London Love
42 Casamento ou sentença de morte
Notas iniciais
Assim que coloquei meus pés de volta para dentro da casa, um enorme turbilhão de pensamentos me invadiu a mente fazendo com que uma sequencia de possibilidades me surgissem. Anabelle poderia estar apenas curiosa em saber porque eu e Henri nos beijamos ou talvez – e no caso a pior de todas as hipóteses – querer saber o porquê de eu ter beijado Henri após Tom ter deixado bem claro que não nos queria juntos. Ela poderia muito bem estar do lado do meu pai como também poderia defender o... ahn, o garoto que ela conhece desde criança ajudando a mim e ele.
Juntas em quase uma sincronia perfeita, sentamos em lados opostos do sofá da sala de Tom, de modo que ela pudesse ficar bem de frente para mim e provavelmente, arrancar seja lá o que for que ela queria.
– Então vocês não terminaram como Tom achou, não é? – ela foi direta. Ainda mais direta do que achei que ela seria, tanto que meu espanto foi óbvio. – Tudo bem, Scar, não estou aqui para brigar e muito menos julgar ninguém. Só quero saber se está certo o que conclui vendo aquela cena. Você e Henri Price estão juntos?
Meu primeiro movimento não fora exatamente o mais correto para aquela situação, mas Anabelle me surpreendera com a pergunta direta. Sem olhá-la diretamente nos olhos, eu apenas dei de ombros e fitei algum ponto cego entre a porta de entrada e a cortina longa da janela à minha esquerda.
– Scar, eu sei que não sou sua mãe. – as palavras de Anabelle fizeram-me tomar minha atenção sobre ela, não porque eu queria saber o que ela diria, mas porque qualquer assunto voltado a minha mãe me interessavam. – E nunca serei. Acredite, eu não estou aqui, porque quero substitui-la. Mas eu sei bem distinguir os olhares das pessoas e sei quando estão amando. Uma mãe saberia que você e Henri se amam só de botar os olhos sobre os dois! – ela me dirigiu um sorriso rápido. – Sei que não quer me responder por causa de Tom.
– Se você disser qualquer coisa sobre nós, é perigoso Tom tirar ele da banda. Minha voz fora apenas um murmúrio baixo, mas eu sabia que ela ouvira.
– Querida, ele não faria isso – a voz de Anabelle estava carregada de um tom calmo e maternal, tanto que as lágrimas começavam a ameaçar cair. Qualquer lembrança do que era ter uma mãe ou alguém agindo dessa forma comigo era motivo de eu libertar um choro irritante. Eu ficava completamente vulnerável e não queria que ninguém me visse assim. Era constrangedor demais. – Eu sei que seu pai é difícil, acredite, descobri isso logo na primeira vez que o vi! Tom precisa ser convencido e amaciarem a dureza de seu coração para que ele comece a entender do que estamos falando.
Abraçada a uma almofada, eu desviei o olhar pela segunda vez, porém agora não havia mais como segurar as lágrimas. De uma em uma, elas escorregavam por minha bochecha e pingavam de forma irritante sobre minhas mãos entrelaçadas sobre o tecido macio e cheiroso da almofada vermelha. Anabelle conhecia muito bem meu pai, algo que no início iria me irritar, mas agra eu compreendia o quão importante isso era. Ela sabia como lidar com situações como a minha e parecia realmente querer ajudar.
– Quando tentei falar com ele sobre Henri, mandou-me terminar. – engoli um seco. – Se você sabe que Tom é difícil, nem imagina o quanto ele é quando o assunto é Henri. Eu não vou fazer isso com ele de novo e se isso significar enfrentar Tom ou... ou ignorá-lo para sempre, é o que vou fazer. Da última vez, eu não fiz nada, Anabelle. Obedeci em tudo o que ele pediu como se eu fosse um robô! Isso não pode acontecer de novo. – fechei ambas as mãos em punhos com força como se estivesse tentando me repreender por meio da dor. – Estou cansada de agir desse jeito por baixo dos panos. Quero dizer... Henri poderia estar com alguém que não precisa esconder, alguém que poderia apresenta-lo para os pais sem ter nenhum problema.
– Mas ao invés disso ele prefere ficar com você, querida. Ele poderia sim escolher alguém que fosse mais fácil de lidar, no entanto escolheu você apesar de todos os obstáculos! – ela sorriu de forma brincalhona. – E você finalmente me respondeu se estão juntos ou não.
