Notas iniciais
- Os capítulos mudarão de perspectiva de acordo com a(s) personagem(s) a(s) qual(is) pretenderei dar mais atenção.

Marina acordou mais uma vez naquela que não era sua cama. Sempre estava acordando em camas diferentes. Quem era mesmo o cara que dormia ao seu lado? Kenan Williams... Mais um daqueles boyzinhos que ficam com todas as garotas e depois se esquece delas. Ainda por cima, vive com o dinheiro dos pais, dois dos mais ricos do país. Provavelmente já tinha uns nove filhos (sem contar os vários abortos), mas Marina garantiu que havia usado de todos os métodos contraceptivos durante relação.

Levantou logo cedo, afinal tinha sete ensaios fotográficos no mesmo dia e mais outros quatro eventos. Ela não estava nem um pouco a fim de fazer isso. Queria apenas voltar para a sua cama oficial, comer um pote de sorvete de flocos inteiro e assistir àqueles filmes antigos que ficavam guardados em caixas no porão da casa. A última vez que ela fez isso foi aos doze anos, e a mãe dela achou um absurdo. No dia seguinte, Marina foi a pessoa mais jovem a fazer uma lipoaspiração, e os filmes ficaram guardados em um alçapão secreto, que ela mesma havia descoberto sem que ninguém soubesse.

Depois de se arrumar, Marina foi em direção à sua bolsa, que estava no sofá. Embaixo dela, encontrou um bilhete onde estava escrito: “Gata, ontem descobri que você foi a gata mais bonita e talentosa com quem eu já fiquei. Gostaria de ter mais uma noite mágica comigo?”.

Aquele bilhete fez seu estômago se revirar, mas ao mesmo tempo a fez rir. Pegou seu batom vermelho cereja e escreveu um “não” bem grande naquele bilhete, colocou-o na geladeira e saiu antes que ele acordasse.

Entrou na sua Lamborghini conversível elaranja. Quando já ia pisando no acelerador, apareceu um cara maluco que se jogou no capô do carro. Era mais um daqueles caras que não entendiam que ela não os queria mais: Brandon Andreiko, um dos mais insistentes...

– Acho que nós ainda não terminamos de resolver algo entre nós! – gritou ele, se agarrando ao capô do carro.

– Querido, eu nem me lembro de quem é você! – disse Marina, contendo um sorriso.

– Dia 23 de abril de 2011, na casa de festas Élégance, aniversário da Bridgit Swan, nos encontramos às 23h47min e ficamos conversando. Você estava vestindo um vestido da Tommy Hilfiger, calçandoLouboutins e bebia muita Vodca. Você me convidou para ir ao Castellammare’s Hotel, e eu aceitei. Ficamos no quarto 3001, na cobertura. Quando eu acordei no dia seguinte você tinha sumido e me abandonado!

Marina se impressionou com a capacidade de memória dele.

– Ah... Vodca... É por isso que eu não me lembro de você... Ainda bem... Bridgit...? Ah, que guria escrota... Acha que somos amigas, pobrezinha... Já que para mim parece que não aconteceu nada, que tal continuarmos fingindo que realmente não aconteceu?

– NÃO VOU ACEITAR ESSE TIPO DE COISA COMIGO! EU CONSIGO TUDO O QUE EU QUERO E NÃO VOU DESISTIR DE VOCÊ!

– Calma, Andreikinho, não precisa falar com o Caps Lock ligado, nunca aprendeu que nem tudo o que você quer na vida você não consegue? Baby, você viu filmes demais da Disney...

– NÃO OUSE ME ABANDONAR! EU POSSO PEDIR UM ADVOGADO AO MEU PAI PRA PROCESSAR VOCÊ!

– Que crime eu cometi? Ser bela e ter benção de Afrodite? Ó não... Quão culpada estou me sentindo... Quer saber a verdade? Você é um filhinho de papai crianção que não sabe viver independentemente e que não conhece o mundo real dos adultos!

– VOCÊ ESTÁ MUITO ABUSADA, VOCÊ NÃO SABE DO QUE EU SOU CAPAZ!

– Você, com certeza, só é capaz de chorar, se enfiar em baixo das asas da mamãe e chamar o papai pra brigar – Marina fez um biquinho.

– EU NÃO VOU SAIR DE CIMA DO SEU CARRO ATÉ QUE VOCÊ DESISTA E QUEIRA FICAR COMIGO!

Nesse momento, Marina percebeu que uma multidão começava a surgir ali, e, de repente, um flash piscou entre aqueles observadores. Paparazzis...

