – Não acabou bem. – Murmurei vagamente.
— Parece que você fez muitas amizades em Gotham. – Sara murmurou me analisando.
— Oh não foi tão fácil assim. – Ronnie interveio. – Ela parecia um gatinho arisco, prestes a mostrar as unhas caso se aproximasse demais.
— Ronnie. – Murmurei o encarando.
—O quê? – Nos encarou atento. Eu amava Ronnie, mas eu não podia deixa-lo derramar todos os detalhes de nossa vida em Gotham, por que eu sabia como isso parecia para os outros, que eu os havia substituído. Que eu tivesse dois novos amigos que me conhecessem tão bem e estivéssemos tão a vontade uns com os outros, podia magoa-los.
— Eu acho que está na hora de mostramos os quartos a vocês. – Falei me levantando. – E a mim. – Acrescentei lembrando-me que já não estava no antigo apartamento e eu não conhecia nenhum cm que fosse desse. – Por que eu não tenho ideia onde fica o quê aqui.
— Não se preocupe. – Thea falou vindo até mim e segurando minha mão. – Eu posso mostrar tudo a vocês. – Se ofereceu. – Para a infelicidade Ollie eu ainda estou aqui, eu moro aqui. – Deu de ombros.
— Por que você não mostra o quarto de Caitlin e Ronnie e eu me ocupo de mostrar a Felicity o nosso? – Oliver interveio ignorando a provocação da irmã.
— Quarto? – Caitlin murmurou franzindo o cenho. – Há um pequeno engano aqui. – Murmurou envergonhada. Ela apontou de si parta Ronnie. – Nós não somos um casal.
— Oh. – Foi à vez de Oliver emudecer. Ele estava constrangido, e eu tinha que admitir, foi um pouco adorável. Resisti a vontade de acrescentar um “ainda” na frase de Caitlin e me concentrei em Ronnie, que por incrível que pareça não fez nenhuma provocação sobre isso. Percebi que era apenas por que eles estavam em um território estranho, na frente de estranhos. Ele não queria fazer nada que deixasse Caitlin constrangida.
— Mas eu posso me virar com o sofá. – Ronnie interveio. Por mais irritante que ele fosse, brincalhão, e um pouco espaçoso. Ele jamais agiria de forma a deixar Caitlin desconfortável. – Ou eu ainda posso ir atrás daquele hotel. – Ofereceu-se.
— Não seja estúpido. – Murmurei ganhando um sorriso seu.
— Concordo. – Thea murmurou ficando ao seu lado. – Não seja bobo, aqui temos quartos o suficiente. — Ele a encarou com curiosidade. Ela sorriu simpática. – Eu sou Thea, irmã de Ollie.
— Ronnie. – Respondeu a observando com interesse. – São poucas as garotas que me chamam de bobo logo após de me conhecer. Geralmente elas percebem que isso é verdade só depois. – Brincou.
— Bem, se você vai ficar por aqui por um tempo, acostume-se. – Deu de ombros. – Eu não sou conhecida por dizer palavras doces.
— Eu gosto disso. –Confessou.
— Ronnie. – Caitlin murmurou chamando sua atenção. – É a irmã de Oliver.
— Só estamos conversando. – Protestou. Thea sorriu meneando a cabeça enquanto Caitlin segurava o ombro de Ronnie o afastando um pouco.
— Sinto muito. – Murmurou para Thea. – Ele é meio que impossível.
— Está bem. – Thea murmurou divertida. – Ele é divertido.
— E agora eu me sinto uma criança. – Ronnie retrucou.
— Eles são interessantes. – Sara comentou ao meu lado, enquanto eu observava tudo com um sorriso divertido. Eu era vagamente ciente que Oliver conversava com Tommy e Roy sobre a viagem e que Diggle havia entrado silenciosamente e levado as malas escada acima, eu também era bastante ciente que Sara havia se recolhido em um estranho silêncio. Uma espectadora silenciosa de tudo o que ocorria. Eu queria conversar com ela, perguntar como estavam as coisas, mas mesmo após nosso abraço, eu podia sentir certa barreira, certa distância. Eu ficava chateada com isso, mas compreendia.
— Eles são. – Concordei percebendo que Thea agora puxava ambos, Caitlin e Ronnie e levava-os para cima, imagino que os apresentariam aos seus quartos. – O que está acontecendo Sara? – Perguntei segurando sua mão e puxando-a para se sentar novamente.