Sem pensar no que estava fazendo, acabei por rir daquela frase.
– Nos ignoramos por quase dois meses... – murmurei de forma pensativa. – E, de repente, tudo mudou. Eu mal tive tempo de entender o que está acontecendo.
– É claro que você entendeu, Scar. – disse ela alto e em bom som. – O único detalhe que não está a deixando admitir isso se chama Tom White. Como eu disse, o coração gelado dele precisa ser derretido. Quem sabe não podemos mudar isso, não é?
Sem que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela se levantou e sentou-se ao meu lado no sofá. Era a primeira vez que ficávamos tão próximas uma da outra sem que eu estivesse tentando afastá-la de uma maneira fria e maldosa como eu fizera durante as primeiras semanas que ela ficou na casa de Tom. Apenas assim eu pude notar o quão burra fora por trata-la dessa maneira, tanto que não achava que Anabelle deveria me ajudar. Eu não merecia.
Não merecia Henri por trata-lo como um lixo.
Não merecia a ajuda de Anabelle por tê-la tratado também como um lixo.
Talvez os noticiários falando sobre minhas atitudes frias e quase tímidas com os fãs e me chamando de má estivessem certos. Talvez eu fosse má com as pessoas sem nem sequer notar.
– Você não deveria estar me ajudando.
Anabelle franziu o cenho.
– E por que não?
– Porque eu a ofendi desde o primeiro dia. – um suspiro escapou de meus lábios. – Porque eu fui a filha chata e insuportável que não a deixou em paz e sempre tentou afasta-la. Eu não mereço sua ajuda.
Surpreendendo-me, ela pousou sua mão esquerda sobre as minhas entrelaçadas sobre a almofada vermelha.
– E você se arrepende de ter me tratado assim, Scarlet?
Por um momento, eu franzi o cenho. Minha cabeça ficara confusa com aquela pergunta e muitas opções de respostas surgiram deixando-me sem o que dizer. Porém, eu então sorri retribuindo pela primeira vez sua gentileza.
– Sim.
[...]
Em pleno Outubro, as gravações do filme dirigido por Jason McNight estavam praticamente no fim. Faltava apenas duas semanas para que todas as cenas fossem finalizadas e apenas alguns detalhes corrigidos para a grande noite de estreia que seria em novembro. Em dois meses, eu veria o primeiro passo de meu maior sonho sendo concluído de uma maneira que eu jamais imaginaria apesar de todos os obstáculos que, por pouco, não me fizeram desistir de tudo. Nem ao menos Tyler, nosso trato, o namoro secreto, a briga com meu pai ou o roubo da The Blue puderam me fazer desistir de ser a Valentina que Jason criara anos atrás como sua melhor vilã.
Valentina me dá arrepios, mas, sabe, ela é minha maior criação. É como uma filha, só que uma filha raivosa e muito mal educada.
Jason me dissera isso assim que consegui o papel meses atrás. Nós rimos de sua brincadeira e logo ela estava estampando muitas capas e revistas sobre o filme e principalmente, sobre o risco que ele correu ao contratar uma atriz desconhecida para o papel principal. “Não me arrependo de ter escolhido você, Scarlet. Valentina ganhou vida quando você começou a interpreta-la”. Eu mal conseguia parar de sorrir apenas lembrando-me de quando ele me dissera isso. Tyler revirou os olhos e murmurou um “puxa saco” que apenas eu pude ouvir depois que Jason dissera isso. Nós rimos e depois, eu bati em Tyler.
Mas não podia enganar a mim mesma achando que o episódio com a The Blue havia acabado. Ainda tínhamos nossas suspeitas sobre o ator apesar de ele agir como um completo santo perto de mim e o detetive estava ocupado demais coletando informações que poderiam incriminar Blackwell e quem pudesse ser que o ajudou. Oliver não nos avisara em nada ainda, nem sequer deu um sinal de vida, algo que estava deixando os garotos muito mais que ansiosos e irritados.
– Não acha que ele está demorando demais? – perguntou Will quando visitei os garotos na gravadora. Os fotógrafos estavam loucos no primeiro andar tentando entrar no grande prédio apenas por uma foto dos garotos. Estavam tão agitados que podia-se ouvi-los do penúltimo andar onde estávamos. – Ele já deveria ter pelo menos uma informação.
