Mais uma noite em claro. Nunca conseguia ficar cansado e com sono, ficava o tempo todo muito inquieto. Andava em círculos pelo quarto, pulava a janela, andava pela rua e depois voltava para casa. Às vezes caminhava tanto que acabava indo parar na zona norte da cidade (ele morava na zona sul). De tanto caminhar, já tinha a cidade na palma da mão. Passava por vários lugares presenciando tudo o que acontecia.

Harry tinha consciência de que ele era paranoico. Desde pequeno sofrera com os comentários daquelas pessoas más. Ele era um monstrinho preso em uma jaula em exposição, no lugar mais visível possível, para que todos pudessem critica-lo. Mas Harry não se sentia paranoico pelo simples fato de ter milhares de pessoas julgando-o. Um bom exemplo era o fato de que assistia o dia todo à televisão, todos os canais, e sentia que sua vida se passava em cada um daqueles programas, com cada uma das personagens, fossem fictícias ou reais. Aqueles eram seus amigos, que queriam ser apenas ouvidos, mas nunca o escutavam.

É claro que havia uma preferência muito maior por seriados policiais, filmes de ação e por noticiários que informavam apenas os ocorridos trágicos. De certo modo, parecia que aquilo estava mais próximo de sua realidade, e talvez fosse por isso que esse tipo de programa o interessasse mais. Desenhos animados, comédias, romances, qualquer coisa que soasse alegre parecia ser só um sonho bobo. Afinal, Harry havia acordado desse sonho há muito tempo, e a vida deu-lhe uma bela bofetada no rosto.

O dia amanheceu e como ele já estava há poucos quarteirões de sua escola, decidiu que não ia passar em casa. As ruas estavam cobertas por uma neblina densa, de modo que ela cobria seus pés. Passou em uma cafeteria para comprar um cappuccino. Quando chegou, o colégio ainda estava fechado, então ele ficou esperando nos degraus da entrada. O zelador da escola finalmente chegou e abriu as portas, olhando-o com estranhamento. Harry continuou ali sentado até o sinal tocar. Enquanto esteve sentado ali, percebeu que todos pisavam nele, como se não notassem sua presença, olhavam-no com desprezo e faziam piadas.

Na sala de aula o tempo parecia passar muito devagar. Harry tinha a impressão de que já havia passado uma hora desde o início, mas na verdade haviam passado apenas vinte minutos. Durante todo esse tempo, ele não prestava atenção na aula, ficava desenhando, dormindo ou imaginando coisas loucas, como aquelas que ele via na televisão. Imaginou todos correndo desesperadamente enquanto a escola se incendiava. Soltou um pequeno riso, olhou no relógio mais uma vez e haviam passado só mais quinze minutos.

Depois de uma manhã tão eterna, já era hora de ir embora. Era o momento de passar pelo corredor e ver todos aqueles olhares ofensivos, querendo culpa-lo por algo que ele não havia feito, ou ele pelo menos não sabia o que havia de errado. No fundo, Harry só queria ser como os outros. Ter amigos, rir, ser feliz e ter algo para preencher o vazio que sentia dentro de si. Queria poder se livrar de suas angústias, de seu lado violento, porque sabia que isso amedrontava as pessoas. Mas parecia que nada iria adiantar. Sua vida não era como em dos filmes que assistira. Não havia final feliz para ele. As pessoas não eram tão boas assim. Talvez, ninguém fosse capaz de mudar a si mesmo.

Preferiu não ficar dando voltas pela cidade, porque finalmente estava se sentindo exausto. Chegou àquela rua cheia de casas parecidas, a única diferença eram as cores. Todas habitavam famílias felizes e unidas, nem parecia que elas tinham problemas em suas vidas. Avistou sua casa ali, na esquina da rua. Não estava muito atraente. A pintura já estava muito desgastada, o jardim seco e havia muitas cartas na caixa do correio. Olhando o cenário por completo, qualquer um sentiria um ar de tristeza. Quando entrou, sua mãe o abraçou fortemente, chorando. Harry não retribuiu o abraço.

– Onde você esteve durante todo esse tempo? Eu fiquei muito preocupada! Você está bem? Não andou com estranhos, certo? Graças a Deus, você está bem... – disse sua mãe, depois de vários beijos por seu rosto.

