Lonely Hearts Club LHC

7 Um encontro solitário.


Notas iniciais
A partir desse capítulo o enredo é desenvolvido em torno de todas as personagens.

Depois de andar milhas pelo mesmo cenário cinzento, esses seis personagens chegaram a um espaço onde o solo era seco e rachado. Parecia que poder finalmente ver alguma pessoa depois de tanto tempo naquele lugar desconhecido seria aliviante. Entretanto, no momento em que cada um encarou a face dos outros a angústia e a solidão pareceram tomar conta de cada semblante. De fato, todos ali estavam passando pelos mesmos problemas. Ou por mais problemas. Ficaram em silêncio, sem ações, por um longo período de tempo.

A estranha e péssima sensação foi passando, e foi sendo substituída por algo como tranquilizador. Afinal de contas, todos estavam passando pelas mesmas dificuldades, aparentemente. Não estavam tão sós quanto imaginavam estar naquele lugar. Porém ainda não se percebia nenhum sinal de som ou movimento. Apenas olhares cruzados, julgando as aparências.

A menina alta, com o corpo perfeitamente moldado. Os cabelos louros estavam muito frisados, sua maquiagem borrada e as roupas rasgadas. Além disso, estava coberta por tomates amassados e ovos quebrados. Os olhos claros moviam-se rapidamente, de alto a baixo, de um lado para outro; as sobrancelhas franzidas. O pescoço levemente levantado. Parecia demonstrar arrogância. Em um momento pareceu cair em si, lembrando que estava desajeitada, e passou as mãos no cabelo, choramingou ao ver as unhas, tentou melhorar a maquiagem, borrando-a ainda mais. E voltou ao seu exercício de encarar os outros ao seu modo um tanto ofensivo. Talvez achasse que, apesar de tudo, continuava glamorosa.

A outra garota era bem menor. Tinha cabelos ruivos e sardas espalhadas pelo rosto e pelos ombros. Usava roupas meio grandes para seu tamanho, mas aquilo ficava até bonitinho. O suéter tinha estampa de coelhinhos. Ela perdera um dos sapatos, exibindo uma meia cheia de cores no pé descalço. Ao contrário da garota alta e confiante, a garota baixa estava tímida e amedrontada. Mordia os lábios e começava a corar as bochechas. Os olhos verdes se ergueram, e ao perceber que todos a olhavam voltou a baixa-los para os pés, ajeitando as mãos nas mangas do suéter.

Um garoto com cerca de 1,75 metro estava muito agitado. Cruzava os braços, colocava as mãos na cabeça, nos bolsos, fazia algo que parecia a dança da galinha e repetia outros movimentos estranhos. Os pés também estavam inquietos. Os olhos eram muito arregalados, movimentando ainda mais do que os olhos da garota arrogante. As sobrancelhas bem arqueadas, e a boca exibindo de vez em quando um sorriso bem maníaco, e até soltando risadinhas. A pele e os cabelos eram pálidos. E como ele era magro...

E ali estavam os garotos idênticos, muito altos, provavelmente irmãos gêmeos. Não era possível identificar se um deles copiava o outro, ou se havia algum truque ali que mostrasse que havia apenas um garoto e um reflexo num espelho. Era incrível como cada detalhe era simétrico. Os cabelos negros, com o mesmo estilo de corte. As mesmas roupas. Até mesmo a comida que os sujava, mostrando que aquela devia ser uma nova tendência no mundo da moda, estava disposta igualmente pelos ombros dos meninos. Cada fio de macarrão caindo igualmente em cada canto dos corpos deles. Os olhos puxados fulminaram em raiva quando se observaram. Voltaram a encarar os outros, meio desafiantes, meio curiosos.

Um último garoto parecia menos preocupado. Seus olhos castanhos esboçavam tranquilidade apesar de toda a situação. Os lábios estavam contraídos. Fazia poucos movimentos, geralmente lentos. Os cabelos estavam um pouco longos, caindo sobre o rosto. Parecia ser bem um cara bem normal. Não que os outros ali parecessem ser muito diferentes. Bem, talvez eles realmente fossem bem diferentes. Mas ele parecia ser a pessoa em melhores condições naquele momento. Nem parecia dar a mínima para tudo aquilo e para aqueles que o observavam. Seus olhos se direcionaram para o alto, e ele soltou um longo suspiro.

Uma voz vinda de algum lugar disse bem alto: “FALEM”.

