London Love
5 O teste
Notas iniciais
O resto do dia não fora exatamente o que eu esperava, na verdade, tudo que eu conseguia fazer era treinar o máximo as falas que Jason McNight havia me mandado naquela manhã. O papel era bem mais fácil do que imaginei, minha aparição seria rápida e meu personagem era como apenas mais um em meio a vários. Isso me acalmou, além do mais, a preocupação ficou pequena depois de rir tanto com os garotos da The Blue.
Se isso tivesse acontecido há dois anos atrás, eu teria agido como uma fã completamente pirada, pulando em cima do primeiro integrante que eu visse. Mas, por obra do destino, eu só os conheci agora, quando já estava mais adulta e concentrada em outra coisa.
Tomei um banho rápido depois de ensaiar duas vezes seguidas e enquanto secava meu cabelo, ouvi meu celular avisando que chegara uma mensagem.
Scar, que história é essa de conhecer os The Blue e nem pra me ligar e fofocar o quão gatos eles são??
Eu tive que rir daquela mensagem de Ana, afinal não tinha como esperar outra coisa dela.
Desculpa, ok? Estou tentando me acostumar com isso.
Acostumar? Criatura, você conheceu os garotos perdição da Inglaterra e nem pra me ligar dizendo sobre a “gostosura” do Zack! Caramba, me conta tudo agora!
Disquei o número de Ana e depois de apenas um toque, já ouvi sua voz histérica do outro lado da linha.
– Você é uma ingrata, sabia? É, uma ingrata mesmo. Eu coloco você num avião para Londres e quando você conhece os The Blue, nem pra me ligar!!
Dramática.
– Ok, Ana, já entendi! Quer que eu conte como eles são ou você prefere ficar me xingando até ficar sem ar e morrer?
Em segundos, ela ficou completamente calada do outro lado. É, sou boa com ameaças.
– Eu fiz muita amizade com os gêmeos, eles são muito engraçados. Mas pode tirar o olhos, porque eles são meus! – brinquei logo ouvindo outra cessão de xingamentos. – Ah, e o Will é exatamente o que nós achávamos, ele é meio “pegador” mesmo, meio o “papai” do grupo. E bem, o Henri...
– Henri Price sedução eminente. – disse ela me cortando fazendo-me ter uma crise de risos. – Nem precisa continuar, o Price é exatamente o que eu espero.
– Só que não. – dessa vez que a cortei. – Ele é meio bipolar. Pelo menos essa é minha suspeita. Quando me conheceu, foi super seco e entediado. Depois, quando eu estava almoçando com eles no McDonald’s, foi todo educadinho e simpático. Sério, não entendo esse garoto.
Como conheço Ana muito bem, ela estava revirando os olhos. Claro, me senti ofendida com isso e quase a xinguei antes que ela começasse a falar.
– Nem vem com essa história de “se odeiam no começo e se amam no final” porque isso é clichê.
– Mas o que?! – berrei no telefone. – Eu não odeio ele e muito menos gosto dele, Ana! Credo, o garoto pode até ser bonito e muito simpático às vezes, mas não quero nada com ele! Nunca!
Dessa vez, ela com certeza havia revirado os olhos.
– Ah, conta outra. – reclamou. – Scar, tenho que ir, minha mãe está derrubando tudo na cozinha. Sabe como minha família só tem louco.
E com isso, desligamos o telefone. Conversas entre mim e Ana praticamente são sempre iguais – nós brigamos, nos xingamos, mas no fim uma diz que ama a outra. É, eu definitivamente não tem amigos normais.
Exausta, terminei de me trocar e finalmente pude desabar sobre a cama.
[...]
Pulei da cama com a respiração descompassada, era hoje, o grande dia. Eu tinha motivos para estar apavorada, e se tudo desse errado? E se eu estragasse minha única chance? Mesmo que a preocupação estivesse tomando conta de mim, eu tinha que manter a calma, ensaiar mais uma vez e claro, voltar para a preocupação.
Terminei de me trocar tremendo demais, resultando em coisas caindo de minhas mãos toda hora. Eu nunca estive tão nervosa, nem mesmo quando conheci The Blue, eu estava como agora.
