Lonely Hearts Club LHC
5 Jason & Mason
Os despertadores de cor laranja tocaram exatamente na mesma hora. 6h00 AM. Primeiro pé a sair da cama: o direito, claro. Sempre tem aquela coçadinha na cabeça e, logo em seguida, um bocejo. Muitos que entravam naquele quarto poderiam pensar que ali havia um espelho, afinal, tudo era muito simétrico, dos dois lados. O que um dos dois fizesse o outro também estaria fazendo. Não copiavam um ao outro, mas parecia que já estava tudo escrito em suas mentes, como se fossem robôs com tarefas iguais. Mas essa ideia parecia absurda quando surgia em suas mentes. Faziam aquilo automaticamente, sem perceberem.
Jason e Mason escovavam os dentes, quando um pouco de pasta de dente caiu na camisa de Jason. Os dois se encararam. Então, Jason pegou um pouco de pasta e passou na camisa de Mason, que deu de ombros e voltou a fazer suas tarefas precisamente iguais as do irmão. Os dois desceram para comer, e lá estavam seus cereais favoritos. Sentaram e comeram, movimentando-se em perfeita sincronia. Aquilo chegava a irritar o pai dos irmãos gêmeos, que confundia seus nomes de propósito. Apesar de odiarem quando isso acontecia, mesmo que acidentalmente, eles já trocaram de nomes de modo inconsciente. Quando ficavam em salas separadas na escola, acontecia de algumas vezes Mason ir para a sala de Jason e agir como se fosse seu irmão, não por achar engraçado ou para safá-lo quando esquecia alguma tarefa, mas porque ele acordara decidido a ser Jason naquele dia. E assim, seu irmão também fazia.
Chegando à escola, encontraram seus amigos. Gregory, o menino hippie esculhambado, e Sarah, a doce, simpática e charmosa menina que fazia dois corações apaixonados quase quebrarem costelas de dois meninos bobos. Apesar de terem essa irritante sincronia, seus amigos pareciam não perceber. Gregory, ou simplesmente Greg, estava mais preocupado em defender os direitos dos porcos-espinho de viver do que em reparar naqueles dois indivíduos vivendo como um único ser; e Sarah tinha notas, problemas de garotas e unhas e cabelo para cuidar. Mas fora isso, quando eles todos se encontravam era como se não houvesse com o que preocupar. Riam de tudo, zoavam os professores e aqueles esquisitões do colégio.
Depois de o mundo ficar mais leve, era hora de ir para as salas de aula. Naquele dia os gêmeos ficaram juntos. Era dia de receber a prova de Química. Apesar de a avaliação ter sido totalmente composta de questões de múltipla escolha, todos ali estavam nervosos, porque a matéria era tão ruim que nem o professor gostava de ensina-la. O professor ia chamando os nomes, e quando ele chamou pelo Jason, Mason quase se levantou. Jason voltou andando lentamente pelo corredor de cadeiras, encarando a sua prova confuso. Quando foi a vez de Mason, ele voltou radiante, pulando e dançando para o seu lugar. Jason tirou 8,0. Mason conseguiu 10,0; a nota máxima. Jason encarou seu irmão pelo restante da aula com um olhar extremamente cruel. Mason sorria abobado, mexendo a cabeça de um lado para o outro. Quando virou para comemorar seu resultado para o irmão, ele sentiu aquele olhar arder e tentou se conter e não encara-lo mais.
Terminada a aula, Jason empurrou Mason em um armário e gritou:
– Qual é o seu problema? ? !!
– Hein... ? O meu eu não sei, mas o seu...- Mason contestou, confuso.
– Olha o que você fez!!!! – disse Jason, mostrando sua prova amassada.
– 8,0! Nada mal!
– “Nada mal” ? ? Para você que tirou 10,0? ? ?
– Eu não estou te entendendo...
– Oras, eu pensei que na 5 e na 7 – Jason apontou para as questões que estavam erradas em sua prova – você teria essas respostas!!
Aí estava uma crise que ocorria todo ano. Quando os irmãos iam fazer algum teste e não sabiam o que responder, Jason, por exemplo, pensava: “Bem, imagino que Mason marcaria a letra a, então eu vou arriscar!”. Às vezes, os resultados coincidiam, mas, como estava ocorrendo naquele dia, isso não acontecera. Em momentos raros como esse, eles se tornavam muito diferentes um do outro, e ao invés de estarem unidos pelo que estavam fazendo ou sentindo, eles se separavam e jogavam bombas um no outro.
– A culpa não é minha! Você que não estuda muito! Eu sou muito mais responsável do que você! – Mason gritou de volta.
– Meninos, o que está acontecendo aqui? – Sarah chegou preocupada
Logo que a viram, os gêmeos se tranquilizaram e voltaram a ser como um só.