– Se está demorando, pode ser que ele tenha encontrado algo importante e está esperando ter tudo para nos contar. – murmurei sentando-me entre Noah e ele. – Estou preocupada com vocês.
– Chega de se preocupar, Scar! – exclamou o loiro passando um braço ao redor de meus ombros. – Você vai acabar ficando com rugas de tanto pensar sobre isso.
– Exatamente. – Will riu. – Nós estamos bem, ok? O máximo que pode acontecer agora é a banda acabar de vez.
– ESTÁ CERTO, GÊNIO, ELA JÁ ESTA PREOCUPADA E VOCÊ AINDA DIZ ISSO! – dessa vez, Zack berrou.
– E EU LÁ DISSE ALGUMA MENTIRA, GÊMEO NÚMERO 2?!
– EU JÁ DISSE QUE SOU O NÚMERO 1!
– Eu não quero ser o número 2. – choramingou Noah.
– NINGUÉM PERGUNTOU, NOAH! – responderam Zack e Will juntos. – QUER PARAR DE ME IMITAR? NÃO, PARA VOCÊ! O QUE? PARE DE ME IMITAR, DROGA!
Bom, digamos que aquela discussão não foi exatamente uma das mais inteligentes.
Já no estúdio, eu e Jordan estávamos conversando enquanto uma das cenas em que Tyler fazia seu papel de sempre falando sozinho. Se os dias fossem outros e nada do que aconteceu no passo tivesse mesmo ocorrido, eu acharia Tyler mais do que atraente naquela cena – ele estava sem camisa usando apenas uma calça de um tecido desconhecido por mim um tanto justa. Seu cabelo estava bagunçado fazendo com que os fios rebeldes se espalhassem por todo o topo de sua cabeça. Olheiras feitas com maquiagem o deixavam com uma aparência um pouco doentia e louca, mas apesar disso tudo, ele estava bonito.
Não havia mais se metido com drogas ou álcool pelo o que eu pude ouvir numa conversa entre ele, seu agente e Jason. Ele estava se controlando além do necessário e inclusive cogitou em se internar em uma clínica de reabilitação logo após as gravações para o filme terminarem. Porém Jason não achou que fosse necessário ao perceber o quão bem ele parecia, afinal, Tyler estava sorridente, tinha uma aparência mais saudável e apenas mantinha a mesma característica de bad boy com as mulheres e até mesmo no modo de falar. Era como se o antigo Tyler tivesse desaparecido da face da Terra.
Tanto que eu quase me esqueci da briga entre ele e Henri alguns dias atrás. Desde aquele dia, nós não havíamos trocado uma palavra sequer e agíamos como se não soubéssemos da existência um do outro, um ponto positivo para as filmagens já que as cenas possuíam mais química que antes, pois eu não o repudiava mais. No entanto, ainda havia raiva e eu ainda o odiava. Ele podia ser quem desviou o dinheiro e quem culpou os garotos, então não havia motivos para eu não odiá-lo.
– Hum... essa cena está crua demais. – murmurou Jason aproximando-se de mim e Tyler logo após uma cena um tanto quente entre nossos personagens. De longe, eu podia ver Jordan rindo de mim por estar querendo sair correndo daquele set. – Eu sinto a química entre vocês dois, mas ainda assim parece estar faltando alguma coisa.
– Deve ser porque sua querida atriz não está me olhando na cara há dias, Sr. McNight.
Completamente indignada, virei-me na direção de Blackwell e o empurrei pelo ombro usando o dedo indicador num claro sinal de ameaça.
– Poxa, Tyler, qual será o motivo para eu estar fazendo isso, não é?! – mandei com a voz carregada de sarcasmo. – Talvez seja porque você quase matou Henri Price aos socos no estacionamento! O que acha dessa hipótese?
Entretanto, apesar de minha voz estar carregada de sarcasmo e eu estar ainda mais séria que o normal, Tyler conseguiu acabar com qualquer rastro de bom humor meu ao simplesmente começar a gargalhar.
– Você finalmente admitiu que eu quase matei ele e não o contrário.
Esse garoto só pode estar de gozação com a minha cara.
– Tyler, por que você não se afoga no vaso sanitário e...