Amarrei o cabelo depois de meia hora tentando arrumar um fio de cabelo que cismou em não ficar no lugar e fui atrás de meu pai para pegar carona com ele para o teste. Desci os lances de escada até chegar no andar de baixo, entretanto, nada de meu pai. Fui surpreendida pela governanta dizendo que meu pai já havia saído.
Ótimo. E agora, como eu iria para o teste?
Resmunguei algumas coisas enquanto fuçava pela casa inteira buscando qualquer coisa que se parecesse uma lista telefônica, até que finalmente achei uma. Procurei pelos números de táxis, mas demorei demais, não havia praticamente nenhum.
Quando finalmente encontrei um número de taxista, o cara demorou muito para atender. Eu estava ficando impaciente, além de ansiosa e nervosa, parecia que tudo estava contra mim como se não quisessem que eu fosse ao teste.
– Srta. White? – chamou a governanta encarando-me com aqueles olhos assustadores. – Acho que seu pai já conseguiu sua carona.
Ela apontou para a porta da frente aberta. Pedi para que o homem esperasse ao telefone – quem praticamente me xingou – e fui até fora da casa para entender o que a Sra. Godwing quisera dizer. Do lado de fora, tive a segunda surpresa do dia.
– Anda logo, Scar! – berrou Noah de dentro de seu carro parado bem a frente da casa de Tom.
Confusa, desliguei o telefone e peguei minhas coisas, principalmente as folhas de minhas falas para que eu revisasse tudo antes do teste. Entrei no Range Rover de Noah ainda me sentindo um pouco confusa com a presença dele ali.
– O que está fazendo aqui?
– Seu pai me pediu para levar você para o teste. – disse ele sorridente enquanto arrancava pela rua.
– Ah. – murmurei. – Mas vocês não estava ocupados? Quero dizer, coisas da banda e tal?
– Bom, digamos que a The Blue tem um ensaio fotográfico daqui quinze minutos. – disse ele consultando o relógio no pulso. – Mas não tem problema, Scar. É claro que eu ia fazer esse favor para você e seu pai, afinal, não ia ficar feliz de você pegar um táxi.
Eu sorri para ele enquanto ele dirigia pelas ruas de Londres em direção ao estúdio em que seriam os primeiros testes. No carro, eu mal conseguia olhar para a folha a minha frente, era como se as palavras quisessem saltar para fora da página e me encherem de pensamentos ruins como “você não vai ser aceita” ou “seu teste vai ser o pior”. Por sorte, Noah tentava me animar cantando algumas músicas da The Blue e contando algumas coisas que já aconteceram enquanto apresentavam um show.
Quando chegamos ao estúdio, Noah me deu um abraço bem forte. Sério, é como se eu o conhecesse a muito tempo, Noah é o tipo de amigo que você pode considerar um irmão sem problema nenhum. E como cresci um pouco sozinha, ter um amigo como ele era uma novidade.
– Boa sorte. – disse ele quando desfez o abraço. – Quando sair, pode me ligar para dizer as novidades, ok? Os meninos estão curiosos, principalmente o Henri.
Franzi as sobrancelhas.
– Henri? – perguntei confusa. – Por que ele ficaria tão curioso?
Noah deu de ombros. É, existem coisas inexplicáveis quando se fala de Henri Price e sua mudança de humor constante.
[...]
– Muito bem, a primeira cena é onde Valentina sobe sobre essa mesa e ameaça Ben. — disse o diretor. A cena que eu faria era com certeza a mais difícil do filme, mas nada impossível. Minha personagem — Valentina — ameaçava de morte um garoto que estava do outro lado na outra ponta da mesa. Estava cheia de pratos, talheres e taças gigantes onde eu teria que as jogar para longe e chegar até o ator e segurá-lo pelo colarinho da blusa.