Marina entrou em pânico e acabou agindo sem pensar: pisou no acelerador com tudo, tentando livrar-se da multidão e chegar ao trabalho. Brandon continuava agarrado ao capô do carro, quando Marina fez uma curva brusca que o lançou direto para a calçada. Por um instante, ela pensou em parar e tentar ajuda-lo, mas isso provavelmente lhe traria o risco de ser agarrada e sequestrada por ele. Olhou no retrovisor, e viu que ele já se levantava e começava a correr atrás de seu carro.

Finalmente, chegou ao trabalho em segurança, sem nenhum sinal de caras malucos que poderiam agarra-la e sequestra-la. Logo que abriu a porta do estúdio, várias pessoas já começavam a cerca-la, tocando seu rosto, suas roupas, puxando os braços e fazendo várias perguntas ao mesmo tempo. Marina revirou os olhos, forçou um sorriso e deixou que eles a conduzissem para onde eles queriam e fizessem tudo o que quisessem com ela.

Antes que pudesse perceber, já estava ali posando para as fotos. Tudo como sempre. Fazia aquilo todo dia... Não só posar para fotos e fugir de caras malucos inconformados, mas daqui a pouco estaria chegando em casa para presenciar uma guerra entre seus pais, que todo dia vinham com o mesmo discurso, um acusando ao outro e ameaçando o divórcio, mas no fim nunca se separavam. Afinal, ao sair das portas da grande mansão, tinham que sorrir e acenar abraçados para as fotos e os fãs.

Marina estava começando à ficar nauseada, e então seu empresário surgiu dentre todas aquelas pessoas e começou a gritar com todos, principalmente com ela.

– Podem cancelar todo esse ensaio, a Marina estragou tudo. Olhe só para isso, está inaceitável!

Todos fizeram uma expressão de total confusão. Uma funcionária que estava ali, uma das maquiadoras, surgiu e tentou contestar:

– Mas senhor, ela está se esforçando muito! Ela teve de comparecer a quinze eventos só ontem! Ela nem pôde dormir muito, teve que correr para chegar até aqui e ainda vai ter que correr mais para chegar aos outros eventos de hoje!

– Você fique calada! Quem é você mesmo? Só uma maquiadora, eu mando em todo mundo dessa merda de agência!

– Na verdade, você é apenas o empresário da...

–... maior Top Model dessa bagaça! Ela que dá dinheiro pra todos vocês! Por acaso vocês querem que ela lhes traga à falência só porque está horrível de gorda?

“A Marina estragou tudo”, “está horrível de gorda”. Essas palavras a afetaram. Ela havia emagrecido três quilos em uma semana, mas seu empresário a achava gorda para os padrões de uma “super top model”

– Mas senhor...

– Mas nada! Vocês todos calem a boca! Olhem só isso! – disse ele, puxando o braço de Marina com agressividade de modo que a fez cair no chão.

Nesse instante, tudo ficou turvo. Marina ouviu várias vozes gritando, pessoas se agarrando e de repente tudo escureceu e houve silêncio. Depois, ela abriu os olhos e viu-se numa cama de hospital. Quando se levantou, viu a maquiadora que havia desafiado seu empresário sentada numa das poltronas do quarto. Tudo estava girando e girando. Havia um silêncio agradável ali dentro. Lá fora, passarinhos cantavam lindamente.

De repente, a porta se abriu e bateu na parede, fazendo um grande estrondo, que acordou a maquiadora e espantou os pássaros. Seus pais entraram freneticamente no quarto fazendo um escândalo. Depois de vários gritos e choramingos, sua mãe lhe perguntou:

– Está tudo bem, meu docinho?

– Hum, acho que sim...

– Ah! Que maravilha! Posso chamar todos os repórteres agora, não é?

– Não! – interveio a maquiadora – Ela precisa descansar! Ela não anda se alimentando bem, não pôde dormir durante os últimos dias e tem trabalhado muito!

– Hã... Quem é você mesmo... — disse o pai da Marina, tirando os olhos do celular — Ah, é mesmo. Só a maquiadora. Ainda bem que você está aqui. Marina precisa ser maquiada, olha só o estado da coitadinha! Vamos, cale-se, comece logo seu trabalho e depois vá embora! Não precisaremos de você para mais nada!

Marina percebeu que os olhos da única pessoa que estava entendendo pelo que ela passava se encheram de lágrimas que logo foram contidas por piscadas rápidas. A maquiadora ficou calada pelo resto do tempo e logo foi embora. Marina sentiu muita pena dela.