– PAREM COM ISSO! – interrompeu Jason com um grito que não só assustou a nós, mas como também a todos no estúdio. Uma produtora que passava ao lado das filmagens deixou cair duas pranchetas e um dos atores por pouco não caiu de costas de sua cadeira. – Já estou cansado de vocês dois querendo se matar a cada dois segundos! Isso já está ficando difícil de suportar, Scarlet e Tyler! Quero profissionalismo de ambos, estamos na última etapa de gravações e essas cenas precisam ficar perfeitas!
Em silêncio, eu e Tyler apenas nos entreolhamos trocando um pedido de desculpas muito falso e silencioso.
Bom, isso pareceu bastar para Jason.
– Ótimo. – disse ele fuzilando nós dois com os olhos. – Agora preciso que trabalhem duro com essa cena se querem que o final funcione. Trabalhem a química no olhar, não apenas no beijo.
E pela forma que ele dissera, eu sabia que escolher não era bem uma opção.
Obedecendo às ordens de Jason para que a cena ficasse melhor do que em nossa primeira tentativa, eu me coloquei em posição – le-se que me sentei sobre uma cadeira numa posição um pouco desconfortável, na qual teria que parecer irritada e soberana, porém também elegante – esperando que Tyler fizesse o mesmo. Segundos depois, ouvimos o tão esperado “ação!” de Jason e as falas se iniciaram. Por sorte, parecíamos mais confiantes que de início e por isso, a cena se desenrolou com uma facilidade absurdamente assustadora. Eu e Tyler, desde o início das gravações, tínhamos uma certa dificuldade com cenas mais íntimas entre nossos personagens e sempre precisávamos gravar a mesma parte pelo menos 6 vezes. Jason ficava irritado e eu querendo morrer por precisar repetir os beijos com ele tantas vezes.
Mas, de uma forma muito estranha e repentina, a cena se desenvolveu numa naturalidade que eu nunca poderia explicar. Pela segunda vez na mesma semana, eu senti os lábios de Tyler sobre os meus. Exigentes e violentos, ele forçou uma resposta minha e a recebeu da mesma forma. Minha personagem possuía essa mesma forma de agir, então eu precisava me assemelhar a ele para que não dessem a entender que aquela era Scarlet beijando Tyler e não Valentina.
Primeiro, ele agarrou minha cintura de forma que pôde prender-me de forma decidida contra uma das paredes do set e, como se ninguém estivesse nos olhando, passou os beijos para meu pescoço deixando rastros avermelhados que possivelmente se tornariam hematomas.
Isso é pela ignorância, minha rainha.
Fora um sussurro em meus ouvidos, porém o bastante para me fazer arrepiar. Era impossível negar, Tyler ficava irresistível quando estava incorporando seu personagem tão enlouquecido quanto o meu. Enquanto Valentina era dissimulada, gananciosa e um pouco elegante em certos casos, o personagem de Tyler sabia o exato momento de se descontrolar e quando retomar à sua pose de líder pouco antes de Valentina o impedir de continuar. Juntos, sua mistura poderia ser altamente perigosa.
E... bom, na realidade também.
A cena terminou segundos depois com nós dois nos encarando com respirações ofegantes e expressões assustadas. O que diabos acabara de acontecer? Nunca que gravaríamos uma cena como aquela meses atrás e, de repente, com todas as minhas suspeitas sobre Tyler o ódio sobre ele, fora como se fossemos completos estranhos.
Horas depois quando as gravações do dia terminaram, eu me tranquei em meu camarim evitando encarar a todos por pelo menos algum tempo. Não queria conversar nem ao menos com Jordan ou algumas de minhas amigas produtoras e maquiadoras. Eu precisava afastar os pensamentos sobre tudo o que estava acontecendo e apenas concentrar-me em minha imagem pálida no espelho – uma mulher me encarava de volta. Seus cabelos loiros claros estavam presos em um coque baixo de aparência elegante, os lábios contornados por um batom de tom vermelho vinho e os olhos destacados pelo delineador. Por pouco, eu quase não me reconhecia naquela imagem refletida. Era como encarar a uma mulher totalmente diferente de volta.
As coisas estavam acontecendo rápido demais, informações em excesso estavam entrando e saindo de minha cabeça e eu sentia que poderia surtar a qualquer momento. Não sabia ao certo o porquê de o beijo de Tyler ter influenciado meus pensamos daquela forma, mas sabia que isso me assustava. Eu estava apavorada.
