Lonely Hearts Club LHC
8 Eureka!
Cada um daqueles que foram anteriormente citados encontravam-se isolados em situações diferentes, mas mesmo assim semelhantes.
Emily estava envolta em algo que impedia os movimentos de seus braços. O espaço comprimido em que estava cheirava a plástico e isopor. Estava em uma espécie de caixa de madeira, e acima de sua cabeça havia pequenos buracos na superfície, de onde dava para enxergar as coisas lá fora. Ela teria que pular para conseguir ver o que havia ali, mas ela não estava empolgada para isso.
Já Harry estava em um local bem espaçoso, e conseguia se movimentar bastante. O único problema era que estava em baixo d’agua e com pouca luminosidade. O que conseguia ver vindo da superfície era estranho, de certo modo medonho. Não havia nada por perto. Nem mesmo solo. Ele nadou rumo a superfície e bateu o rosto em algo que presumiu ser um vidro. O menino se debateu de encontro àquela superfície, mas nada acontecia.
Adam não era Adam. Na verdade ele nem tinha certeza do que era exatamente. Xícara? Pote de biscoitos? Cortina? Objetos... ? Ele não estava só. As pessoas que estavam ali eram grandes demais, e de vez em quando estavam tocando em Adam. Com as mãos, os lábios e até (horrendamente) com os pés fedidos. Apesar disso, ele não se incomodara.
Marina era uma peça de museu. Uma escultura semelhante às greco-romanas. Imóvel, claro. Uma excursão passava por ali, tirando muitas e muitas fotos e o guia ia contando histórias.
– Essa escultura é em homenagem a um mito antigo, de uma jovem que se entregava a todos, mas, ao mesmo tempo, desprezava os pobres jovens que se apaixonassem por ela. Era uma verdadeira moça da vida, fazendo de tudo para se sair melhor do que o restante da população de seu vilarejo. Já foi símbolo de perfeição, mas sabemos que também foi símbolo da desilusão e do sacrifício. Muitos dos homens que se interessavam por... – dizia o guia, e Marina foi ficando aos nervos. As pessoas que a olhavam estavam criticando.
– Com licença, essa obra está sendo confiscada para poder ser mais bem preservada. – disseram um grupo de homens que surgiram por trás dela e a levaram até um galpão, onde se encontrava um senhor que aparentava ser um artista. Ele mexia a cabeça em movimento negativo, e começou a pegar seus materiais para remodelar Marina. Ela queria escapar, mas estava presa naquele corpo rígido.
Jason ou Mason não tinham certeza de quem eram. Não sabiam nem mesmo os seus próprios nomes. Estavam correndo em uma multidão, que também estava correndo. Então todos os personagens que corriam pararam. E assim Jason e Mason fizeram, sem querer. Eles não tinham controle de seus próprios movimentos. E todos ali eram iguais. Todos puxaram os cabelos e gritaram e uníssono de forma estúpida e ensurdecedora. E bateram palmas. Aquilo começava a agonizar quem quer que os garotos achassem que fossem.
Então todos saíram destes momentos, aliviados e debatidos. Ninguém entendeu o que havia acontecido, então cada um explicou o que havia sentido. Mas parecia que não estava ajudando muito, porque cada um via seu momento como o pior de todos e não buscava compreender o que havia acontecido aos outros. Começaram até mesmo a discutir e quando as coisas estavam esquentando demais tudo voltou a acontecer.
Uma caixa surgir no lugar que Emily ocupava, com faixas e carimbos em diversos idiomas dizendo “Perigo, frágil”, “Este lado para cima”, “Cuidado ao abrir”. Os outros se olharam confusos. Olharam nos buracos que se encontravam em uma das superfícies do objeto e viram uma menina encolhida envolta em plástico-bolha e isopor. O grupo se uniu em silêncio e abriu o caixote tirando Emily dali de dentro. Encararam-na e a reação foi inesperada: todos a abraçaram, estourando as bolinhas do plástico. E ficaram assim por um bom tempo, enquanto Emily corava e chorava baixinho. Ela finalmente pôde se sentir acolhida.
As coisas mudaram, e quem havia sumido dessa vez era Harry. Encontraram uma televisão meio antiga ali, com um controle remoto acima dela. Um sofá surgiu atrás deles, e todos se sentaram. Ao ligarem a TV perceberam um pequeno pontinho branco em um fundo escuro em um dos cantos. Ele se mexia freneticamente e ia crescendo. Uma figura humana ia surgindo, até Harry aparecer. Conforme a imagem melhorava, percebia-se que o vidro da tela estava sujo. Harry olhou assustado e tentou fugir de alguma coisa.
– Rápido, temos que dar um jeito de tirá-lo dali! – Emily se manifestou.
