Lonely Hearts Club LHC
3 Emily
O despertador tocou. Infelizmente, ainda era quarta-feira. Emily enfiou a cara no travesseiro e gritou. Ficou deitada por uns cinco minutos, tentando criar em sua mente palavras de automotivação. Do que elas adiantavam? Todo dia que tinha que ir para a escola ela fazia isso, mas o seu dia sempre acabava ruim. Não podia faltar à escola, porque já havia alcançado o número máximo de faltas. Nenhuma delas foi por estar doente ou por ser um prodígio da dança ou da música. Era, na verdade, pelo simples fato de ela não estar com vontade de sair de casa e ter que ver todas aquelas pessoas repugnantes.
Depois de vestir seu uniforme e tomar o café da manhã, Emily saiu de casa e pegou o metrô. Já estava imaginando toda aquela multidão de pessoas querendo ocupar ao mesmo tempo um único espaço. Mas quando ela chegou à estação não havia ninguém, tudo estava muito deserto. Ao entrar no trem, também não encontrou nenhuma pessoa. Pelo menos poderia se sentar. Vasculhou o vagão de um lado ao outro, depois soltou um suspiro e fechou os olhos por um instante. Quando os abriu, o veículo parou. As portas foram abertas, e Emily viu uma garota se levantar de um dos bancos e sair. O fato era que não havia ninguém ali, e quando ela resolveu fechar os olhos apareceu essa tal garota. O trem não havia parado nem uma vez sequer. A não ser que Emily tenha caído em um sono tão profundo que tenha perdido sua estação. Mas quando ela saiu, estava ali, onde deveria estar. E havia muita, mas muita gente, todas as pessoas apressadas e sendo apertadas.
Talvez o dia não estivesse tão ruim. Afinal, tivera sorte no metrô. Entretanto, era a partir daquela esquina que as coisas começavam a piorar... Peter Stewart e seus amigos iriam chegar e começariam a caçoar dela. Já havia tentado mudar o caminho até a escola, mas aqueles garotos a perseguiam. Emily tinha alguns problemas com a timidez. O primeiro deles é que não conseguia se comunicar bem quando estava nervosa (ou seja, o tempo todo). As frases que deveriam sair em primeira pessoa saíam na terceira do singular. Ela corava facilmente apenas com olhares, fossem eles bondosos, indiferentes ou ofensivos. A sua altura e seu rosto também não ajudavam: já tinha dezessete anos, mas todos pensavam que ela era mais nova. Apesar de tantas faltas, Emily era muito inteligente, e conseguia notas boas.
De fato, tudo o que sempre acontecia, começou a acontecer. Talvez fosse assim que as coisas deveriam ser. Seu destino era viver aquela rotina até seus últimos dias. As palavras que os meninos diziam soavam distantes, como se estivessem embaixo d’água. Emily continuava andando, sem se manifestar. O grupo chegou ao colégio. O seu destino parecia estar se confirmando mais uma vez. Muitos olhares se dirigiam a ela e aos garotos que, literalmente, gritavam nos ouvidos dela. Alguns riam, outros olhavam com desprezo. Havia aqueles que nem pareciam perceber nada, mas Emily conseguia notar alguns poucos olhares de pena dirigidos a ela.
Na sala de aula tudo passou até mais rápido do que era esperado. Ela tinha bolinhas de papel no cabelo ruivo e nos ombros. Era hora do recreio. Preferiu ficar na sala de aula para se limpar e comer sozinha. Todos iam saindo. Sobraram duas pessoas ali, além dela mesma. Eram dois dos olhares piedosos que a olhavam todo dia. Um menino e uma menina. Os irmãos Foster, Anna e Thiago. Emily começava a sentir as bochechas ficarem quentes. Thiago lhe perguntou:
– Hum, você não quer sair da sala para o recreio lá fora?
Emily mexeu a cabeça freneticamente em um gesto negativo, e depois se escondeu por detrás das cadeiras. Viu que Anna olhou para o irmão e soltou um suspiro, como se estivesse avisando que já não havia esperanças de conseguirem fazer amizade com a garota fujona e solitária. Emily achava muito atencioso da parte deles querer que ela pudesse se sentir melhor. Mas não sabia se essa era a real intenção deles. Ela nunca havia confiado em ninguém, porque sempre acabava sendo decepcionada e tendo promessas quebradas. Foi confiando em Peter Stewart que ela acabou se ferindo. E, depois dele, resolveu deixar de acreditar nas pessoas.