Tanto, que mal notei meu celular vibrando sobre a mesa do camarim.
– Scar? – era a voz de Tom do outro lado da linha. Ele parecia apreensivo e ao mesmo tempo, estranhamente alegre. – Você já está voltando para casa?
Demorei alguns segundos para reunir forças para responder.
– Eu, ahn... já, estou esperando uma amiga. – resmunguei. – Por que?
– Precisamos conversar assim que você chegar. É uma coisa muito importante.
A forma com que ele dissera “muito importante” conseguiu me tirar o chão ainda mais, tanto que saí imediatamente do camarim e corri para procurar Jordan. Precisava chegar em casa o mais rápido possível e tentar entender o que diabos de tão importante Tom precisava me contar. Nunca fomos de contar as novidades um para o outro, como perguntas gentis sobre o dia durante o jantar como muitas famílias normais faziam. Nós éramos mais o tipo que comiam em silêncio e depois todos iam para seus devidos quartos ou sala fazer seja lá o que fosse.
Logo que encontrei Jordan, não demorei muito para explicar o que estava acontecendo e muito menos ela para iniciar uma caçada às chaves de seu carro. Em nenhum momento que saímos pelo estacionamento, eu avistei Tyler. Ele desaparecera por completo depois das filmagens e, se ele havia sentido o mesmo que eu durante as cenas, eu não o culparia por não querer ver ninguém.
Afinal, eu fiz o mesmo.
[...]
Assim que cheguei em casa, encontrei uma Ana parecendo um pouco constrangida e evitando olhar para qualquer coisa que não fosse seus livros da faculdade. Claro, eu havia invadido seu quarto e se fosse em outro tempo, ela teria jogado a pilha de livros em minha cabeça e mandado eu ir embora me arrastando. Porém, por algum motivo desconhecido, ela estava ali ignorando-me completamente e focada no capítulo sobre anatomia de seu livro.
– Ana? – chamei tentando chamar sua atenção, porém com as mãos, ela fez um sinal para que eu ficasse calada enquanto lia (ou relia) algum parágrafo. – Você está me assustando.
Baixinho, eu a ouvi murmurar alguma coisa mais para si mesma do que para mim.
– Ok, eu vou te internar se não me responder!
– As artérias são... – outro murmúrio, mas agora eu pude entender uma parte.
– Ana?
– CONSEGUI! – berrou ela numa altura que, com o susto, eu acabei gritando com ela e ambas gritamos por alguns segundos até ela começar a gargalhar histericamente. – EU SOU UM GÊNIO!
Irritada, alcancei a primeira coisa que vi em minha frente – que no caso foi uma almofada que estava sobre sua cama – e lancei o objeto com força contra a cabeça de minha amiga. Tudo bem que não foi o melhor jeito de resolver um susto, mas foi reflexo, desculpem!
– Posso saber por que fui atacada? – esbravejou ela colocando a almofada de lado. – Porque só o que lembro foi eu sendo feliz por ter conseguido entender uma coisa do texto.
– Da próxima vez, — reclamei sentando-me sobre a beirada de sua cama. – tente não gritar com uma pessoa com o psicológico abalado, ok? É por isso que foi atacada, Ana.
Em resposta à minha frase, Ana revirou os olhos e voltou sua atenção para o capítulo sobre anatomia humana.
– Você é sempre dramática demais. Parece até a Jes quando tirou nota máxima em uma prova ridícula de matemática. – ela negou com a cabeça. – Vocês são estranhas. E ah, seu pai quer falar com você.
Aquilo sim me chamara a atenção.
– Achei que tinha me livrado da conversa.
– Nem chegou perto. – ela soltou um risinho baixo. – Ele está na cozinha com a boneca assassina vulgo Anabelle. Acho que a notícia vai ser bem bombástica. Devo gravar o barraco antes ou depois de você tentar matar alguém?
Dessa vez, fora eu quem revirou os olhos. Mas ao contrário do que Ana esperava, eu não respondi e muito menos disse nada quando já estava descendo as escadas da casa como um furacão ansioso e pronto para entender o que estava acontecendo. Tom deveria ter percebido que eu já estava na casa, porém nem fizera isso, preferiu se esconder na cozinha com sua nova companheira.