— Eu fiquei noiva. – Murmurou de repente, a encarei feliz com a notícia e percebi que ela não sorria ao dizê-lo. Isso estava tão errado. Notei Oliver inclinar sua cabeça indicando que Tommy e Roy o seguisse e percebi que ele nos dava privacidade, afastando-se, abrindo a imensa porta de vidro e indo com os outros homens para a varanda. Voltei a encarar Sara que olhava para suas mãos.
— Por que você não parece feliz com isso? – Perguntei apreensiva, quando por fim estávamos a sós.
— Eu estou. – Murmurou rapidamente. — Eu estava. – Deu de ombros corrigindo-se. – Eu amo Tommy e você sabe que eu sempre sonhei com isso, com o momento em que nos casaríamos, e que então íamos iniciar nossa própria família. Quando ele me pediu em casamento, eu não posso descrever o tamanho da minha felicidade, foi lindo e perfeito e ele é perfeito, para mim, ele é. – Eu assenti concordando, ela já havia me dito algo semelhante antes, mas apesar do que eu dizia, eu sentia que tinha algo vindo por aí.
— Mas...
— Mas temos brigado cada vez mais. – Deu de ombros. – É como se agora eu percebesse nossas diferenças, como se elas estivessem aumentado. É como se eu as estivesse analisando com uma lupa e amplificando tudo, fazendo-me questionar. Eu não sei, talvez eu desejasse o que eu não podia ter, e agora que o tenho...
— Não é isso. – Neguei. – Sara eu posso não ter estado aqui nos últimos meses, mas nos anteriores, quando eu estava com vocês, você me disse mais de uma vez o quanto amava Tommy, e a forma que disse isso, é amor Sara. Você está assustada, por que por um longo tempo você realmente o desejou achando que não ia tê-lo, você se acostumou a não tê-lo. Vocês estão juntos agora, e casamento torna tudo mais sério, definitivo. Ele realmente será seu, e você teme não conseguir mais se acostumar a não tê-lo caso aconteça algo. Ele é seu grande amor. Você sabe disso e isso a assusta, e está tudo bem. – Sorri tentando acalma-la.
— Eu senti falta disso. – Sorriu segurando minha mão. – Você sabe, um dos motivos de nossas brigas era você.
— O quê? – Perguntei chateada com a mera ideia do meu passado estar atrapalhando no futuro dos dois. – Isso ainda por que nós dois...
— Não. – Negou. – Eu não tenho ciúmes de Tommy, se alguma vez tive foi quando ele namorava minha irmã. – Confessou. – E isso me assusta um pouco, por que me faz questionar novamente se o que eu sentia era apenas inveja de Laurel.
— Não seja estúpida. – Protestei. – Você não é assim.
— Em fim, Tommy queria marcar a data do casamento e eu me neguei a fazer isso, ou pensar em qualquer coisa no que se relacionasse a planejamento, até que você voltasse. E isso chateou. Ele disse que deveria ser sobre nós dois. – Engoliu em seco. – Ele disse que não tinha em mente te excluir da cerimônia, ele só queria mais comprometimento da minha parte, e adiantando algumas coisas, por que afinal, não sabíamos quando você iria voltar, e em alguns momentos nos questionávamos se realmente você voltaria.
— Sinto muito Sara. – Murmurei. – Eu só posso dizer que sinto muito se minha partida machucou você, Oliver e todos os outros, se de alguma forma está interferindo em seu relacionamento com Tommy, eu só não podia ficar. Eu não sei o quanto Oliver te contou, mas ia além da minha própria felicidade, eu não queria ir embora, e não acho que ter voltado é realmente uma boa ideia, mas eu jamais poderia ter dado as costas a Oliver depois de vê-lo novamente, por que eu não consigo me imaginar seguindo em frente após vê-lo novamente. Você pode Sara?
— Eu não entendo. – Murmurou confusa.
— Você consegue dar as costas a Tommy e não vê-lo mais? – Perguntei inquieta. – Você imagina um futuro onde ele não esteja?
— Não. – A resposta veio rápida e firme. Sorri com isso.
— Então você já tem sua resposta. – Dei de ombros. – A sua pergunta se não se tratava apenas de inveja entre irmãs. Não era. Era amor, é amor. – Reafirmei. – É normal ter certo nervosismo. Questionar-se. Converse com ele, será o melhor para os dois.
— Eu me pergunto como alguém pode ser tão boa em dar conselhos, mas não consegue segui-los. – Brincou.