A sirene da escola tocou, avisando o término do intervalo, e todos voltaram para a sala de aula. Emily lembrou-se que era naquele horário que deveria fazer a apresentação do seu trabalho de Geografia. Ficara horas se preparando, mas não estava confiante. Estava prevendo que tudo iria dar errado mais uma vez. Não gostava de pensar tão negativamente, mas as mínimas palavras de automotivação que tentava criar em sua mente nunca pareciam funcionar.
Era para ser um trabalho em grupo, mas ninguém quis ter Emily em seus grupos. Talvez os irmãos Foster a tenham querido, mas eles já haviam sido escolhidos para outro grupo. Depois de todos se apresentarem, havia chegado a hora. Ela levantou-se devagar, andou até a frente da classe e olhou para todos ali presentes. As palavras pareciam ser impossíveis de serem pronunciadas. Olhou para o professor, este que levantou as sobrancelhas e fez um gesto com a cabeça para que ela começasse. Olhou novamente para todos, e pôde perceber que Peter Stewart estava contendo o riso. Finalmente, algo pareceu que ia sair, mas ela engasgou e teve um tremelique. Peter e seus amigos riram bem alto, alguns dos outros colegas também. E mais uma vez vários olhares se dirigiam a ela. A maioria parecia ser intimidadora, e Emily não conseguiu encontrar aqueles olhos bondosos que sentiam pena dela.
Ela pegou o apagador do quadro e tacou-o em Peter. Todos fizeram um grave silêncio. O garoto atingido encarou-a ferozmente. O professor gritou com Emily, e a mandou buscar o apagador e apresentar logo seu trabalho. Em nenhum momento Peter foi acusado. Ela se dirigiu até o fundo da sala. O garoto estendeu a perna para que ela tropeçasse, e assim aconteceu. O grupo dos meninos que a perseguia riu. Nesse momento, Emily chegou ao ápice de seu estresse. Pegou o apagador e começou a bater com ele na cara de Peter. Todos começaram a gritar como se aquilo fosse um grande show. Ela pegou as canetas do estojo de uma garota que sentava ali perto e rabiscou a cara do seu inimigo. Rasgou várias folhas do caderno dele e começou a amassar até formar uma bolinha de papel, que foi enfiada na boca de Peter. O professor puxou-lhe o braço e levou-a até a diretoria, junto com o menino agredido.
Chegando lá, Emily ouviu várias acusações contra ela, e quando ela tentava se justificar o diretor balança a cabeça em um gesto negativo. Ele pediu para que Peter dissesse o que havia ocorrido. O garoto fez o maior drama, contando várias mentiras a respeito de Emily, dizendo até que era ela quem o perseguia. Ela tentava contestar, mas o diretor a mandou ficar quieta e começou a dar-lhe um sermão. Nenhum comentário da menina iria surtir efeito, afinal, Peter era sobrinho do diretor. Sempre que alguém vinha gritar com ela, Emily preferia prestar atenção em outras coisas. Percebeu que o diretor usava peruca, e esta estava quase caindo. Ele se parecia com um hipopótamo. Olhou para Peter, e ele era parecido com um cavalo. Ficou então imaginando um hipopótamo usando uma peruca loira e um vestido longo e vermelho dançando com um cavalo de smoking. Aquilo lhe fazia querer rir, mas tentou conter o riso. As palavras do diretor soavam distantes, assim como os gritos dos garotos de manhã antes de chegarem à escola. Tentou voltar ao mundo real sem hipopótamos e cavalos elegantes que dançam juntos, ouvindo o diretor dizer:
– Você será apenas advertida, mas não pense que você irá se safar, estamos entendidos?
– Sim, senhor Stewart... – disse Emily, sem prazer em pronunciar aquele sobrenome.
A aula havia acabado, e já era hora de ir embora. Emily buscou seus materiais, saiu da sala e olhou para todas aquelas pessoas. As garotas andavam com a bunda empinada e o peito estufado. As saias do colégio que elas usavam eram cortadas de modo que as calcinhas delas ficavam facilmente visíveis. Todos os homens ali presentes não eram nem um pouco discretos ao tentar olhá-las, fossem eles alunos ou funcionários. Aquelas meninas conseguiam facilmente arranjar namorados, porque eram bonitas e pareciam ser mais velhas do que Emily aparentava ser. Peter estava cercado por várias delas, que faziam cara de dó para ele e tentavam ajuda-lo a se limpar. Emily não compreendia como aquelas garotas podiam gostar tanto de garotos tão idiotas como ele. Tudo e todos eram a favor de Peter naquela escola. Emily preferiu sair escondida da escola, porque tinha certeza que poderia ser linchada.