Harry hesitou em responder, porque um nó começava a se formar em sua garganta. Percebeu que sua mãe rezara muito. Ali existiam muitas velas, algumas completamente derretidas e outras poucas acesas. Ela segurava um terço. Ele não entendia como aquilo podia funcionar, porque não lhe parecia justo o que um suposto Deus estava fazendo com sua vida.

– Mãe, você sabe que eu costumo andar um pouco pela cidade quando eu fico estressado...

– Mas parece que dessa vez foi por muito mais tempo... Espere... Harry Stevan Foster, o que significam estes olhos vermelhos?!

– Na verdade nada... Eu apenas não dormi nem um pouco desde que eu saí de casa ontem...

– Você jura mesmo? Eu acredito em você, mas se você estiver mentindo, saiba que eu ficarei muito decepcionada... Filho, você não sabe o tanto que eu fiquei angustiada... Por favor, me prometa que você nunca mais ficará tanto tempo fora de casa...

– Mãe...

– E que você sempre me avisará quando e com quem você estará saindo...

Harry não disse nenhuma palavra. Apenas revirou os olhos, confirmou com um gesto de cabeça e deixou que ela lhe abraçasse. Quando ela o soltou, ela disse que ele devia dormir. Ele correu diretamente para as escadas em direção a seu quarto. Antes de entrar, pode ouvir uma fungada e sua mãe agradecendo a Deus.

Ligou a TV. Começou a trocar os canais freneticamente, olhando rapidamente o que cada um mostrava, parando apenas alguns segundos naqueles que lhe parecessem interessantes. Decidiu que não seria bom sair de casa naquele momento, senão sua mãe iria enfartar. Então passou a tarde toda fazendo o que era de costume.

Parece que aquele havia sido um dia bem violento na cidade. Assaltos, acidentes, mortes, incêndios... Naquele momento ocorria a transmissão de um incêndio em uma pizzaria. O repórter falava em meio a tosses sobre como havia ocorrido o fato, da quantidade de feridos e sobre o trânsito naquele local. Uma garota estava posicionada ao seu lado, totalmente distraída, até o repórter fazer uma pergunta para ela:

– Olá, senhorita, você que presenciou o momento (cof, cof) poderia nos dizer como foi que aconteceu? (cof, cof).

– Ah, oi, hum... Bem eu tinha pedido a minha pizza de pepperoni, aí eu fiquei esperando, esperando, esperando, esperando, esperando, esperando e esperando, aí eu já ia reclamar da demora, mas todo mundo ficou meio locão, saiu correndo, teve até um cara que jogou uma mesa na vitrine só por diversão (risos), e eu não tava entendo nada, até que o pizzaiolo (é assim que se fala o nome do cara que faz a pizza?) saiu correndo e gritando “FOGO! FOGO! FOGO!”, e eu fui entender que eu ia ter que passar mais um pouco de fome até achar outro restaurante que não pegasse fogo. – disse ela fazendo uma cara de decepção.

O repórter fez uma expressão de confusão e mandou os âncoras do telejornal continuarem com as outras notícias. Harry achou engraçado o modo como a menina agiu diante do ocorrido. Ela estava pouco se importando se alguém ali corria risco de morte, ela só estava faminta. Aquilo realmente fez com que ele ficasse intrigado em relação à como as pessoas agem de maneiras tão diferentes quando estão em perigo. Ele até ficou com vontade de incendiar um restaurante para ver se ia aparecer algum faminto que só se importava com o seu pedido. “Como as pessoas são egoístas”, pensou Harry.

A televisão parecia estar com uma programação muito semelhante a dos dias anteriores. Harry, finalmente, desligou a televisão e sentou-se na beirada da janela de seu quarto. Ficou observado as pessoas lá fora. Enquanto o mundo pegava fogo, carros capotavam, pessoas brigavam,ficavam doentes, morriam, ali estavam dois irmãos brincando de freesbie. O mundo era estranho. Por que a vida de alguns parecia ser tão perfeita e a de outros era tão ruim? Por que uns tinham mais do que precisavam e outros não tinham nem o necessário? O que Deus estava fazendo enquanto isso? Provavelmente escovando seus belos cabelos albinos de invejar qualquer um.

