Lonely Star
14 A garota que nunca foi violinista
Notas iniciais
N: Julia.
– Julia! Zoe! — chamou Paôla do outro lado da rua.
Ela atravessou e encontrou conosco.
– Garotas... tenho algo a dizer. É importante.
Zoe a abraçou dizendo: — Fale depois! Senti sua falta! Desapareceu!
– Estava no Japão. — o abraço se encerra — Assuntos dos mutantes. Fui recrutar um cara, e acabei por... namorar ele. — ela riu – Foi uma longa história.
– Os estrangeiros são os melhores, não é, Zoe?! — brinquei, a zoando com o namorado da irmã que é espanhol.
– Quem namora um espanhol é a Cléo. Fala isso com ela. — retrucou.
– Julia, eu não te vejo há séculos! — ela falou.
– Você não é tão velha assim. — afirmei e a abracei.
– Você me entendeu. — ela afastou.
– Então, Profetiza*, como anda a vida? — perguntou Zoe.
– Eu vim aqui lhes dar uma notícia. Precisava alertar aos Vingadores. É muito sério.
– Por que os X-Men não cuidam disso? — perguntei sem ironia ou sarcasmo algum.
– Vou chegar lá. Como eu ia dizendo, tive duas visões: Minas Gerais, no Brasil, e Paris, na França. Como no Brasil vai ser pior, eu e os X-Men vamos cuidar disso, mas ainda vamos estar muito ocupados quando ocorrer o atentado de Paris...
– Que dia? — perguntou Zoe séria.
– Fico feliz de não ler minha mente sem permissão dessa vez. Treze de Novembro. Lhe enviarei as coordenadas um dia antes. Avise ao Capitão América e ao Homem de Ferro.
– O que vai acontecer? — perguntei preocupada.
– Nós vamos cuidar de uma barragem de lama toxica que vai se romper e causar uma grande catástrofe ambiental. Vocês cuidam de um atentado terrorista.
– Não se preocupe. Daremos um jeito. — Zoe respondeu.
Então... ouvimos um barulho de tiro. Seguimos o som até um beco escuro (e quando não é?), onde estavam cinco homens armados, uma mulher jovem e algumas crianças.
– Escutem, crianças! Nós vamos leva-los para um passeio. — dizia o homem, provavelmente envolvido com tráfico humano (tenho nojo e pena dessa gente) — Um passeio bem... divertido.
– Com licença? — Zoe chamou – Acho que o passeio de vocês acabou de ser cancelado.
Um deles se virou para nós, sorriu e disse:
– Se ligarem para a polícia, estão mortas.
– Não vamos precisar. — falou Paôla.
– Vai ser divertido. — murmurei, ativando minha adaga-canivete.
Quando o reflexo da luz da minha lâmina atingiu seus olhos e ele viu o "X" na pulseira de Paôla e os pés de Zoe se afastarem lentamente do chão, percebeu que não estavam lidando com qualquer grupo de garotas. Eram muita areia para o caminhãozinho dele.
– Três contra cinco me parece um pouco de... desvantagem. — ironizei.
– Podemos chamar as outras duas vingadoras, a asgardiana e a ex-agente da S.H.I.E.L.D.! — brincou Zoe.
Os cinco apontam as armas para a gente. Um atira em mim... isto é, tenta atirar em mim, mas desviei a bala com minha lâmina. Avançamos contra eles e, quando vi a Fllin segurar a arma até ela enferrujar, arregalei os olhos e falei:
– Isso foi maneiro!
– Trabalho com tempo, não é? — ela respondeu.
Ri e voltei. Zoe tentava segurar as balas com telecinese, mas era ou isso ou nos ajudar, e, embora muito poderosa, a Profetiza não era uma lutadora tão experiente. Resumindo, ela ajudava com seus poderes, mas minhas habilidades me deram muita vantagem na luta. Houve um momento em que Zoe parou de defender as crianças e começou a atacar os bandidos também, o que não foi uma boa ideia...
Um tiro.