— Eu realmente não sei do que você está falando. – Retruquei em tom brincalhão.
— Falando em ciúmes. – Murmurou se erguendo. – Eu ainda estou decidindo.
— Decidindo o quê? – Perguntei também me erguendo. Estava confusa. Ela enlaçou seu braço ao meu e me guiou até a varanda com passos lentos.
— Eu devo ter mais ciúmes de Caitlin ou de Ronnie? – Brincou. – Por que ele parece tão próximo a você quanto ela. – Meneei a cabeça enquanto atravessava e era cercada pelos três homens, Oliver sorria em resposta a algo que Tommy havia dito. Tommy encarou Sara com um olhar preocupado e ela sorriu minimamente antes de ir até ele e entrar no calor de seus braços.
Oliver prontamente me puxou para os seus.
— O que provocou aquele sorriso? – Perguntei curiosa.
— Nada. – Negou rapidamente, o encarei desconfiada.
— Oliver...
— Felicity... – Retrucou com um sorriso.
— Vocês dois são tão irritantes. – Roy comentou.
— Eu poderia dizer o mesmo de você, mas agora que conheci Ronnie, você é o menor dos meus problemas. – Oliver retrucou. Notei que Roy estava prestes a dar uma resposta em troca e optei por intervir.
— Roy, onde você está morando? – Perguntei preocupada. Meus pensamentos indo direto para a sua volta para casa.
— Perto. – Murmurou vagamente.
— Você está morando aqui também? – Perguntei desconfiada. Eu não podia imaginar isso, o apartamento seria um verdadeiro campo de batalha se eu tivesse que lidar com Oliver alternando seus olhares mortais entre Ronnie e Roy.
— Não. – Murmurou divertido. – Mas eu estou dividindo um apartamento com um antigo amigo.
— Quem? – Perguntei estreitando meus olhos. As antigas amizades de Roy se resumiam a um antigo grupo que ficavam chapados juntos. Eu não queria isso para ele.
— Na verdade é amiga. – Esclareceu. Eu não tive que demorar muito até chegar a conclusão mais óbvia.
— Sin? – Perguntei admirada. – Mas Roy ela mora no Glades. O que a propósito não é perto. – Acrescentei. — E é o Glades, por Deus. – Murmurei horrorizada com a ideia.
— Ela precisava de alguém, e eu precisava também. – Deu de ombros. – E vai de acordou com o que posso pagar. E depois de tudo, o Glades já não é um perigo para mim, agora que Ivo está... – Parou hesitando em entrar nesse assunto.
— Morto. – Completei direta. Eu não podia esquecer Ivo, não podia esquecer o que eu havia feito, e a única maneira de enfrentar isso, era batendo de frente, sem esconder, ou amenizar o que eu havia feito. Senti Oliver me segurar mais tenso. – E há sempre alguém pronto para substitui-lo. – Completei.
— Eu sei, eu não estou me envolvendo com nada assim. – Prometeu. – Ninguém está interessado nas antigas obsessões de Ivo, eu não sou idiota, eu sondei antes.
— Eu quero deixar claro que eu ofereci minha casa para ele ficar. – Oliver murmurou percebendo o quanto eu estava tensa com isso. Não fiquei surpresa com o que disse, assim como não estava surpresa por Roy não ter aceitado. Eu não conseguia ver uma situação em que isso ocorresse. Oliver jamais deveria ter se oferecido, eu jamais exigiria isso dele.
— Não se preocupe com isso Lis. – Sara murmurou me arrancando de meus pensamentos. – Roy trabalha comigo no Verdant, estamos sempre juntos e Tommy não me deixa ficar sem um segurança quando vou até lá, estamos sempre dando carona a ele. – Comentou. Suspirei assentindo, eu não estava exatamente mais calma, mas sabia que levantar essa questão agora seria uma perda de tempo. Oliver acariciou meu braço atraindo minha atenção.
— Você não está cansada? – Perguntou. – Você deveria dormir.
— Você deveria me contar o motivo por trás daquele sorriso. – Retruquei. Ele meneou a cabeça em negativa.
— Eu estou curiosa também. – Sara confessou, seu olhar caiu em Tommy. – O que você disse?
— Ollie estava me pedindo dicas. – Comentou dando de ombros. – Sobre pedidos. – Piscou.
— Você realmente tem que dizer tudo a ela? – Oliver perguntou aborrecido. Eu por minha vez suspirei meneando minha cabeça. Ele fazia tudo tão difícil.