Muitos, mas muitos repórteres entraram no quarto do hospital, sem parecer terem escutado aos avisos das enfermeiras. Flashes e mais flashes piscavam de forma que cegavam Marina. Seus pais a abraçavam e sorriam como se fossem pais atenciosos e preocupados. Várias perguntas soavam ao mesmo tempo, e tudo começou a girar e girar mais uma vez.

Apesar de tantas perguntas, todas elas eram muito parecidas, e, por mais que ela já tivesse respondido a todas elas, os repórteres insistiam em repeti-las. Porém, surgiu uma pergunta inesperada:

– Marina, soubemos que várias pessoas testemunharam um atropelamento que você mesma realizou. Poderia nos contar qual foi o motivo?

Todos se calaram, até os passarinhos lá fora. Os flashes diminuíram. Os olhares se dirigiam à Marina. Ela ficou pálida e gélida. Tentou responder, gaguejando:

– Bem... hum... E-eu...

De repente, ela foi interrompida e Brandon entrou andando manco em direção ao repórter.

– Ela me atropelou. É uma assassina. Eu estava tentando me reconciliar com ela, porque nós estávamos namorando. Mas ela me ignorou e passou o carro por cima de mim. Ai! Minha perna! – disse ele, fingindo que havia se ferido. Marina arregalou os olhos e tentou desmentir os fatos:

– Ele é louco! Ele se agarrou no capô do meu carro e não quis soltar! Ele me ameaçou e eu não tive escolha! Eu entrei em pânico, e além do mais, tinha que ir trabalhar, se não eu ia ser demitida!

Todos pareceram ignorar. Brandon se jogou no chão e ficou fingindo um choro doloroso. Os flashes dispararam. Todos começaram a gritar com Marina: perguntas, acusações e xingamentos, tudo isso só fazendo com que ela ficasse mais deprimida e enjoada. Seus pais a olharam com repreensão. Lágrimas escorreram de seus olhos.

Mais uma vez ela resolveu agir sem pensar: levantou-se rapidamente, tentou sair, empurrando e, às vezes, tendo de bater em alguns repórteres. A multidão era imensa. Finalmente, ela se livrou das pessoas e saiu correndo pelos corredores do prédio. Várias pessoas tentavam para-la, mas ela tentava se livrar de todo mundo.

Quando já estava na rua, bem longe de todas aquelas pessoas, passou por uma loja de eletrodomésticos, onde havia várias televisões passando notícias sobre ela. Estava sendo tachada de louca, assassina, agressora e vários outros nomes graves. Sua carreira estava simplesmente fodida. Ela olhou seu reflexo numa vitrine. Estava horrível. Seu cabelo parecia um palheiro. Suas roupas estavam todas rasgadas. A maquiagem toda borrada. Estava de pés descalços. Decidiu que ia esquecer tudo aquilo, indo fazer compras. Mas, é claro, ia disfarçada.

Passou em casa para pegar sua bolsa e seu disfarce. Colocou uma peruca ruiva longa. Quem sabe essa fosse a próxima cor de seus cabelos? Pegou um táxi, porque alguém poderia reconhecer algum dos seus carros se ela os tivesse usado. Chegou ao shopping: seu paraíso, o lugar onde ela se drogava com compras. Passou por todas as lojas que amava, saindo sempre com algumas sacolas. Ouviu alguns comentários sobre ela, mas preferiu ignorar e continuar experimentando roupas e passando o cartão na maquininha.

Por um momento, a realidade pareceu cair sobre ela mais uma vez. Ela não poderia viver disfarçada para sempre. Olhou as horas, e percebeu que havia perdido todos os ensaios fotográficos que tinha. Ela provavelmente não apareceria em nenhum dos eventos marcados. Se fosse, provavelmente seria expulsa. Seus pais provavelmente também não a aceitariam em casa, pois entre a filha e a imagem na mídia, eles prefeririam deixar uma órfã no mundo. Se bem que ela já estava bem crescida, dezoito anos... Tudo parecia estar dando tão errado.

E deu ainda mais errado. Um dos seus ex-namorados estava ali no shopping. Marina se escondeu por trás de uma revista, mas já era tarde demais. Ele a havia avistado, e ele se aproximava dela. Ela levantou-se, pegou todas suas trinta e tantas sacolas e andou depressa. Olhou para trás, e lá estava ele. Como se não bastasse, apareceu mais um dos seus admiráveis perseguidores. E ele também se pôs a segui-la.

Marina conseguiu sair do shopping, mas não conseguiu despista-los. Eles a alcançaram e a cercaram, de modo que não houvesse saída. Eram Steve Jackson e Pietro Perez. Há quanto tempo não se viam... Foram dois dos primeiros da grande lista de corações quebrados. Arrancaram-lhe a peruca, seus olhos estavam furiosos. Então começaram o jogo de “Vamos matar a Marina coletivamente!”.