Um único e desesperador tiro no peito de uma inocente.
Me virei desesperada e corri até ela. Apenas duas que estavam lá: uma mais nova e a adulta que cuidava deles. Me sentei ao lado da garota e analisei o ferimento: sangrava muito. Uma das garotas ligava para a polícia. Pedi que ela ligasse para ambulância também. Assim ela fez. Segurei a mão da menina e falei:
– Já estão vindo ajudar você, okay?
– Vocês não já estão fazendo isso? — ela sussurrou.
– Sim, estamos.
– Você é uma Vingadora! Estrela Solitária. — ela afirmou.
– Garota inteligente! — elogiei, enxugando uma lágrima.
– Quando vi você e a moça de cabelo branco eu... eu imaginei que fossem vocês. Vi na internet. — ela solta uma risadinha.
– Qual o seu nome? — perguntei.
– Mi... Miran... — ela solta um gemido de dor.
A outra garota que estava por lá cai em prantos e a adulta a afasta de nós para consolá-la.
– Pode ficar tranquila que...
– Miranda. — ela interrompeu.
– Miranda. — repeti sorrindo – Sou Julia.
– Eu sei.
Estava sendo um bom trabalho psicológico que eu estava fazendo na garota. Quanto mais calma você estiver, mais calma ela estará. Mas eu estava desesperada. Era muito nova para morrer. Quando olhei para o lado, as outras, com Cléo a dianteira e os olhos amarelados voltando ao tom laranja, se aproximaram. Em um estalo, Wanda apagou a todos com a mente e Natasha se juntou a Cléo e Katrina para ajudar as outras. Paôla se apoiou na parede para respirar e Zoe correu até mim desesperada.
– Como ela está? — perguntei – Consegue ver?
– Esse poder não está no meu repertório. — respondeu Zoe.
– Está morrendo. — lamentou Wanda – Consigo sentir isso.
Chorei mais um pouco, cobrindo meu rosto para que ela não visse.
– Miranda, não acredite nela. — afirmei — Você vai ficar bem.
– Acho que não. — ela respondeu.
– Miranda... — sussurrou Zoe — Você parece com alguém que eu conheci.
– Quem?
– Minha filha. — ela ri triste. Filha? Essa parte da história dela eu não conheço — Só que ela tinha três anos.
– Eu já tenho sete, Mental.
– Então me conhece? — ela perguntou e a garota confirmou. Só então percebi que ela tinha um colar com um pingente de violino – Toca violino? — perguntou a Mental.
– Sim. — respondeu. — Eu sempre toco para Jesus.
– Eu toco violino, sabia? E também toco para Ele! — comentei. — Violino, guitarra, violão, piano... não toco piano tão bem quanto a Zoe, mas toco. E ela também toca pra Jesus, não é? — Zoe confirmou com a cabeça, chorando.
– Eu queria ser famosa, mas... — ela tossiu. Saiu sangue.
– Não diga "mas", isso é quebra de expectativa. Você vai ser uma grande violinista um dia, e nada te impede disso.
– Eu... vou partir... — falou mais fraca ainda.
Zoe segurou a mão dela com força e então olhei para trás: Katrina e Natasha conversavam sobre alguma coisa (papo de ruiva), Cléo e Paôla acalmavam as outras, enquanto Wanda nos observava, com um olhar deprimente: de quando perdeu o seu irmão. O olhar de quando viu o corpo de Pietro depois dele ter se jogado na minha frente e na frente de um garotinho. Não queria que ninguém estivesse pior que eu lá.
– Não, não, não. Você vai viver. Vai ser uma grande violinista e eu vou no seu recital e pagar uma fortuna pra ficar no camarote. Então depois eu vou no seu camarim, pedir para você autografar meu violino e dizer: "Eu te avisei".
– Mas Julia...
– Você não pode ir agora...
– ... Jesus está me chamando.
Não posso dizer mais nada. Não posso questionar. Só posso tentar me conformar. Zoe chora um pouco mais alto.