Aquilo provocou um susto e arrepios em todos ali. Demorou um pouco, mas finalmente começaram a sair palavras.

– Ó caríssima voz vinda do além, poderia por obséquio nos informar QUE PORRA DE LUGAR É ESSE? – gritou a menina que lançava junto aos dois garotos gêmeos aquela tendência de jogar comida em si mesmo.

O que seguiu foi apenas um silêncio semelhante ao que aqueles garotos presenciaram minutos antes. A garota autora da pergunta bateu os pés no chão em protesto e grunhiu.

– Que inferno! É isso? Eu morri? Você é a voz divina ou é o demônio? Qual é a graça disso? Eu não cometi nenhum... quer dizer... quase nenhum erro grave... E esses boatos de que eu vendi minha alma para vossa alteza ou seja lá como você gostar de ser chamado são pura mentira, porque eu cresci em uma família religiosa...

Todos a olhavam como se ela estivesse fazendo algo meio estúpido. Então ela calou-se e bufou. Todos estavam sentados, dispostos em círculo. Então, aquela que acabara de ter uma conversa com o demônio ou algo do gênero tornou a falar novamente, levantando-se e se dirigindo para aqueles outros cinco seres aparentemente humanos.

– Bem, já que eu tive a audácia de começar a falar e talvez iniciar uma negociação com o capeta para conseguir nos tirar daqui, acho justo que eu comece a quebrar o gelo por aqui. E que gelo mesmo, hein? Faz um tremendo frio por aqui... Acho que devo me apresentar...

– Marina Branderburger, 19 anos, modelo profissional desde os 15. – ia dizendo o garoto do sorriso maníaco — Também é atriz, ainda com poucas atuações, as mais conhecidas sendo “Quem é esse tal de John?”, “Pânico matinal” e “Will Harrison – uma história de superação”; vencedora de dois globos de ouro e também de uma framboesa de ouro. Filha de Cristina Branderburger e Gerald Branderburger. Já fez participações em clipes dos cantores Andrew Erbano, Steve Jackson e do rapper CrisH Ru$$ian, no clipe de Pu$$y L0ver. Atualmente andou sofrendo críticas sobre seu peso, seu comportamento agressivo e sobre sua vida amorosa...

– CHEGA! Essa é a minha vida vista de uma vitrine da loja chamada “Fama”! Eu estou cansada de ver as pessoas enxergando apenas o que elas querem! Esses idiotas fazem até mesmo as pessoas menos imbecis ficarem infectadas com minha falsa imagem. Acham que eu queria isso pra mim? Minha vida é cheia de problemas também, ok? E eu não me refiro a essas frescuras de famosinhos... – Marina foi se encolhendo, até abraçar os joelhos e começar a chorar. Ninguém se pronunciou. Ao invés disso, o garoto “normal” se levantou e resolveu seguir a ideia inicial de Marina.

– Acho que devemos continuar com uma apresentação básica, por enquanto... Meu nome é Adam, tenho 17 anos e sou um estudante profissional desde os quatro anos de idade. Minhas únicas premiações foram por ser o aluno com menos faltas por dois anos seguidos e também por ter tirado dez em uma redação. Hum... – Adam parou para pensar. – Acho que é o que eu posso dizer até agora. E eu vou tentar ser legal.

Marina enxugou os olhos e sorriu para ele, porque imaginara que, de certo modo, ele tentara consola-la com suas falas. A próxima pessoa a falar foi o menino que havia falado um bocado sobre Marina. Ela o fulminou com o olhar e ele abriu ainda mais seu sorriso.

– O-olá, eu sou o Harry – ele gaguejava enquanto falava. – Minha idade não é importante, porque eu ouvi em algum lugar que existem pessoas jovens que são velhas e velhos que são jovens... – Fez uma pausa. Depois de um tempo, soltou uma risada estridente e medonha, que fez todos saltarem de susto. – Foda-se. Para que servem premiações no mundo em que vivemos? Tudo está perdido. O mundo é uma perdição. Nós mesmos, aqui nesse monte de merda, estamos perdidos. Querem um prêmio de consolação por ainda estarmos vivos? Hahahahaha. Vocês se foderam. Eu acho pinguins irritantes. Eu gosto de tomates. – Olhou para Marina, que estava toda coberta daquele fruto. Ela deu um tremelique e desviou o olhar para o chão. Harry bateu palmas, o que causou estranhamento em todos ali. Talvez estivesse ovacionando a si mesmo, ou esperasse que os outros tivessem tido aquela reação.