E foi apenas assim que me lembrei de estar de bem com Anabelle. Depois de nossa conversa depois que os garotos foram embora, nós finalmente nos entendemos e não trocamos qualquer tipo de insulto após a conversa. Ela, pelo contrário, se demonstrou feliz com minha relação com Henri e disse depois que pretendia tentar convencer Tom sobre nós dois. Claro, eu duvidava que isso aconteceria, então nem estava dando tanta importância.
Bom, pelo menos eu tentava.
Por dentro estava gritando de felicidade e esperança com a possibilidade de Tom finalmente entender que Henri era bom para mim e ficar com ele era tudo o que eu mais queria. Seria a realização de um segundo sonho em minha vida. Mas, mesmo que estivesse tão perto de se realizar, também parecia tão distante e impossível. Era como se minha mente estivesse enviando sinais de que não daria certo e que eu e Henri teríamos que esconder nosso namoro novamente ou eu enfrentar Tom e... talvez sair de casa.
Sair da casa dele nunca foi considerado uma opção por mim, mas desde minha “volta” com Henri e meu novo pensamento sobre lutar por ele, a ideia de sair e talvez morar com ele começou a se tornar uma bela possibilidade à se considerar.
Assim que cheguei na cozinha, encontrei uma cena inusitada. Tom e Anabelle estavam... hum, um pouco agarrados demais para meus olhos verem naquele momento. Eles formavam um casal bonito e ficavam fofos juntos. Meu pai estava com um braço ao redor de seus ombros e com a outra mão, ela tirava os fios de cabelo loiro claro de Anabelle de seu rosto e beijava o exato local logo em seguida.
Por um instante, lembrei-me de meus pais. Eu era apenas uma criança e não compreendia as coisas da maneira correta, porém, via aqueles dois como o casal mais bonito do mundo e os melhores pais, apesar das brigas e das vezes em que eles nem sequer olhavam na direção um do outro. Mas agora, ver meu pai com outra pessoa trouxe uma dor que eu nem sequer sabia que existia em meu peito e com ela, milhares de lembranças do passado a acompanharam seguidas de outras do presente. Lembrei-me de quando soube que minha mãe fora assassinada e a imaginei no lugar de Anabelle naquele segundo – não parecia certo. Eu vira meus pais juntos de forma romântica pouquíssimas vezes e mal conseguia imaginá-la no lugar da empresária musical.
A sensação em meu peito era de ter levado um tiro.
Em um movimento errado para tentar sair de fininho daquela cozinha, acabei por trombar com uma das cadeiras de metal próximas ao balcão, o que fizera um baita barulho. Assustados, os dois se afastaram para ver quem havia chegado no cômodo e logo que perceberam que era eu, ambos exibiram um sorriso perturbador.
– Scar, você finalmente chegou! – exclamou meu pai com uma animação que eu não via há semanas.
– Ahn... acho que sim. – minha voz fora apenas um murmúrio confuso e perturbado, mas eles não pareceram notar.
– Acho melhor você se sentar, querida. – disse Anabelle aumentando ainda mais seu sorriso e apontando para a cadeira que eu havia tropeçado. – Temos uma ótima notícia para dar!
Franzi o cenho preocupada demais com a animação dos dois. Diversas possibilidades de boas notícias me vieram em mente, desde uma gravidez, uma mudança de casa e até mesmo... um casamento. Claro, a última opção era ridícula considerando o fato que eles haviam se conhecido há pouco tempo e eu duvidava que eles resolveriam fazer algo assim justo agora.
Ainda não demonstrando qualquer reação além de confusão óbvia em meu rosto, sentei-me sobre a cadeira de metal e cruzei os braços em frente ao peito esperando que eles resolvessem me contar a tão maravilhosa notícia.
– E então? – insisti. – Qual é a notícia?
Ambos se entreolharam por alguns instantes sorrindo demais como se escondessem um segredo excitante e divertido, algo que eu não duvidava. De mãos dadas à Anabelle, meu pai se levantou da cadeira que estava sendo acompanhado por ela. Os dois ficaram de frente para mim esboçando aquele sorriso largo e perturbador por alguns instantes até que Tom finalmente resolveu dizer alguma coisa e acabar com minha ansiedade e angústia.
