London Love
43 Arrependimento?
Notas iniciais
Tyler Blackwell
Não, eu não podia estar mesmo pensando numa droga de palavra como essa. Ou sequer o sentimento. Não havia como negar, Scarlet White conseguia mexer de uma forma que ninguém mais podia e isso estava acabando com meu auto controle aos poucos. Num segundo, eu a tinha em meus braços sendo apenas minha e de mais ninguém e no outro, alguém a arrancava de mim e me empurrava na neve gélida como punição. O gelo me consumia assim como meu coração já havia sido, não apenas pelo gélido ódio, mas também pelas trevas que me cercaram em meio à um beco sem saída dentro de minha própria cabeça.
Quando eu via Scarlet, sentia as trevas lutavam para reaparecer em meu caminho.
E nas poucas vezes que eu a tive em meus braços, pude notar o quanto a vida poderia ser injusta. Logo eu a via vulnerável bem a minha frente ao meu alcance, com seus olhos encarando-me de forma assustada e confusa de uma só vez. Ela parece querer fugir, porém ao mesmo tempo parece tentar entender o que minha mente impenetrável está tramando para meus próximo ato.
Eu quero você, White, será que ainda não entendeu isso?!
Lembrava de minhas palavras com a lembrança daquele dia de nevasca fresca em minha memória. Parecia que estava a vendo bem a minha frente franzindo o cenho e arregalando os olhos em resposta à minha pergunta.
Eu não me importo se você prefere ele, eu ainda a quero...
Um tremor percorreu meu corpo ao notar que havia colocado para fora todos os meus desejos interiores, o mais íntimo e errado de todos. Eu não me importava de verdade se ela preferia Henri Price a mim, eu só precisava dela ali comigo.
Você vai ser minha... porque eu farei de tudo para que seja.
E eu a fiz minha.
Por pelo menos alguns segundos.
No começo, eu me lembrava de que Scarlet não queria corresponder ao beijo. No início ela tentou se afastar e empurrava-me com as mãos em meu peito no intuito de me tirar de perto dela. Porém, logo depois ela já correspondia e com quase o mesmo fervor que eu. A única diferença era que eu precisava daquele beijo como uma droga e ela, sentia-se culpada apenas por estar gostando.
A lembrança de como ela se livrara de mim era doloroso e o que causava um ódio imenso em meu peito desde aquela noite. Price queria ser o herói da história e de forma trágica, conseguira ser exatamente como pensava. Tirou-me Scarlet e a segurou como se ela fosse apenas dele e de mais ninguém, com os braços ao redor dos ombros encolhidos dela e fuzilando-me com aquele par de olhos cor de gelo. Uma ironia já que ele transformara meu maior desenho em uma punição congelada.
Meus dedos se fecharam em punho com as imagens daquela noite se repetindo em minha mente, tornando a aparecer a raiva que por poucos dias tentei conter. Meu trabalho no filme de Jason McNight estava por um fio e mais algum problema e eu estaria fora do elenco para sempre. Precisava me controlar de todas as formas possíveis e encontrar Scarlet todos os dias por quase 24h não estava sendo a melhor forma de conseguir isso.
Lá estava ela do outro lado do pequeno local próximo aos camarins. Com os cabelos loiros presos em um rabo alto, um moletom com uma estampa do Mickey e calças jeans pretas, ela quase parecia outra pessoa. Conversava animadamente com uma amiga um pouco mais baixa que ela e que apontava para um produtor que passava no local no exato momento. Elas pareciam distraídas demais para sequer notar minha presença por ali, então aproveitei os poucos segundos para observa-la. Um sorriso surgiu em seus lábios enquanto bebericava um copo de café provavelmente e sua atenção estava centrada demais no que a amiga dizia. Eu me sentia um psicopata além do comum fitando-a daquela forma, porém, era quase como um vício. Já estive viciado em algumas drogas, porém nenhuma era tão forte quanto o que Scarlet White fazia comigo. Não era uma viagem e sim, sentir-se tão vivo que parecia apenas um sonho.
De qualquer forma, aquela garota era um sonho.
Um sonho inalcançável.
Irritado comigo mesmo por estar perdendo o controle, bufei comigo mesmo e saí de perto das duas para o mais longe possível. Passou por minha mente a possibilidade de me trancar por algumas horas no camarim, porém precisaria estar no set logo e isso resultaria em pessoas batendo irritantemente na porta.
Mas, isso não me impediu de seguir para lá e trancar a porta logo em seguida trancando todos os problemas para fora. Tirei Scarlet de minha cabeça e a deixei longe, o mais longe possível.
Pelo menos até meu telefone tocar em meu bolso.
– O que você quer? – esbravejei no telefone logo depois de um suspiro irritado ao ler o nome Nathalie no identificador de chamadas.