— Não faça isso. – Pedi.
— Eu ainda não fiz hoje. – Deu de ombros.
— Se ela diz não, por que você continua pedindo? – Roy perguntou contrariado e confuso. Oliver não pareceu se importar, ou se envergonhar por está recebendo uma nova negativa antes mesmo de fazer o pedido e na frente de todos.
— Por que em algum momento, ela dirá sim. – Respondeu simplesmente. Sua segurança beirada a arrogância quase roubava um sorriso meu.
— Eu preciso lembrar que você já é casado? – Murmurei me apoiando nisso.
— Sim, sobre isso... – Começou me lançando um olhar significante e deixando o resto no ar. O encarei incerta se realmente estava pegando o que ele estava insinuando. Será que ele estava falando a sério?
— Sério? – Perguntei esperançosa. – Oliver, você finalmente se separou de Isabel Rochev? – Indaguei ainda cogitando que talvez eu estivesse enganada.
— Eu sou um homem livre agora. – Assentiu com um enorme sorriso, o abracei feliz.
— Isso é ótimo! – Murmurei sentindo seus braços me apertarem possessivos. Senti seu sorriso sobre meu pescoço e me enchi de seu cheiro enquanto deixava a alegria que sua notícia havia me trazido. Isso era o que eu queria para ele, independente de estar comigo ou não, queria vê-lo e sua empresa longe das garras de Isabel Rochev. Eu a tinha visto apenas um par de vezes e sua personalidade era horrível, fria e ambiciosa, essa mulher não deveria estar na vida de Oliver. Franzi o cenho percebendo que uma mulher assim que tinha passado tanto tempo segurando as rédeas do divórcio e desejava tanto o controle da Queen Consolidated não deve ter sido fácil de contornar. Afastei-me dele franzindo o cenho e o encarei confusa. – Como você conseguiu que ela desistisse de ter sua parte da empresa? – Perguntei. Eu não entendia exatamente como funcionava o casamento dos dois, mas pelo pouco que eu entendia, Oliver havia se casado para reconquistar parte de suas ações que o pai havia perdido para Isabel que na época era sua amante. Oliver já possuía uma parte, assim como Thea, mas a grande maioria estava a mercê de Isabel Rochev cuja ambição era também se tornar uma Queen, provavelmente alguma espécie vingança por ter sido por muito tempo nada além do que uma amante. Então, se casando com Oliver ela se tornava uma Queen e ele tinha controle sobre a empresa novamente, mas era algo que duraria enquanto ele estivesse casado com ela, com o casamento desfeito, ele perdia tudo.
Como ele conseguiu mudar isso? Oliver era outra pessoa quando casou com Isabel, ele não estava interessado particularmente no legado de sua família, ele estava amargurado e carregado com o peso de culpa, havia se tornado um cínico, e um sujeito naturalmente desconfiado, o casamento não era mais que um acordo para ele, e ele não imaginou que iria querer de fato quebrar isso, afinal por que ele se separaria? Amor? Oliver não acreditava mais nisso.
Até que eu apareci e fodi a vida do homem de vez.
— Oliver? – Chamei seu nome notando o silêncio e a seriedade com que me encarava. Ele olhou por cima do meu ombro, imagino encontrando os olhos de Tommy.
— Eu acho que já está na hora de irmos. – Escutei Tommy murmurar, virei-me a tempo de encontrar Sara assentindo. Sara não era tola, além de saber mais do que eu sabia, certamente havia notado a troca de olhares entre os homens. – Deve ter sido um dia longo para vocês dois, e é melhor deixarmos vocês descansarem. – Tommy sorriu polidamente.
— Eu já percebi que vocês vão nos deixar a sós para ele me contar algo do qual eu certamente não irei aprovar. – Retruquei. Ele me deu um sorriso culpado. – Mas obrigada por tentar sair tão educadamente e sem alarme.
— Boa noite Felicity. – Sara murmurou avançando para me dar mais uma abraço. – Nos vemos outro dia. Tente compreende-lo. – Acrescentou piscando. Segurando a mão de Tommy ela o puxou para dentro da casa, Tommy apenas murmurou um “boa noite” fraco. Roy adiantou-se para beijar meu rosto e com um olhar saudoso se afastou. Eu ainda tinha muito o que falar com ele, mas ao que parecia eu também tinha muito o que falar com o homem ao meu lado também, sem demora virei-me completamente para Oliver que me encarou desconfiado.