– Uma daquelas crises bestinhas, provavelmente, onde um culpa o outro pelo que não fez. – chegou Greg.
– Você tem razão Jason. A culpa é minha. Eu sou um irmão péssimo. Como eu pude me confundir... Eu devia ter me esforçado mais pelo seu bem... Me desculpe, mano! – Mason agarrou seu irmão e começou a chorar em seus ombros.
– Oras, não se preocupe. Eu sei que você errou, mas poderia ter sido eu quem errou. Da próxima vez, isso não vai acontecer. A gente vai estar mais concentrado para fazer a prova do rinoceronte malvado que só sabe cagar na própria matéria... – disse Jason, consolador, fazendo uma referência ao professor de Química.
E então, o dia voltou a ser bonito e divertido na companhia dos amigos. Por enquanto.
Sarah estava muito mais magnífica do que ela já fora nos outros dias. Sim, ela sempre fora magnífica, mas a cada dia que passava parecia que o efeito daquela qualidade afetava ainda mais os garotos. Jason e Mason já não estavam mais se aguentando. Era o momento de eles se declararem a ela. Eles estavam muito confiantes, tinham quase certeza de que tudo daria certo. Mas é claro que não poderia dar.
– Sarah, precisamos conversar... – disseram em uníssono e puxando-a para um canto.
– Vindo de vocês acho que não deve ser coisa muito séria. – disse risonha.
– Bem, imagino que seja sério... – disseram ainda em uníssono – Já faz algum tempo, mas agora parece que esse sentimento cresceu, e sinto que vai crescer ainda mais – disse Jason – Algum dia esse sentimento vai ficar tão grande que acho que não poderá caber mais dentro de mim – completou Mason – O fato é de que eu gostaria de compartilhar o que sinto com você. – voltou a falar Jason – Sarah, eu gosto de você, muito mais do que como amiga – disseram novamente em uníssono.
Sarah estava de olhos semicerrados, em silêncio. Aquele dia estava quente e ensolarado, mas a brisa que ventava era agradável e fresca. Os garotos estavam começando a ficar nervosos.
– Assim, se você quiser um tempo para pensar, tudo bem. — Jason tentou melhorar um pouco a situação — Ou se não sentir isso por mim tudo bem, eu também vou entender, mas se pudermos continuar sendo amigos... — Mason completou, mas foi interrompido por uma crise de risadas de Sarah. Depois de um bom tempo rindo, respirou fundo, e tentou se explicar:
– Ai meninos, essa realmente é uma situação inusitada... Qual dos dois eu escolho?
Os garotos ficaram confusos, então Sarah revirou os olhos e começou a falar:
– Vocês não entendem? Eu conheço tipos de relacionamento em que uma pessoa ama outras duas, três ou não sei quantas mais, mas eu não me sentiria confortável em uma relação assim. Não acho que um relacionamento assim seria a intenção de vocês, mas tentem me entender... Eu só poderia amar um de vocês...
Jason e Mason ficaram cabisbaixos.
– Sabe qual é a verdade? Eu gosto de vocês. Vocês são muito engraçados, fofos, e me fazem feliz, mas, como eu disse antes, eu só poderia escolher um de vocês. O problema é que ao mesmo tempo em que vocês são dois garotos, vocês agem como se fossem um único! Não sei se isso fez parte da criação de vocês como irmãos gêmeos, mas por que vocês não podem ser diferentes um do outro? Por que vocês são tão idênticos e sincronizados? Isso é até irritante!
Mason e Jason se encaravam como se fossem horríveis. Levantaram e saíram correndo para casa, deixando Sarah sozinha. Entraram de supetão em casa e subiram rapidamente para o quarto. Jogaram-se em suas camas e choraram. Depois de muito tempo, levantaram-se e ficaram se encarando com desprezo. Xingaram um ao outro, mas como se o outro fosse ele mesmo. Então começaram a trocar tapas e socos. Destruíram toda a mobília do quarto, rasgaram os lençóis, cortinas e roupas. Depois de tanto barulho, seus pais subiram e ficaram espantados com toda aquela bagunça.
– Mas o que é que está acontecendo aqui? – perguntou a mãe, assustada.
– Eu não quero ser ele! – disseram os gêmeos em uníssono.
– Como assim é óbvio que você não é ele! Jason, este é Mason. Mason, este é Jason. – disse o pai, como se estivesse apresentando os dois e convidando-os para serem amigos.
– Eu o odeio! Eu me odeio! Eu não sei o que eu tô falando! – berrou Mason.
– Fiquem calmos, meus filhos. – disse a mãe se direcionando a Mason, o pai se dirigindo a Jason.