Escutou um estrondo, seguido por mais uns dois ou três. Saiu da posição em que se encontrava na janela, entrou no quarto, abriu a porta e avistou sua mãe caída no fim da escada. Desceu correndo, agarrou sua mãe pelos ombros e deu pequenas chacoalhadas chamando-a. Ela estava desmaiada. Ele correu para pegar o telefone, e ligou para o número de emergência. A ambulância chegou, os paramédicos, colocaram-na numa maca e Harry entrou junto com eles no automóvel, que seguiu para o hospital.

Enquanto sua mãe estava na sala de operações, o tempo parecia passar ainda mais devagar do que quando estava na sala de aula. Andou de um lado para o outro, com as mãos no rosto. Agora ele entendia como sua mãe se sentia desesperada por sua conta. Aquilo era horrível. Harry chorou, sentou, levantou, e então o médico que realizara a operação apareceu. Harry não conseguia pronunciar palavra alguma, ficou apenas encarando o médico à espera de respostas.

– Sua mãe teve um pequeno trauma na coluna e no crânio, porém depois da operação ela não terá problemas. Ela só precisa descansar. No fim, tudo dará certo. — disse ele sorrindo.

Harry sentou-se, um pouco mais calmo. Depois de algum tempo, uma enfermeira apareceu na sala de espera e lhe preguntou se ele desejava fazer uma pequena visita ao quarto de sua mãe. Sem palavras, ele apenas deixou que ela o guiasse. Chegando lá, sua mãe estava deitada e de olhos abertos. Quando o viu, tentou sorrir, estendendo-lhe a mão para que ele pegasse. E assim ele fez. Algumas lágrimas desceram por seus olhos. Sua mãe continuava sorrindo. Depois de um bom tempo em silêncio, ela disse com a voz rouca:

– Obrigada.

Depois fechou os olhos. A enfermeira informou a Harry que o tempo ali havia se esgotado e o conduziu para fora do quarto em que se encontrava sua mãe. Ele perguntou gaguejando se estava tudo bem mesmo e quando ela poderia sair do hospital. A enfermeira tentou acalma-lo, dizendo que tudo estava bem e que só iria melhorar. Quanto a saída de sua mãe dali, iria ser daqui a três dias. Depois, ela sorriu, virou-se e voltou ao seu trabalho. Harry decidiu que precisava sair e andar um pouco para relaxar a mente.

Andando pela rua, foi colocando as coisas da sua vida em ordem. Não era tão difícil; afinal, seus dias eram muito parecidos há muito tempo. Só conseguia sentir remorso de sua própria vida. As coisas pareciam não dar certo em momento algum. E parecia não existir ninguém capaz de ajuda-lo. Nem que fosse para escuta-lo. E em sua mente soava a mesma pergunta para tudo: por quê?

Parou um instante. Olhou a sua volta, e percebeu que estava de frente a uma pizzaria. “Que tal tacar fogo aqui e fazer uma menina perder seu pedido e continuar faminta?”, pensou nisso, lembrando-se daquele momento achando graça. Sem nem mesmo notar, já tinha pegado um isqueiro e acendido. De repente, surgiu alguém tomando aquilo de sua mão.

– Ah, não mesmo! Você não vai adiar o meu momento favorito do dia nem me fazer perder meu prato predileto! – disse aquela garota, a mesma que tinha aparecido na televisão.

– Oh, perdão. Eu só estava desafiando a mim mesmo, porque achei essa situação muito engraçada. – disse gaguejando.

– Se tivesse sido com você, talvez não tivesse graça! – disse ela furiosa. Depois, abriu um sorriso repentinamente, quando sua pizza chegou. – Quer um pedaço?

Harry sentou-se à mesa e pegou uma fatia. Achava estranho que aquela menina magra pedisse uma pizza inteira só para ela. Quando terminou, ela o agarrou pelo braço e saiu andando com ele por aí. Ela falava mil coisas ao mesmo tempo, e Harry não conseguia acompanha-la nem na conversa nem na caminhada. Ela andava rápido, o que fez com que ele tropeçasse várias vezes.

Eles deram de cara com uma loja de artigos de feitiçaria. Ela abriu a porta e disse:

– Bem, é aqui que você entra e as coisas mudam... Digamos que um pouco. Você vai gostar bastante! Divirta-se!

Harry estranhou aquilo, mas quando olhou para trás a garota o empurrou. Ele caiu num lugar com pouca luz, com vento frio e com o chão cheio de areia cinzenta. Depois de gritar bastante, percebe que não havia sinal de ninguém que pudesse escuta-lo.