Adam jogou o controle remoto de encontro a tela e um liquido nojento vazou dali trazendo consigo Harry. Ele olhou estranhamente em volta e disse ter visto coisas horríveis, e que agora enxergava as coisas mais claramente. Além disso, disse que ver seus amigos (mais um momento imprevisível) era aliviante agora.
E, mais uma vez a realidade mudou. Todos menos Adam se encontravam em uma sala de estar bem acolhedora. Era tão acolhedora que todos já foram se acomodando por ali.
– Não senta em mim! – A voz de Adam surgiu de algum lugar.
– JESUS! – Marina exclamou se levantando.
– Ei, para de enfiar a mão em mim! — Mais uma vez, dessa vez surgiu próxima a Mason, que derrubou um pote de porcelana no chão. A voz de Adam berrou de dor.
– Espera aí... — Harry disse. Ele puxou uma cortina, e Adam berrou. Pisou forte no chão e Adam grunhiu.
– Ele é essa sala! – Os gêmeos disseram em uníssono.
– E agora, o que fazemos para tê-lo de volta? – Perguntou Emily.
Passou-se muito tempo enquanto todos procuravam uma resposta. Marina, impaciente, riu e brincou:
– Eu, Marina, diva das divas, com todo meu glitter mágico, invoco o Adam humano agora!
E, realmente, a mágica de diva da Marina funcionou.
Adam voltou, e todos estavam amontoados em cima dele. Ele se levantou, respirou e caminhou sozinho um caminho que ele quis traçar.
Chegando a um grande museu, viu os outros atrás dele, arfando.
– Marina sumiu! – Os gêmeos disseram juntos.
– Vamos ver aqui dentro. Acho que esse museu não apareceu à toa.
Passaram por vários artefatos antigos e obras famosas. Encontraram no fim de um corredor uma escultura feminina. Uma placa em mármore trazia o nome “MARINA” e algumas informações.
– Com licença, essa exposição acabou porque ela esta obra é muito inadequada. Obrigado pela compreensão. — disse um homem cheio de equipamentos para esculpir.
– Quem é você? – Emily perguntou.
– Eu sou o responsável pela conservação da obra.
– E eu quero compra-la!!! – Harry disse sem pensar.
– Desculpe, nós queremos poupa-lo de futuros problemas.
– Eu sou rico, eu tenho uma maleta com 3 milhões de dólares bem aqui nas minhas mãos – a tal maleta surgiu nas mãos de Harry.
– Hmm... Fechado! – o artista entregou a escultura para o grupo. Porém ela continuava concreta e imóvel. Ninguém sabia o que fazer. Já estavam perdendo as esperanças de que as coisas pudessem dar certo.
– Veja só, ela é perfeita... – Emily começou a falar – Ela pode ser quem ela quiser, e não precisa ter um corpo escultural para poder impressionar as pessoas. Ela não precisa agradar os outros para brilhar...
Os meninos a encararam e sorriram. E a estátua começou a se mexer e voltar a ser a Marina de antes. Talvez não. Ela estava diferente, e tinha certeza de que iria mudar em breve. Mas antes precisava de roupas. Porque sua fusão de escultura para humana não incluía roupas, como geralmente ocorria nos desenhos animados. Ela tentou usar todo seu poder de diva brilhante, mas não conseguiu suas roupas. Teve que ir até a loja do museu e comprar roupas com estampas egípcias e indús.
Para finalizar chegaram a um lugar que tinha uma catraca na entrada. Do outro lado podia ser vista uma comunidade de seres idênticos fazendo uma espécie de flash mob. Jason e Mason deviam estar do outro lado. Adam, Emily, Harry e Marina pularam a catraca que estava travada e tentaram buscar os dois meninos perdidos. Mas todos ali eram iguais aos irmãos. Os garotos e as garotas se destacavam naquela multidão. Um círculo se formou em torno deles. E o silêncio tomou conta do lugar. Uma música muito alegre começou a tocar. Os clones dançavam em perfeita sincronia.
– O que a gente faz agora?! – Adam exclamou em meio ao som.
– Vamos dançar. — Harry propôs.
– O quê??
Harry dançava freneticamente. Mexia todas as partes possíveis de seu corpo. E de uma forma bem diferente dos clones. Marina também se entregou ao ritmo, e logo Emily também. Adam achou absurda aquela reação, mas Marina o puxou para dançar, mexendo os braços dele e forçando-o a pular.
Os clones pararam de dançar, mas a música continuava. Começaram a ficar vermelhos e inchados, e então explodiram em milhares de confetes coloridos. Sobraram apenas dois deles, que na verdade já nem estavam mais no padrão de antes.
E, por fim, tudo voltou ao normal. Aquele solo rachado e seco parecia ser muito mais agradável agora. Todos caíram no chão e deram gargalhadas, sem nenhum motivo aparente. Algumas flores começavam a brotar entre as rachaduras do solo e no céu começavam a surgir cores.
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