– Scar, você sabe que eu e Anabelle nos conhecemos há alguns meses e infelizmente eu tive que esconder isso de você por causa da notícia sobre sua mãe. – eu assenti claramente não gostando desse assunto, então ele continuou. – Então, eu nunca escondi o quanto gosto dela e... a quero do meu lado. Vocês duas não pareceram se dar bem no início por minha causa, mas vejo que parecem ser amigas agora! – Tom deu um beijo demorado na bochecha da loira. – Eu sei que vai parecer repentino para você, mas...
– Vamos nos casar! – exclamou Anabelle mal conseguindo conter a ansiedade. – Já enviamos alguns convites e semana que vem vou comprar meu vestido! É claro que você vai comigo, porque preciso da sua opinião, querida! Ah, e o local é maravilhoso, Scarlet, você precisa ver os jardins e...
E eu fiquei em choque. A voz de Anabelle se esvaia aos poucos até que minha mente se tornou um verdadeiro breu em que nada se passava, nem sequer uma única frase, provando que meu choque fora ainda mais intenso do que eu pretendia. Piscando várias vezes seguidas, permaneci daquela forma sem reação por sabe-se lá quanto tempo até ver que ambos começaram a franzir o cenho de forma preocupada por minha reação.
Mas o choque me consumiu. Aquela era, sem dúvidas, a última de todas as opções que eu imaginara, principalmente em um momento tão inoportuno com tantos problemas a serem resolvidos. Nossa vida estava uma verdadeira bagunça com mais baixos do que altos e Tom queria... se casar?
O QUE DIABOS ESSE POVO PENSA?
– Filha? – chamou meu pai aproximando-se lentamente de mim. – Você está bem?
– Acho que a notícia foi rápida demais, Tom. – Anabelle exibia a mesma expressão preocupada e não hesitou ao tocar minha testa e encarar-me procurando por alguma coisa errada. – Scarlet? Querida?
Ainda que de forma rápida, pisquei por mais algumas vezes enquanto tentava formar alguma frase com coerência em minha mente, porém tudo o que me via era “o que eu deveria responder sobre isso?”. Não havia o que dizer! Parabéns? Por que eu deveria parabeniza-los? Fazia menos sentido ainda considerando o fato de que eu não estava preparada para um casamento e muito menos que eles fossem querer isso num momento como aquele.
– É isso mesmo que vocês querem? – no fim, fora isso que escapara de meus lábios. – É o que você quer, pai?
Tom suspirou de forma lenta e um sorriso pequeno surgiu em seus lábios, no entanto, por menor que fosse, ele parecia feliz. Seu sorriso era o mais sincero que eu já observara desde o dia que cheguei em Londres. Não havia falsidade, não havia ódio algum impregnado naquele sorriso.
Ele estava feliz.
– Sim, Scar. – novamente, ele passou a abraçar Anabelle, quem retribuiu o sorriso com a mesma intensidade. – É o que me faz feliz.
Lentamente, eu assenti com um plano em mente que talvez não fosse o mais racional para o momento. Eu sabia que não deveria fazer aquilo, porém, não havia mais razão para esconder.
Se havia uma hora para enfrentar Tom, aquele era o momento.
– E vocês... querem que eu aceite?
Tom franziu o cenho.
– Sim. – respondeu num tom como se fosse algo óbvio. – Você é minha filha e eu quero que aceite meu novo casamento. Por que está perguntando isso?
Acomodei-me melhor na cadeira enquanto retomava toda coragem que precisava para prosseguir com o que tinha em mente.
– E como acha que vou aceitar seu casamento se nem sequer aceita meu namoro? – mandei de uma só vez séria como nunca encarando-o como se dissesse “dessa vez, você não vai fugir dessa discussão”.
Por um momento, achei que Tom fosse explodir e começar a gritar comigo, mas ao contrário do que pensei, ele apenas apertou seu nariz entre o dedo indicador e o do meio como quem tenta reprimir a raiva.
– Scarlet, já conversamos sobre isso...
– Não, você conversou sobre isso! – meu tom já estava um pouco mais alto do que deveria. – Você realmente espera que eu aceite seu casamento feliz com isso sendo que você não aceita o meu namoro?! Você me fez me afastar de Henri e trata-lo como se fosse um nada só porque não consegue aceitar que ele estava certo!
Tom afastou-se de Anabelle apenas um pouco para se aproximar de mim e enfrentar-me da mesma maneira que eu o estava enfrentando.