— Então. – Murmurei sondando. – O que aconteceu? Você realmente se separou de Isabel? – Questionei novamente apenas para me certificar. Ele tornou a assentir.
— Eu poderia dizer que agora sou um homem solteiro. – Sorriu ternamente. – Mas ambos sabemos que sempre fui comprometido a você.
— Não me enrole Oliver Queen. – Murmurei direta. Eu tinha uma suspeita, e a temia. Ainda assim perguntei, rezando que a resposta fosse diferente da que eu imaginava. – O que aconteceu com a sua empresa? – Sondei. – Por favor, diga-me que ainda é sua empresa, e que você não correu com esse divórcio ao ponto de entregar a empresa da sua família nas mãos daquela bruxa.
— Eu sinto muito, amor. – Deu de ombros. – Mas eu não posso dizer isso.
— Oliver! – Protestei. – É a sua empresa, de Thea, da sua família, você deveria ter lutado por ela, por que você fez isso? Por que ceder?
— Você sabe por quê. – Murmurou simplesmente. – Por você.
— Eu nunca lhe pedi semelhante coisa. – Neguei. – Sim, eu queria-o longe dela, mas não assim, não perdendo tanto e não por mim. Por você. – Expliquei. – E agora o quê? Era a sua empresa Oliver.
— Eu queria ter mais o que lhe oferecer quando a encontrasse. – Murmurou se aproximando. – Eu queria ser seu Felicity, inteiramente. – Desviei meus olhos dos seus enquanto o escutava. – Eu não estou brincando aqui, eu posso levar com humor, eu posso levar com paciência, e eu posso esperar até você estar pronta, mas não importa que você ainda não esteja, eu estou. – Franzi o cenho buscando compreende-lo e deixei meus olhos encontrarem os seus novamente. – Eu quero casar com você, eu quero ter uma família com você, eu quero isso. Eu fiz tudo errado com Isabel, ela nunca foi minha esposa, nunca foi parte da minha família e aquela empresa? Não me importa, não há legado Queen, quando meu próprio pai nos colocou nessa situação, ele foi engando por Isabel, perdeu parte disso, ele foi um tolo e se preocupava muito pouco com a família. A empresa, o lucro, isso sim importava. Eu não quero isso para nós dois, para nossa família. – Esclareceu. – A Q. C era um negócio para mim, e eu sou muito bom nisso, eu não tinha apenas ela. Eu tenho muitos outros investimentos e um deles é o Verdant, eu não estou ficando pobre Felicity, e eu não me importo mais com legado algum, tudo o que me importa agora está bem aqui, em minha frente, nesse apartamento, e eu seria um tolo se deixasse escapar por conta dessa maldita empresa.
— Mas Thea...
— Ela ainda tem o que lhe é direito. – Esclareceu. – O único que perdeu algo fui eu, e honestamente? Eu sinto mais como se tivesse ganhado.
— Abrace essa sensação por que eu não acho que vai durar muito. – Comentei ainda chateada por ter causado isso.
— Oh eu acho que vai durar muito. – Sorriu, suas mãos contornando minha cintura e me aproximando de si. Apoiei minhas mãos em seus ombros e observei seu rosto contente. – Meu pai respirava aquela empresa Felicity, e só nos trouxe infelicidade. Riqueza? Sim, claro que sim, mas também o tornou um péssimo pai e terrível marido, inverteu suas prioridades e destruiu nossa família, eu não quero e não vou cometer o mesmo erro que ele. – Seu rosto se aproximou do meu, seu fôlego beijando minha pele. – Eu te amo.
— Eu te amo. – Respondi deixando minha testa encostara sua. – Eu fodi com sua vida mesmo, não foi?
— Amar você tem sido uma das melhores e piores coisas que já me aconteceu. – Confessou.
— Tudo o que uma garota quer ouvir. – Sorri embora soubesse que ele estava certo, eu devia me sentir grata por que apesar de pensar assim, e está mais do que certo, Oliver era teimoso demais para desistir de mim, de nós dois. Isso fazia dele um tolo ou incrivelmente apaixonado, talvez os dois.
— Só é pior quando você não está por perto. – Murmurou me surpreendendo.
— Oliver. – Murmurei chamando sua atenção.
— Hum?