– Oi, lembra-se de mim, Marina? – disse Steve.

– E de mim? Você disse que eu seria inesquecível... – Pietro. Ah, ele realmente era muito bonito e era um bom garoto...

– Oi, garotos... – disse Marina, sentindo calafrios.

– Ah, soubemos que você andou atropelando alguns dos seus ex... Ainda bem que você está sem carro agora, não é?

– Hum, sim, estou sem carro... Nossa! Que bom que você tocou nesse ponto! Algum de vocês poderia me dar uma carona até minha casinha...?

– Ah, estava pensando em te dar carona para um outro lugar, cheio de gente da sua laia...

– Se bem que, Steve, esse lugar provavelmente é o novo lar dela...

– Ah, hum... eu, hum, bem... – gaguejou Marina anunciando o quanto estava amedrontada — Tive outra ideia! E se eu for para a casa de um de vocês? Hein? O que me dizem?

– Estava pensando em um passeio pela floresta, Marina. Lembra do Lago do Bruce? Espero que você também se lembre das lendas daquele lugar... – disse Steve, como sempre perigoso. Havia boatos de que várias pessoas levavam outras para o lago para assassina-las.

– Steve, acho que não há necessidade disso. Ela já está destinada à ir para a cadeia, e com certeza vai ficar lá por um bom tempo – falou Pietro, com seu sotaque espanhol, como sempre um fofo e justo.

– Ela não merece amar mais ninguém. Ela só estragou a vida de muitas pessoas. Ela não merece viver.

– Steve, você não sabe o tanto que minha vida está estragada – disse Marina.

– Então você não se importaria de ir embora para sempre da vida de todos nós certo?

– Steve! – Pietro o empurrou, e os dois começaram a brigar ali, no meio da rua. Marina começou a gritar pedindo socorro enquanto tentava separar a briga. Várias pessoas começaram a se juntar ali, e tudo ficou mais uma vez fodido. Mais ex-namorados apareceram e começaram a entrar ali no palco da tragédia para gritar com ela. Havia ali pelo menos uns seis caras com quem ela já tinha ficado. As outras pessoas também a reconheceram e começaram a gritar com ela também. Alguém conseguiu arranjar um tomate para jogar nela, que acabou caindo no chão, e Steve escorregou e puxou Pietro junto. Mais tomates começaram a voar no ar, e também apareceram ovos. Marina começou a ser nocauteada.

As pessoas começaram a puxa-la, pelas roupas, pelos braços e até pelos cabelos. Ela levou alguns tapas, tomatadas e ovadas, e mais puxões. Uma pessoa a puxou com mais força e conseguiu tira-la da multidão. Marina se encolhia, esperando receber mais um tomate na cara, mas ao invés disso, a pessoa lhe disse:

– Está tudo bem, eu não vou te ferir.

Era uma garota baixinha, que devia ter uns quinze anos. Tinha um cabelo bem grande, e algumas mechas dele eram coloridas. Marina não conseguiu ver seu rosto. Ela estava com a mão puxando o braço da Marina, como se quisesse leva-la a algum lugar.

– Para onde você está me levando? – Marina perguntou.

– Você vai ver, apenas tome cuidado. – respondeu a garota, e Marina pode ver um sorriso em seu rosto.

Não havia sinal de mais nenhuma pessoa. Tudo estava muito quieto. O barulho do trânsito havia parado. Não havia nem mesmo vento. As duas se dirigiam a uma loja de artigos de magia, e Marina começou a ficar desconfiada. Parecia estar fechada, mas a garota dos cabelos coloridos abriu a porta e mandou Marina entrar.

– Pode entrar, eu ficarei aqui fora para ver se alguém aparece. Como eu disse antes, tome cuidado, e tenha uma boa viagem.

Tenha uma boa viagem. Aquilo soou muito estranho, mas Marina não a questionou. Quando ela entrou, a loja já não parecia ser mais uma loja. O chão estava coberto por uma areia cinzenta e ventava muito, de modo que a areia era levantada e batia na pele de Marina. Estava frio e havia pouca luz. Ela olhou para trás e não viu a porta. Começou a correr e gritar pedindo socorro e xingando aquela garota imbecil que a levara para o meio do nada. Para onde quer que olhasse, havia apenas areia e mais areia, e o vento que batia em seu rosto parecia aplicar várias agulhas em sua pele. Dentro dessa situação, Marina se perguntou se ela ainda iria encontrar mais um ex-namorado enfurecido.

Notas finais
Espero que você, caro leitor, tenha gostado da minha estória! Continue acompanhando :)