Infelizmente ela não conseguiu escapar de algumas das fãs de Peter. Elas derrubaram seus materiais e puxaram seu cabelo muitas vezes. Pegaram uma tesoura e cortaram a saia dela em várias tirinhas. Tinham canetas nas mãos, e todas elas escreveram e rabiscaram seu rosto e seus braços. Tiraram-lhe os sapatos e jogaram em cima dos armários. Depois, foram embora, e a deixaram li sozinha. Não havia mais ninguém no colégio. Emily tentava pegar seus sapatos, mas não os alcançava. Caiu no chão, e encolheu-se frustrada e chorando. Foi embora para casa daquele jeito mesmo, mas preferiu ir à pé.
Morava sozinha. Seus pais moravam em outro país. Quando era criança, eles brigavam muito com ela. Eles diziam que a amavam muito, mas ela já havia ouvido conversas deles dizendo que odiavam ter uma filha. Eles a fizeram ter ainda mais motivos para não acreditar nas pessoas. Entrando no banheiro, Emily olhou seu rosto no espelho, e leu o que estava escrito nele. “Idiota”, “vadia”, “possuída”, “odiada”, “inconformada” eram as palavras que mais se repetiam. Mas Emily encontrou uma palavra que estava solitária. Essa palavra não se repetia. “Solitária”. A palavra era essa, e assim também estava. Emily se sentia solitária. Não no sentido de querer ter um namorado, mas ela não tinha a companhia de ninguém.
Ela deitou-se no chão do banheiro. Levantou-se novamente, entrou na banheira, e tomou um banho. Olhou se no espelho. Aquelas palavras haviam desaparecido. Porém “solitária” estava marcada em sua alma. A palavra ficava soando em sua mente. “Sem amigos, sem família”, pensava. Deitou-se mais uma vez no chão do banheiro. Lágrimas escorriam por seu rosto. Estava cansada daquela rotina. Não queria aquele destino. Não queria morrer sozinha. Mas também não queria ver nenhuma pessoa.
Apesar disso, não estava aguentando ficar em casa. Aquele lugar a estava deixando ainda mais triste. Aqueles pensamentos e palavras soavam em sua mente como gritos. Talvez, se saísse de casa, ela poderia fazê-los soar distantes e submersos. Trocou de roupa, e saiu da pequenina casa. E, de fato aquelas coisas ruins pareciam estar desaparecendo, conforme ia vendo coisas e mais coisas que ocupavam espaço em sua cabeça. Café, ursos, bicicletas, e flores surgiram e ficaram ali presentes. Emily sentou em um banco e ficou imaginando um urso bebendo café e andando de bicicleta em um jardim cheio de flores. Imaginou-o chegando em casa, encontrando sua esposa ursa tirando biscoitos do forno. Seu filho chegava correndo para abraça-los e eles comiam os biscoitos com muita felicidade. Aquilo a fez ficar triste mais uma vez, e ela começou a chorar. Uma pessoa sentou-se ao seu lado. Era a mesma menina que havia surgido misteriosamente no trem. Ela encarava Emily com aqueles olhos grandes cor de mel. O olhar da menina era reconfortador. Seu cabelo era escuro, mas tinha várias mechas coloridas e pequenas tranças. Sua pele era morena. Ela vestia um suéter azul escuro e jeans.
– O-o q-que v-você queer...? – gaguejou Emily.
A garota misteriosa não respondeu, apenas levantou-se e saiu correndo. Ela havia deixado uma pequena luneta no banco. Emily pegou-a e saiu correndo atrás da dona do objeto. Encontrou-a indo na direção de uma loja, que ficava em uma esquina. A garota entrou pela porta, deixando-a aberta. Emily diminuiu a velocidade com que corria, e chegou à loja. Passou pela porta, e encontrou-se num ambiente muito escuro. A porta fechou-se violentamente e um vento frio soprou-lhe o rosto. Havia, agora, pouca luz, e ali não parecia mais ser uma loja. O solo era composto por areia cinzenta, e a visibilidade era muito fraca. Emily olhou por todos os lados, a procura da garota, de ajuda ou de alguma saída. Não houve resultado algum. O vento dificultava a caminhada. E Ela encontrou-se mais uma vez solitária.
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