— Eu não estou dizendo “não.” – Murmurei sabendo que ele entenderia. – Nem mesmo um “sim”. Com tudo o que está acontecendo, com tudo o que precisamos lidar ainda, eu não posso lhe dar nada além de um “Em breve”.
— Eu aceito isso. – Sorriu abertamente.
SEBASTIAN BLOOD
Encarei os papéis em cima da minha mesa enquanto cogitava apenas enfia-los em uma pasta qualquer e deixar para amanhã. Toda a parte burocrática e mundana de ser um prefeito me deixava incrivelmente entediado e aborrecido. Eu quase desejava que Slade entrasse em contato comigo para intervir em algum de seus irritantes, mas nada entediantes trabalhinhos sujos. Mas desde a morte de Ivo nada de novo e excitante acontecia, tudo era igual e quase soava como um dia normal na prefeitura.
Quem diria que os dramas de Ivo me fariam falta?
Tudo estava quieto demais.
Eu sequer conseguia me sentir alegre por Oliver fodido Queen ter perdido sua empresa.
Aquela não era uma vitória minha. Não fazia de mim um vencedor.
Eu queria triunfar sobre ele.
Cada pequena coisa que ele perdesse eu queria comemorar em resposta, aplaudir e vibrar. Cada perda de Oliver Queen era um ganho de Sebastian Blood.
Desde que fosse eu a provoca-lo.
Eu consegui uma pequena vitória quando chutei sua puta para fora da cidade, mas ele não desmoronou completamente, ele não cedeu. Eu tinha todas as ferramentas para transformar sua miserável vida em um inferno, e eu estava ansioso por isso, estava louco para ela me dar essas ferramentas.
Mas ela era obediente demais.
Ela foi embora e cumpriu sua promessa.
Eu ansiava pelo dia que isso mudaria. Que ela quebraria, que me daria tudo o que eu precisava para fazer com que Oliver Queen virasse um zé ninguém, trancafiado em uma cadeia por amar demais. Eu queria que ela voltasse, ansiava por isso. Por que afasta-la apenas nunca foi algo que pensei a longo prazo. Mas após sei meses longe eu me questionava se não havia superestimado esse amorzinho irritante e meloso de filme de sessão da tarde dos dois. Quem sabe a puta já não havia encontrado outro idiota a quem seduzir?
A ideia me irritava e me deixava admirado ao mesmo tempo. Por que isso significava que ela não só usou meu querido irmãozinho para se livrar das garras de Ivo como também enganou a mim com esse pretencioso amor. Enganou a três homens e saiu por cima, Felicity Smoak era uma mulher a quem se admirar.
Mas admira-la não me ajudava com o que eu tinha em mente.
Merda.
Irritado com a possibilidade de não está certo sacudi todos os papéis para longe, arrastando todos os objetos em cima da mesa e derrubando-os no chão, o som de algo se quebrando me acalmou. Com as mãos plantadas sobre a mesa trabalhei em minha mente o que eu podia fazer a seguir. Estava preso em meus próprios pensamentos quando duas pancadas leves fizeram-se presentes. Encarando a porta a minha frente eu me encostei a poltrona confortável assumindo uma calma que eu não possuía.
— Entre. – Murmurei sem me preocupar em perguntar quem de quem se tratava. Minha assistente já havia saído há horas e com exceções de um par de seguranças, eu estava sozinho. Sem demora um dos meus seguranças entrou na sala. Treinado como era não alternou seu olhar para a bagunça que minha pequena explosão havia ocasionado. Seus olhos estavam em mim, sua postura rígida quando parou em frente a porta após fecha-la. – Diga.
— Ele ligou. – Murmurou simplesmente. Sabendo que não precisava de explicações excessivas.
— E? – Murmurei entediado. – O que ele disse? – Ele me encarou apenas brevemente, ciente de o que iria me dizer, me animaria de uma forma que ele não poderia compreender.
— “Ela voltou”.
Sem nenhuma pergunta a mais me levantei com um sorriso no rosto, eu podia dar o dia por encerrado hoje. Agora que havia recebido tão preciosa informação eu estava com humor o suficiente para ir para minha casa e brincar de pai devotado e marido apaixonado. Amanhã eu partiria para a ação. Passando pelo meu segurança o senti me acompanhar enquanto deixava o caos em minha sala para trás.
Eu não ligava para aquilo, alguém cuidaria disso.
Um novo sorriso se fazia presente enquanto eu admitia para mim mesmo que não se tratava disso.
A verdade era que eu gostava do caos.
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