– Eu já disse o que acho sobre ele. Henri Price é uma celebridade que pensa que o mundo gira ao redor dele, Scarlet! Ele é inconsequente e não sabe o que está fazendo! Quem ele pensava que era para me enfrentar daquele jeito dizendo que você não deveria me perdoar por tê-la mandado para sua avó no Brasil?! Você realmente acha isso, Scar? Acha que não deveria me perdoar e muito menos sua mãe?
Irritada e com certeza com o rosto vermelho, desviei o olhar para qualquer coisa que não fossem os olhos castanhos penetrantes de Tom. Seu tom autoritário de empresário musical havia se intensificado em nossa discussão como sempre, porém agora ainda mais, deixando que eu ficasse pelo menos um pouco com medo dele.
– Você tem raiva dele porque ele foi capaz de te falar na cara o que os outros morriam de medo de dizer, Tom. – lancei engolindo qualquer medo e relembrando o que Ana dissera. Estava na hora de lutar pelo o que eu queria. – Não é por ele ser uma celebridade e muito menos por ser inconsequente. Henri é uma pessoa maravilhosa e ele me ama, pai! Será que não consegue entender isso? Henri não está comigo pela mídia ou por eu ser mais uma na lista de conquistas dele! Ele me ama, Tom, assim como você ama Anabelle.
Irritado, Tom afastou-se de mim usando a mão direita sobre os olhos num sinal claro de que sua irritação só aumentaria a cada segundo. Anabelle, quem permaneceu em silêncio no início da briga, deu um passo a frente e tocou de forma carinhosa o ombro de seu... Ergh, futuro marido. Mas Tom estava possesso e nem sequer sentir quando ela tentou acalma-lo.
– Tom, ouça ela. – ouvi Anabelle murmurar baixinho apenas para ele. – Ouça ela pelo menos essa vez.
Ele estava de costas para mim, porém no instante em que levantou os olhos e a encarou, eu sabia que havia uma expressão indignada em seu rosto.
– De que lado você está?!
– Em nenhum dos lados, querido. – havia um tom sério em sua voz, mas seu rosto estava suavizado e um pequeno sorriso ousava aparecer nos lábios de Anabelle. – Eu só quero que você se entendam. E se quer saber, eu apoio Henri e Scarlet juntos. Tom, você precisava ver os dois juntos! Ele se amam! O jeito que aquele garoto olha para sua filha... é lindo, existe sentimento!
Agora, Tom parecia possesso de vez.
– VOCÊ TAMBÉM?! EU NÃO VOU TOLERAR MAIS ESSE ASSUNTO DE NENHUMA DAS DUAS, ENTENDERAM?! – Tom estava fazendo um verdadeiro escândalo, mas o problema, era que nem sequer Anabelle conseguira o fazer entender. – VOCÊ NÃO VAI FICAR COM HENRI PRICE, SCARLET, NEM SEQUER QUANDO EU MORRER! NÃO ME IMPORTA SE VOCÊS SE AMAM OU NÃO, EU NÃO VOU TOLERAR FILHA MINHA COM ALGUMA CELEBRIDADE!
E essa fora a gota d’água. Se em outro momento eu estivesse certa de que a coisa certa era lutar, naquele momento eu não queria mais nem sequer ver a cara de qualquer um deles. Nem meu pai e muito menos Anabelle. Queria fugir daquela casa e deixar todos os problemas para trás, mesmo que Ana ficasse sozinha por um tempo, mas ela entenderia. Ana conseguiria passar algumas horas sozinhas antes que eu voltasse na manhã depois.
Furiosa e exausta, dei as costas para os dois ignorando qualquer tentativa de me chamar de volta, principalmente quando Tom gritara alegando que a discussão não acabara. Eu corri em direção ao quadro com as chaves e peguei a de um dos carros, o qual Tom me mostrar apenas meses depois de minha mudança para Londres. Em uma de nossas conversas, ele até havia comentado sobre aquele carro ser meu um dia, porém essa possibilidade se esvaíra naquele exato momento em que eu pegava o carro e dirigia para longe dali ignorando a chuva, o frio e a neve. Nada importava mais, apenas a distância que eu ficaria daquela casa.
E eu fui para longe para ver a única pessoa que poderia conversar naquele momento.
Henri.
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