– Ouçam vocês são jovens maravilhosos, nós nos orgulhamos de ter vocês como nossos filhos. – disse o pai – Vocês não devem odiar-se, devem se unir, ser amigos e amar o que são, respeitando as diferenças...
– Que diferença você enxerga aqui, pai ??? Vocês dois criaram essas aberrações que somos nós! A culpa é de vocês!! – Jason falou agressivamente.
Os pais dos meninos encararam o chão. Depois se levantaram e saíram do quarto em silêncio. A mãe voltou para lembrar que eles iriam jantar num restaurante para comemorar o aniversário da tia Elise. Se eles quisessem ir, eles deviam se arrumar naquele momento. Jason percebeu que fora duro demais com os pais. Então, procurou no meio das roupas rasgadas, alguma razoável o bastante para a ocasião. Duvidava bastante que Mason fosse querer ir, já que ele começara a fazer tudo dar errado, então esperava que ele ficasse tão envergonhado que preferisse ficar em casa.
Porém, lá estava Mason terminando de descer as escadas indo de encontro aos seus pais na sala de estar. A mãe sorria levemente ao encara-lo, mas quando viu Jason ela fez uma expressão semelhante à de terror. Mason virou e viu que Jason estava ali atrás. Fez um olhar de desprezo e saiu da casa junto aos pais. No carro, todos ficaram calados durante todo o percurso. Jason e Mason faziam o maior esforço possível para ficarem afastados.
Chegando ao restaurante, encontraram os parentes todos ali reunidos. Tia Elise, como sempre, confundiu os nomes dos garotos, o que os fez ficar realmente ofendidos, mas apenas lançaram para ela sorrisos bem forçados. Sentaram-se um de frente para o outro. Colocaram os cardápios na frente dos rostos para que não tivessem de encaram a criatura nojenta que estava a sua frente. Quando os pratos chegaram, os garçons recolheram os cardápios, e foi revelado que os dois fizeram o mesmo pedido. Em outras ocasiões, teriam rido, mas ali lançaram o mesmo olhar ranzinza um para o outro.
Mason pegou uma ervilha, colocou numa colher e atirou em Jason. Jason ficou emputecido e pegou um pão e atirou com as próprias mãos. Mason agradeceu, ironicamente. A mãe deles os repreendeu, mas não adiantou. Aquilo não chegou a ser uma grande guerra de comida, mas já fora suficiente para chamar a atenção de todos. Jason se levantou e tacou pimenta nos olhos de Mason, que gritou de ardor e começou a lacrimejar muito. Para se vingar, Mason pegou o azeite e regou o cabelo do irmão. Começaram a tacar o restante das coisas que estivessem ali na mesa, enquanto todos apenas observavam chocados. Mason já enfiava macarrão na boca de Jason quando alguém os separou. Eles não conseguiam enxergar direito, mas escutavam gritos vindos dos pais deles, talvez algumas risadas dos primos até flashes de máquinas fotográficas.
Os meninos nem prestavam mais atenção em toda aquela situação, já estavam saindo dali e se dirigindo para a rua. Sem perceberem seguiam o mesmo caminho. Jason empurrou Mason e mandou ir para a puta que pariu. Mason mostrou o dedo e se dirigiu para a direção oposta. Em algum momento se encontraram novamente naquele quarteirão, então tentaram mais uma vez seguir direções opostas, mas para onde quer que fossem sempre se encontravam.
Em algum momento se viram de braços dados a uma garota baixa, e ela começou a conversar com eles:
– Hahaha eu presenciei toda essa algazarra! Tirei fotos e até filmei certos instantes! Com certeza o melhor momento foi quando você enfiou macarrão na boca dele e o forçou a comer! Bem merecido mesmo! Mas vocês são muito idiotas! Ficam aí desperdiçando comida, nem sabem quanta gente passa fome: tipo eu!! Sabem o tanto que viagens intergalácticas dão fome? É claro que não, mas não importa, porque eu já providenciei certas comidinhas pra mim, hihihi. Bem agora se eu fosse vocês...
Os meninos preferiram deixar de prestar atenção, aquela garota não estava falando nada de útil mesmo. Eles tentaram se separam dela, mas ela tinha uma força incrível nos braços. Depois de andar tanto com aquela garota tagarela, seus ouvidos agradeceram o silêncio que veio logo em seguida. Jason sentiu como se estivesse caindo, no entanto ele realmente estava. Viu uma espécie de porta se fechar, e restou-lhe apenas um horizonte cinza e sem graça, areia também cinzenta e um vento frio e que parecia perfurar a pele.
Olhou para todos os lados, e não achou ninguém. Gritou por Mason, mesmo sabendo que ele provavelmente não o ajudaria, mas não houve nenhum sinal dele. Jason se sentia incompleto, realmente solitário.
Fale com o autor