Respirei fundo e quando disseram "AÇÂO", fechei os olhos e me coloquei em cena. Era uma conversa bem chata no começo, mas então Valentina se enfureceu e se levantou. Subi em cima da mesa e com os pés, joguei cada peça que estava ali para o lado, voando pratos e copos para tudo qualquer lado. Concentrei-me em manter o rosto mau e a posição feroz, quando cheguei a Ben, segurei-o pela gola da camiseta puxando seu rosto bem perto do meu.
– Eu já disse. – falei colocando ênfase em cada palavra como se estivesse dando uma bronca em alguém. – Nunca mais ouse dizer esse nome na minha frente. Não tem medo da morte, Ben? Saiba que se repetir o nome, sua morte chegará muito rápido.
O soltei de forma violenta – porém combinada – fazendo com que o ator que fazia Ben por pouco caísse da cadeira. Andei ainda chutando as taças até o meio da mesa, como se estivesse pensando em algo. Como estava no script, virei-me lançando a ele um olhar mortal antes de rir de forma maldosa.
Esse era o final de meu teste, assim, o diretor apenas avisou “corta” com um grande sorriso no rosto. Eu estava me sentindo... não consigo descrever exatamente como é quando se percebe que o nervosismo fora a toa. Eu estava nas nuvens, me sentindo feliz, nervosa, ansiosa e tudo ao mesmo tempo.
Caramba, então essa é a sensação quando se faz algo certo?
– Bom, Srta. White, como seu teste foi gravado, vamos mostra-lo para o diretor oficial do filme. O resultado se o seu teste fora ou não aceito sai em dois dias, ok? – assenti enquanto o ator que fizera Ben me cumprimentava com a cabeça. – Se for aceita, será bem vinda às gravações de “O circo dos horrores”.
Agradeci e fui até o local onde estavam os figurinos para retirar a roupa de Valentina. Não conseguia parar de rir, era como se tivessem excluído toda a parte ruim da minha vida e deixassem apenas essa, a melhor. Eu tinha que contar para meus avós, Jes e Ana, os meninos da The Blue e meu pai. Nossa, será que eu seria aceita?
Peguei o celular e disquei o número de meus avós, entretanto, eles não atenderam. Provavelmente foram para o encontro da igreja ou coisa parecida, então resolvi ligar para Jes e Ana, já que as duas eram as culpadas de eu estar ali.
– Jes? – perguntei ao celular ouvindo a voz de Jes, mas também a de Ana no fundo. – Tenho uma novidade!
– Vish, não me mata de curiosidade, menina! – berrou Jes. – Meu pai disse que os testes eram hoje! Meu Deus, e ai, como foi?
Eu tive que esperar um pouco para criar um clima ou a notícia não teria graça. Claro, isso irritou demais Ana, quem começou a gritar comigo no telefone.
– Ai, Ana, entendi. – resmunguei ouvindo Jes expulsando Ana do telefone. – Bom, gente a notícia é que eu acabei o teste agora e pelo sorriso do diretor...
– AI MINHA NOSSA SENHORA! – dessa vez as duas berraram no telefone, deixando-me quase surda. – Você passou! Ai meu Deus, tenho certeza, você passou!
Comecei a rir do outro lado de fora do estúdio enquanto ouvia as duas gritarem do outro lado. Nossa, se essa é a reação só porque meu teste foi bom, tenho medo se eu passar realmente, elas vão fazer um escândalo.
– Gente, calma! – falei tentando pará-las. – Eu não passei, só acho que meu teste foi bom!
– Então! – berrou Ana. – Isso já é bom! Não vejo a hora de ver você nas telas do cinema, sério, acho que vou começar a gritar quando estrear algum filme seu aqui no Brasil!
Comecei a rir novamente, as duas são positivas até demais!
– Parem de me deixar iludida! – reclamei. – Se verem meus avós, avisem eles, não consigo ligar em casa. Meninas, vou indo, preciso ligar para a minha carona.
As duas gritaram mais algumas coisas no telefone antes de eu desligar. Era bom ouvir mensagens positivas de Jes e Ana, as duas conseguiam fazer o nervosismo de qualquer um desaparecer.
Disquei o número de meu pai me preparando para contar a ele. Droga, como se conta uma novidade para um pai que você tão poucas vezes na vida?
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