– O que eu quero, Blackwell?! – gritou ela de volta claramente irritada. – Eu quero sua cabeça numa bandeja!
Franzi o cenho.
– Por favor, não me diga que essa irritação é arrependimento. – de forma ousada, eu acabei por rir de minha própria piada e pude ouvi-la grunhindo do outro lado da linha.
– Se fosse arrependimento, você já estava atrás das grades por porte ilegal de drogas e pelo o que fez com aqueles pobres garotos!
Irritado por ouvir mais uma vez aos ataques de Nathalie sobre o que fizemos semanas atrás, revirei os olhos e esperei que ela acabasse. Desde a última vez que nos vimos e... hum, consegui algo a mais, Nathalie fazia de tudo para jogar na minha cara o quão estúpido eu fora e que precisava ser punido.
Como se ela fosse inocente.
– Nathalie, acho que já falamos sobre esse mesmo assunto umas... ahn, 40 vezes talvez? – usando os ombros de apoio para segurar o celular, fiquei remexendo em minhas unhas como se houvesse algo interessante ali. – Não se finja de inocente, ma cherie, caso não se lembre você é tão culpada quanto eu.
Mesmo que estivesse do outro lado da linha, eu pude ouvi-la reclamar e bufar deixando bem claro o quão nervosa estava.
Por um momento, eu achei que estava começando a me sentir arrependido pelo o que fizera com a The Blue e por meu plano não ter dado certo como esperava. A banda não estava sendo destruída como eu esperava de início e Scarlet não vinha correndo para meus braços... mesmo que a segunda opção fosse algo apenas de meu imaginário. Por um lado, eu realmente queria que ela viesse até mim e esquecesse o cantor, porém, Scarlet apenas me mostrava o quão difícil meu plano poderia ser difícil de se concluir.
– Não me importa se sou culpada ou não, Blackwell! – esbravejou ela no telefone.- Você não assiste televisão, imbecil? Estavam falando que a polícia não vai considerar o caso da The Blue como importante.
Franzi o cenho e voltei a segurar o aparelho entre os dedos colocando mais atenção naquela conversa.
– E isso não é bom?
Mesmo que pelo telefone, eu praticamente sentia que Nathalie revirava os olhos.
– Você não entende?! Se a polícia não der importância, aqueles garotos vão começar a tentar procurar por pistas sozinhos e sabe o que isso significa? Eles têm mais chances de achar quem é o culpado, Blackwell! ESTAMOS FERRADOS!
Droga.
Mil vezes droga.
Nathalie estava certa. Seguindo ao raciocínio dela, percebi que se a polícia não desse a devida importância ao caso The Blue, aqueles malditos garotos iriam tentar encontrar respostas sozinhos ou talvez... com uma ajuda extra.
E foi quando tudo fez sentido.
– Um detetive particular. – sussurrei alto o suficiente para que ela escutasse.
– Exatamente, Tyler. Se eles conseguirem contratar um detetive particular, estaremos ferrados. – ela soltou um longo suspiro. – A primeira coisa que tentarão é encontrar alguém de dentro da gravadora e... podem estar com suspeitas. Não percebeu nada de estranho? Ninguém fez perguntas estranhas para você?
– Não, é claro que não. – bom, não era exatamente certeza. – Eles não devem suspeitar de mim. Scarlet seria a primeira a pensar nessa hipótese e ela não faz a menor ideia de meus planos.
– Tem certeza que não disse nada que pudesse fazê-la pensar desse jeito?
– Não, eu...
“Se eu fosse vocês, me preocuparia com o futuro daquela banda de merda! Ela vai terminar mais cedo do que vocês esperam!”
– Merda! – esbravejei alto demais ao telefone e provavelmente Nathalie deveria ter se assustado. Furioso comigo mesmo, derrubei um dos pequenos vasos de flores que enfeitavam à prateleira de meu camarim, fazendo com que o objeto se espatifasse sobre o chão. Milhares de estilhaços de vidro se espalharam pelo chão, porém isso não me importava. Eu havia sido burro demais. – Ela sabe, Nathalie! A desgraçada sabe!
– O que?! Você disse alguma coisa, não é? – como eu não disse nada, Nathalie ficou ainda mais furiosa. – Puta merda, Tyler! Você precisa fazer alguma coisa agora!
– E o que eu vou fazer, droga? – eu disse tentando me conter após quebrar o vaso. A fúria começava a se espalhar por todo meu corpo e meus dedos tremiam de forma incontrolável. – Qualquer coisa que eu disser vai fazê-la suspeitar ainda mais!
– Você vai precisar engana-la, Blackwell. – sugeriu Nathalie. – Tire dela qualquer informação que puder. Não podemos ir para a cadeia. Seu futuro e o meu estão nas suas mãos agora.
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