– Vo... você tem certeza? — perguntou ela gaguejando.
– Sim... Ele disse que vou encontrar com Ele agora. — ela deu seu último suspiro, de olhos abertos, e assim permaneceu.
– Nã.. Não, Miranda. Abre os olhos por favor. — implorou Zoe.
– Já é tarde.
– Mas ela não pode...
– JÁ É TARDE, ZOE! — gritei – E eu não pude fazer nada!
Não me aguento de tanto chorar. Fechei seus olhos por uma última vez, mesmo não querendo aceitar a morte da pequena. Miranda se foi diante dos meus olhos. Ela era tão nova ainda! Não queria que ela fosse! Ao menos não aqui! Nos meus braços!
Como foi com Pietro.
A ambulância chegou, mas chegou tarde. Eu ainda estava ajoelhada no chão quando colocaram seu corpo na maca e cobriram. Descobri que a mulher que estava com as crianças não estavam sozinhas, mas com outros três responsáveis de uma escola local.
– Felizmente poucos saíram feridos. Apenas uma garota veio óbito...
– Miranda. — corrigi o paramédico ainda encarando o chão manchado de sangue — O nome dela era Miranda.
– Miranda Hemsworth. — falou Zoe — Li sua mente antes de sua morte.
– Eram próximas? — ele perguntou.
– Não importa. Ela era uma criança cheia de vida e sonhos. E ela se foi.
– Lamento por isso. — o homem respondeu.
Quando cheguei na Base dos Vingadores, corri e procurei meu pai. Não sei quanto tempo eu corri sem se quer olhar ao redor. Acho que passou muito menos tempo do que pareceu passar. A Base não era tão grande, mas pareceu. Eu o encontrei conversando com Bruce. Até eu me jogar nos braços do meu pai no meio da conversa, não tinha reparado que Natasha havia me seguido.
– O... o que aconteceu lá? — perguntou meu pai.
– Cinco homens armados... alunos de uma escola... não conseguimos salvar todos... — tentava explicar, soluçando e tentando explicar.
– Seria muito pior se você, a Zoe e a Fllin não estivessem lá. — Nat afirmou.
– Mas não conseguimos evitar a morte dela.
– Quem? — perguntou Bruce.
– Uma das crianças. Miranda. — Natasha, ao contrario de mim, tinha forças para contar – Parece que Julia se compadeceu demais por ela. E Zoe também não está bem.
– Hey, filha. — meu pai me encarou — Você vai ver coisas piores na vida do que isso. Aguente!
Não acredito que ele disse isso. Não importa o que eu vou ver pela vida, o que importa é o que aquela menina não vai ver na dela, porque seu tempo acabou de forma precoce. Como assim "aguente"? E se eu houvesse morrido com oito anos lutando contra o Stane? Ou com treze em Nova York? Ou em Sokovia, há poucos meses?! Ele aceitaria que lhe dissessem isso? "Aguente"?!
– Como pode ser tão insensível? Uma família perdeu uma filha. Uma grande violinista não vai viver para se tornar grande. Ela nunca vai ser universitária, namorada, ou qualquer outra coisa. Nunca vai crescer, se casar e ter uma família. Sabe por quê?
– Julia, me escute...
– PORQUE ELA MORREU! — gritei.
Dei as costas e corri para meu quarto. Então esbarrei em Steve, que conversava e ria com Kaz. A pequena japonesa correu em busca de sua mãe e Steve continuou me abraçando. Ele se interessou por mim, sentiu a mesma dor que eu, me apoiou e me sustentou naquele momento complicado. Kaz teria um bom padrasto com certeza, mas teria que dividi-lo comigo, e não só com Katrina. Dês de que convivemos juntos, tenho mais o Steve como pai do que o Stark. Amo meu pai, mas ele não é tão bom nisso...
Eu fui para a Torre. Pela primeira vez em um ano, Rome dormiria na minha cama. Precisava de alguém para me apoiar agora. Então fechei os olhos e caí em sono profundo.
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