Os gêmeos brigavam para decidir quem seria o primeiro a apresentar. Eles não estavam chegando a um consenso, mas depois de jogar pedra, papel ou tesoura um deles comemorou e empurrou o outro para o centro do círculo. O menino que estava ali no meio ficou carrancudo, e depois de bufar e passar a mão milhares de vezes no queixo ele resolveu falar.

– Meu nome é Mason. Eu tenho 16 anos, mas eu sei que eu tenho cara de ter menos. Caso vocês não perceberam eu sou retardado. A começar porque eu copio meu irmãozinho em tudo...

– Cala a boca, imbecil! Jason, seu cuzão! Se eu realmente te copiasse em tudo eu não teria ganhado no jogo! – bradou o menino idêntico ao que falara há pouco.

– Eu sempre me dava bem em tudo. Mas você é invejoso, e pra tentar me superar fica fazendo tudo o que eu faço! E acha que vai me superar. Ter você como irmão foi um destino cruel.

– Desculpe, não era minha intenção ser tão bom em tudo o que eu faço... Eu tenho tudo o que eu quero, e você fica só sonhando. Você não sabe nem mijar direito!

Os dois irmãos se engalfinharam e começaram a trocar tapas e socos. Os outros observavam perplexos. Marina ria de tudo aquilo. Harry batia palmas e ficava saltitante e contente com aquilo. Adam contraía toda a face, como se tentasse se controlar. A menina que ainda não havia se apresentado se encolhia e afastava de toda aquela algazarra. Marina resolveu tomar jeito e ficar séria. Ela entrou no meio daquilo e usou alguns golpes estranhos para imobilizar ao mesmo tempo os dois meninos que brigavam ao mesmo tempo.

– Acho que já foi o suficiente a parte de vocês. Vocês dois são uns dois imitões. Oras, olhem para vocês mesmos e vejam... – fez uma longa pausa, fez um movimento negativo com a cabeça e prosseguiu. — Como vocês podem copiar a minha tendência de jogar comida em si mesmo? Ok, ok, quem sabe vocês podem me acompanhar nessa nova campanha em parceria com a Calvin Klein? “Você é o que você come”.

Eles riram uma risada meio sem graça. Mais uma vez todos em silêncio. Ainda faltava a garota ruiva. Todos esperavam as palavras que iriam sair de sua boca. Seu rosto estava bem vermelho. Ela escondeu as bochechas com as mãos.

– Está tudo bem. Não tenha medo da gente. – disse Adam, que notou como a última frase soara erronia.

– Eu estou aqui, qualquer coisa eu meto uns golpes nesses meninos bobões! – disse Marina meio forçada.

A menina pequenina grunhiu. E mais de uma vez. Uma lágrima discreta desceu pelo rosto. Ela falou tão baixinho que todos ali tiveram que diminuir o tamanho do círculo, aproximando-se da pobrezinha. Mais uma vez ela soltou um murmurinho bem sumido.

– O quê?! – Gritou um dos gêmeos. Marina deu um tapa na mão dele.

– Meu nome é Emily! – gritou meio rouca a menina tímida.

– Oi Emily. – disse Adam.

– Você gosta de tomates? — perguntou Harry

Emily se encolheu ao encarar o garoto albino e apenas fez um meneio de cabeça. Ela olhou para baixo, onde se encontravam suas mãos. Uma delas estava fechada em torno de um chaveiro. Era um coelhinho de pelúcia. Parecia que ela tinha um fanatismo tão grande por coelhos quanto Harry tinha por tomates. Levantou o rosto, um pouco mais calma, e tornou a falar.

– Tenho 18 anos...

– Puxa vida! Jura? Mesmo? Não é possível! Olha essa carinha de bebê!! – O outro gêmeo disse espantado. Emily pareceu ficar um pouco ofendida. Marina deu um tapa no garoto errado. Então ela deu o tapa no menino que o merecia. Aquela coisa de os dois serem muito parecidos não iria dar certo...

– Legal... Agora que todos nós nos conhecemos... – Adam ia começar a falar, mas foi interrompido quando tudo ficou escuro. Os outros haviam sumido. O espaço foi ficando apertado e sufocado. E os sons foram sendo abafados. Os eventos estranhos estavam apenas começando.